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As HQs de natal no Brasil
Durante décadas, eles eram aguardados com ansiedade
pelos fãs de quadrinhos. Mas hoje, poucos e resumidos a um limitado
universo de personagens, os gibis especiais de natal já não
conseguem despertar o mesmo interesse
Por Marcus
Ramone (14/12/2004)
Desde
os primórdios das revistas em quadrinhos no Brasil, sempre foram comuns
as edições especiais natalinas dos títulos que circulavam nas bancas.
A partir dos anos de 1930, pipocavam os especiais de fim de ano de publicações
como Gibi, Mirim e Globo Juvenil, da Rio Gráfica;
Superman, Tarzan, O Herói e Reis do Faroeste, da Ebal;
O Guri, da Editora O Cruzeiro. Não importava o gênero, lá
estavam eles, em dezembro, às vezes maiores e com mais páginas que o normal,
à espera de seus ávidos leitores.
A Edição de Natal do Gibi foi um bom exemplo disso. Em 1946 apresentou,
nas suas 260 páginas, uma miscelânea de fazer a alegria de qualquer fã:
Trinca do Terror, Capitão Marvel Jr., Tereré, Namor, Super-Homem, Tocha-Humana,
Sherlock Mirim, Heróis Unidos (aventura reunindo Capitão América,
Bucky, Miss América, Ciclone, Namor, Tocha-Humana e Centelha) e vários
outros.
"Muitas vezes, quem não podia ter mensalmente seu gibi favorito, economizava
uma parte da mesada para comprar um ou dois desses especiais, que eram
guardados como tesouros", afirma Toni Rodrigues, roteirista da extinta
HQ Mestres do Terror e um colecionador contumaz de revistas em
quadrinhos.
O
ex-argumentista do Estúdio Disney da Editora Abril e atual
editor do fanzine Historieta, Oscar Kern, é outro que relembra
a época com saudades. "Dezembro era mês de muita expectativa. Esperávamos
os almanaques com o dobro do formato da revista, como o Vida Infantil,
por exemplo, no qual despontava Joselito, com Lourolino & Remendado.
Tinha ainda o Almanaque O Globo Juvenil, que era 'bonitaço', combinando
aventuras em preto-e-branco e coloridas".
Embora essas edições tivessem capas alusivas ao natal, não era sempre
que continham aventuras natalinas. Foi no início dos anos 60 que começaram
a surgir, com mais intensidade, os especiais compilando exclusivamente
histórias desse gênero.
A grande variedade de gibis infantis disponíveis no mercado brasileiro
contribuía para isso. Brasinha, Pimentinha, Recruta Zero, Riquinho
e diversos outros ganhavam seus especiais com muita freqüência. "Eu adorava
os gibis de natal de Tom & Jerry que a Ebal lançava todo
fim de ano. Inclusive, a revista mensal estrelada pela dupla chamava-se
Papai Noel", diz o veterano quadrinhista Primaggio Mantovi. Dessa
época, o Almanaque Infantil Feliz Natal merece destaque. Publicado
pela RGE, a revista tinha mais de 80 páginas coloridas e um apuro
gráfico que incluía capa cartonada e envernizada. Em suas páginas era
possível encontrar personagens dos mais diferentes universos, como Recruta
Zero, Brucutu, Bolota e vários outros.
Luluzinha
& Bolinha, Riquinho, Pimentinha e os mais variados personagens infantis
protagonizaram, durante anos, seus próprios especiais natalinos. Todos
esperados pelos fãs com a mesma certeza de que o fim do ano chegaria.
"Sempre gostei dos especiais de natal. Tem dois dos quais me lembro de
ter apreciado muito. Um foi da Luluzinha, e o outro foi o Natal dos
Flintstones", revela Dorival Vitor Lopes, diretor da Mythos
Editora e ex-coordenador de redação dos gibis infantis da Abril,
na década de 1970.
Os almanaques
Os anos 70 deram início a duas publicações que permaneceram por muito
tempo comparecendo às bancas em dezembro. A primeira foi o Almanaque
de Natal da Mônica, da Abril, que apresentava republicações
e, eventualmente, alguma história inédita. O título seguiu até 1986, sendo
interrompido quando Mauricio de Sousa e seus personagens se transferiram
para a Editora Globo. Somente em 1995 a turminha voltou a estrelar
um gibi com o tema, o Mônica Especial de Natal.
A
outra campeã de permanência nas bancas foi a revista Natal Disney de
Ouro, com aventuras inéditas ou reeditadas. Estreou em 1979, e seu
último suspiro aconteceu em 1998. Muitas vezes, as edições apresentavam
as tradicionais histórias natalinas que Carl Barks produziu, durantes
anos, com Tio Patinhas, Donald e os sobrinhos.
Também da Disney, o Grande Almanaque de Natal deixou saudades.
Em formato maior, com capa cartonada e centenas de páginas com histórias
e passatempos, o título na verdade se alternava com o tema Férias,
e teve apenas cinco edições, entre 1985 e 1989. Disney Especial,
um dos títulos mais tradicionais dos quadrinhos brasileiros, também emprestou
suas páginas ao natal em algumas edições. A última vez foi em 2001, no
segundo número da nova série (que foi cancelada no começo de 2004).
Primaggio Mantovi, que já criou histórias natalinas do Recruta Zero (para
a RGE, na década de 1960) e de vários personagens Disney
nos anos seguintes, revela uma curiosidade: "Nos quadrinhos havia sempre
árvores de natal da altura do teto. Para enfeitá-las, o personagem precisava
de uma escada! Uma das maiores satisfações que tive, depois de adulto,
foi justamente armar uma como aquelas".
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