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Sete Soldados da Vitória: guia de releitura
Na minissérie Crise Final, atualmente nas bancas brasileiras, Grant Morrison reutiliza ideias iniciadas em Sete Soldados da Vitória. Por isso, aproveitamos para publicar uma versão atualizada deste artigo, que saiu originalmente no último número da edição brasileira da saga de Zatanna, Sr. Milagre, Klarion, Frankenstein...
Por Eduardo Nasi
(02/09/09)
A primeira coisa que você precisa saber depois de acabar a leitura de
Sete Soldados da Vitória é que o fim ainda está longe. E não se
trata de nenhuma daquelas famosas pegadinhas que as HQs de super-heróis
costumam pregar em seus leitores: a história se encerra mesmo na edição
final. O que não acaba é o papel do leitor na história.
Nos Estados Unidos, Sete Soldados da Vitória foi um projeto monumental
e complexo, publicado de uma forma que, para alguns, era ousada - mas
os detratores a consideraram simplesmente esdrúxula.
A história começou no especial Seven Soldiers of Victory # 0 (que
ocupou a metade inicial da primeira
edição brasileira). Depois vieram sete minisséries, cada uma dedicada
a um super-herói de, na melhor das hipóteses, terceiro escalão.
As revistas saíam toda semana, alternadamente, na ordem em que foram publicadas
na versão brasileira, com minisséries começando antes da conclusão das
outras. A última edição do projeto foi Seven Soldiers of Victory #
1, material que ocupa a segunda metade do oitavo e último número.
A decisão de editar Sete Soldados dessa forma não foi um ato inocente.
Praticamente tudo na série, mesmo o que soa contraditório ou inconsistente,
tem um propósito pré-definido. É preciso prestar atenção nos detalhes
do cenário, nas peças de roupas dos personagens, nas sombras, na ordem
em que os fatos se sucedem, na cor do céu. Tudo pode ser uma pista para
o grande jogo.
Grant Morrison, claro, é a engrenagem que faz o projeto ficar em pé. O
escocês tem longa ficha corrida de excelentes HQs. Por um lado, fez versões
e recriações excepcionais de personagens de quinto escalão (Patrulha
do Destino, Marvel Boy e Homem-Animal) e de tops
de linha (Batman, Liga da Justiça, X-Men e Grandes
Astros: Superman). Mas o roteirista também tem trabalhos mais autorais,
como Como
Matar Seu Namorado, WE3
- Instinto de sobrevivência e a espetacular maxissérie Os Invisíveis
- de que Sete Soldados da Vitória é uma espécie de "prima pop",
com referências por vezes mais simples e com mais interligações diretas
aos super-heróis do Universo DC.
Como
o roteirista já deixou explícito em Homem-Animal, um de seus primeiros
e mais bem-sucedidos trabalhos na DC Comics, suas obras são um
grande tabuleiro em que o leitor precisa estar disposto a jogar. Cada
história é uma colagem de referências que, ao serem mexidas, abrem espaço
para novas interpretações.
Uma parte dessas pistas já foram exploradas pela coluna Intersecções,
publicada no final de cada número da versão brasileira da minissérie.
Mas os planos de Morrison são ainda mais ambiciosos.
À sua maneira, Sete Soldados da Vitória funciona como uma série
de TV contemporânea, como Lost e Heroes, ou um filme como
Matrix. Neles, você até pode entender o que se passa na trama sem
correr atrás de informações extras, mas vai acabar perdendo boa parte
da diversão.
O
wiki da Lostpedia, as HQs de Heroes, o romance Bad
Twin, os fanfics, os mapas do Google Earth, os podcasts
de produtores, os ARGs, os games, o Animatrix e até mesmo
a boa e velha enciclopédia Britannica fazem parte das histórias.
Quando os autores desenvolvem a narrativa, eles partem da premissa de
que o espectador vai se mexer para acompanhar. Mais do que isso, eles
esperam que o sujeito mergulhe na história e use todos os recursos disponíveis
para pesquisar novos detalhes, inclusive levar as descobertas para a internet
para compartilhá-las e debatê-las.
Essas histórias escritas por incontáveis mãos foram estudadas por Henry
Jenkins, ex-pesquisador de Mídias Comparadas do Massachusetts Institute
of Technology, o popular MIT.
Jenkins
vem se especializando numa parte da cultura pop que é muito bem desenvolvida
nos quadrinhos: os fãs. Para ele, as narrativas contemporâneas (como Lost,
mas também como Sete Soldados) são construídas por uma inteligência
coletiva. Em outras palavras: todo mundo pode pensar nas soluções em conjunto.
Em seu livro Cultura de Convergência (lançado no Brasil pela Aleph),
Jenkins lembra da clássica série Twin Peaks, do diretor David Lynch,
para mostrar a diferença que pensar em equipe faz num caso desses.
Quando o seriado foi ao ar, no começo dos anos 90, foi considerado hermético
pelos espectadores, que estavam completamente perdidos no mistério de
quem matou Laura Palmer. Mas, ao mesmo tempo em que parte da audiência
abandonava o programa simplesmente por não entender o que estava acontecendo,
havia um pequeno grupo de fãs que estavam desgostosos com os rumos da
trama.
Nos
primórdios da internet, alguns aficionados vinham debatendo as pistas
em um fórum e, pensando juntos, lamentavam que o programa tinha se tornado
óbvio demais.
Sete Soldados da Vitória (e, hoje, Crise Final) vai pelo
mesmo caminho dessas séries, da primeira à última página. A minissérie
é um quebra-cabeça a ser desvendado. Como parece uma missão impossível,
pode valer a pena partir de três premissas:
1) Jogue em grupo - É como diz Henry Jenkins: essas narrativas
foram feitas para serem decifradas coletivamente. Leia com amigos. Abuse
da internet. Use fóruns. Vá ao Orkut. Procure pistas até mesmo
no site Barbelith,
que já juntou muitas pistas, mas ainda está longe de bater o martelo sobre
tudo o que Sete Soldados contém. Procure fãs de outros assuntos,
como Matrix, e peça para eles lerem a história e verem se encontram
alguma relação.
2)
Lembre-se: é DC! - Sete Soldados da Vitória faz parte da cronologia
oficial do Universo DC. Morrison falou isso o tempo todo - e é
um detalhe que não pode passar batido. Por isso, vale pesquisar as encarnações
anteriores dos Sete Soldados, reler o arco que o autor escreveu para os
Arquivos Confidenciais da Liga da Justiça, em que nomes como Sheeda
e Neh-Buh-Loh já aparecem, e até buscar relações com a série Homem-Animal.
Se der, busque as velhas HQs de Frankenstein e do Guardião. As pistas
estão lá.
3) Não ignore detalhes - Muita gente acha que Morrison é um escritor
malucão e só. Ok, ele é, mas isso não quer dizer que ele não saiba o que
está fazendo. Por exemplo: há uma mensagem por trás de os Novos Deuses
serem apresentados como simples humanos em Senhor Milagre. E outra
para cada objeto aparentemente abandonado em cada canto de cada quadrinho
das oito edições da minissérie. A rigor, tudo tem um motivo. Desconfie.
Pode parecer trabalhoso, mas Sete Soldados da Vitória tem mesmo
a ideia de elevar o nível do debate sobre quadrinhos de super-heróis.
Por isso, mãos à obra. Depois de ler, chegou a hora de reler.
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do Universo HQ.
Eduardo Nasi tem como objetivo convencer alguns relutantes "comparsas" do Universo HQ a reler Sete Soldados da Vitória até o final da Crise Final.
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