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Online desde: 05/01/2000 |
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![]() Um argentino de traço e palavras afiadas Sucesso nos mercados europeu e americano, o argentino Eduardo Risso é um dos mais premiados desenhistas de quadrinhos do momento. Extremamente inteligente, demonstra com as palavras a mesma ousadia que exibe nas páginas de seus quadrinhos
Por Equipe UHQ
Na companhia do simpático português José Sobral, o representante da Opera Graphica, foram quase duas horas de uma conversa agradável e esclarecedora, na qual Risso falou de sua carreira, influências, roteiristas com quem já trabalhou, 100 Balas, das diferenças de se trabalhar nos mercados europeu e americano e muito mais. Depois de produzir vários álbuns na Europa, como os cinco da bela escrava negra Fulù (com roteiros de Carlos Trillo), Risso resolveu enfrentar o mercado americano. O resultado, novamente, foi o sucesso. Especialmente em 100 Balas (com textos de Brian Azzarello), que em 2002 lhe rendeu os prêmios Harvey e Eisner de melhor artista do ano. Isso sem contar os ganhos pela série.
Às vésperas de completar 43 anos (em novembro), Eduardo Antonio Risso, que reside em Rosário, na Argentina (onde diz estar se formando um núcleo de vários artistas que produzem para o mercado americano), expôs com absoluta franqueza seus pontos de vista. No melhor estilo "doa a quem doer", não se eximiu, em momento de algum, de dizer o que pensa, de forma tão inteligente quanto contundente. Desfrute agora da experiência de Eduardo Risso, um artista que, com certeza, tem muito mais de 100 balas na agulha. Universo HQ: Como foi seu começo nos quadrinhos argentinos? Quando isso aconteceu? Eduardo Risso: Comecei, para valer, em Buenos Aires, na Editorial Columba. Mas, antes disso, em 1979 ou 1980, fiz pequenas coisas para o La Nacion, um importante jornal argentino. Fazia uma página de uma revista dominical para crianças, e outra de investigação, com apenas alguns desenhos. Tudo para ganhar algum dinheiro. Logo comecei a fazer pequenas coisas para outras publicações, que se chamavam Eroticón e Satiricón. Como os nomes sugerem, a primeira era mais erótica; e a outra mais de humor. Mas foram pequenas colaborações, porque a Columba já me tinha me contratado como um profissional, e comecei a trabalhar com eles, de 1981 até 1985.
Risso: Eu me inspirava muito nas revistas da própria Editorial Columba. Nasci numa cidade pequena, Córdoba, e comecei a desenhar para eles. Logo depois, surgiu uma concorrente, a Editora Record, que publicava Skorpio, Corto Maltese... Era o único material que recebíamos. Por exemplo: eu só conheci material americano quando cheguei em Buenos Aires, pois eles não chegavam a Córdoba. Nesse momento, gostava muito de Ricardo Villagran, Domingo Mandrafina e Henrique Breccia. O pai dele, Alberto Breccia, só conheci muito depois. UHQ: E quais suas influências hoje? O que você lê de quadrinhos? Risso: Não leio. Por duas razões: primeiro porque não tenho tempo. Dedico meu tempo ao trabalho e à família. Quando leio algo, prefiro um romance ou um livro. E a outra razão é para não ser influenciado, para manter estilo próprio. Cheguei numa etapa da minha carreira profissional, na qual já estou com uma base artística, com meu próprio estilo. Antes disso, assimilava de todos os lados. De todo modo, minhas maiores influências foram Alberto Breccia, Jose Muñoz e Moebius. É mentira quando dizem que tenho influência de Frank Miller. Tenho trabalhos antigos, como Borderline, que foram feitos muito antes de eu conhecer sua obra, e, mesmo assim, são parecidos. Ambos são em preto e branco, com uma base de Alberto Breccia, sem linhas, somente preto e branco. Mas reconheço que Miller é um artista incrível.
Risso: Apenas vi, mas não gostei. Mas não me parece muito bom. O primeiro Sin City é bom, e o primeiro Cavaleiro das Trevas também. Miller é um artista integral. Não é muito bom desenhista, mas é um escritor excelente e um narrador impecável. Além disso, tem muita coragem, pois está sempre fazendo coisas novas. UHQ: Você passou por jornais e depois pela tradicional revista Fierro. Quais eram as diferenças do mercado, naquela época? Risso: A diferença é que hoje não existe mercado. Quer dizer, há mercado, mas não existem editoras. Com os problemas econômicos, quando o dólar era 1 por 1, começaram a chegar em massa as revistas americanas e os mangás. Eles invadiram tudo e fizeram desaparecer as companhias locais. Ainda se lê muito, mas se consome quase tudo de fora. Não existem mais editoras argentinas que lancem revistas como Fierro ou Dartagnan (nota do UHQ: títulos tradicionalíssimos de HQs argentinas, que, na época, elevaram a Argentina à condição de potência no cenário dos quadrinhos mundiais). Agora estão voltando a pensar em publicações nacionais. O problema foi basicamente econômico. Temos artistas e público. Faltam editores.
Risso: Cem por cento deles trabalham para fora. Estados Unidos, França e Itália, os mercados mais fortes. Por sorte, os artistas argentinos são reconhecidos no exterior, mas tenho o temor que isso desapareça, porque, evidentemente, não há mais o canal natural - que é o editor - para os jovens mostrarem seus trabalhos fora do país, o que torna tudo muito mais difícil. Veja, por exemplo, o que aconteceu comigo. A Editorial Columba me financiou toda a aprendizagem. Não estava totalmente formado quando entrei lá, estava aprendendo. Hoje, não existe mais a Columba, não há outra editora que possa fazer esse caminho. Quando alguém chega ao exterior, à DC, à Marvel ou outra editora, precisa estar totalmente formado. Não há tempo para crescer durante o processo. Não é permitido!
Eu presenciei isso em San Diego, onde vários editores descobrem novos talentos, trabalhos impressionantes. No entanto, nunca vi materiais dessas pessoas publicados, porque, quando chegam lá, só podem fazer uma página a cada quatro dias, e não servem para a indústria, que necessita de quantidade e qualidade. UHQ: Eduardo, qual foi seu primeiro trabalho na Europa? Risso: Eu comecei na Europa fazendo uma série chamada Azor, da qual não tenho mais os direitos, porque, nessa época, cheguei à Europa por meio de agentes. Isso aconteceu na Itália, e logo a seguir veio Fulù.
Risso: Basicamente, o reconhecimento artístico. UHQ: Como foi trabalhar com Carlos Trillo? Como começou e quanto tempo durou essa parceria? Risso: Excelente. Quando Trillo me chamou para fazer Fulù, demoramos um ano para começar, porque eu precisava terminar o contrato para fazer Azor. Demorou também, porque era um trabalho que fizemos tudo sem agente de intermediação, diretamente com o editor. Eu e Trillo somos muito amigos. É um homem extraordinário, que tem a vantagem de dar ao artista a liberdade de se expressar como quiser. Trocamos muitos roteiros, partes de texto, para que a parte gráfica pudesse ser visualmente mais rica. Nossa parceria foi de 1987 até 1995.
UHQ: Você gostaria de trabalhar com algum roteirista em especial? Risso: Nenhum em especial. Tive sorte de sempre trabalhar com bons roteiristas. UHQ: Fale mais sobre seus outros trabalhos com Trillo, como Je Suis un Vampire, Chicanos e Borderline. Todos foram publicados primeiro na Europa, certo? Risso: Sim, na Europa. Foi na época de Je Suis un Vampire que comecei a trabalhar com assistentes, porque, ao invés de ter somente 20 páginas mensais, precisaria fazer 48. Então, necessitaria de alguém para me ajudar. Foi um golpe muito forte!
Em Chicanos, considero que alcancei um nível ótimo na parte gráfica e artística, fazendo 48 páginas por mês, com assistente. Antes disso, em Borderline e Vampire os resultados não me agradaram. UHQ: Quem eram seus assistentes? Risso: Tive vários. Os mais conhecidos foram Marcelo Frusin, que hoje desenha Hellblazer; Leandro Fernandez, que está fazendo Queen & Country (Nota do UHQ: título da Oni Press) e o último, Francisco Parozini, que acabou de publicar, pela Dark Horse, Dead to Right.
Risso: A Eura, da Itália, publicava muito material da Argentina, praticamente 90% do seu material vinha de nosso país. Creio que fosse por uma questão econômica, pois era barato para eles. Mesmo assim, ganhávamos muito bem, pela diferença de moeda, que existe hoje também. UHQ: Você seguiu um caminho curioso, saindo da Argentina, produzindo álbuns europeus e chegando aos comics. Como aconteceu sua entrada no mercado americano? O que o levou para a Dark Horse, em 1997?
Em seguida, percebi que a editora não estava bem. A França estava saindo de uma crise, que havia acontecido em 1992, mas não havia muitas possibilidades de trabalhar direto da Argentina para eles; e já havia muitos artistas, como (Juan) Gimenez, (Horacio) Altuna, que estavam publicando. Assim, para os outros ficava muito difícil. Então, o caminho alternativo era o mercado americano. Eu nunca gostei dos super-heróis. Sempre os reneguei. Mas precisava encontrar um mercado, e se tivesse que trabalhar com eles, trabalharia. Um profissional precisa fazer isso. Fui à convenção de San Diego, o encontro de todas as editoras, e dois meses depois surgiu a possibilidade de fazer Alien: Resurrection.
Risso: Sim, gostava. Principalmente do primeiro. Foi interessante, uma boa experiência. UHQ: E foi justamente o último da série o que você adaptou... Risso: Sim, mas também fiz para a Dark Horse um capitulo unitário, chamado Aliens: Wraith. Depois recebi uma a oferta para fazer uma nova minissérie, mas surgiu uma possibilidade com a DC. Alonso havia me contatado, o que não foi fácil. Tive que viajar para os Estados Unidos, pois sabia que Alonso estava me procurando.
Risso: Sim. Alonso, que agora está na Marvel, e é muito inteligente, por sinal, comentou com meu amigo Ariel Olivetti que estava tentando me contatar. Na época, eu só tinha um número da DC, um fax que era de Andrew Helfer. Então, eu mandava mensagens para Alonso, mas elas nunca chegaram! E creio que ele estava apenas um andar acima! Ou seja, se não mandasse o fax para o editor específico, a mensagem não chegaria. Cinco ou seis meses depois, resolvi: "Agora vou para lá"! Hoje, Alonso conta isso como uma anedota, dizendo que, um dia, cheguei no seu escritório, o encontrei e disse "Eu sou Eduardo Risso. Você está me procurando? Aqui estou!"
Risso: Não sei... O certo é que Alonso costumava dar uma história curta, um capítulo somente, para todos os novos talentos. Mas, para mim, ofereceu uma minissérie, porque eu havia lhe mostrado todos meus trabalhos publicados na Europa. Isso lhe deu segurança de que eu poderia saltar diretamente de um capitulo para uma minissérie. Alonso não conhecia meus trabalhos europeus, tinha visto apenas alguns na Heavy Metal americana, e Alien Resurrection. UHQ: Foi nesse trabalho que você conheceu Brian Azzarello? Como foi trabalhar com ele, inicialmente? Risso: Foi como em todas minhas experiências com roteiristas.
No primeiro capítulo de 100 Balas, nas páginas que transcorrem dentro de um trem, quando vi o roteiro, pensei: "Isso é muito chato para o leitor". Assim, coloquei ali uma ação com um personagem que aparece no final de Jonny Doublé. Ele se encontrava em Chicago, desfrutando o dinheiro que havia roubado, quando foi assaltado. Eu o coloquei na parte gráfica, e quando Alonso e Azzarello viram, disseram: "Uau! Não tínhamos imaginado isso!" No número 5 da série também há uma cena entre Megan Dietrich e o homem do bar que vai matá-la, na qual agreguei a imagem de um helicóptero, e, pela primeira vez, vemos Lono, outro personagem de 100 Balas. Quando Azzarello viu a imagem, ele disse: "Perfeito! É aqui que vamos apresentar Lono!" Assim, vamos nos retroalimentando um ao outro.
Risso: Sim, mas demorou três anos para isso acontecer. Conheci Brian no ano passado. Ele tinha um certo temor de que se nos víssemos pessoalmente, acabasse a magia de trabalhar à distância. Sabe quando se teme que a pessoa não lhe agrade? Mas, felizmente, nos tornamos grandes amigos, como se nos conhecêssemos há muito tempo. UHQ: Por que as capas de 100 Balas são de Dave Johnson?
Por isso, preferi que fosse outro. Agora, acabaram de me oferecer capas de Superman, e também de outra série nova da DC, mas rejeitei. Não gosto de todas as capas de 100 Balas, mas devo reconhecer que elas captam o teor da série. Você olha e já sabe que são de 100 Balas. UHQ: E as capas são diferentes do trabalho de Johnson. Ele as faz para casar com sua arte? Risso: Isso mesmo. |
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