Arte Depreciada

Por Samir Naliato
Data: 17 junho, 2003

Museu de Artes GráficasO fechamento do Museu de Artes Gráficas (MAG) causou surpresa e revolta nos apreciadores desse tipo de arte. A decisão foi tomada pela Secretária da Cultura do Estado de São Paulo, Claudia Costin, apenas três meses após ser inaugurado, pelo seu antecessor, Marcos Mendonça.

Os motivos apresentados foram a falta de interesse do público em geral, e sim somente de um pequeno grupo de desenhistas; o museu não ter estofo artístico e cultural; a secretaria só se interessar por grandes projetos; e que a secretária discorda da importância dos quadrinhos na educação e como objeto de leitura das crianças.

E assim chegaria ao fim uma luta de 20 anos para a criação do Museu.

A notícia foi destaque em vários veículos de comunicação, causando uma união da classe contra a decisão. E deu certo. O MAG foi reaberto, e uma comissão de notáveis fará um levantamento de tudo relacionado ao seu funcionamento.

As opiniões apresentadas como motivo do fechamento do museu, porém, causaram surpresa por terem partido da Secretaria de Cultura do Estado. E, infelizmente, são compartilhadas por outras pessoas que não enxergam todo o potencial dos quadrinhos e artes gráficas em geral, até mesmo por falta de informação.

Vamos dar uma olhada mais atenta no assunto.

Desinteresse do Público

Festival Internacional de Bande Dessinée de AngoulêmeNão só no Brasil, mas em todo o mundo, eventos ligados a quadrinhos e artes gráficas são realizados com grande sucesso. Nos Estados Unidos acontecem várias convenções, sendo que uma das principais é a San Diego Comic-Con International.

“Ano passado, a Comic-Con International recebeu mais de 63 mil pessoas diferentes, fazendo da convenção a maior desse tipo nos Estados Unidos”, revelou ao Universo HQ David Glanzer, diretor de marketing e relações públicas do evento.

O mais importante festival do mundo, o Festival Internacional de Bande Dessinée de Angoulême acontece todos os anos na França, um dos países que mais apóia a nona arte.

Festival Internacional de QuadrinhosAqui no Brasil, o Festival de Piracicaba é um dos maiores eventos desse tipo, atraindo a atenção da imprensa e premiando artistas de todo o mundo anualmente.

Belo Horizonte também promove todo ano eventos sobre o assunto, sempre com convidados nacionais e internacionais. Em 2001, por exemplo, aconteceu o 2º Festival Internacional de Quadrinhos, com a presença de quase 20 mil pessoas durante os quatro dias de exposição. Para este ano, já está sendo organizada a terceira edição, que acontecerá em setembro.

O Festival Internacional de Quadrinhos – é bom frisar – acontece com o apoio da Prefeitura de Belo Horizonte, através da Secretaria Municipal de Cultura, que é uma grande incentivadora da produção de quadrinhos.

IV Festival Internacional de Quadrinhos e Humor de PernambucoOutro grande festival que já se destaca em âmbito nacional e internacional é o Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, organizado pela Associação dos Cartunistas de Pernambuco e a Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco. E o êxito das edições de 2001 e 2002, se repetiram agora em 2003.

E para mostrar que tais convenções acontecem por todo o País, não devemos esquecer do Salão do Amazonas, cuja edição de 2001 aconteceu no Centro Cultural Palácio Rio Negro, em Manaus.

Asterix e Obelix: Missão CleópatraDevemos lembrar ainda do estrondoso sucesso que vem acontecendo com filmes baseados em quadrinhos. Desde os mais populares, como Homem-Aranha e Asterix, até aqueles considerados “alternativos”, como Do Inferno, Ghost World e Estrada para a Perdição, vêm ganhando destaque entre público e crítica, sendo inclusive indicados para categorias do Oscar.

E se nas telonas isso vem acontecendo, no teatro não fica atrás. Pessoas Invisíveis, de Will Eisner, ganhou uma adaptação para os palcos, com Piratas do Tietê, de Laerte, seguindo os mesmos passos.

As artes gráficas ainda se fazem presente em publicações de grandes circulações, como jornais. Além de uma seção dedicada às tiras em quadrinhos, as charges são grandes atrativos dos diários. Tanto que, recentemente, Chico Caruso ganhou animações de suas charges no Jornal Nacional, da Rede Globo.

I Grandi Classici del Fumetto - TexJá o italiano La Repubblica lançou a série I Grandi Classici Del Fumetto, em parceria com a Panini Comics da Itália, em 30 edições de luxo.

Importância dos Quadrinhos na Educação

Em 2001, a Universidade de Brasília divulgou o resultado de uma pesquisa chamada Retrato da Escola, a pedido da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. O objetivo foi analisar fatores que afetam a qualidade de ensino.

A pesquisa trouxe como resultado a constatação de que os alunos leitores de quadrinhos têm melhor desempenho escolar do que aqueles que usam apenas o livro didático.

Em alguns casos, o beneficio obtido com a leitura de HQs é maior do que o existente quando há contato dos estudantes somente com livros ou revistas. Foi comprovado entre os alunos da 4ª série da rede pública que o gibi quase dobra as suas performances.

Material da editora americana CrossGen, produzido para as escolasAlém disso, entre os que acompanham quadrinhos, o percentual das melhores notas nas provas do MEC foi de 17,1%, contra 9,9% dos que não lêem.

Ou seja, ficou comprovado que os quadrinhos colaboram com o desenvolvimento educacional dos alunos.

Um artigo da Studies in Social Sciences and Humanities, publicado em março de 1997, nos Estados Unidos, fala sobre a importância de se explorar os quadrinhos na formação do hábito da leitura e o chama de “material autêntico” para fins educacionais.

Nona Arte EducaçãoComo isso em vista, vários projetos são feitos voltados para a área educacional. A editora americana CrossGen Comics está preparando duas revistas para escolas, como parte de um programa de leitura desenvolvido com a parceria de um comitê de educadores.

No Brasil, é comum entidades governamentais e ONGs lançaram projetos de esclarecimento em forma de histórias em quadrinhos. A editora Nona Arte conta com um selo educativo, o Nona Arte Educação, uma iniciativa que visa ao lançamento de quadrinhos em escolas, para alunos da 1ª a 8ª séries.

Colorindo a Turma do Xaxado #7Outro exemplo é a Turma do Xaxado, criado pelo baiano Antonio Cedraz, que vem recebendo elogios de coordenações pedagógicas de várias escolas brasileiras, sendo inclusive utilizada como material paradidático em salas de aula e como instrumento de campanhas de incentivo à leitura.

Ainda como forma de educar há outros exemplos onde os quadrinhos são utilizados. A Revista Arco Íris – elaborada para o Programa Municipal de DST/AIDS da cidade de Cubatão/SP – dá dicas de prevenção aos homossexuais masculinos.

A publicação foi desenvolvida pela Quadrinhos Institucionais, que presta serviços para a prefeitura de Cubatão em diversos projetos desse tipo, como preservação da fauna local e outros assuntos. Atua também junto a sindicatos, e elaborou uma revista contando a história da cidade e da sua Orquestra Sinfônica.

Histórias de CubatãoIsso tudo sem mencionar a famosa Turma da Mônica, criação máxima de Mauricio de Sousa. Apenas em abril de 2002, o artista foi homenageado em duas oportunidades.

A primeira foi pela OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde), um organismo internacional dedicado a melhorar as condições de saúde dos países das Américas. Com a comemoração de seu centenário, a organização elegeu personalidades de diversos paises como “Campeões de Saúde das Américas”, entre pessoas que deram apoio a campanhas públicas; e Mauricio de Sousa recebeu o título no Brasil.

A turminha ensinou que os adultos não devem fumar perto de crianças, que é preciso cuidado com a pele dos pequenos quando exposta ao sol e a importância de sempre lavar as mãos e como cuidar da segurança quando viajando de carro.

A Turma da MônicaA segunda foi com o lançamento da revista institucional Mônica – Ambientes Saudáveis para as Crianças, editada em português, inglês, francês e espanhol, com distribuição para todo o continente americano.

Voltando a falar sobre a AIDS, na Itália os quadrinhos foram utilizados para informar adolescentes sobre o vírus do HIV, numa ação conjunta dos ministérios da Saúde e da Educação. O programa foi elaborado para ser aplicado em alunos das escolas de nível-médio locais, com uma distribuição de 1,3 milhões de cópias.

Até o atual presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, ganhou uma revista que conta sua trajetória, lançada pelo Movimento Independente Lula Presidente. O gibi, chamado Lula, a história de um vencedor, saiu durante a campanha eleitoral de 2002.

No Coração da TempestadeE o poder dessa ferramenta vai ainda mais longe. O criador americano Will Eisner contou como poucos, em vários de seus trabalhos, a realidade da guerra. E por experiência própria! O mais marcante está na história No Coração da Tempestade, projeto autobiográfico que conta como foi sua vida na adolescência num Estados Unidos em crise, e seu recrutamento para a Segunda Guerra Mundial.

Na vida real, Eisner não chegou a se encontrar em batalhas ferozes, pois, ao perceber o talento do recruta, seus superiores o encarregaram de produzir revistas em quadrinhos didáticos para os soldados explicando, por exemplo, como fazer a manutenção de suas armas.

Área de Segurança GorazdeAinda sobre o terror de uma guerra, o criador Joe Sacco, um dos mais renomados da atualidade, produziu duas graphic novels falando do assunto. São elas Palestina e Área de Segurança Gorazde, nas quais são contados, respectivamente, os conflitos que assolaram a Palestina e a Bósnia nos últimos anos.

Para tanto, ele viajou até os locais, e viveu sob o fogo da guerra. Com esses dois trabalhos, ganhou vários prêmios ao redor do mundo e deu origem ao termo “jornalismo em quadrinhos”.

Não podemos esquecer ainda de mencionar Maus, de Art Spiegelman; e Gen – Pés Descalços, de Keiji Nakazawa.

MausMaus mostra o holocausto, mais uma vez, a partir de experiências pessoais. Na verdade, é o pai do autor, apresentado na história já como uma pessoa de idade, narrando ao filho sua passagem pela guerra. Spiegelman foi procurado diversas vezes com propostas para transformar a obra em filme, porém recusou-se.

“Não entendo por que em nossa cultura ninguém parece acreditar que algo não é real até que seja transformado em filme”, declarou. Em sua opinião, Maus encontrou seu formato ideal nos quadrinhos.

Gen - Pés DescalçosGen – Pés Descalços é outra obra autobiográfica e também localizada na Segunda Guerra. Dessa vez, entretanto, mostra o horror da bomba atômica, a partir de sua própria experiência em sobreviver ao desastre, mesmo perdendo sua família. A obra faz parte do currículo de escolas americanas, tamanha sua fidelidade aos fatos.

Os exemplos de como os quadrinhos são usados para a educação não se limitam a estes. Veja detalhes de outras obras e iniciativas nessa área na coluna Beco das HQs e na matéria especial Quadrinhos e Educação: Parceria que dá Certo.

Estofo Artístico e Cultural

Psicologia e História em QuadrinhosSe no Brasil ainda existe preconceito (até mesmo de pessoas que trabalham com cultura no País), no resto do mundo essa situação começa a mudar.

Na França, o ministro da cultura Jean-Jacques Aillagon, em visita ao Festival Internacional de Bande Dessinée de Angoulême, o mais importante do mundo, anunciou uma série de medidas, inclusive financeiras, para reforçar a ação em favor das HQs.

Já nos Estados Unidos, um dos criadores mais respeitados do ramo, Will Eisner, discursou na biblioteca do Congresso norte-americano em defesa dos quadrinhos nos acervos, algo que vem sendo aplicado naquele país.

Isso ocorre na já citada França. Lá, onde o quadrinho é uma forma de arte reconhecida, um acordo fez que com as bibliotecas das escolas recebessem obras neste formato para deixar à disposição de seus alunos.

50 Anos - Anos 50Livros sobre o assunto também não faltam, escritos até mesmo por professores universitários, psicólogos, jornalistas e historiadores, como é o caso de Psicologia e História em Quadrinhos (de Francisco B. Assumpção Jr.), Fantasia e Cotidiano nas Histórias em Quadrinhos (de Nadilson Manoel da Silva) e Quadrinhos em Ação – Um Século de História (de Mário Feijó).

Alguns desses livros nos remetem à pré-história. É o caso de O Mundo das Histórias em Quadrinhos, de Leila Rentroia Iannone e Roberto Antonio Ianonne, que faz uma análise das HQs a partir dos primórdios da civilização, quando o homem desenhava nas paredes.

Contos em Quadros #1Como curiosidade, vale lembrar que a primeira exposição internacional de quadrinhos aconteceu aqui no Brasil, e recentemente completou 50 anos. Como comemoração, Álvaro de Moya lançou o livro Anos 50, 50 anos. Devido ao preconceito existente contra os quadrinhos na época, não foram poucas as dificuldades que encontraram para realizar o evento. A maior parte da imprensa foi contra, e deixaram de conseguir ofertas de serviço como ilustradores, por preconceito das editoras.

Atualmente, em todo o território nacional existem gibitecas. Uma das mais recentes é a Gibiteca SESI, instalada nas dependências da Biblioteca Circulante do Centro Cultural Fiesp. A mais famosa existe há mais de 10 anos em São Paulo, a Gibiteca Henfil.

As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora: os primeiros quadrinhos brasileiros 1869-1883O que podemos falar sobre a literatura brasileira? Muito diferente da arte seqüencial? Não se depender de projetos como CQ – Contos em Quadros, com adaptação para os quadrinhos de contos de renomados escritores como Machado de Assis, João do Rio e António de Alcântara Machado.

Como prova da importância dos quadrinhos, no final do ano passado foi feito um verdadeiro resgate história das obras do pioneiro Ângelo Agostini no álbum As Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora – Os Primeiros Quadrinhos Brasileiros 1869 – 1883, impresso pela gráfica do Senado Federal. A edição ganhou ainda 200 exemplares em capa dura para serem entregues como presentes a chefes de estados que venham visitar o Brasil.

Ainda sobre a dúvida de ser ou não de estofo artístico e cultural, vamos lembrar que os eventos citados anteriormente foram todos apoiados pelas secretarias de cultura dos respectivos estados.

Numa expressão artística tão depreciada quanto as artes gráficas, é bom sempre relembrar sua importância. E, afinal, qual lugar é mais importante para preservar a memória de uma arte do que um museu?

O petropolitano Samir Naliato não vê a hora vir novamente para São Paulo e conhecer o MAG. Pois é.. até turismo os quadrinhos estão incentivando ultimamente!

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