Quadrinhos digitais abrem novas possibilidades, mas editoras ainda tentam torná-los uma opção viável

Por Samir Naliato
Data: 30 março, 2020

Coluna Almanaque

O mercado editorial digital continua avançando, ainda que em velocidade mais lenta do que outras mídias, como música e audiovisual. Novas tecnologias, a exemplo dos tablets e smartphones, têm sido importantes, mas editoras e leitores ainda esbarram em problemas para a opção ser mais difundida.

Países como o Brasil, com dimensões continentais e uma rede tecnológica deficitária, enfrentam um obstáculo a mais. Nos Estados Unidos, as editoras de quadrinhos, como Marvel, DC, Image, Dark Horse e outras, disponibilizam todos as suas publicações no formato digital em serviços próprios ou terceirizados, ainda que as vendas jamais tenham alcançado o mesmo número do impresso.

Ou seja, no mercado norte-americano, a conta ainda não fecha para quem produz.

DC Comics digital

Por outro lado, no Japão, um dos mercados com mais consumidores e leitores do mundo, as vendas do digital superaram o impresso pelo segundo ano consecutivo, em 2019.

Se por um lado o digital facilita e simplifica etapas da produção (como a distribuição, o principal problema por aqui) e do consumo, por outro exige características que nem sempre estão disponíveis em âmbito nacional com a mesma eficácia: uma rede de internet fixa e móvel estáveis, computadores e notebooks.

A leitura dos quadrinhos (virada de página, zoom e outros recursos próprios, como leitura guiada) é feita com o uso do mouse ou do teclado.

Aparelhos como tablets Samsung ou iPad com telas de 10 polegadas também podem ser ótimas saídas, por simularem uma experiência bem próxima de revistas tradicionais.

A leitura digital aparece como uma opção viável e rápida em momentos como o que o mundo está vivendo agora, com a pandemia do coronavírus e o pedido de autoridades para as pessoas permanecerem em suas casas. Não é por acaso que vários autores independentes e editoras como Panini, Europa, Marsupial, Mythos, Jambô, MSPComix Zone e outras estão disponibilizando conteúdo gratuito pelo meio digital, uma vez que a facilidade, rapidez e alcance são justamente os seus grandes benefícios.

Plataformas de streaming de filmes e séries são as mais utilizadas, já que as opções para leitura são mais limitadas. 

Mangá digital

O mercado editorial brasileiro, como um todo, enfrenta uma crise há alguns anos. Gigantes do meio, como a Editora Abril e diversas livrarias passam por dificuldades. Se as vendas tradicionais sofrem esses problemas, um campo novo, ainda em formação, também vivencia essa realidade.

No Brasil, há algumas opções disponíveis para leitores lerem quadrinhos digitalmente.

A Amazon, com o serviço Kindle, tem vários títulos disponíveis.

O Social Comics é um streaming que disponibiliza lançamentos de algumas editoras nacionais, independentes e licencia materiais diretamente para a sua plataforma, como os super-heróis da Valiant Entertainment (Bloodshot, X-O Manowar, Ninjak e outros), Abstract Studios (Estranhos no Paraíso e Rachel Rising) e Hasbro (Transformers).

O Digital Comics oferece quadrinhos independentes e algumas obras da Oni Press e IDW.

O Super Comics é ainda mais uma opção para leitura via streaming., com quadrinhos nacionais, Rick and Morty, Turma do Pernalonga e outros.

Social Comics e Digital Comics

O digital é um mercado com muito potencial a ser explorado, mas ainda está começando. Plataformas, editoras e autores estudam como ele se desenvolve e as opções que oferece, mas é fato que chegou para ficar.

Afinal, oferece facilidade para ler, comprar e armazenar.

O digital e o físico não são concorrentes, mas sim complementos do mesmo negócio. A quebra de paradigma de um modelo tradicional para outro que oferece mais alternativas é o que estamos vivendo neste momento.

Talvez daqui a alguns anos este texto não faça sentido. É o que se espera, pois significaria que quadrinhos estarão chegando a mais pessoas, sem precisarem da deficitária distribuição física e, especialmente, remunerando os autores de forma justa e correta, pelo trabalho que realizam.

ComiXology

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  • Cassiano Cordeiro Alves

    Muito bom o texto. E tem outro fator. Leitores “velhos” como eu (39 anos) ainda possuem uma resistência ao digital, pois nada substitui a sensação de folhear a hq ou livro, sentir o cheiro das páginas, etc. Provavelmente minha filha (5 anos) não terá este problema.
    Como advogado, em razão da informatização do Judiciário, nos últimos anos tenho me habituado a trocar as folhas dos processos físicos pela leitura no pc dos processos eletrônicos. Aos poucos, fui acostumando com a leitura das hqs digitais. Tanto que há anos sou assinante do Social Comics.
    Mas, se tiver de escolher entre pagar pela hq impressa ou digital, ainda prefiro a impressa.
    Abraço.

  • DrKurtzman

    Sou leitor de quadrinhos a mais de 25 anos e sempre fiquei a mercê das editoras brasileiras, sofri com a editora abril e os formatinhos, a fase de todos os quadrinhos a R$ 10,00 em formato americano, e depois a panini que inicialmente foi um alívio, mais depois os preços foram ficando cada vez maiores, e atualmente exagerados. Cabe ressaltar, que não sou colecionador mas leitor. Cerca de um ano atrás, resolvi assinar o plano chamado Marvel Unlimited, ele cobra R$ 31,90 por mês e dá acessso a todos os quadrinhos da marvel, com seis meses de atraso em relação a Marvel USA, o único problema é que todos os quadrinhos são em inglês. Atualmente, eles já publicaram toda a fase do War of Realms e esta semana lançaram finalizando a série inicial do Hickman com o X-men..

    No início foi díficil várias vezes quase cancelei a assinatura, mas hoje até prefiro ler no original. Outrossim, além da questão do preço, bem como o apredizando de uma nova lingua, o formato digital facilita em muito o acesso a diferentes HQs que dificilmente serão publicadas no Brasil. Por exemplo, por meio do App da comixiology, empresa americana que vende quadrinhos digitais, toda semana eles fazem promoção, consegui ler vários materiais da Image, bem como toda a série do Hellboy.
    Em suma, acredito que para quem é leitor como eu, o formato digital é uma boa solução, pois permite um maior acesso ao contéudo e a preços muito mais acessíveis. Para se ter uma idéia se você baixar o APP da Dc tem uma promoção esta semana chamada Darkest Timeline, o Batman Dark Knight Master Race série completa está custando R$ 22,90. Assim, apesar de no início ser difícil se acostumar com o formato digital, bem como a ausência do quadrinho fisicamente, acredito que o preço e a facilidade do acesso, fazem a experiência valer a pena.

  • Tenho 48 anos, sou das antigas. Nos anos 90 me desfiz de toda minha coleção, mas com o tempo acabei tendo vontade que readquirir as histórias que mais gostava. Tinha 3 opções: Edições antigas, encadernados ou digital. Acabei optando pela última. Hoje a quase totalidade das minhas revistas são digitais (comixology). Poquíssima coisa física, menos de 30 edições creio.

  • Rodrigo Geraldo

    Queria muito que a Panini BR disponibilizasse assinatura das mensais DC/Marvel pelo meio digital a um preço melhor. Compro algumas físicas, mas adoro ler no iPad. Por falta de espaço, é difícil acompanhar as revistas mensais. Quem sabe um dia :)

  • Allan Chaves

    O único impedimento para eu não migrar completamente para o digital, é o fato de muita coisa não sair em formato digital. Livros, por exemplo, de cada 100 que eu compro, uns 95 são digitais. Ansioso para acontecer o mesmo com os quadrinhos. Infelizmente para as editoras, os pirateiros fazem a festa, nesse vácuo que elas mesmas deixam