A diferença entre editor e editor

Por Sidney Gusman
Data: 19 agosto, 2009

Hoje, o Brasil não possui nenhum editor de quadrinhos.
A afirmação vale para os dias atuais e também para os últimos anos – tanto
que escrevi este texto em 2004 para a revista Wizard e mantenho
a afirmação. Agora, antes de alguém pense que enlouqueci, e que estou
criticando vários colegas de profissão, uma ratificação: isso vale também
para mim, que já exerci a função.

E a razão é simples: no Brasil, faz um bom tempo, não
se edita quadrinhos, pelo menos em grande escala. Ou melhor, até há quem
faça isso (como descobri há quase três anos), mas sem esse “rótulo”: Mauricio
de Sousa e Alice Takeda atuam como editores na parte criativa e artística,
respectivamente, de todos os títulos da Turma da Mônica.

Isso porque, ao usar o verbo “editar”, refiro-me a discutir com o roteirista
sobre a história e mostrar os caminhos a seguir com o argumento; verificar
com o desenhista se a anatomia do personagem está com problemas ou se
o cenário está de acordo; direcionar a trama para o seu público-alvo,
acompanhar a colorização e outras funções que são comuns nos Estados Unidos,
França, Japão, Itália e outros países, mas aqui, não são realizadas.

Resumindo, seria o que qualquer editor brasileiro de jornal ou revista
informativa faz no seu dia a dia, aplicado às histórias em quadrinhos.

Evidentemente, essa edição propriamente dita não é feita pelos profissionais
brasileiros (a maioria bastante competente no que faz, é bom frisar) pelo
fato de a quase totalidade dos títulos lançados por aqui ser de origem
estrangeira, o que impossibilita essa atuação mais efetiva.

Na verdade, quem “chefia” um título de quadrinhos aqui é chamado de editor,
porque não existe em português um termo apropriado para a função.

Então, o que faz um editor de quadrinhos no Brasil? A resposta é: trabalha
um bocado. Ele seleciona os materiais para suas publicações (nas revistas
mix) ou que pretende lançar (mangás, fumetti e títulos solo);
faz o espelho (determina a ordem das HQs) das edições; prepara o texto
que vem da tradução (adequando a linguagem ao seu público); controla prazos
e colaboradores; redige matérias ou seções de cartas; lida com os leitores;
revisa as páginas com as letras; confere provas de gráfica e outras atribuições
mais burocráticas.

No entanto, de todas essas funções, na única em que ele edita,
pra valer, é na preparação do texto. E com uma desvantagem: está mexendo
em algo que já foi editado em um ou mais países antes (quando a obra é
produzida a partir de uma revista num idioma diferente do original, ou
seja, que já passou por outra tradução).

Por essa razão, se minha memória não me trai, durante os anos 80, a Abril
indicava esses profissionais como editores de texto nos expedientes de
suas revistas em quadrinhos. Fernando Bertacchini, responsável pelos títulos
da Mythos (exceto os da linha Bonelli), define sua função
da mesma forma – e por iniciativa própria, diga-se de passagem.

Muitos leitores reclamam (algumas vezes com razão, outras não) quando
editores adaptam o original para algo mais próximo da nossa realidade.
Mas ficariam extremamente gratos, se soubessem as vezes em que esses profissionais
consertaram erros vindos de fora, como páginas invertidas, personagens
conhecidos falando de modo totalmente inadequado e até grafias erradas
de nomes em inglês.

Ainda assim, essas tarefas são bem diferentes de, por exemplo, um Sergio
Bonelli intervir com um roteirista, porque ele colocou uma gíria atual
na boca do Tex; ou de um Joe Quesada reclamar com um artista, porque o
Homem-Aranha está numa posição impossível. Eles editam o material, tanto
o texto quanto o desenho, “na raiz”.

Por aqui, não há como consertar uma lambança em um desenho vindo de fora,
seja erro de anatomia, perspectiva ou continuidade (falha de sequência
de uma cena para outra). E quando isso ocorre – e quem lê as resenhas
do UHQ sabe que isso é mais do comum do que se imagina -, claro,
o editor estrangeiro falhou.

É preciso registrar, porém, que esse cenário é um retrato dos últimos
anos, mas o Brasil já teve bons editores de quadrinhos, como Toninho Mendes,
na Chiclete com Banana e Circo (apesar dos erros no português
em algumas HQs); Otacílio d’Assunção Barros, o Ota, da Spektro,
Mad e várias revistas da extinta Vecchi; Rodolfo Zalla,
na Calafrio e Mestres do Terror; e outros.

Hoje, contudo, mesmo nas editoras que publicam autores nacionais, como
Devir, Via Lettera e Conrad, essa interferência mais
direta praticamente inexiste, pois quase sempre os materiais chegam prontos,
não são pautados. Algumas raras exceções: o ótimo A Relíquia, cuja adaptação do texto do português Eça de Queiroz a Conrad encomendou ao quadrinhista Marcatti; a Mad, com Raphael Fernandes; e o trabalho de Sandro Lobo enquanto esteve à frente da Desiderata, em obras como Irmãos Grimm em Quadrinhos.

“Então, não há gente capacitada para exercer essa função no Brasil?”,
alguém pode perguntar. Claro que há. Mas espaço para isso, atualmente,
somente na cena independente, que, aliás, tem editores competentes, como
Fabiano Barroso, da Graffiti 76% Quadrinhos, e Sérgio Chaves, da
Café Espacial, ambos premiados no 21º
HQ Mix
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No mercado propriamente dito, não há perspectiva de que as principais
editoras do País virem esse jogo tão cedo, investindo numa produção nacional.
Por isso, alguns editores brasileiros, inclusive este jornalista, continuarão
frustrados, por nunca terem editado quadrinhos pra valer!

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Sidney Gusman teve a honra de, em 1992, conviver quase um mês com Sergio Bonelli em Milão, na Itália, onde viu de perto como trabalha um editor de quadrinhos.  

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