HQs na rede: divulgação ou pirataria?

Por Sidney Gusman
Data: 24 setembro, 2008

O assunto é polêmico e, por isso mesmo, foi ótimo para a minha coluna de estréia da revista Wizard Brasil, da Panini Comics, em outubro de 2003. Mais ainda: como continua atualíssimo, parece sob medida para a volta do Beco das HQs.

Na internet, há alguns anos vêm surgindo sites brasileiros e estrangeiros que oferecem aos seus leitores, de graça, histórias em quadrinhos famosas, escaneadas, traduzidas e letreiradas. Tudo pode ser lido online ou “baixado” para o computador de quem está do outro lado do monitor. Isso, claro, desperta as mais antagônicas reações.

Ainda mais que, desde que a primeira versão deste texto foi publicada, a proliferação dos scans na internet só aumentou.

As editoras, licenciantes e artistas execram a iniciativa, pois se sentem prejudicados por verem ali expostos, sem custo algum, materiais que para eles representam dólares e mais dólares, de gasto e de lucro.

Já entre os webmasters desses sites, as opiniões divergem. Alguns se defendem dizendo que trata-se de uma forma de divulgar os títulos, pois não ganham nada com isso; outros, mais radicais, apregoam que é um modo de “quebrar os monopólios” do mercado de quadrinhos. E os leitores também ficam divididos. Uns acham uma grande sacada; e outros defendem que gibis devem ser lidos em papel, e ponto final.

Mas, independentemente de qualquer justificativa, uma coisa é irrefutável: é pirataria, sim! E os webmasters e colaboradores dessas páginas sabem disso. Tanto que adotam pseudônimos, no lugar de seus nomes reais.

Nessa briga de foice no escuro (o que não deixa de ser verdade, pois não se sabe a “identidade secreta” dessas pessoas), variados argumentos são utilizados em defesa dos sites. Vejamos alguns e suas respectivas réplicas.

“Ah, Sidão, mas os caras não faturam um tostão com esses sites.” É verdade (acho). No entanto, por trás daquelas páginas, há uma série uma série de profissionais que vivem desse trabalho. Roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, coloristas, letristas, tradutores, editores, revisores, licenciantes etc. E, se leitores deixarem de comprar as revistas, todos saem prejudicados.

“Mas é como se eu emprestasse uma edição para um amigo ler”. Menos, muito menos. Ninguém empresta uma revista ou álbum de quadrinhos para centenas, milhares de pessoas ao mesmo tempo, certo?

“Pô, mas quando a HQ é inédita aqui, serve como divulgação pra quem for lançar, e pode até gerar novos leitores.” Verdade, mas o caminho inverso também pode ser percorrido. O leitor pode não curtir a história (muitas vezes por causa de uma tradução malfeita) e nem sequer se dar a chance de conhecer o material impresso.

E quando a HQ acaba de chegar às bancas ou livrarias e, em seguida, pinta num desses sites? Isso só pode ser classificado como uma grande sacanagem. Afinal, se a pessoa compra a publicação da editora, escaneia e a coloca na internet, a intenção não pode ser “divulgar” o material, uma vez que, se isso diminuir a venda, em um exemplar que seja, já haverá prejuízo. Até mesmo o mercado de usados é lesado, pois a maiorias dessas edições pode ser adquirida em sebos.

É bem verdade que de 2003 pra cá me tornei menos radical. Especialmente em relação a scans de revistas antigas, daquelas que dificilmente se encontra. Hoje, eu até encaro como uma forma de divulgação. Mas quanto às demais práticas, continuo totalmente contrário.

Na época em que o texto saiu na Wizard, alguns donos de sites de scans me elegeram “inimigo” deles. Teve gente que me escreveu dizendo que era preciso dar o direito do leitor “experimentar” antes para saber se devia comprar. Quando contrapus propondo que ele tentasse fazer o mesmo num restaurante (já imaginou? “Pode me dar um pedaço daquele filé, pra saber se vou comê-lo?”), nosso papo acabou.

Até de “legalista” fui chamado por minhas opiniões. Ora, se ser contra essa pirataria e querer que o mercado de quadrinhos cresça (em vez de definhar) é ser legalista, sou mesmo. E não vejo mal nisso.

No entanto, nunca briguei com nenhum amigo que baixa quadrinhos na internet (e são vários) por conta disso. Apenas jamais concordarei em divulgar nada ligado ao tema. Nem no Universo HQ e nem na comunidade do site no Orkut. E minha convivência com essas pessoas continua tão agradável quanto sempre foi.

Contudo, nesses quase cinco anos que se passaram outra coisa que mudou foi meu jeito de ver as coisas. Os scans de quadrinhos na internet são algo irreversível. Só tendem a crescer. Até porque, no Brasil, diferentemente do que ameaçava acontecer em 2003, as editoras e empresas licenciantes nunca moveram uma palha para coibi-los. Falaram em tentar impedir judicialmente que suas HQs fossem expostas nesses sites, mas nunca saíram do discurso.

A saída – talvez mais inteligente – adotada tem sido tentar usar melhor a ferramenta internet. Panini, Conrad e Pixel disponibilizam previews e buscam gerar mais interação com os leitores. É suficiente? Não! A iniciativa ainda é tímida, porém é um começo.

Como a legislação contra pirataria no Brasil ainda é bastante precária, o caminho da “trombada” parece perda de tempo. O da conscientização, idem. Por isso, as editoras precisam pensar em alternativas para não apenas manter seu público leitor, mas aumentá-lo.

ScansEm
palestras que ministrei em eventos e em conversas no Orkut naquela
época, houve leitores que me disseram que fazer download de scans
de quadrinhos era a mesma coisa que baixar músicas na net. Verdade. Ambos
são pirataria. Basta ver a briga que as gravadoras mantiveram – e mantêm
– contra os Napster da vida. E, não que isso justifique, mas há
uma diferença enorme entre o tamanho e o poderio da indústria fonográfica
e a de quadrinhos!

Tanto que, atualmente, há vários sites cujo negócio é vender músicas pela internet. E, sim, há pessoas dispostas a pagar por isso. Ou seja, a indústria fonográfica está achando caminhos para diminuir seu prejuízo.

Já o mercado brasileiro de HQs há anos padece de um enxugamento gradativo (importante: refiro-me ao montante de vendas dos títulos, não ao número de lançamentos; o que é bem diferente) e uma retomada passa pela formação – e manutenção – de novos leitores, que precisariam comprar suas edições, para que nosso “vício” seja mantido por muito tempo ainda.

Afinal, pra quem acha que as editoras nacionais podem se beneficiar com o trabalho desses sites, uma constatação: até hoje, não se sabe de nenhuma que tenha levado uma vantagem sequer.

Sidney Gusman não é contra publicar quadrinhos na grande rede. Pelo contrário. Ele inclusive divulgou muitos deles. Desde que sejam feitos com esse fim..  

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