Conhecer Sergio Bonelli foi como cursar uma faculdade de quadrinhos – e de vida

Por Sidney Gusman
Data: 27 setembro, 2011

A minha segunda-feira, 26 de setembro de 2011, começou péssima. Estava revisando o Universo HQ, quando recebi a notícia da morte de Sergio Bonelli, o maior editor de quadrinhos da Itália. E muito mais que isso: um amigo querido.

Foi um baque.

De imediato, vieram à minha mente as inesquecíveis passagens que vivi ao lado de Sergio nos encontros que tivemos. Tenho certeza de que é a melhor forma de homenagear alguém a quem eu admirava tanto.

Por isso, decidi resgatar uma coluna que escrevi para a Wizard, da Panini, em outubro de 2004, mas com o texto devidamente atualizado. Na mesma edição, Bonelli foi o entrevistado da revista.

Sergio Bonelli e seus personagens

A história começa em novembro de 1991. Sergio Bonelli veio ao Brasil para a 1ª Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro. Na época, eu era redator da área de HQs da Editora Globo, que publicava Tex. Depois de vários bate-papos na redação, aquele simpático senhor italiano fez um convite para que o Leandro Luigi Del Manto (que era o editor) e eu conhecêssemos a sede de sua empresa, em Milão.

Foi uma coisa bem informal, do tipo “por que não aparecem lá em Milão?”, mas levei aquilo muito a sério. Como o Leandro não foi, decidi que me mandaria sozinho para a “velha bota”.

Em maio de 1992, depois de “raspar o cofre”, lá estava eu, com a cara e a coragem, e sem falar uma palavra de italiano (mas aprendi rápido). Mais que uma viagem de lazer, os 18 dias que passei na Sergio Bonelli Editore foram uma espécie de “estágio informal”, que me proporcionaram um aprendizado inesquecível.

Pra começar, depois de um dia de trabalho (cheguei ao número 38 da Via Buonarroti na hora do almoço), o Sergio disse que me levaria a um hotel. Enquanto ele dirigia um Fiat muito simples para alguém com seu poderio financeiro, eu ia admirando Milão.

Foi quando ele parou em frente a um pequeno prédio, de quatro andares, se não me engano. Ele sacou uma chave do bolso e disse: “Você fica no primeiro andar, está é a chave do seu apartamento. Eu moro no quarto andar. Qualquer coisa, é só me avisar”. Fiquei besta. Falei que não era necessário se preocupar, que poderia me hospedar num hotel sem problema.

Sidney Gusman e Sergio Bonelli, em 1992

E o Sergio, com a simplicidade dos grandes e aquele jeitão italiano típico, emendou: “Nada disso. Você é meu amigo, fica na minha casa. E, além de tudo, fica mais fácil para irmos pra editora”. Pare pra pensar: antes daquele dia, eu tinha visto e conversado com o Bonelli três ou quatro vezes.

Assim, todas as manhãs, ia com Sergio para a editora, onde vi de perto o que era editar quadrinhos, ao pé da letra. Na época, ainda distante da facilidade criada pela internet, tudo era no papel; e Bonelli lia todos os roteiros e via todas as artes, sempre apontando aos autores o que precisava ser melhorado.

Aliás, conhecer e conviver com alguns roteiristas e desenhistas foi fantástico. O roteirista de Dylan Dog Tiziano Sclavi, por exemplo, era tão sério e taciturno que encarnaria à perfeição um inimigo de seu personagem.

E a biblioteca da editora? Era de babar. Uma sala com milhares de materiais de referências de diversos locais do planeta. Tudo à disposição dos autores. Passei muitas horas naquele espaço.

Não bastasse esse aprendizado, Sergio ainda foi um cicerone extraordinário. Graças a ele, visitei mais duas editoras que ficavam em Milão, a Comic Art, que fazia álbuns de autores europeus, como Milo Manara, Vittorio Giardino e Paolo Eleuteri Serpieri e a revista Comic Art; e a Rizzoli, responsável por compilações de materiais norte-americanos e pelos títulos mensais Corto Maltese e Linus, hoje extintos.

Sidney Gusman e Dylan Dog Placa na Sergio Bonelli Editore

Além de ter sido fui muitíssimo bem recebido, saí de ambas com “presentes” que fariam a alegria de qualquer fã. Pra ter ideia: trouxe 35 quilos de livros (fumetti e obras de referência, como enciclopédias) desta viagem. E, graças ao Sergio, comprei poucos deles.

Quando fui agradecer pelos “recados” que ele enviara aos outros editores da Itália, Sergio disse que era nítido o quanto eu era apaixonado por quadrinhos e que, se eu tivesse que comprar aquilo tudo, não teria dinheiro para o giro que faria pela Europa depois de minha estada em Milão.

As minhas “aulas” com Sergio continuavam depois de sair da editora, mas em outra “matéria”. Isso porque marquei minha viagem para a época em que estava acontecendo o terceiro Dylan Dog Horror Festival, uma mostra de cinema de terror batizada com o nome do personagem, porque ele era a coqueluche do momento na Itália e chegava a vender um milhão de exemplares por mês, somando todos os seus títulos.

O evento aconteceu no Palatrussardi, um ginásio de Milão, onde eram exibidos os filmes – alguns nem haviam sido lançados mundialmente ainda, como Hellraiser 3. Todas as noites, cerca de seis mil fãs (muitos fantasiados de monstros) lotavam o local. E para entrar não precisavam pagar nada; bastava mostrar uma revista de Dylan Dog.

Terminadas as exibições, eu ia com Sergio jantar com os convidados. Aí, pude trocar ideias com Wes Craven, um dos mais respeitados diretores do cinema de horror no mundo, e os atores Robert Englund (o Freddy Krueger) e Bruce Campbell (de A Morte do Demônio), dentre outros.

Como, em começo de carreira, eu teria uma oportunidade dessas?

E o meu aprendizado ainda se estendeu a outra área: o mundo das artes. Tudo porque a “febre” Dylan Dog era tamanha, que havia também exposições pela cidade, associando o personagem a temas como morte, medo e terror, na visão de pintores e ilustradores famosos.

Escritório de Sergio Bonelli, em 2009 Escritório de Sergio Bonelli, em 2009

Nessa passagem pela Itália, além das “aulas técnicas”, aprendi que é possível, sim, fazer quadrinhos populares com muita qualidade. Sempre digo a quem não gosta dos fumetti que é muito raro achar um desenhista ruim da Sergio Bonelli Editore. Mesmo com as limitações de diagramação (lá não há páginas duplas e pouco se muda a distribuição dos quadros), tecnicamente todos são, no mínimo, competentes.

Depois desse “intensivão”, enveredei mais e mais pelos quadrinhos, mas fiquei 17 anos sem ir a Milão. No entanto, sempre que podia – porém menos do que eu gostaria – falava com Sergio ao telefone. Era demais ouvir, do outro lado, o tradicional “Oi, meu amigo, como está? Quando chega aqui em Milão?”.

Além disso, eu mandava para ele quadrinhos nacionais com temas pelos quais ele se interessava (como O Cabra, Bando de Dois, Belém imaginária, Estórias gerais e outros) e livros sobre o Brasil, fossem históricos ou de fotos apenas.

Em 2009, quebrei o “jejum” e fiz uma rápida visita de três dias a Milão. E minha primeira parada, claro, foi na Sergio Bonelli Editore. Revi os amigos, tirei muitas fotos (as paredes de lá são forradas de verdadeiras obras-primas dos quadrinhos) e aproveitei cada minuto de convivência com Sergio.

O velho mestre já não vinha ao Brasil, país que adotou como segunda pátria, desde 1996, por causa de um problema numa das pernas que dificultava sua locomoção. Mas permanecia na ativa. E foi bom ver que o entusiasmo dele pelos fumetti continuava inalterado – mesmo se queixando da diminuição do mercado na Itália e com Tex e Dylan Dog ainda no topo do ranking de vendas.

Sergio Bonelli e Sidney Gusman, em 2009

Em virtude da doença na perna, Sergio agora dormia no prédio da editora, mas, de novo, deu um jeito para que aproveitássemos o máximo de tempo juntos: fez uma reserva num hotel que ficava a 60 metros do local. Era acordar e me apresentar ao “quartel-general” dos quadrinhos mais populares da Itália.

Em nossas conversas, ele mostrava por que era o “último dos moicanos” dentre os editores que são donos (e não funcionários) de suas companhias. Além de acompanhar tudo de perto, se preocupava, por exemplo, com desenhistas veteranos. “Alguns títulos estão vendendo pouco, mas como posso tirar o ganha-pão desses autores?”, indagou.

Aliás, algumas vezes tentei convencê-lo a passar trabalhos para desenhistas brasileiros, mas a resposta foi sempre negativa, porque Sergio dizia (com razão) que havia centenas de bons artistas na Itália em busca das mesmas vagas. E ele precisava pensar no mercado em que atuava.

Sergio Bonelli era, definitivamente, um cara diferente.

Nesta segunda visita, como o tempo era curto, não fiquei tanto tempo na editora – aproveitei para ir a fumetterias. Mas tive a honra de jantar duas noites seguidas no apartamento de Sergio, vendo jogos da Internazionale e do Milan pela Champions League. Com direito a palavrões do velho mestre. Mais uma daquelas recordações do estilo “não tem preço”…

Posso afirmar: Sergio Bonelli era não apenas um dos principais editores de quadrinhos do planeta, mas uma das melhores pessoas que conheci. Tenho orgulho de ter me tornado seu amigo, e a tristeza por sua perda só é atenuada pelas muitas lembranças boas. Uma delas, acredite, foi termos brigado juntos (com direito a socos, pontapés, sangue e polícia) nas ruas de Milão, sob uma chuva torrencial, após um entrevero no trânsito. Mas essa é outra história… coisas que acontecem nas melhores faculdades.

Arrivederci, Sergio. Nosso próximo encontro será na minha pós-graduação…

Sidney Gusman sabe que as viagens a Milão nunca mais serão as mesmas.

Autógrafo de Sergio Bonelli para Sidney Gusman

Galeria com fotos do escritório de Sergio Bonelli

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