E o próximo a morrer é…

Por Sidney Gusman
Data: 17 junho, 2009

Atenção: este artigo contém informações sobre acontecimentos
ainda inéditos no Brasil. Por isso, pode prejudicar o prazer de sua leitura
no futuro.

A volta "triunfal" de Steve Rogers...
Se você é um leitor de super-heróis ou alguém que está minimamente informado
sobre o que acontece nos comics, sabe bem que em 2007 a Marvel
“matou” o Capitão América. Agora, praticamente dois anos depois, a “Casa
das Ideias” prepara a volta
triunfal de Steve Rogers
. Resta saber qual será a desculpa esfarrapada
desta vez para que mais um herói retorne do além.

A DC, claro, não poderia ficar atrás e resolveu que estava na hora
de o Batman “morrer”. Afinal, se o Superman e a Mulher-Maravilha já estiveram
do “lado de lá”, faltava o Morcegão. Mas ele deve demorar um pouco mais
para retornar ao mundo dos vivos. Primeiro a editora ganhará uma boa grana
criando
uma nova Dupla Dinâmica
.

O irritante é que essa é uma história que, desde a década de 1990, não
para de se repetir. Em vez de apostarem na criação de tramas interessantes
e inovadoras, as majors do mercado norte-americano optam pela saída
mais fácil e barata (especialmente no sentido criativo) de “matar” um
personagem importante e, tempos depois, trazê-lo de volta.

Na primeira vez em que escrevi sobre esse assunto, na revista Wizard,
em fevereiro de 2004, quem estava na lista para “bater as botas” era o
Coisa – e até mesmo o rentável Wolverine era cogitado.

E aí ninguém precisa ser uma sumidade de inteligência para sacar por que
o verbo morrer aparece sempre entre aspas nos parágrafos acima. Afinal,
alguém ainda crê na “morte” dos personagens da DC e da Marvel?

É certo que a resposta de dez entre dez leitores será não. Afinal, há
algum tempo, mais do que um recurso de tragicidade dos roteiristas, a
morte nos quadrinhos de super-heróis passou a ser apenas um artifício
para alavancar vendas maiores para as revistas, invariavelmente determinada
pelos nomes que aparecem no alto dos organogramas das editoras.

As vendas, claro, costumam ser boas quando isso ocorre. Então, tempos
depois, ao se revelar que o personagem havia morrido “de mentirinha”,
arrecadam-se novas quantias exorbitantes, ao custo, quase sempre, de histórias
pífias, cujas explicações “científicas” chegam a ofender a inteligência
do leitor.

Foi assim com Superman, Fênix, Arqueiro Verde, Magneto, Doutor Destino,
Supergirl, Hal Jordan, Duende Verde (o original), Besouro Azul, Bucky
Barnes, Jason Todd, Colossus e outros de menor relevância. E, claro, a
lista só tende a aumentar nos próximos anos.

A razão técnica para a morte não ter um significado definitivo nas HQs
de super-heróis é o fato de cada personagem ser uma “marca” da editora,
que, cedo ou tarde, pode render bons dividendos indo ou voltando do além.

Pior é que esse “retorno dos mortos-vivos” não se restringe aos seres
dotados de superpoderes, como bem constataram Tia May (que muitos gostariam
que tivesse mesmo ficado sob sete palmos de terra) e Mary Jane,
por exemplo.

Durante algum tempo, havia ainda os que morriam para “ceder seu manto”
para novos personagens, casos de Barry Allen (o primeiro Flash, se não
contarmos Joel Ciclone), Capitão Marvel (o da “Casa das Ideias”) e Arqueiro
Verde. Mas, todos eles provaram que nem isso é garantia para que permanecessem
mortos.

Quando escrevi esta coluna na época da Wizard, veja só, um dos
poucos que continuava “do lado de lá” era Jason Todd, o segundo Robin.
Ora, nada que “socos na realidade” desferidos por um Superboy de quinta
categoria não seja capaz de resolver. E tome Jason Todd de volta!

Alguém aí ainda se lembra quando Joe Quesada, o editor-chefe da Marvel,
“garantiu” que, em sua gestão, quem morresse não voltaria? Soa quase como
uma piada. Quem em sã consciência apostaria suas fichas que isso nunca
mais aconteceria? Que o digam Colossus, Capitão América…

O que mais entristece quem curte HQs de super-heróis é que o recurso da
morte de super-heróis foi banalizado. Caiu em descrédito. Deixou o leitor
de saco cheio.

Muitos fãs acabam acompanhando essas tramas, é verdade, mas muito mais
por curiosidade ou “obrigação” – isso vale para aqueles colecionadores
que “não conseguem” ficar com buracos nas séries.

Contudo, as raras histórias desse tipo que podem ser consideradas clássicas
(a da Fênix, por exemplo) acabaram ofuscadas pelas barbaridades que se
inventou para trazer os personagens de volta de uns anos para cá.

Então, fica a indagação: será que para os roteiristas e editores é tão
difícil sacar que basta escreverem boas histórias para conquistar o leitor?
Os bons profissionais desse mercado já provaram que isso é possível (que
tal exemplos como Grandes Astros – Superman ou DC: A Nova Fronteira?),
e sem usar o artifício do “compre sua passagem ida e volta para o além”!

Afinal, nos quadrinhos de super-heróis, faz um bom tempo, “morte” e “ressurreição”
podem até ser sinônimos de lucro certo, mas estão longe de significar
boas histórias.

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do Universo HQ
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Sidney Gusman, atualmente, lê notícias sobre mortes de super-heróis com o mesmo entusiasmo com que encara filas quilométricas…  

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