Lugar de super-heróis é onde mesmo?

Por Sidney Gusman
Data: 29 outubro, 2008

Banca Vs. Livraria
Sexta-feira, 17 de outubro de 2008. 10 horas da manhã. Por conta de uma
viagem que faria no final de semana, resolvi ir para a Fest Comix
logo cedo. Quando cheguei ao Colégio São Luís, havia cerca de 30
pessoas na fila. Acompanhei a abertura dos portões já do lado de dentro
e me posicionei estrategicamente para observar o que aqueles fãs fariam
assim que estivessem frente a tantas ofertas.

E não me surpreendi. Assim como ocorreu nas duas edições anteriores, vi
os leitores irem direto à prateleira em que estavam as edições encadernadas
Marvel e da DC, publicadas pela Panini.

A razão é simples: os fãs do gênero super-heróis esperam ansiosamente
por feiras e eventos em que possam comprar esses álbuns por preços mais
acessíveis. É fácil encontrar gente com cinco, seis ou mais livros na
cesta de compras. Em fóruns no Orkut ou em listas de discussão,
vários leitores afirmam guardar dinheiro para essas ocasiões.

Parecia mesmo questão de tempo para que esse nicho fosse explorado. Afinal,
nos Estados Unidos e em países da Europa, edições luxuosas de material
(clássico ou não) de DC e Marvel fazem sucesso há alguns
anos. Era a típica aposta que não tinha erro. Bastava um pouco de conhecimento
desse mercado.

Tanto que (como contei em um post
no Blog do UHQ em agosto de 2007), no começo desta década, quando
prestei uma consultoria a uma grande editora que pretendia publicar quadrinhos
para livrarias, incluí nas minhas sugestões as edições Masterworks,
da Marvel, aqui chamadas de Biblioteca Histórica, e os DC
Archives
– na época, a Panini atuava somente em bancas.

A tal editora ficou somente na vontade e a Panini teve o mérito
inquestionável de desbravar esse segmento há cerca de dois anos, levando
os super-heróis para as livrarias.

Vale lembrar que já havia dezenas de HQs em livrarias, mas os uniformizados
de plantão mantinham-se distantes. Hoje, o quadro é outro. Grandes redes
dedicam cada vez mais espaço para as belas edições dos uniformizados e
a editora já viu até alguns de seus álbuns esgotarem, mesmo com preços
elevados (e tiragens bem menores que as revistas de bancas). É o caso
da versão em capa dura de O
Cavaleiro das Trevas – Edição Definitiva
.

Mas… por que o sucesso – desde que o trabalho fosse bem realizado, como
foi – era tão certo? A resposta é simples: porque o leitor de super-heróis
envelheceu! Há muito tempo o gênero padece com a falta de novos
leitores. Praticamente não há renovação e, a julgar pelas HQs cada vez
mais dedicadas àqueles fãs que sabem tudo de cronologia, não parece haver
qualquer sinal de mudança tão cedo.

Atualmente, o público leitor de super-heróis é de 25, 28 anos pra cima.
Como muitas dessas pessoas passaram a ter uma condição financeira melhor
e quase todo fã do gênero é por característica um colecionador, esses
álbuns acabaram virando “objetos de desejo” e andam embelezando muitas
estantes pelo Brasil.

Além de materiais clássicos a que pouquíssima gente teve acesso, casos
de Superman e Batman Crônicas, a Panini teve a sacada
de publicar sagas antigas que só saíram por aqui em formatinho – mesmo
muitas delas sendo sofríveis, há quem compre as edições. E há ainda badaladas
HQs recentes que ganham compilações bacanas, como Os
Supremos
, Vingadores – A Queda, Crise de Identidade
ou Surpreendentes
X-Men
.

Então, pelo quadro pintado acima, o mercado de super-heróis no Brasil
está uma maravilha, certo? Errado! O problema reside num ponto: o leitor
que compra essas edições luxuosas é, quase sempre, o mesmo que
adquire as revistas mensais. E como faz tempo que quadrinhos deixaram
de ser um hobby barato, alguma coisa é deixada de lado.

Aí… adivinhe! Se numa livraria está uma saga completa que o fã de super-heróis
considera especial, numa edição caprichada, ele optará por ela ou pelas
mensais, que se arrastam com crises e mais crises a cada seis meses e
com um, no máximo dois títulos bons nos mixes? A resposta pode ser conferida
aos montes pela internet: cada vez mais leitores têm optado pelo certo
e abandonado o duvidoso.

Ainda mais que os poucos materiais bons da atualidade têm saído em edições
encadernadas depois de algum tempo. Um exemplo pertinente é Surpreendentes
X-Men
. O álbum, em papel couché e capa cartonada, trouxe
as 12 edições do primeiro arco em 320 páginas a R$ 38,00. O leitor que
acompanhou a série de Joss Whedon e John Cassaday por 12 meses, na terrível
X-Men Extra, gastou R$ 82,80 – e em papel pisa brite. Numa
análise fria, que material realmente valia a pena na revista mensal?

Evidente que nem sempre essa vantagem financeira acontece, mas leitores
exigentes têm analisado seus quadrinhos muito mais na base do “vale quanto
pesa” do que pela “necessidade” de manter sua coleção sem deixar faltar
um número sequer.

A Panini sentiu isso. Num primeiro momento, aumentou sobremaneira
o número de lançamentos de super-heróis para livrarias e os resultados
foram animadores (outro sucesso foi Os
Maiores Super-Heróis do Mundo
, que está quase esgotado). Contudo,
pouco tempo depois as vendas em bancas começaram a cair.

E medidas precisaram ser tomadas. Algumas delas: a diminuição do número
de lançamentos voltados para livrarias e bancas especializadas neste segundo
semestre, a reformulação nos títulos da DC e a inclusão – com ótimos
resultados – dos chaveiros nas revistas de Batman, Superman, Liga da Justiça
e companhia.

O difícil é saber até quando elas serão eficazes, pois o número de leitores
de super-heróis sem paciência para acompanhar crossovers repetitivos
que se estendem por meses e começam e terminam de forma estapafúrdia não
pára de crescer. Natural, pois se essas pessoas estão envelhecendo, é
de se esperar que se tornem mais seletivas – bem, ao menos algumas delas.

E é aí que entra uma sinuca de bico para a Panini. A editora apenas
reproduz o que é lançado por Marvel e DC e não tem como
melhorar a qualidade dos materiais publicados. Só pode torcer para que
isso aconteça.

No entanto, uma mudança de quadro parece impossível no curto prazo. Nos
Estados Unidos, além de as vendas em livrarias serem bem mais respeitáveis
do que no Brasil, as duas majors se mostram confortáveis na posição
de “fornecedoras” de personagens para a indústria do cinema, mesmo que
isso quase não impacte na venda dos gibis – afinal, o merchandising
em torno das adaptações rende muito mais aos seus cofres.

Dessa forma, DC e Marvel pouco se preocupam com leitores
mais novos. Seus títulos miram, sem qualquer pudor, no fã veterano, naquele
cara que, mesmo xingando porque fizeram isso ou aquilo com determinado
uniformizado, continua comprando, porque seria um “crime” ter um furo
na coleção.

A impressão que ambas passam é que “do jeito que está, está bom”.

Enquanto isso, num mercado menor como o nosso, a Panini precisa
rebolar para encontrar o equilíbrio ideal dessas publicações para seus
diferentes canais de vendas. Nas livrarias, o máximo que consegue, em
termos de aumento de público, é resgatar leitores há tempos afastados
dos quadrinhos, que se interessam por comprar este ou aquele álbum.

Em bancas ou livrarias, só resta saber, em nível mundial, até quando a
indústria dos quadrinhos de super-heróis, que tanta força já perdeu, se
manterá sem se renovar. Afinal, vale lembrar que seus leitores também
morrem. E, na vida real, eles não voltam a qualquer momento, nem vão para
uma Terra paralela.

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do UHQ
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Sidney Gusman adora ler bons quadrinhos de super-heróis, mas eles são tão poucos hoje, que ainda bem que há outros gêneros no mercado..  

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