Celulose vicia

Por Eduardo Nasi
Data: 25 março, 2009

Livro DigitalÀs vezes, parece que os quadrinhos têm uma relação de amor com o papel. Afinal, as HQs se forjaram a partir dessa velha pasta de fibras vegetais ressecada – primeiramente em jornais, depois em revistas e, enfim, nos livros.

Mas não é amor coisa nenhuma. É vício.

A verdade é essa mesma: os quadrinhos são viciados em papel, bem como seus autores e leitores, essa gente que faz o mundo das HQs girar.

Se fosse amor, não haveria como as HQs viverem sem o papel. Mas há, claro – e nem é tão difícil. O problema é que existe essa dependência doentia que faz com que todo mundo se engane e acredite que uma coisa não vive sem a outra. Bobagem.

Basta prestar atenção: o vício é tão cruel que suas ações são percebidas facilmente.

Um exemplo bastante comum são as HQs digitais que nunca acabarão impressas, mas são criadas seguindo o formato americano – que nada mais é do que uma especificação gráfica para o corte de papel!

Outro caso muito corriqueiro são os defensores dos scans, que dizem que, se gostam do que leem, compram a edição em papel. Oras, é como se a versão digital não fosse exatamente a mesma HQ! Ou, num pensamento ainda mais enviesado, que álbuns impressos não fossem o produto em si, mas um bônus para as eventuais contribuições filantrópicas dos leitores de material pirata.

Interview with the greenEvidente que a origem desse vício de celulose é fácil de entender: lá se vai um século de dependência, afinal de contas.

O problema é que, como qualquer vício, chega uma hora em que ele começa a prejudicar o dependente. E, pros quadrinhos, essa hora já chegou faz tempo. Afinal, quadrinhos são uma linguagem – e o suporte de papel é limitado demais para dar conta de todo o seu potencial.

Quando se entende que as HQs precisam ser libertadas de sua prisão de celulose, abrem-se novos caminhos para a criação – mas também para a leitura.

Um exemplo dessa quebra de modelos é Interview with the green, do carioca Carlos Contente. Trata-se de uma HQ publicada em um punhado de pequenos quadros de 13 x 18 centímetros e exposta na parede da exposição Nova Arte Nova, que já passou pelo Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro e encerra a temporada paulistana agora no começo de abril.

Arte de Öyvind FahlströmO trabalho é lido em pé, seguindo o fluxo e os contornos da parede em que os quadrinhos estão pendurados. Além disso, o olho tem que se dividir entre a HQ original, escrita em inglês, e uma versão em português criada para a exposição – textos e artes são semelhantes, mas não idênticos. É história em quadrinhos, mas é muito diferente de ler uma HQ.

Também é na parede que se lê o trabalho do paulistano Öyvind Fahlström, que ganhou mostras no Brasil em 2007 – e ainda assim foi completamente ignorado pelo meio dos quadrinhos. O artista, que fez carreira internacional, aplica a arte sequencial em pôsteres. O sentido da história, se é que tem história, é dado pelo leitor.

A experiência de ler Fahlström evoca a sensação causada pelo número derradeiro de Promethea, de Alan Moore e J.H. Williams III. A revista se desdobra em um pôster que pode ser lido em qualquer sequência.

Há espaço para muito mais.

Com o crescimento da arte urbana, não parece demais sonhar com uma HQ que se espalhe pelos muros de uma cidade.

Outra possibilidade conceitual são quadrinhos esculpidos – estáticos, mas em três dimensões, com todos os recursos que a linguagem das HQs proporciona.

Promethea A mudança de plataforma é iminente: com a chegada dos e-readers com tela colorida, como o Flepia, que a empresa japonesa Fujitsu acaba de anunciar, a supremacia do papel estará, enfim, ameaçada.

E aí surgem dois caminhos: como viciado, o povo dos quadrinhos pode sucumbir à abstinência irrevogável de celulose. Ou pode buscar novos rumos para explorar.

Serão os artistas que precisarão apresentar suas propostas de como a linguagem vai se comportar daqui para frente. São eles que se aventurarão a investigar novos espaços e a estudar como a linguagem centenária da arte sequencial será reinventada para além das páginas amareladas dos gibis.

A propósito: é por isso que livros que ajudam a dominar a linguagem são fundamentais. Por aqui, os trabalhos de Will Eisner e Scott McCloud, traduzidos e bem divulgados, são referências constantes e influências poderosas – inclusive para este texto.

Mas o competentíssimo A Leitura dos Quadrinhos, do nosso vizinho de internet Paulo Ramos, ajudou a oxigenar velhas ideias. Será certamente proveitoso para o leitor interessado no tema. Afinal, conhecer e dialogar com uma linguagem é um passo importante para subvertê-la – e subverter os quadrinhos é a única forma de garantir a sua subsistência.

Eduardo Nasi prometeu queimar sua coleção de quadrinhos numa imensa fogueira no dia em que tiver um livro eletrônico que leia HQs. Só vai poupar o Complete Calvin & Hobbes e a série Complete Peanuts.

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