Crise de infinitas possibilidades

Por Eduardo Nasi
Data: 3 dezembro, 2008

Crise nas Infinitas Terras
Pois é: a crise financeira saiu das manchetes dos jornais. Chegou às mesas
de bar, ao almoço de domingo e, veja só, até às colunas de sites especializados
em quadrinhos.

Não é por acaso. Acontece que a tal da crise pode mesmo afetar as HQs. E de várias formas diferentes (algumas, como vamos ver, especialmente animadoras).

Quanto? É difícil saber – retomando o tema da minha coluna anterior, a ausência de dados concretos sobre os leitores dificulta as especulações. Não se sabe nem mesmo se, na hora de cortar gastos, as HQs vão ser limadas antes dos outros, digamos, supérfluos, coisas como cinema, games, chocolates ou, sei lá, bloquinhos de post-it.

Também ajudaria saber se eventuais cortes atingem mais quadrinhos de bancas – que têm um material de qualidade mais irregular, mas altamente viciante – ou de livrarias – onde os custos por página são consideravelmente mais altos.

Já que o próprio mercado não parece se interessar em ter dados decentes para um prognóstico, as especulações que se pode fazer estão ligadas ao cenário econômico em que se vive.

A alta do dólar, por exemplo, tem um impacto razoável no preço dos direitos autorais estrangeiros e também deve influenciar o custo do processo gráfico – que inclui outros fatores, como os reajustes anuais dos profissionais da área. Ou seja: olhando assim, parece que os quadrinhos tendem a subir de preço. Até porque já se tem notícias de aumentos na Europa e nos Estados Unidos.

Em tese, depois de tantos anos sem mexer nos R$ 6,90 das revistas mensais de super-heróis de 96 páginas, não seria nenhum absurdo a Panini reajustar seus preços por fatores que não têm nada a ver com a crise financeira – e, justamente por conta dela, poderia decidir aguardar mais uns meses para medir seu impacto no negócio dos quadrinhos.

Mas nada isso é uma regra. Nem mesmo a necessidade de inflacionar os preços.

O aumento do dólar também impacta outros produtos, como eletroeletrônicos. E aí um sujeito pode ser obrigado a desistir de um novo videogame e decidir comprar, quem sabe, mais quadrinhos.

Vai que tem outro que, animado pelo dólar baixo, tinha desistido das edições nacionais para comprar tudo na Amazon – e, com a mudança, é obrigado a rever seu hábito. Somem-se uns casos assim. Aí a circulação aumenta, o faturamento por exemplar idem, e os preços ficam estáveis. Ou poderiam ficar.

Vale lembrar, também, que a crise nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, nossos maiores fornecedores de quadrinhos, pegou bem mais que aqui. Sem liquidez nem crédito em seus bancos, as editoras e licenciadoras precisam de outras fontes de renda. Uma delas é a venda de seus títulos para mercados mais estáveis – como o Brasil!

Resultado: o dólar aumentou, mas o preço dos direitos autorais, se bem negociados, podem despencar numa hora dessas. E as nossas editoras conseguem chegar a um valor por exemplar ainda menor do que dos momentos de euforia. Caso se mexam em busca disso.

As variáveis são muitas. Os cenários possíveis, reforçando: para prever de fato o que vai acontecer, só com dados e muita capacidade de análise. E isso, sabemos que o mercado aparentemente não tem disposição em providenciar.

O que resta, então, é especular. E, se é pra chutar, vamos chutar alto: pensar no que acontece com os quadrinhos no pior cenário possível: uma recessão pesada de longo prazo.

Digamos que os leitores tenham que cortar os quadrinhos. Não todos os leitores: só o número suficiente para que o negócio de torne inviável. Afinal, o preço de uma revista se relaciona com o volume de vendas: quanto mais gente compra, mais barato fica. Não adianta, portanto, que sobrem uns mil leitores em um blockbuster como Naruto – pra sustentar a publicação, seriam necessários uns mil leitores dispostos a pagar um valor bem mais alto que R$ 9,90 por exemplar.

Ou seja: parece que, no meio do caos, o colapso dos quadrinhos é iminente.

Mas a realidade pode ser bem diferente.

Vamos lá: já faz tempo que os quadrinhos migraram para a internet. Mesmo sem crise. Mesmo quando todo mundo tinha muito dinheiro no bolso.

Os quadrinhos digitais estão espalhados por aí: nos grandes portais, nos agregadores de conteúdo, nos sites das próprias editoras de quadrinhos e até em sua versão corsária, os scans.

É um processo como o do MP3, que ferrou com as gravadoras. Se o scan é ilegal e imoral ou não, é outra história – e outra coluna. Além deles, há as inúmeras HQs legais, produzidas diretamente para a web.

O fato é que esse meio vai se ampliar ainda mais com a proliferação de e-readers como o Kindle, da Amazon, e com aparelhos de celular como o iPhone.

Certamente, esse movimento vai aumentar o espaço do scan no mundo – e aí as gigantes DC, Marvel, Panini, Ediouro, Casterman, Kodansha, Les Humanoïdes Associés e afins vão ter que se coçar e deixar de fingir que não há nada acontecendo. Caso contrário, correm o risco de acabar tão quebradas como as gravadoras.

O que importa aqui é que o espaço para os quadrinhos digitais também vai crescer exponencialmente. E aí qualquer um que tiver uma conexão com a internet poderá publicar seus quadrinhos e, teoricamente, disputar o mesmo espaço que as grandes editoras têm hoje. Tentador, não?

É uma idéia que soa utópica, mas tem um pé bem fincado na realidade. Nada indica que, em alguns anos, a gente não chega lá. Mas pode ser antes do que se imagina. Afinal, momentos de crise não são tempos de estagnação, e sim de instabilidade. E, quando o mundo está desordenado, ninguém sabe dizer qual vai ser a nova ordem mundial.

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Eduardo Nasi já suportou dezenas de quase infinitas crises nos quadrinhos de super-heróis, mas, ultimamente, os Didios e Quesadas da vida têm o deixado à beira de uma crise nervosa.

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