E aí o Pedro Franz não foi indicado ao HQ Mix…

Por Eduardo Nasi
Data: 7 maio, 2012

Arte de Pedro FranzNão é que eu não seja ligado a prêmios. Até acho legal acompanhar. Em geral, as premiações têm um glamour decadente que me interessa.

Na minha vida pregressa de jornalista, já cobri até concurso de beleza. Lembro que as candidatas costumam ficar com os quartos mais mofados do hotel, enquanto organização e jurados ficam nas suítes. Nos ensaios, os diretores berram com as garotas. Às vezes, chamam-nas de burras. Aí elas vão pros bastidores e borram toda a maquiagem de tanto chorar.

Outro dia, lendo o livro do Douglas Wolk sobre a San Diego Comic-Con, soube que o jantar de entrega do prêmio Eisner exige traje de gala.

Achei curioso: na minha memória, as pessoas que trabalham com quadrinhos estão usando camiseta na maior parte do tempo. Ou com uma camisa de manga curta meio puída. Nada errado, acho bacana. E minha memória pode estar me traindo. Pode ter alguém que trabalhe de paletó. Mas, de qualquer maneira, traje de gala me parece imprimir à cerimônia um tom de cosplay próximo ao da grande festa à fantasia da convenção.

Tenho um interesse mórbido em ver que tipo de alegria a vitória gera em pessoas diferentes. Do cara meia-boca e nada modesto que faz pouco do prêmio ao sujeito brilhante que recebe o troféu meio constrangido, como se todos ali fossem mais merecedores do que ele.

Um prêmio mexe com os brios das pessoas. Leva-as aos extremos. Elas ficam indignadas, felizes, revoltadas, furiosas, alegres, tímidas, bêbadas, orgulhosas, indiferentes, invejosas. Faz delas mais humanas.

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Um prêmio é uma forma torta de se fazer uma crítica.

Uma crítica parte de critérios. Uma boa crítica tem critérios decentes e de uma boa interpretação desses critérios. Mostra caminhos, aponta tendências, revela detalhes que não estavam nítidos. Uma boa crítica não se limita a dizer se um quadrinho é bom ou ruim. Cá pra nós, isso é o que menos importa. Vale mais o olhar e a investigação do autor.

Um prêmio é o oposto de uma crítica. Ainda mais por voto e aclamação, que é o caso do HQ Mix. Por essência, um prêmio assim diz o que é bom. Não há critérios claros, apenas categorias. Não há debate. Os votos são secretos. O vencedor, um só, é aclamado.

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A melhor forma de saber se uma obra é boa é lendo-a.

Mas não dá pra ler tudo que sai. Está cada vez mais difícil. Não só porque a produção nacional cresceu, mas também porque o mercado global está cada vez mais acessível.

Pode ser surpreendente para alguns leitores mais ferrenhos, mas mundo não é feito só de quadrinhos. Há filmes, e a maioria deles não é feito a partir de HQs. Há teatro. E literatura. E artes visuais. E música. Pra acompanhar tudo, é fundamental filtrar. Ir farejando, listando. Dá trabalho. Nunca sobra tempo.

Uso vários métodos pra filtrar o que vou ler, ver, ouvir, conhecer. Acompanho os temas de que gosto. Leio revistas, blogs, tenho meus críticos-gurus, meus criadores favoritos, uma certa vontade de perscrutar o novo e o diferente. Não só em quadrinhos. Mas também em quadrinhos.

Alguns prêmios entram nessa composição. Com um peso baixo. Mas não posso negar que Cannes e Berlim fazem diferença no cinema, porque são festivais em que os filmes são lançados antes de chegarem ao cinema. Nos quadrinhos, Angoulême acaba ganhando uma importância porque a gente ainda está um pouco distante dos lançamentos europeus.

Eisner me dá uma preguicinha. Oscar, uma preguiçona. O fato é que esses prêmios mais ligados ao mercado servem mais pra apontar uma tendência do que pra indicar que é bom.

Pra mim, o HQ Mix está nesse grupo de prêmios que não mostra o que é bom. Mas ele mostra pra onde as pessoas estão olhando.

Já votei. Não voto mais. Nem me mandam mais a cédula. Acho ótimo. Não sei dizer se o Laerte é melhor que o Pedro Franz. Ou se o Mutarelli é melhor que o Gustavo Duarte. Mais que isso: não reconheço em ninguém a capacidade de discernir entre eles. Prefiro as experiências estéticas múltiplas. A natureza competitiva dos prêmios não tem a ver com a forma como eu consumo arte.

Perdi a conta de quantos gibis eu li porque o Érico Assis, o Sidão (Sidney Gusman), o Lielson (Zeni), o Paulo Ramos, o (Marcelo) Naranjo e melhor-parar-a-lista-por-aqui indicaram. Adorei o Garoto Mickey, que conheci porque o André Dahmer disse que eu tinha que ler. Lembro que li o Reading Comics, do Douglas Wolk: fiz uma lista de tudo que me interessava e saí comprando. O mercado de quadrinhos é razoavelmente pequeno pra que todo mundo consiga dar conta de tudo que é interessante. Ainda mais no Brasil.

Quer dizer, mais ou menos.

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Parece verdade que o Mercado de Quadrinhos do Brasil cresceu nos últimos anos. Assim mesmo, com maiúsculas. Proponho uma abreviação: MQB.

O MQB é composto de autores, editoras, editores, livrarias, bancas de revistas, licenciantes, estúdios, tradutores. As livrarias estão lotadas de quadrinhos. A TV fala de quadrinhos. Os quadrinhistas aparecem nas colunas sociais e namoram moças bonitas. E moças bonitas leem quadrinhos, e contam pra todo mundo que leem, e fazem tatuagens com desenhos do Liniers.

De alguma forma, todo esse povo está, ou diz que está, ganhando algum dinheiro.

Em uma matéria bem equilibrada do jornalista Ronaldo Bressane, publicada na revista Select há pouco, se falava até de uma Era de Ouro.

Uma era de ouro do MQB, já pensou?

(Melhor deixar essa sigla MQB pra lá. Vai que pega.)

Arte de Pedro Franz

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E aí o Pedro Franz não foi indicado ao HQ Mix.

Acho que, de certa forma, tudo bem.

Membros do júri podem simplesmente não gostar do trabalho dele. Podem achar que nada ali em Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo cabia na lista. É direito deles.

Também é direito de todo mundo que opinou no blog do prêmio, que recolheu opiniões a partir de uma lista beta. As pessoas podem não gostar do trabalho dele. Como é um prêmio, a gente nunca vai saber o que rolou.

Eu adoro. Sério, acho brilhante. Acho uma das melhores coisas que li nos últimos anos. É lindo, tem um texto incrível, é inventivo e ousado. A arte começa com um preto e branco desenhado, competente, e se encerra como uma explosão de cores que flerta com a pintura. Além disso, a trama parte de um mergulho franco no Zeitgeist. De muitas maneiras, antecipa o movimento Occupy. Prevê até mesmo o uso da máscara. Cá entre nós, tenho a impressão de que ele até captou que a máscara de Guy Fawkes se tornaria um símbolo, mas seria um pouco inverossímil usar o V como personagem. (Pense bem: se, há dois anos, alguém dissesse que uma HQ de Alan Moore daria origem ao símbolo de contestação mais universal deste século, você acreditaria?)”

Eu adoro Promessas.

Mas esse sou eu. E eu não sou do júri. Eu não voto. Eu não conto.

É verdade que eu poderia ter mencionado no blog do prêmio. Poderia ter mencionado outras ausências e preferências também. Mas não o fiz, porque não li com muita atenção. Sou relapso com coisas, como prêmios, lista de melhores do ano e seleções em geral.

O que me interessa nessa história toda é uma hipótese. Que é mais uma reflexão do que uma certeza. É um convite a pensar: será que estamos fazendo as coisas do jeito certo?

Em 2011, que é o que conta pro HQ Mix em questão, não houve nenhuma edição impressa de Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo.

E Promessas não é um webquadrinho. Ele é um quadrinho que se manifesta em vários formatos. Um troço amorfo, que se adapta, que evolui, que oferta diferentes percepções. Líquido, como diria Bauman. Às vezes, está na internet. Aí vira um PDF. Aí vira um volume impresso, só que aí é bom lembrar que os dois volumes que já foram impressos têm formatos diferentes. Um deles, por sinal, não tinha uma ordem de leitura obrigatória.

E como encaixar Promessas em uma categoria? É álbum? Terror? Ficção? Álbum tem que ser de papel? Webquadrinho tem que estar na internet? Se for impresso vira outra coisa? Merece mais atenção? Ou menos? Quem decide isso?

Acabei pegando o Pedro pra Cristo porque o caso dele me parece o mais extremo. E é o mais interessante de uma produção de quadrinhos que extrapola os limites. Que percorre outros caminhos. Que foge do que é confortável e do que estamos mais habituados a ver.

É mais complicado de achar essas obras do que procurar na banca de revistas. Em algumas vezes, a leitura também exige mais, porque é menos ortodoxa ou porque propõe formatos que exigem uma entrega maior do leitor.

Também peguei pra Cristo o HQ Mix, mas só porque o prêmio tem uma importância reconhecida. É natural, e bom, que gere oportunidades de reflexão. Até porque é feito por gente do meio. Que, supostamente, lê, acompanha e se importa com o que está acontecendo.

Arte de Pedro Franz

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Antes de publicar, mandei esse texto pra um amigo que não é da área. Liguei e perguntei o que ele achava.

– O trabalho desse Pedro Franz deve ser ruim. Quer dizer, não ruim, só estranho. Por isso, não votaram nele. Você gosta de coisas estranhas, mas as pessoas podem gostar de outras coisas. De coisas mais normais.
– É estranho, mas é tão bonito. Acho que você deveria ler.
– Tudo bem, mas as pessoas podem não gostar. Como no Oscar. É isso, você parece um daqueles caras que fica reclamando do Oscar, e o Oscar não é feito pra você.
– Não é isso. Acho que não tem nem espaço nesse mercado pra se separar o mercado comercial do mercado mais, sei lá, underground. É um mercado miserável de pequeno comparado com qualquer outra coisa. Olha o mercado editorial: já é um nanico num país em que ninguém lê. Quadrinhos é uma partezinha disso. É a pulga do nanico.
– Ok, mas, pelo visto, separa, e você não pode fazer nada quanto a isso. As pessoas não gostam do Pedro Franz. E você parte do pressuposto que elas estão cegas. Na boa, provavelmente elas só não gostam dele.
– Mas tem umas coisas mais, digamos, underground na lista.
– Viu? Só comprova meu ponto.
– Mas essas coisas tinham um formato definido. Webquadrinhos, por exemplo, que nem sei o que quer dizer. Não sei por que melhor desenhista precisa ser de algo impresso. Aliás, nem sei se tem que ser mesmo, só sei que só foram considerados autores de obras impressas nessas categorias principais.
– Isso é. Pelo menos, você diz que pega os caras pra Cristo.
– Eu queria que as pessoas pensassem nesses pontos. Que pensassem que o mundo está mudando.
– E que mudassem o voto.
– Nem isso, não vai dar tempo. Já acabou a votação.
– Não vai adiantar nada. Na média, as pessoas são como eu. Elas vão ler e esquecer disso em seguida. Olha o meu caso: uma internet inteira pra conhecer, inclusive o trabalho do Franz, e mesmo assim eu passo a vida olhando videozinho engraçado no Facebook. Não vou mudar.
– Estava pensando aqui. Posso publicar essa conversa?
– Como assim?
– Você levantou uns pontos interessantes pro leitor. Achei que ia ser um bom desfecho pro texto. O que eu tenho está ruim.
– Hum, está mesmo. Olha, pode publicar, acho. Mas você lembra do que eu falei?
– Eu estava gravando.
– Viu como você não é normal? Aposto que nem o Franz grava as ligações com os amigos.

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