Essa obscuridade: o leitor

Por Eduardo Nasi
Data: 5 novembro, 2008


Quem é o leitor de HQs?

Essa pergunta paira sobre a indústria dos quadrinhos no Brasil. E sem resposta. Pior: sem qualquer perspectiva de ter uma resposta.

É uma questão crucial. Antes de tudo, porque conhecer o consumidor é uma premissa bastante básica para qualquer indústria.

O dono de uma fábrica de molho de tomate faz de tudo para conhecer a dona de casa que usa o seu produto para dar um toque especial na macarronada de domingo. O exemplo é propositadamente tosco: macarronada que se preza dispensa molho pronto. Mas já voltamos a falar disso.

O mercado de quadrinhos brasileiro é cheio de perguntas sem respostas. A revista do Lanterna Verde vai se dar bem nas bancas? Como as vendas vão reagir à crise do crédito? Há espaço para uma nova editora de quadrinhos europeus? Se alguém se animar a lançar Blankets, o imenso álbum de Craig Thompson, tem chances de ser um sucesso ou um fracasso? A Fest Comix deve trazer convidados internacionais ou aumentar os descontos? Qual a receita para o mercado crescer? Por que centenas de milhares de leitores de Mônica abandonam as HQs e não compram mais nada? E por aí vai – e a lista de enigmas não acaba tão cedo.

Mas saber quem é o leitor de HQs brasileiro ajudaria muito a responder todas as outras questões.

Quem ele é? O que faz da vida? Quais são seus interesses? Que quadrinhos compra? E quais quer comprar? Ele acompanha as notícias do meio? Qual o seu gênero favorito? É homem ou mulher? Quantos anos tem? Mora onde? Joga videogame? Gosta de futebol? Assiste TV a cabo? Vai à banca com que freqüência – se é que vai? Lê as tirinhas de jornal? Lê quadrinhos na web? Baixa scans? Compra DVD pirata? Curte desenhar?

E, aliás: quantos leitores de quadrinhos existem no Brasil?

A falta de dados concretos faz com que o mercado aja na base da intuição. É o popular chutômetro. O problema do chutômetro é que ele não é baseado em fatos, mas em idéias pré-fabricadas. É o risco do chavão.

Voltando à hipótese do dono da fábrica de molho de tomate: usando o chutômetro, ele provavelmente pensaria que seu consumidor é uma dona de casa que faz macarronada para a família no domingo. E talvez ignorasse o fato de que essas mulheres são zelosas e, aos domingos, preferem fazer elas próprias o molho, ralando cebola, picando tomate, cozinhando tudo com tempero.

Talvez fosse mais sensato, então, esperar que a dona de casa recorresse ao molho pronto durante a semana, quando tem menos tempo. Ou que seu consumidor mais voraz seja um jovem universitário que mora sozinho e não tem saco para cortar tomate e ralar cebola.

Outro dia, recebi o e-mail do Mané. Não conheço o Mané direito, mas temos amigos em comum. Mas, sobre ele mesmo, sabia pouquíssimas coisas: tem mais ou menos 18 anos e gosta de rock independente.

O Mané tinha interesse em ler quadrinhos. Sabia, sei lá como, que havia coisas interessantes nas HQs – e pedia dicas para encontrar esses materiais em meio às centenas de títulos disponíveis em bancas e livrarias. E, por algum motivo qualquer, achou que eu daria uma resposta satisfatória.

Nessas horas, é sempre dureza. Porque não é simples. Por exemplo: a linha ABC, do Alan Moore, é sensacional, mas você aproveita melhor Tom Strong, Top Ten e Promethea se tiver as referências de HQs de super-heróis. O mesmo vale para Watchmen, A Nova Fronteira ou O Cavaleiro das Trevas. São trabalhos incríveis, mas que estão profundamente relacionados com a crítica a um gênero bastante hermético.

Resolvi apostar na verve roqueira do Mané e recomendei uns álbuns do Crumb. Foi uma manobra ousada: conheço bons leitores de quadrinhos que não têm sensibilidade para este autor. Mas o Mané curtiu. Acabou lendo quadrinhos com mais freqüência.

Na última vez em que falamos sobre isso, ele me contou que comprou até mesmo a série Buda, do Osamu Tezuka, que tem 14 volumes. Quem diria que Crumb pode ser um bom começo?

O Mané é um leitor de HQs brasileiro.

Quem acompanha o Blog do Universo HQ deve lembrar da história da Beth, uma moça que trabalha comigo. Ela não entende nada sobre quadrinhos. Era fã da Mad quando adolescente – especialmente do Ota, mas ela nem sabia que o Ota era o Ota.

Aí, ela me acompanhou ao evento de lançamento de Superman – Crônicas que a Panini promoveu em São Paulo.

Antes de o bate-papo começar, ela pegou uma revista do Lanterna Verde e perguntou pro Levi Trindade, editor da linha DC: “Quem é esse? Eu gostei da roupa dele”. Em uma das fotos da platéia, ela saiu com a mão na boca, fazendo careta. A imagem acabou em um desses fóruns de leitores da internet – e um leitor a chamou de “retardada”.

A Beth, mesmo sem saber quem é o Lanterna Verde, é uma leitora de HQs brasileira.

O sujeito que a chamou de “retardada” também.

Eu nunca vi. Quem me contou foi o Fausto, dono da banca em que eu comprava quadrinhos em Porto Alegre. Mas tinha um sujeito que ia comprar quadrinhos com luvas, lupa, pinça e régua. Pegava uma pilha de revistas e buscava, uma a uma, sem encostar os dedos, o exemplar perfeito – com medidas corretas, sem marcas, dobras e defeitos de impressão. Quando achava, lacrava-o em um saco plástico.

Esse cara também é um leitor de HQs brasileiro.

O caso da Clarah é bem o oposto. Ela pegou a edição brasileira de Como matar seu namorado, do Grant Morrison e do Philip Bond, e cotejou com o original norte-americano. Viu que a tradução era medonha, mas que a história em si era genial.

Então, fez uma tradução muito melhor na hora, rabiscando o texto dos balões à caneta, na própria revista.

E ela também é leitora e coisa e tal.

Tudo bem que o leitor de quadrinhos não é um único sujeito. São muitos perfis diferentes, sem dúvida. Assim como os consumidores do molho de tomate pronto.

Mas o dono da fábrica do molho de tomate sabe disso: para vender mais molho, ele tenta entender melhor a dona de casa, o estudante, o dono do carrinho de cachorro quente e todo mundo que possa vir a comprar algumas latas. Não é preciosismo. É apenas profissionalismo.

Com mais de 100 lançamentos por mês, a indústria de quadrinhos brasileiros está em um momento-chave. Se a crise da bolsa de valores chegar à economia real, vai ser hora de o leitor cortar títulos, reduzir aquisições, rever coleções e até mesmo repensar o hábito de colecionar. Se não chegar, o mercado de quadrinhos vai ser forçado a se profissionalizar para crescer mais.

Nos dois casos, armar uma pesquisa para conhecer melhor os leitores de HQs é uma tarefa básica que ainda está para ser feita. Um movimento desses custa dinheiro, claro, e não é pouco. Mas, com certeza, rende mais dinheiro ainda – e ajuda a garantir um mercado tão rico e farto como o que vimos nos últimos anos.

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Eduardo Nasi é um leitor de quadrinhos brasileiro que adora molho de tomate.

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