Eu queria que existissem mais quadrinhos como…

Por Eduardo Nasi
Data: 12 março, 2012

Poema em QuadrinhosEu queria que existissem mais quadrinhos como Poema em Quadrinhos.

Não é algo que se vê todo dia isso que Dino Buzzati fez. É ousado. É arriscado. É inventivo. É muito verdadeiro. Tem desenhos lindos. É erótico. A cultura do rock se encontra com Orfeu. Tudo isso é ótimo, mas nada assim tão inédito.

O que me encanta é que Buzzati fez poema no reino da prosa. E a prosa tanto reina que olha o nome que usamos: história em quadrinhos. Deve ser porque os quadrinhos começaram como historinhas. Uns anos atrás, viraram historiões – as tais graphic novels, ou romances gráficos. De novo, prosa.

Aí, chega o Buzzati, que nem quadrinhista é, e faz um poema em quadrinhos. Esse poema não é apenas a ilustração de uns versos. É um poema mesmo. Você lê e não tem dúvida: é poesia.

Sendo um escritor, Buzzati também desenhou. Seu traço é expressivo. Não ilustra o roteiro; se entranha. E isso fez toda a diferença. Sua narrativa visual se rendeu à poesia.

Onde estão as epopeias gráficas? As metáforas? Os versos livres?

Eu queria que existissem quadrinhos assim.

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Eu queria que existissem mais quadrinhos como Mix Tape.

A Lu Cafaggi fez um gibizinho que cabe na palma de uma mão de menina. São quatro revistinhas que vêm numa caixinha. Mix Tape tem que ser lido em papel. Não serve pra internet. Nem pra tablet. Porque é um pequeno objeto. É fofo, delicado, bonito, bem produzido, bem acabado, e também esperto. Muito esperto.

(Esperto tipo Jane Austen, mas esse comentário só vale pra quem já leu Jane Austen e entendeu que ela não é mulherzinha que faz romance água com açúcar.)

Você lê Mix Tape e fica com a sensação de que está lendo algo que foi feito com muito cuidado e atenção. É como se o gibi fizesse carinho em você.

Mix Tape

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Eu queria que existissem mais quadrinhos como Wilson.

Wilson parece uma tira dominical. Cada página tem um título próprio, uma história fechada e um traço diferente. Gosto de pensar que o estilo do traço muda de acordo com o tom da tira. Às vezes é mais cartunesco, noutras é mais realista.

Wilson é o nome do personagem fixo, um cara rabugento que tem dificuldade de se envolver com pessoas. Ele usa sua sinceridade extrema pra ofender as pessoas e garantir que elas fiquem longe.

O álbum conta a maturidade de Wilson. Eu não conheço o ator Paulo César Pereio, mas lembrei dele muitas vezes ao ler o livro. Não só pela semelhança física, mas por causa dessa sinceridade ácida.

Eu queria que existissem quadrinhos do Wilson nos jornais de fim de semana. Quadrinhos depressivos. Rabugentos. Mal-humorados. Na Ilustríssima. No Prosa & Verso. No Sabático.

Vou mais longe: eu queria que existisse um caderno de quadrinhos que tivesse como proposta estragar o domingo dos leitores de jornais. Mesmo que faça sol. Como Calvin em seus dias mais cruéis, mas sem os mais engraçados.

Esse caderno poderia publicar os Calvins mais cruéis. E Wilson. E histórias de animais que morrem com sofrimento. E uma adaptação longa e arrastada de Oliver Twist. Poderia se chamar Vida Boa e trazer de volta a tira do Fabio Zimbres.

Esse caderno poderia até ter uma página de passatempos, só que os labirintos não teriam saída.

Wilson

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Eu queria que existissem mais quadrinhos legais.

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Em tempo: Poema em Quadrinhos, de Dino Buzzati, saiu pela Cosac Naify. A tradução é de Eduardo Sterzi.

Mix Tape, de Lu Cafaggi, é independente e pode ser comprado no site da Pandemônio.

Wilson, de Daniel Clowes, saiu pela Quadrinhos na Cia. A tradução é de Érico Assis.

Eu queria mesmo que os leitores dessem uma chance aos três.

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