Karen Berger e eu

Por Eduardo Nasi
Data: 5 dezembro, 2012

Karen BergerA essas alturas, não achava que um acontecimento do mundo dos quadrinhos fosse abalar a minha vida. Mas aí veio o pedido de demissão da Karen Berger. E me vi arrasado.

Foi uma surpresa. Pra ser sincero, estou cada vez mais afastado desse mundo. Ainda mais de DC e Marvel. Leio as notícias por alto. Tento acompanhar algumas coisas que parecem relevantes. Ouço com algum interesse quando me contam alguma coisa que está acontecendo, tentando filtrar se é pra eu ir atrás – geralmente não é.

Tentei ver, por exemplo, o que tinha de legal nos Novos 52 e no Before Watchmen. Quase nada, e certamente nada que me animasse a dar prioridade. Cheguei naquele nível em que não dou a menor bola pra se anunciarem que o Superman vai enfiar o fêmur da Mulher-Maravilha no reto do Batman. Considero meu atual estágio uma forma de iluminação. (É inútil atirar pedras, amigos: estou imaterial, flanando.)

Ouvia dizer que a DC estava um lixo e que todos os autores estavam indo embora. Ergui a sobrancelha quando disseram que Grant Morrison estava deixando o barco, mas aí me achei que seria melhor pra ele, baixei a sobrancelha e voltei pra minha vidinha.

Mas aí veio a Karen Berger.

Eu não vinha acompanhando Vertigo com muito afinco. Uns anos atrás, eu lia tudo do selo com gana (muitas vezes, desmedida). Agora, curtia Escalpo. Das séries que a Panini publica no Brasil, minhas favoritas nem são do selo: Transmetropolitan (que é velha, eu tenho tudo da época em que saiu) e Ex Machina (que acho uma delícia, mas é da WildStorm).

Não leio nada do Mike Carey, que é uma fraude, o que normalmente atrapalha pra eu dizer que leio amplamente a revista Vertigo. Leio Escalpo com gosto e Vampiro Americano com algum divertimento. Minha leitura está tão atrasada que ainda não cheguei à minissérie do homem do espaço.

Vertigo

Enfim: não é minha prioridade. Acho que Vertigo é para adolescentes, para gente jovem, e infelizmente estou cada vez mais me afastando dessa realidade.

Foi o Gerard Way, autor do Umbrella Academy, que tuitou que a Karen Berger deu aos garotos perdidos do fundo da sala uma SubPop dos quadrinhos. Algo assim. E acertou em cheio. Sandman e (a banda de rock alternativo) Mudhoney foram contemporâneos na minha vida. Se houvesse Facebook em 1992, a Morte ia andar por Londres ao som de Acetone. Smells like teen spirit, hum? (Nota do editor: este é o nome de uma canção do Nirvana.)

Aos 16, desisti de ler quadrinhos. Estava tudo muito chato, super-heróis tinham virado uma bobagem, nada daquilo me agradava mais. Ia ler aquela pilhazinha ao lado da cama porque estava na praia e não tinha mais nada pra fazer. Um desses gibis era uma DC 2000 com uma HQ do Homem-Animal do Grant Morrison.

O demônio do mar profundo, chamava. Era sobre uma matança de golfinhos. É até hoje uma história que acaba com meu dia. Entendi que ainda precisava ler mais quadrinhos. Tinha ouvido falar de Sandman. Comprei o primeiro que achei. E fui seguindo. Eu não sabia, mas tinha feito um desvio à esquerda e entrado numa highway projetada por uma arquiteta chamada Karen Berger.

Como a SubPop, aquele mundinho que ainda viria a se tornar a Vertigo era um norte pra gente olhar.

Os tempos mudaram. Hoje a gente olha pra lugares muito difusos. Não tem uma SubPop nem uma Vertigo. Ou tem: mas são 100 SubPops e 100 Vertigos. E você pode ter uma SubPop ou uma Vertigo no seu notebook, se quiser. É só fazer.

São tempos maravilhosos, portanto.

Mas não bons o suficiente para que o trabalho de uma editora como a Karen Berger possa estar protegido. Aparentemente, a DC abusou da Vertigo, tentou tirar força do selo, sucateá-lo. E a lendária editora teria enchido a paciência e ido buscar outro lugar pra trabalhar.

De certa forma, é ótimo: fora das amarras da DC, me parece que Karen Berger pode fazer um trabalho ainda mais fabuloso. Não me preocupo com ela. Ela está melhor do que nós. Certeza.

Por coincidência, ainda este mês, sai no Brasil uma revista chamada Vertigo Especial. Nela, tem a minha história favorita de todo o selo Vertigo: Kill your boyfriend, de Grant Morrison e Philip Bond. Aceitei o convite da Panini pra traduzir. Virou Mate seu namorado. Foi uma experiência intensa e perturbadora, e uma das melhores coisas que pude fazer.

Enquanto traduzia, pensava comigo mesmo: “Tomara que eu consiga fazer com que essa história impacte os leitores da mesma forma que me impactou quando li”. Tomara mesmo. Mate seu namorado virou um mantra que reli todos os anos desde então.

Sandman Mate seu namorado

E pensando nessa história, de novo, me dei conta de que a minha vida teria sido completamente diferente sem Karen Berger. Porque ela levou Alan Moore pra DC. Porque ela me fez ler mais quadrinhos, e ler quadrinhos diferentes, e sair da Vertigo.

E porque foram quadrinhos que me deram vontade de escrever, e o fato de eu escrever tem pagado as contas aqui em casa há uns anos. Porque todos os amigos que tenho só estão na minha vida porque, numa tarde de tédio, li O demônio do mar profundo.

Minha vida poderia ter sido melhor sem ela, mas isso nunca vou saber. Mas ela é como é, porque a Karen Berger estava lá. Karen é fundamental, e achei que era uma boa hora pra dizer isso, mesmo que ela nunca vá saber ou se importar.

Azar, é só minha forma de agradecer, acho. Queria que todo mundo soubesse, mas por enquanto me basta o punhado de leitores deste espaço: Karen é uma baita editora, uma imensa editora.

E o que é um grande editor se não um cara que muda a sua vida?

Eduardo Nasi espera não sentir falta de Karen Berger por muito tempo.

• Outros artigos escritos por

.

.

.