Quadrinhos abstratos e os (nada novos) novos limites dos quadrinhos

Por Eduardo Nasi
Data: 21 outubro, 2009

Abstract ComicsUm dos principais lançamentos deste ano, ainda inédito no Brasil, é a antologia Abstract Comics, lançada pela editora norte-americana Fantagraphics. Organizado por Andrei Molotiu, o álbum reúne quadrinhos abstratos produzidos por diversos artistas entre 1967 e 2009.

Na prática, isso quer dizer que, em vez de figuras reconhecíveis, como bonecos e casas, a narrativa é construída a partir de abstrações – como em uma pintura de Kandinski ou de Pollock, por exemplo.

O marco inicial, no livro, é a HQ Abstract Expressionist Ultra Super Modernistic Comics, que Robert Crumb publicou já na revista Zap Comics # 1, de 1967 – e que apenas flerta com a abstração pura, porque há muitos quadros que são claramente figurativos.

Abstract ComicsNa introdução, Molotiu – ele mesmo um criador importante de quadrinhos abstratos – relativiza a data ao citar exemplos ainda anteriores a Crumb, como é o caso de ilustrações do artista russo El Lissitsky, criadas ainda em 1920 para o livro infantil Sobre dois quadrados.

E até mesmo páginas de quadrinhos Marvel trazem exemplos de abstração mais antigos que a Zap Comics # 1. Por exemplo: o livro reproduz uma história do mago Dr. Estranho desenhada por Steve Ditko em junho de 1965.

O fato é que os quadrinhos abstratos sempre foram uma possibilidade artística – e, até onde vai minha memória, aceita por todas as definições teóricas de quadrinhos que valem a pena. Só que, até agora, seu papel era secundário, relegado a experimentações isoladas.

Abstract ComicsE é aí que a antologia cumpre seu papel: ao traçar um panorama global e organizá-lo, Abstract Comics cria um movimento. A partir dele, a abstração pode deixar de ser uma experiência e se tornar uma possibilidade legítima – um processo pelo qual as artes visuais passaram anos atrás.

Fica a impressão de que o papel de um livro desses vai além: pode tirar vários abstracionistas do armário e inspirar outros criadores a abandonar – mesmo que temporariamente – a figuração.

E, cá pra nós, dá vontade de ver trabalhos abstratos de muita gente só pra saber como seria. Só pra dar um gostinho, deixo uma breve lista pra provocar a imaginação do leitor: Craig Thompson, Laerte, Milo Manara, Art Spiegelman, Angeli, Frank Miller e Guy Delisle.

Abstract ComicsTudo isso fica ainda mais interessante porque Abstract Comics sai justamente quando os leitores eletrônicos começam a chegar ao país e a ganhar fôlego lá fora.

Se tudo correr bem, desembarca hoje, 21 de outubro, no Brasil, a primeira leva do Kindle International. Serão os leitores de livros digitais da livraria virtual Amazon a funcionar no Brasil a pleno vapor, inclusive com a possibilidade de usar a conexão wireless do aparelho – e baixar livros em qualquer lugar.

Abstract ComicsJá há quadrinhos disponíveis para o mercado latino-americano. Já são quase 500 títulos na loja virtual – entre eles, um manual que ensina autores a converterem suas HQs para o formato do leitor.

A maioria deles é de mangás e materiais de pequenas editoras e independentes – o que, em tese, interessa a boa parte de criadores brasileiros, por sinal.

Outra novidade – anunciada ontem mesmo – foi o Nook, um concorrente do Kindle (e do Sony Reader, outro leitor de e-books) desenvolvido pela livraria Barnes & Noble. Na matéria que falou do lançamento, o New York Times disse que, em agosto, já havia 1,6 milhão de usuários da tecnologia. E, mais impressionante ainda, que em dezembro já serão 3,8 milhão. É gente pra caramba pra ser ignorada.

Abstract ComicsO impacto que a internet teve nos criadores já foi monumental. Tenho pra mim que o volume de lançamentos de qualidade do 6º FIQ e a quantidade de bons trabalhos independentes que rola por aí é consequência direta disso. Por isso, fico curioso com o que um aparelho mais adequado à leitura pode provocar – não só nos criadores, mas também no público.

Tanto os leitores de livros digitais quanto a legitimidade dos quadrinhos abstratos são adubo para a criação – e os criadores têm reagido muitíssimo bem à fertilização. Os quadrinhos não mudaram; nem vão mudar. A linguagem continua a mesma. Mas as possibilidades para produzi-los e distribuí-los estão cada vez maiores e mais interessantes.

Tudo indica que 2010 será, de novo, um grande ano.

Eduardo Nasi não vê a hora de lotar um Kindle de quadrinhos, sejam abstratos ou convencionais mesmo. As imagens que ilustram este artigo foram extraídas de Abstract Comics

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