Uma nova forma de expor quadrinhos: HQBR21 e por que o modelo atual não serve

Por Eduardo Nasi
Data: 23 julho, 2013

Fui ver a HQBR21 e saí do Sesc Belenzinho com a certeza de que precisamos rever urgentemente o que entendemos por uma exposição de quadrinhos.

Explico.

A exposição, a rigor, não tem problemas. Segue o cânone do que se espera encontrar em um evento do tipo.

Há uma divisão em três núcleos temáticos. O primeiro, logo na entrada do pavilhão, se chama Narrativas. É dedicado a HQs lançadas em livros, um fenômeno que os curadores veem como típico deste século no Brasil. Dentro de caixas, estão “originais” de artistas como Gustavo Duarte, Lourenço Mutarelli e Danilo Beyruth. (As aspas eu explico depois.)

Em seguida, uma mesa dá conta do núcleo Independentes. Há “originais”, revistas impressas, fotolitos e esboços. Estão representados grupos como Samba, Mondo Urbano e Graffitti.

Ao fundo, há uma área com diversas telas, em que se pode ler tiras que foram publicadas na internet. É o núcleo de Webtiras.

A exposição também tem minha parte favorita: uma pequena gibiteca com espaço para leitura de quadrinhos e um espaço de debates, que tem recebido autores para discussões.

Gibiteca e Espaço de Debates no HQBR21

É um trabalho bastante correto dos curadores Paulo Ramos, Alcimar Frazão e Juliana Santos. O tema é original, e merece não só uma visita, mas uma apreciação crítica dentro do cânone em que foi pensada (que não será feita aqui). Levando em consideração sua estrutura e montagem, não é muito diferente de outras boas mostras de quadrinhos que vi no Brasil e no mundo.

O problema é que história quadrinhos não é isso que se vê na exposição. Nem na HQBR21 nem em outras, por sinal.

História em quadrinhos é uma arte sequencial. A experiência das HQs acontece quando passamos de um requadro ao outro, e ao outro, e ao outro, do começo ao fim da narrativa.

Expor páginas soltas é como exibir um filme com fotogramas pendurados na parede.

As pessoas ligadas a esse mercado se esforçam para convencer o mundo que HQ não é literatura. Aí, ao preparar uma exposição, tratam quadrinhos como se fossem pinturas acadêmicas. Oras, quadrinhos também não são artes visuais.

Claro, é natural que haja essa idiossincrasia: foi assim que as primeiras exposições foram feitas. Aliás, ainda é como os grandes museus tratam os quadrinhos, bem como as bienais e as galerias. Natural que o meio dos quadrinhos siga esse vício. Minha proposta é que, agora, pensemos em abrir um novo ciclo.

Cito Robert Crumb, em entrevista concedida ao curador Hans Ulrich Obrist para o volume de The Conversation Series (Walther Konig, 48 p.) dedicado ao criador de Fritz The Cat:

“A ideia de estar em museus realmente não me inspira, não me excita e nem me interessa, na real. Eu gosto é de ver o meu trabalho impresso, é isso que mais me inspira. Pra mim, o trabalho pronto impresso é o trabalho pronto. Não é a arte original, é o livro impresso que me excita. A ideia de estar em um museu ou uma galeria não me entusiasma muito. Sinto-me lisonjeado que museus como o Ludwig ou o Carnegie queiram exibir minhas coisas, porque sei que muitos artistas estão se matando pra estar em lugares assim. Mas sei lá, pra mim é um interesse secundário, e se envolver nessas coisas de museus e galerias consome muito tempo. É um saco!”

Além de mostrar um criador que não vê muito sentido na forma como quadrinhos são expostos em museus, também quero usar o trecho de Crumb pra explicar as aspas na palavra “original”.

Núcleo Narrativas, no HQBR21

Afinal, o que é o original de uma HQ impressa? A discussão aumenta quando o “original” exposto de Marcello Quintanilha é uma impressão digital de páginas de seu álbum.

Os originais, então, estão no segmento Webtiras e na pequena gibiteca? Talvez seja isso mesmo. Porque esse é o produto final: o livro, a revista, o fanzine e a tela.

Não é o caso de não expor as artes que dão origem aos quadrinhos, e sim o de dizer exatamente o que eles são. Se a história em quadrinhos é uma arte que depende da leitura em sequência, se os “originais” não são os exatamente originais, o que afinal de contas vemos numa exposição que expõe processos? São processos criativos? São fragmentos? É uma questão que a curadoria de qualquer exposição de quadrinhos daqui pra frente precisa responder.

Mais: se quadrinhos não são outra arte que não quadrinhos, é preciso criar uma forma de expô-los. O modelo atual não serve mais. Então, o que vamos pôr no lugar? Como se exibe uma obra em quadrinhos com começo, meio e fim, com transição, com possibilidade de leitura e de uma forma adequada ao espaço expositivo?

Esse debate começa, mas não acaba aqui. Nas próximas semanas, volto a debater novas possibilidades de se expor quadrinhos aqui na coluna. Até lá, o debate já começa na seção de comentários abaixo.

 

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