Como matar sua esposa

Por Sérgio Codespoti
Data: 19 novembro, 2008

Como matar sua esposa
Calma! Não é preciso chamar a polícia nem jogar pedras. Não é o que parece.

Como matar sua esposa (How to murder your wife) é o
título de um filme, de 1965, dirigido por Richard Quine e estrelado por
Jack Lemmon e Virna Lisi, em seu primeiro filme americano.

A película é uma destas bobagens divertidas que costumavam passar na TV,
na Sessão da Tarde, no qual Lemmon interpreta o desenhista de tiras
de jornal Stanley Ford, um solteirão rico, festeiro e bonachão, dedicado
à boa vida e, principalmente, às mulheres.

O enredo é uma sátira tanto à vida de um rico desenhista (espelhando parcialmente
a realidade de gente como Alex Raymond, Milton Caniff e outros), quanto
ao feminismo emergente nos Estados Unidos, na década de 1960.

O protagonista tem até um mordomo, Charles (uma interpretação hilária
do comediante inglês Terry Thomas), que o trata como se fosse um príncipe
e abre o filme com um discurso, no qual fala diretamente para o público
que “Stanley Ford é um homem perfeitamente feliz, porque nunca se casou”.

Como matar sua esposa
Toda essa vida luxuosa é fruto do sucesso de sua tira, a aventura policial
Bash Brannigan, na qual o personagem principal, um detetive parodia
as diversas tiras realistas do gênero em aventuras violentas e cheias
de sexualidade.

Para garantir a qualidade da arte e suas referências, Ford e seu mordomo
interpretam – com Ford atuando e Charles fotografando – muitas das aventuras
pelas ruas de Nova York, criando uma grande confusão para o público.

Mas essa vida paradisíaca de playboy chega ao fim quando Ford,
completamente bêbado numa despedida de solteiro, decide se casar com uma
modelo italiana (Virna Lisi), que havia saltado de dentro do bolo e mal
falava inglês.

Casado com uma estrangeira, o primeiro problema de Ford surge quando seu
mordomo, Charles, contrário a matrimônios, fica indignado com o fato,
considerando uma verdadeira traição à vida de excessos dos solteiros.

Agora, Ford pertence ao outro “time”, o dos casados. Sentindo-se ultrajado,
Charles decide que não pode mais trabalhar para o patrão e se demite.

Estabelecido em sua vida de casado e sem o seu mordomo, Ford muda o nome
da tira para The Brannigans, e passa a refletir a sua nova realidade,
tornando-a uma comédia romântica.

Então começam seus maiores problemas: quando ele decide matar a sua esposa
nas tiras, e a realidade se mistura à fantasia. Para não estragar a história
– mais do que já fiz -, basta dizer que o enredo de George Axelrod (que
também escreveu O Pecado Mora ao Lado) é uma grande bobagem e,
como em toda película digna dos bons tempos da Sessão da Tarde,
tudo se resolve bem.

Virna Lisi
Quando Lemmon decidiu fazer o filme, queria que o artista que iria desenhar
as tiras em seu lugar fosse Bill Everett, pois gostava muito, quando criança,
das aventuras de Namor, o Príncipe Submarino.

Na época, Everett estava se recuperando de vários problemas de saúde,
derivados do alcoolismo, e não aceitou a oferta. Quem foi contratado em
seu lugar foi Alex Toth.

Toth (1928-2006) é um dos grandes desenhistas em quadrinhos norte-americanos,
conhecido por seu trabalho para a DC
Comics
, Dell e outras editoras, além de
ter desenhado personagens como Zorro, Torpedo e desenhos da Hanna
Barbera
, como Space Ghost, Herculóides e Jonny Quest.

Virna Lisi
Para promover o filme, os produtores pediram a Toth que criasse o equivalente
a duas semanas de tiras, que foram publicadas no The Hollywood Reporter,
um jornal diário tradicional, cobrindo a indústria do cinema (e que hoje
é mais abrangente) e também em outros periódicos.

Apesar de o personagem no filme ser Bash Brannigan, inicialmente a tira
publicada se chama Steve Bentley, secret agent e, antes de terminar
sua publicação, ainda tem vários outros nomes, aparentemente numa tentativa
de confundir os leitores e aguçar a curiosidade deles.

Afinal, nas tiras o detetive está em busca de uma misteriosa atriz italiana
que fará sua estréia nos cinemas dos Estados Unidos.

(A atriz em questão era Virna Lisi, que está belíssima no filme. Em 1965,
ano de estréia de Como matar sua esposa, ela foi capa da revista
Esquire, numa foto polêmica na qual ela está se barbeando – uma
imagem idealizada pelo diretor de arte George Lois para provocar as feministas
– algo que nenhuma outra atriz norte-americana quis fazer.)

Mel Keefer
Mas, segundo Mark Evanier, Toth acabou se desentendendo com o produtor
Axelrod e, como era canhoto e Lemmon, destro, isso dificultava o seu uso
como dublê nas cenas de desenho. Assim, ele se afastou do filme e foi
substituído por Mel Keefer.

Keefer, nascido em 1926, é um desenhista pouco conhecido atualmente, mas
teve uma longa carreira desenhando tiras. Sua série Mac Divot,
sobre jogadores de golfe e celebridades, chegou a ser publicada em mais
de 150 jornais e durou 22 anos (de 1955-1971).

Ele também desenhou Dragnet, Gene Autry, Perry Mason, Monty Hall,
Superman, Batman, Zorro, Tales of the Texas Rangers, Thorn McBride, Strange
Adventures, Dale Evans, Uncle Martin the Martian, Jonny Quest, Rick O’
Shay
e The Swamp Fox.

Alex Raymond
O aspecto mais revelador do filme, entretanto, é o prestígio que os artistas
de tiras (as comic strips) de aventura (e drama) realistas tinham
na época, principalmente se comparados com o mercado de comic books,
as revistas em quadrinhos.

Bash Brannigan é uma paródia de vários elementos do gênero, mas,
de certa forma, tanto o personagem quanto seu criador Stanley Ford refletem
a vida de outro cartunista muito famoso: Alex Raymond.

Raymond (1909-1956) é, possivelmente, o mais famoso e celebrado dos artistas
de tiras com arte realista. Criador de Flash Gordon, também desenhou
o Agente Secreto X-9 e Jim das Selvas. Outro personagem
que deixou famoso é Rip Kirby (Nick Holmes, no Brasil),
embora ele tenha sido criado por Ward Greene e Fred Dickinson.

Rip Kirby é uma espécie de Bash Brannigan, assim como
Raymond tinha algumas das qualidades de Stanley Ford.

Embora fosse casado com Helen Frances Williams (ao contrário do personagem
Ford, que era solteiro), Raymond era uma celebridade. Considerado um sujeito
bonito, ganhava muito dinheiro com suas tiras e colecionava carros esportivos.
Ele adorava as corridas e costumava desenhar alguns dos carros de sua
coleção em suas tiras.

Ou seja, uma vida que possui um paralelo com o glamour da rotina
de Stanley Ford, cujo mordomo lhe trazia Martinis em cálices gelados e
cuidava de toda a sua aparência.

Apenas para exemplificar o sucesso do artista – em contraste com os desenhistas
das revistas de quadrinhos, assunto que já abordado na coluna
anterior
– vale dizer que o King Features Syndicate
chegou a lhe oferecer mais 35 mil dólares por ano (uma fortuna na década
de 1950), para que ele fizesse tiras dominicais de Nick Holmes,
e Raymond se negou por achar que era muito trabalho.

Stanley Albert Drake
Ao contrário do personagem Stanley Ford, a vida de Raymond não terminou
bem. Em 6 de setembro de 1956, ele morreu num desastre de automóvel que
também envolveu o desenhista Stan Drake, fato noticiado com estardalhaço
pelos jornais na época.

Stanley Albert Drake (1921 – 1997) se destacou por ser o criador de Heart
of Juliet Jones
(juntamente com o escritor Elliot Caplin), uma série
de tiras romântica de muito sucesso, desenhada com grande realismo e expressividade;
e por ser um dos artistas da tira Blondie, após a morte de Chic
Young.

Raymond e Drake tornaram-se colegas devido ao respeito que tinham um pelo
trabalho artístico do outro. Não eram amigos íntimos, mas dividiam paixões
como o automobilismo e os quadrinhos.

Outra coisa que dividiam em comum era a participação do artista Phillip
“Tex” Blaisdell, um especialista no desenho de cenários, em suas tiras.

Raymond utilizou algumas vezes os serviços de Blaisdell e até chegou a
convidá-lo para ser seu assistente. Drake, por outro lado, considerava
o trabalho de Blaisdell essencial para Heart of Juliet Jones.

Blaisdell também trabalhou para Hal Foster (Príncipe Valente),
Leonard
Starr
(On Stage) e John Prentice (que assumiu Nick Holmes
após a morte de Raymond).

Drake desconhecia a vida pessoal de Raymond e não sabia que o artista,
embora no auge de sua carreira, estava com uma série de problemas. Alex
Raymond e sua esposa estavam vivendo separados – como ambos eram muito
católicos, ela não queria conceder ao marido o divórcio, para que ele
pudesse se casar com sua amante.

Um problema que, de certa forma, também reflete o enredo de Como matar
sua esposa
.

Mercedes - July 1956
No fatídico 6 de setembro de 1956, Raymond e Drake se encontraram e saíram
juntos para que o desenhista de Flah Gordon pudesse experimentar
a Corvette conversível de seu colega e compará-la ao seu Mercedes esportivo.

Segundo o testemunho de Drake, que sobreviveu ao acidente, eles estavam
na estrada (Clapboard Road), perto de Wesport, em Connecticut, chovia,
e a capota da Corvette estava levantada. Raymond corria bastante e não
viu um sinal de parada escondido pela vegetação. Por isso, acabou jogando
o carro num barranco.

O automóvel voou perto de 20 metros antes de cair no chão e bater numa
árvore. Raymond morreu instantaneamente quando um pedaço do pára-brisa
estilhaçado lhe entrou pela garganta e saiu do outro lado de seu crânio.
Drake foi jogado para fora, provavelmente pela porta, e caiu a uma distância
de dez metros da Corvette.

Drake havia quebrado o ombro, teve ferimentos internos, suas duas orelhas
foram arrancadas (foram recosturadas em sua cabeça) e seu crânio abriu
de ponta a ponta. Ele tinha um problema congênito: os ossos de seu crânio
não haviam se fechado completamente quando criança e ele possuía uma espécie
de aresta de cálcio no lugar, que se abriu no acidente. O artista ficou
vários meses no hospital sem poder trabalhar.

Alex Raymond
Mais tarde, Drake soube que a esposa de Raymond achava que ele apoiava
o romance extraconjugal de seu marido – fato que ele desconhecia – e por
isso nunca foi visitá-lo no hospital.

Também soube que Raymond tinha uma apólice de seguro de 500 mil dólares
que favorecia Helen, e que esse valor duplicava no caso de morte acidental.
Drake chegou a ser visitado por um agente da seguradora, que achava que
seu colega pudesse ter cometido um suicídio.

Esta hipótese também foi levantada por um dos médicos do hospital, que
já havia tratado de Raymond em quatro acidentes de carro anteriores. Drake,
ainda se recuperando, chutou o sujeito para fora de sua casa.

Acidente ou suicídio, a morte de Raymond aos 46 anos foi uma tragédia.

E quem sabe que outras histórias ele teria feito se estivesse vivo?

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Sérgio Codespoti é fã de Jack Lemmon, Virna Lisi,
Alex Raymond, Stan Drake e Alex Toth; e confessa que não pensa em matar
sua esposa.
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Bash BranniganBash BranniganBash BranniganBash Brannigan

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