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Última atualização: 17/05/08       

Entrevista
 

Amores Possíveis enfoca as várias possibilidades de um relacionamento

A equipe do longa-metragem concedeu uma entrevista coletiva, na qual falou de suas expectativas, o sucesso no Festival de Sundance, onde ganhou o prêmio de melhor filme Latino-Americano e o que rolou por trás das câmeras

por Samir Naliato

Pôster de Amores PossíveisNo dia 13 de março, aconteceu, no Rio de Janeiro, uma exibição do filme Amores Possíveis, seguida de uma entrevista coletiva para a imprensa, com a equipe do longa-metragem. O Universo HQ também esteve lá.

Marcaram presença a diretora Sandra Werneck, e os atores Murilo Benício, Emílio de Mello e Beth Goulart, além do ator mirim Alberto Szafran, que protagonizou o momento de maior descontração da coletiva, ao responder uma pergunta sobre sua escalação para o filme.

Não puderam comparecer as atrizes Irene Ravache, por motivos pessoais, e Carolina Ferraz, que estava gravando a novela Estrela Guia, da Rede Globo.

Eles falaram sobre os trabalhos feitos por trás das câmeras; o sucesso no Festival de Sundance, onde Amores Possíveis ganhou o prêmio de melhor filme Latino-Americano; as expectativas para o lançamento, que acontece dia 30 de março em todo o Brasil; seus futuros projetos; e muito mais.

Confira também a nossa crítica sobre o filme, e a notícia sobre a festa de lançamento. Veja o que rolou na entrevista coletiva.

Sandra WerneckPergunta: Sandra, no próprio release de Amores Possíveis, você afirma que a segunda situação do filme é a que considera a mais humana, a que você contou com mais prazer. O que a motivou a cuidar com um pouco mais de esmero do desenvolvimento dos personagens e dos dramas que se apresentam?

Sandra Werneck: Eu cuidei das histórias igualmente. Cada uma tem um sentido diferente. Por exemplo, a terceira é mais comédia, então, não se pode comparar com a segunda, porque foi feita para ser uma trama mais emocional.

Já a primeira história contrabalança com as outras, porque é mais certinha, mais clássica. Quando eu li as três, gostava delas igualmente. Tudo veio a favor da última, e acho que isso foi bom. Era a qual todos estavam mais acostumados no set de filmagem.

O interessante é que a segunda história nunca foi feita no cinema brasileiro. Então, nesse sentido é algo novo, como o filme que traz uma narrativa original ao contar três tramas intercaladas. Eu olho para a segunda história e meu coração aperta. O Murilo (Benício) está maravilhoso, o Emílio (de Mello) dá um banho, a Carolina (Ferraz) está esplendorosa, tudo funciona. O Alberto (Azafran) (Nota do UHQ: filho de Murilo e Carolina na segunda trama) está muito natural.


Pergunta: Aquela fotografia no passeio deles, na segunda história, era uma cena escrita no roteiro ou foi um toque seu?

Sandra: Um toque meu.

Pergunta: Murilo, como foi a construção desses personagens?

Murilo BenícioMurilo Benício: Bom, o filme conta três possibilidades de vida de uma mesma pessoa, e uma coisa que eu estava bem atento e achava bem interessante, era que se os três se encontrassem, um jamais viveria a vida do outro. Então, eu queria fazer três possibilidades bem diversificadas de caráter, de jeito, de humor etc. Acho que o ponto de partida foi a diferenças de um para o outro.

Sandra: Gostaria de falar um pouquinho sobre isso, porque é interessante saber como trabalhamos. Fizemos ensaios. Seria esquizofrênico filmar o Carlos (Nota UHQ: personagem de Murilo Benício) gay de manhã; de tarde o maluco que mora com a mãe; e de noite o Carlos "careta". Então, foi filmado por partes. Foi algo que os atores me pediram e aceitei na hora, porque foi muito importante tanto para o trabalho deles quanto para o meu. Líamos muito. Desde o começo do roteiro, o Emílio, Murilo, a Beth iam lá pra casa e trabalhávamos juntos. Tem muita coisa dos atores nesse roteiro também.


Pergunta: Beth, no filme você é o protótipo da boa esposa. Como se situou nessa personagem?

Beth Goulart: Eu procurei fazer, dentro de um personagem aparentemente previsível, com algumas facetas internas. Algumas sutilezas. Ela realmente ama Carlos, e acha que o amor, a forma de amar, que pode ser mais eficiente naquela relação, é dessa forma. Um amor "porto seguro", que supre, que entende o outro, que o conhece tão bem que sabe que ele pode até ter uma aventura, mas vai acabar voltando pra ela porque ninguém vai saber amá-lo como ela; ninguém vai saber fazer a comida que ele gosta; ninguém vai supri-lo como ele gosta.

Procurei fazer não só a mulher de uma relação careta, mas uma possibilidade que é real, e talvez a mais comum, de um amor "porto seguro", que dá a ele uma sensação de segurança, afeto, carinho, compreensão, aceitamento... É um pouco um amor maternal, transferido para a esposa. Alguns homens sentem a necessidade dessa figura para se sentirem mais fortes, diante da sociedade e de si mesmos. Esse é um pouco o caso do Carlos da primeira história. Por isso, ela é tão segura quando encontra a outra e fala "vou dizer pra ele que encontrei você". É um pequeno momento onde ela passa para a outra dizendo assim "eu sei que ele está com você, mas sei também que vai voltar pra mim".

Outra coisa que eu acho interessante no filme, é que ele não afirma nada, apenas supõe. Eu acho isso uma qualidade. Ele propõe questionamentos, e não afirma. Ele não diz "É isso", mas sim "Pode ser, por que não?".


Cena de Amores PossíveisPergunta: Sandra, como você escolheu o tema?

Sandra: É impressionante, mas ele nasceu dentro de mim. Já tentei pegar um bom livro, ler coisas interessantes e fazer adaptação. Eu não sei. Sou meio autora nesse sentido. A idéia tem que nascer dentro de mim para eu acreditar. O cinema é feito de várias etapas. Por exemplo, em Amores Possíveis, eu estava com alguma dúvida que não conseguia resolver. Fui pra Bahia com minha filha, e começamos a conversar. Ela é co-autora do argumento original, e ficamos uma semana trabalhando lá. Quando voltamos, chamei o Paulo Halm (Nota UHQ: o roteirista do filme) e ele disse "Sandra, mas que confusão! Isso não dá filme, não". E eu respondi "Dá sim, vai pra casa trabalhar". E ficávamos nos falando. Uma semana depois o roteiro estava pronto.

É claro que trabalhamos um ano nesse roteiro, chamei vários colaboradores, mas a essência estava lá.


Pergunta: Sandra, do filme inteiro, qual é a cena que te dá mais alegria?

Sandra: Há tantas... mas uma cena que dá tudo certo, cinematograficamente falando... a luz é bonita, a luz está bem, os atores estão ótimos, é a do Murilo dançando com a Irene Ravache!

Pergunta: Sandra, provavelmente haverá comparações com O Dicionário Amoroso. Fale sobre isso, o que tem a ver etc.

Sandra: Eu acho que tem a ver, porque ambos falam de afeto. De resto, é totalmente diferente. Em Dicionário Amoroso, você tinha a história de uma relação afetiva, e esse filme tem três histórias, e cada uma toca em uma parte do sentimento. O conflito faz parte das tramas, mas não se fala só de amor nesse filme. Tem a relação edipiana de mãe e filho, com a ex-muher, de amizade, cumplicidade. Quer dizer, não é só uma história de amor. Nesse sentido tem muita diferença.

Pergunta: Murilo, qual das três histórias te marcou mais?

Murilo: Desde que começamos a ler o roteiro, eu gostei mais da segunda história, por ser algo que ainda não tinha visto no cinema. E a abordagem é feita de uma forma muito interessante. A fraqueza humana, a separação. Desde o início, achei que essa história era a que mais me identificava, como espectador. A terceira história é bem engraçada, onde o público teria a chance de dar uma relaxada e poder voltar para a primeira, onde o Carlos está cheio de problemas e não tem coragem para tentar algo diferente.

Acho que existe uma mistura muito grande nas histórias, onde se pode abordar lados completamente diferentes. E a que mais me chamava atenção era a dois (Nota UHQ: Na segunda história, o personagem de Murilo é gay, e trocou a esposa por um homem).


Elenco de Amores Possíveis durante a entrevista coletivaPergunta: Além de abordar histórias de amor, discute-se muito a instituição do casamento. O que vocês pensam sobre isso?

Emílio de Mello: Eu acho que a discussão do casamento, hoje em dia, está em todos os lugares. Todo mundo discute relações humanas, e isso acontece no filme. Não existe um padrão de casamento, ainda estamos procurando um. Não sabemos o que dá certo, ou o que dá errado... Antigamente, as pessoas ficavam casadas mesmo não se amando mais. Meu pai e minha mãe são casados há mais de 30 anos, não sei se ainda se amam, mas estão lá, juntos.

Acho que é uma busca. Eu busco isso, e acredito que todos aqui busquem isso ainda. Que é como se relacionar, como é viver a dois. Não sabemos isso ainda, não temos uma fórmula para ser seguida. É um pouco fruto da sociedade contemporânea.

Beth: Concordo com o Emílio. Sou filha de um casal "modelo", que é lindo e se ama. Eu recebi um padrão de amar muito difícil de ser seguido. Sou bastante diferente de minha mãe. Então, não posso amar da mesma forma que ela. Eu não vou ser feliz como ela. Um tipo de amor de entrega é, às vezes, uma quase anulação. A gente busca o equilíbrio das relações quando nos respeitamos e nos colocamos mais diante o outro, quando também nos amamos. O amor é uma troca, não uma posse. Aí que está o "x" da dificuldade, porque normalmente as pessoas se apossam daquilo que amam, e isso começa todo o problema do casamento, o ciúme, o controle etc...

Cada um tem que se conhecer melhor, se amar melhor e se colocar melhor para o amor. Ter na cabeça que é uma relação de troca e não de posse.

Sandra: O filme levanta questões. Cada personagem de cada história lida com o amor de uma forma diferente. Na primeira, ele prefere voltar para a segurança em troca do amor. Na segunda, ele transgride e opta pelo desejo. Eu acho bonita essa história, porque a família era importante, mas ele prefere o amor. E na terceira, eu chamo de história da idealização. Ele está sempre idealizando uma mulher, mas quando ele resolve o problema, que, na verdade, é a mãe quem resolve pra ele - graças a Deus -, o personagem consegue ver que o amor também tem defeitos. Se a mãe não gostava do cara jogar frescobol na praia e acabou aceitando, porque não a Julia (Nota UHQ: Personagem de Carolina Ferraz) não pode ser o amor da vida dele?

Sobre casamento, eu falo o mesmo que a Beth. Acho que não existe modelo. O amor, a troca, a cumplicidade, a parceria, a sensualidade, a amizade... Acredito no casamento, sim. Já fui casada e hoje não sou, mas acho que duas pessoas podem ser felizes juntas.

Murilo: Sobrou pouco para falar (risos). Eu acho que até hoje o maior sonho que uma pessoa possa ter é encontrar uma pessoa e dividir sonhos, fazer projetos etc. Eu acho que não mudou o casamento, de uns anos pra cá. As pessoas resolveram ser mais sinceras umas com as outras. Por isso, se separam mais do que antes, mas todos ainda estão na mesma busca de encontrar uma pessoa.

Tem tantos estágios em um casamento. Você tem que encontrar essa maturidade de descobrir e aproveitar cada um deles. Também depende de muita vontade de aprender. Acho que isso acontece muito na segunda história, que é sobre um cara que está disposto a sofrer e aprender, o que não acontece na primeira; e muito menos na terceira, onde o personagem nem sabe o que está acontecendo.

Sandra: Como disse o personagem do Emílio (Pedro), "Amar dá trabalho".




 


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