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Do Inferno supera as melhores expectativas
O Universo HQ esteve presente numa secretíssima projeção do filme para a imprensa, realizada em São Paulo, e constatou: trata-se de uma bela adaptação
por Ricardo Rigotti* (26/10/2001)
Impressionante como a criatividade dos roteiristas de Hollywood anda cada vez mais escassa. Numa época em que o público sofre com a falta de imaginação, representada na produção de infindáveis seqüências (algumas disfarçadas de prequels - não se engane: apesar da roupagem teoricamente original, não deixam de ser continuações que reaproveitam uma idéia já usada), os produtores tem que buscar personagens e histórias em outras mídias, como é o caso dos quadrinhos.
Felizmente, parece que os engravatados de Hollywood tiveram o bom senso de ir beber na fonte de um dos maiores quadrinistas de todos os tempos, Alan Moore. Nasceu, aí, a adaptação para as telas da cultuada história Do Inferno, um dos mais festejados trabalhados do artista inglês, que já assinou obras como Watchmen, V de Vingança, A Piada Mortal, As Aventuras da Liga Extraordinária e outros.
Antes de qualquer coisa, é surpreendente que uma história de Moore tenha sido escolhida para ser a base de um filme. Afinal, todos os seus argumentos, sem exceção, fogem ao modo hollywoodiano de ser, com personagens complexos e muito bem desenvolvidos, histórias que apresentam profundidade e reflexão sem deturpar o ritmo da narrativa e, principalmente, nunca apelando para soluções fáceis - certamente, o maior pecado do cinema norte-americano dos dias de hoje. Portanto, não foi à toa que, assim que surgiu a notícia que Do Inferno chegaria às telas, muitos fãs de quadrinhos (entre eles, este que vos escreve) pensaram: "Hum... aí vem bomba! Agora, vão conseguir estragar Alan Moore também!"
Mas, para felicidade geral dos amantes das boas HQs, todos estavam errados. Do Inferno é tão absorvente e empolgante, quanto a obra que o inspirou. O filme é dirigido pelos irmãos Hughes, que, acostumados a trabalharem no circuito independente, ainda não foram fisgados pela máquina da produção hollywoodiana. Se fosse realizado por um Michael Bay ou um John McTiernan da vida, com certeza, o longa perderia a sua melhor qualidade: a preocupação com os detalhes.
A caçada ao criminoso Jack, o Estripador, protagonizada pelo inspetor Abberline (Johnny Depp, realçando sua predileção em interpretar outsiders) e por seu ajudante, o sargento Peter Godley (Robbie Coltrane) leva a platéia para o submundo da Londres do final do século 19, que nunca havia sido retratado com tanta perfeição no cinema. As ruas são sujas, as pessoas mais imundas ainda e a criminalidade e a desordem imperam. Assim como nos quadrinhos, bastam apenas alguns minutos para se sentir, na pele, o clima de caos onde a história se situa.
Os personagens estão todos muito bem delineados, tanto Abberline, que sofre e tira proveito prático de suas visões; quanto a prostituta Mary Kelly (Heather Graham) e o cirurgião Sir William Gull (Ian Holm). No entanto, o filme é todo de Depp, que, ao contrário do que muita gente imaginava, não aproveitou o clima gótico para repetir o seu Ichabod Crane de A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça.
Seu personagem cheira ópio e toma absinto o tempo todo, mostrando que, mesmo sendo o herói da história, ele também é parte da decadente sociedade londrina da época. Digna de nota também é a presença de Heather Graham como Mary Kelly. Ela representa o elo de ligação do público com a trama e, como qualquer pessoa normal (o que, definitivamente, não é o caso de Abberline) faria, quer abandonar aquele universo o mais rápido possível.
Mas o mais importante, que é o clima de terror sugerido pela história, está todo lá. A atmosfera sombria, realçada pela soturna trilha sonora - excelente - de Trevor Jones, deixa bem claro que o estripador pode atacar a qualquer momento, de onde menos se espera. Aliás, um detalhe importante foi mudado. Nos quadrinhos, desde o primeiro momento o leitor sabe a identidade e os motivos do assassino. No cinema, isso será descoberto apenas no final - mudança válida, pois, caso o filme apresentasse o segredo logo no começo, a trama não funcionaria tão bem nas telas.
Ao acender das luzes, o resultado que fica é o de alívio, já que o filme incomoda (no bom sentido) - visual e contextualmente. Tanto que, dificilmente, Do Inferno, quando estrear no Brasil, em janeiro de 2002, terá uma censura mais leve que 18 anos. Entretanto, mesmo depois da projeção, algumas cenas ficam marcadas na memória, como o primeiro ataque de Jack, onde, num beco escuro, vemos apenas o reflexo da lâmina e o barulho de carne sendo cortada. É, literalmente, assistir aos quadrinhos.
E, sabendo que trata-se da adaptação de uma obra de Alan Moore, a sensação de incômodo ao sair do cinema é sinal de que o filme foi bem-sucedido. Afinal, Moore é um artista, e todas as suas obras incomodam muito.
Do Inferno pode ser considerado uma das melhores adaptações de quadrinhos para o cinema até hoje, porém, não irá agradar a todos os públicos - o que, no caso de Alan Moore, é uma vantagem. Mas, se você é daqueles que leu a HQ e está louco para ver o resultado nos cinemas, corra para assistir ao filme no dia da estréia... O resultado final vai surpreendê-lo!
* Ricardo Rigotti Silva é Editor das revistas Sci-Fi News e Sci-Fi News Cinema
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