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Carandiru ressurge na tela do cinema
Por Beth Andalaft (11/04/2003)
Uma das produções nacionais mais aguardadas da temporada,
Carandiru, é um bom filme, mas não vai agradar a todos. Primeiro, porque não há propriamente um protagonista, mas sim
várias histórias amarradas pelo narrador. Em seguida, porque
depois do impactante Cidade de Deus, qualquer filme perde na inevitável comparação. Mas, apesar disso, é preciso ver um dos melhores trabalhos do diretor Hector Babenco (sempre
associado a Pixote, a Lei do Mais Fraco).
No centro da trama está mesmo a Casa de Detenção de São
Paulo, que foi o maior presídio da América da Latina. A
produção baseia-se no livro Estação Carandiru, do médico
Drauzio Varella, que vendeu mais de 350 mil exemplares e está
na lista dos mais lidos há 160 semanas. Carandiru é um filme
superlativo, com um orçamento de R$ 12 milhões, um elenco
principal de 26 atores e cerca de oito mil figurantes.
Babenco acertou em cheio ao mesclar atores veteranos, famosos
e iniciantes em seu elenco, com a coragem de colocar o galã
do momento, Rodrigo Santoro (que queria muito fazer o
personagem), no papel de um gay.
O elenco traz nomes que estão despontando no cinema nacional,
como Wagner Moura (Deus é Brasileiro), Lázaro Ramos (Madame
Satã) e Sabrina Greve (Uma Vida em Segredo). Entre os
novatos, chama a atenção Milhem Cortaz e Ailton Graça. O
rapper Sabotage (O Invasor), assassinado em janeiro último,
pode ser visto em uma de suas últimas participações no
cinema. Há ainda os veteranos Milton Gonçalves, Ivan de
Almeida, Enrique Dias e Ricardo Blat com suas sempre corretas
interpretações, que só acrescentam.
Só inocentes – O fio condutor e elo entre as muitas histórias
narradas é o médico Varella (Luiz Carlos Vasconcelos, de Eu,
Tu, Eles) que, por mais de 10 anos, desenvolveu um trabalho
de prevenção à AIDS na penitenciária. É no diálogo com o
médico que o detento conta o porquê de sua presença no
Carandiru. O filme corta então para a cena solo daquele
personagem, movimentando a trama. É quando médico e
espectadores ficam sabendo que ali há só inocentes, como
dizem os detentos. Com essa narrativa, há inúmeros
protagonistas. Ninguém se destaca de ponta a ponta, mas sim
num determinado trecho. Babenco conseguiu, assim, cenas
ótimas de quase todo o elenco.
Mas é justamente o narrador, Vasconcelos que destoa. Apático,
sempre com a mesma expressão, por mais que ele reafirme sua
intenção de apenas ouvir, sem julgar, é impossível aceitar
que o médico agisse daquela maneira. Se o próprio Varella
tivesse atuado, com sua experiência em programas de
televisão, teria feito muito melhor. Mesmo assim, Carandiru
confirma a boa fase do cinema nacional. Interpretando o
travesti Lady Di, Rodrigo Santoro reafirma seu talento. As
fãs do rapaz, provavelmente, não gostarão quando ele
contracena com Gero Camilo.
Simpatia com detentos – Um ponto que levanta críticas, e que
também ocorria na leitura do livro de Varella, está no fato
de os detentos despertarem simpatia no espectador. Na
narrativa da história de Majestade (Ailton Graça), por
exemplo, é muito fácil se envolver na relação que ele mantém
com duas mulheres (interpretadas por Maria Luísa Mendonça e
Aída Lerner). Ele é aquele cara alegre, cativante, embora
comande o tráfico de drogas dentro da penitenciária,
eliminando seus devedores sem nenhuma compaixão.
O novato Milhem Cortaz impressiona como o matador Peixeira.
As cenas do massacre de 111 presos em 1992 também estão muito
bem feitas. Babenco, a exemplo de Varella em seu livro,
mostra apenas a visão dos presidiários sobre o tema. E isso é
ressaltado no final. É preciso não esquecer que Carandiru é
uma obra ficção e não um documentário. Não dá para exigir
fidelidade total. No cômputo geral, o filme de Babenco tem
seu espaço garantido como uma das boas obras da nova fase do
cinema nacional.
Nota:    
Links Sugeridos:
Carandiru
Trailer
FICHA TÉCNICA:
Carandiru (Carandiru, Brasil, 2003)
Direção: Hector Babenco
Roteiro: Victor Navas, Fernando Bonassi, Hector Babenco
Elenco: Luiz Carlos Vasconcelos, Milton Gonçalves, Ivan de
Almeida, Ailton Graça, Maria Luísa Mendonça, Aídar Lerner,
Rodrigo Santoro, Gero Camilo, Lázaro Ramos, Caio Blat, Wagner
Moura, Sabrina Greve, Floriano Peixoto, Ricardo Blat, Vanessa
Gerbelli, Milhem Cortaz, Antonio Grassi, Enrique Dias,
Sabotage, Rita Cadillac e Oscar Magrini.
Gênero: ficção
Duração: 146 minutos
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