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Nova York forja-se na guerra de gangues
Por Beth Andalaft (12/02/2003)
Começam a chegar às telas dos cinemas brasileiros os filmes indicados ao Oscar, prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. A indicação oficial foi realizada nesta terça-feira, dia 11, e os
espectadores já podem conferir um dos indicados –
Gangues de Nova York (Gangs of New York). A produção levou dois Globos de Ouro (melhor diretor, Martin
Scorsese e melhor música original, U2) e foi indicado para dez categorias no Oscar, incluindo Daniel Day-Lewis, como melhor ator e Martin Scorsese, como melhor diretor.
Gangues de Nova York vai dividir opiniões porque, embora seja
um bom filme, tem uma carpintaria e a narrativa do drama tradicional, contrapondo o vilão ao mocinho, contando uma história de vingança, amizade e traição. Recorre ainda ao triângulo amoroso para dar mais cor à história. Assim, aqueles que esperam sempre inovações, vão considerá-lo apenas mais um épico. Os menos exigentes verão que esse aspecto não tira o mérito da produção, porque Scorsese é um ótimo diretor e sabe conduzir a trama, de modo a prender a atenção do
espectador durante as quase três horas de duração do filme.
Gangues dividem a cidade – Scorsese acalentou por 30 anos o
sonho de contar como se deu a formação da cidade de Nova
York, desde que leu, em 1970, o livro de Herbert Asbury, no
qual se baseia o filme. A ação se passa nos anos de 1860,
quando a cidade era dominada por várias gangues, que brigavam
entre si para chefiar a região conhecida como Cinco Pontos.
William Cutting, Bill "o açougueiro" (Daniel Day-Lewis, de
Meu Pé Esquerdo) mata o "pastor" Vallon (Liam Neeson, Star
Wars) e torna-se o senhor da região. A partir dessa data,
tudo o que é obtido por meio de roubo ou saque é dividido com
Bill.
Não há charme, nem beleza. As ruas são imundas, a cidade é
feia, as pessoas mais ainda. Nesse aspecto, o filme é
primoroso. A reconstituição de época, os figurinos e a
cenografia montada nos estúdios Cinecitta em Roma, Itália,
são magníficos. As lutas tomam as ruas diariamente e as
armas, à época, não passavam de instrumentos domésticos, como
facas e cutelos. Assim, Gangues de Nova York tem cenas muito
violentas e muito sangue.
Vingança – Amsterdam Vallon (Leonardo DiCaprio, de Titanic e, em breve, em Prenda-me se For Capaz) é o mocinho da história.
Após ver Bill matar o pai, o "pastor" Vallon, ele promete
vingança. Passa 16 anos num orfanato e retorna para matar o
assassino de seu pai. Mas, ele não quer simplesmente destruir
aquele homem. Primeiro quer se infiltrar no grupo e
conquistar a confiança de Bill. Ao fazer isso, convivendo com
o assassino, Amsterdam fica dividido. Mesmo sem querer, ele
nutre certo afeto pelo violento Bill . No fundo, ele sabe que
o pai também era um homem das ruas e poderia ter sido o
vencedor, matando o outro.
É nas ruas também que ele conhece a ladra Jenny (Cameron
Diaz, de As Panteras), protegida de Bill e por quem Amsterdam
vai se apaixonar. O envolvimento dos dois traz mais conflitos
ao rapaz. Ele consegue se tornar o queridinho de Bill,
despertando inveja em outros integrantes do bando. Até chegar
o dia em que os dois terão um confronto. E isso vai ocorrer
exatamente quando também se dá a revolta dos homens contra a
convocação para a Guerra Civil. Só era dispensado quem
pudesse pagar 300 dólares. Durante quatro dias e quatro
noites, ocorreram rebeliões, confrontos e a destruição da
cidade.
Preconceito – Bill representa o forte preconceito que
acometia aqueles que se consideravam verdadeiros americanos e
não aceitavam a chegada em massa de irlandeses (eram 15 mil por
semana), que iam em busca do sonho americano. Bill e seus
comparsas se chamavam de nativistas e queriam expulsar os
imigrantes, pois eles não haviam lutado para construir aquela
cidade. Day-Lewis, após cinco anos longe do cinema, retorna
na sua melhor forma. Está perfeito como o violento Bill. Jim
Broadbent (de Íris e Moulin Rouge), mais uma vez se destaca. Ele interpreta o político Tweed, cujas falas são da mais
perfeita atualidade. Políticos não mudam nunca!
Um senão de Gangues de Nova York está na preservação da "baby
face" de DiCaprio. Numa luta com Bill, este promete deformá-
lo. Soca seu rosto sem dó nem piedade e o queima. Passados
alguns dias, lá está o rostinho lindo de DiCaprio sem um
arranhão. Numa produção desse porte, com tantos detalhes e
cuidados, é imperdoável uma falha dessas só para agradar às
fãs do galã. Em contrapartida, o final vai transformando a
feia e suja Nova York no que ela é hoje, com cenas bonitas,
incluindo as torres gêmeas do Trade Center, destruídas pelo
atentado de setembro de 2001.

Nota:    
Links Sugeridos:
Gangues de Nova York
Trailer (formato: quicktime)
FICHA TÉCNICA:
Gangues de Nova York (Gangs of New York, EUA, Alemanha,
Itália, Inglaterra e Holanda, 2002)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Jay Cocks, Steven Zaillian e Kenneth Lonergan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz,
Liam Neeson, Jim Broadbent, Brendan Gleeson, John C. Reilly e
Henry Thomas.
Gênero: drama épico
Duração: 160 minutos
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