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Madame Satã: a força do personagem e o talento do ator
Por Beth Andalaft (132/11/2002)
Mais uma produção nacional que merece todos os aplausos –
Madame Satã– ocupa as telas do cinema. Narra um período da
vida de uma das mais polêmica figuras da boêmia carioca, o
transformista João Francisco dos Santos (1900/1976),
conhecido como Madame Satã. Primeiro longa-metragem do
diretor Karïm Aïnouz, é um magnífico trabalho
cinematográfico. O único senão é contar apenas um pedaço da
vida de Satã, que renderia muito mais, deixando ao final um
desejo de quero mais no espectador.
Malandro, capoeirista, cozinheiro, presidiário, pai adotivo,
homossexual, analfabeto e negro, Madame Satã vivia na Lapa,
Rio de Janeiro, nos anos 30, onde sonhava ser artista. Como
camareiro da decadente cantora Vitória dos Anjos (Renata
Sorrah), no cabaré Lux, João Francisco sabia de cor todas as
canções e sentia-se pronto para ocupar seu lugar no palco. Em
sua estréia como protagonista, o ator Lázaro Ramos domina o
filme de ponta a ponta. Ele é perfeito e consegue transmitir
todas as nuances da controvertida personalidade de Satã, o
mais macho dos homossexuais de que se tem noticia.
Raiva e indignação – A produção centra-se no cotidiano
domiciliar do personagem, na sua revolta e indignação contra
os preconceitos que o cercavam. Ele se envolvia em problemas
porque era dominado pela raiva, quando considerava injustiça
o que faziam com ele ou com seus amigos. É essa raiva que o
faz agredir o dono do bordel, vivido por Floriano Peixoto, e
pegar o dinheiro que lhe era devido. Mas, sem seguida, é
preso por roubo. E dizia "eu apenas peguei o que era devido à
minha pessoa". Ele referia-se a si mesmo como "a minha
pessoa".
Quando, enfim, ele convence Amador (Emiliano Queiroz) a deixá-
lo fazer um espetáculo no bar Danúbio Azul e tudo parece
correr bem, surge o preconceituoso José (Ricardo Blat) que o
insulta. João Francisco volta mais tarde e o mata. Por esse
assassinato, cumpre 10 anos de prisão. Quando sai, cria para
si o personagem Madame Satã, desfila numa escola de samba,
nascendo o mito. A produção mostra ainda o lado doméstico de
João, que toma para si a responsabilidade de cuidar da
prostituta Laurita (Marcélia Cartaxo), da filha dela e do
homossexual Tabu (o também estreante Flávio Bauraqui).
Madame Satã passou 27 dos seus 76 anos de vida na prisão. Foi
uma das mais mitológicas figuras da boêmia carioca. O apelido
que criou para si mesmo foi tirado de um filme de Cecil B. De
Mille, de 1930, pelo qual João Francisco se apaixonou. Quando
saiu da cadeia, no carnaval de 1942, ganha um concurso de
fantasias justamente com a personagem que criara – Madame
Satã. É exatamente nesse ponto ponto que se encerra o filme
de Karïm Aïnouz.
Nota:    
Links Sugeridos:
Madame Satã
Trailer (para assinantes do UOL)
Trailer (no site Globo.com)
FICHA TÉCNICA:
Madame Satã (Brasil, 2002)
Direção: Karïm Aïnouz
Roteiro: Karïm Aïnouz
Elenco: Lázaro Ramos, Marcélia Cartaxo, Flávio Bauraqui,
Fellipe Marques, Renata Sorrah, Ricardo Blat, Floriano
Peixoto e Emiliano Queiroz.
Gênero: drama
Duração: 105 minutos
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