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Cidade de Deus: a realidade sem retoques
Por Beth Andalaft (24/09/2002)
Não resta a menor dúvida de que o cinema nacional passa por
uma de suas melhores fases. O espectador que não costuma
prestigiar as produções brasileiras deve enterrar seus
preconceitos e correr para o cinema. Está aberta a temporada
de excelentes trabalhos nacionais, entre eles, talvez a
melhor produção da atualidade – Cidade de Deus.
Já apresentado no Festival de Cannes, tornou-se um grande
sucesso antes mesmo de estrear. Merecido, é preciso que se
saliente. Baseado no romance homônimo de Paulo Lins, dirigido
por Fernando Meirelles (de Domésticas, o Filme) e Kátia Lund
(co-diretora do documentário Notícias de uma Guerra
Particular), Cidade de Deus é um retrato fiel do mundo do
tráfico no Rio de Janeiro.
Por isso mesmo é também assustador. E ninguém vai ficar
indiferente. Uns vão amar, outros vão odiar. A ação se passa
na favela que dá título ao filme, localizada na zona oeste do
Rio de Janeiro. O maior acerto dos diretores foi recrutar os
atores na própria comunidade. Se ele tivesse optado por um
elenco de globais o filme perderia toda a sua força. Assim, o
elenco é todo de atores amadores – com exceção de Matheus
Nachtergaele e Gero Camilo –, que participaram da oficina Nós
de Cinema, como preparação para as filmagens. O filme foi
rodado nas favelas de Nova Sepetiba, Cidade Alta e na própria
Cidade de Deus.
Ascensão na vida – Na pré-estréia realizada no Rio, a polícia
prendeu o traficante Paulo Sérgio Savino, o Pequeno.
Meirelles garante que ele não era convidado da produção e diz
não ter mantido contato com os chefes do tráfico. Porém, no
material de divulgação, ele afirma ter negociado para
realizar as filmagens. Registre-se o fato e voltemos ao
filme.
A história é dividida em três partes, mostrando a
Cidade de Deus nas décadas de 60, 70 e 80. O espectador não
tem tempo para respirar, os acontecimentos se sucedem na tela
e mostram o que move os moradores desses locais.
À mercê dos traficantes, as crianças ali não têm muita
perspectiva de vida. Os grandes exemplos que têm à sua frente
são os chefes do tráfico e boa parte delas almeja um dia
dominar a região. Se na década de 60, conhecidos como "bicho
solto", os rapazes limitavam-se a assaltar o caminhão de gás,
no início da de 80, as crianças formam um exército armado.
Buscapé (Alexandre Rodrigues) é o fio condutor da história.
Desde pequeno, sonha com emprego regular e vida normal. É o
alter-ego de Paulo Lins, o autor do livro, que também morou
na Cidade de Deus.
O mais assustador deles é Dadinho (Douglas Silva), violento e
sangüinário desde a infância. Adulto, interpretado por
Leandro Firmino da Hora, adota o apelido de Zé Pequeno e se
torna o mais poderoso da região. Seu sócio é Bené (Phellipe
Haagensen), traficante boa praça, que ajuda a comunidade. A
guerra vai estourar quando a família de Mané Galinha (o
músico Seu Jorge) é atacada e ele resolve se vingar e para
isso junta-se a Sandro Cenoura (Nachtergaele). O que mais
impressiona no filme é força da realidade que se faz
presente. Mesmo quem nunca freqüentou uma favela sabe que ali
se vive daquela forma.
 
Nota:     
Links Sugeridos:
Cidade de Deus - Português
Trailer (Formato Quicktime)
FICHA TÉCNICA:
Cidade de Deus (Brasil, 2002)
Direção: Fernando Meirelles/Katia Lund
Roteiro: Bráulio Mantovani
Elenco: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Douglas
Silva, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Phelipe Haagensen,
Jonathan Haagensen e Roberta Rodrigues.
Gênero: drama
Duração: 130 minutos
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