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Baz Luhrman ressuscita o musical
por Marcelo Cypriano (28/07/2001)
Você não precisa gostar de musicais para adorar Moulin Rouge. Mas, se gosta, prepare-se para algo totalmente diferente. A palavra mais simples que vem à cabeça do espectador, do primeiro ao último fotograma, é: impressionante!
Até que enfim um filme faz valer toda a badalação publicitária antes de sua exibição. Todos os outros deste ano, até agora, não passaram de propaganda, gerando uma expectativa frustrada ao estrearem. Moulin Rouge vai contra essa corrente: o produto é avassaladoramente superior à milionária campanha publicitária.
O diferencial desse musical mais que assumido é agradar a todo tipo de público (que goste de algo pelo menos razoavelmente bom), independentemente do gênero. Muitos acham que musical "é coisa pra velho saudosista" , ou "para quem estuda teatro". Mas o diretor Baz Luhrman não deixa qualquer margem a comentários desse tipo, com um filme que segue a fórmula de seus trabalhos anteriores - Vem Dançar Comigo e Romeu + Julieta - superando-os, num estilo assumido por ele como "filme cortina-vermelha".
A música simplesmente é, ao mesmo tempo, a base dos diálogos, do roteiro e das interpretações, num conjunto que resulta em um filme cativante, que mistura comédia, drama, romance (principalmente) e... musical!
Luhrman mais uma vez parte de Shakespeare, adaptando-o a outras épocas e ambientes, desta vez trabalhando a fundo no mito de Orfeu, que fala da perda do amor, da relação intensa e interrompida. A história é ambientada na Paris de 1900, em Montmartre, mais especificamente no cabaré mais famoso de todos os tempos: o Moulin Rouge.
Um jovem escritor (Ewan McGregor) chega a Montmartre em busca dos ideais da boemia, da liberdade e, sobretudo, da descoberta do amor. Envolve-se com o grupo do artista Toulouse-Lautrec (John Leguizamo, de Spawn, num de seus melhores papéis) e acaba por conhecer o Moulin Rouge, onde se apaixona pela estrela máxima da casa, Satine (Nicole Kidman, de O Pacificador). Só que, como era de se prever, enquanto o jovem escritor faz a cortesã descobrir o amor, tem que disputá-la com um duque que nutre por ela uma obsessão doentia.
A ousadia de Luhrman funciona exatamente no ponto cronológico da questão: embora a história se passe em 1900, as músicas que alinhavam o filme formam uma salada de ritmos de diversas épocas, principalmente a música pop contemporânea, sem ferir de modo algum o roteiro - ao contrário, enriquecendo-o.
De repente, em uma fala de um personagem, o espectador "pesca" um verso de uma canção de Madonna, que acaba sendo realmente cantado e coreografado de forma inusitada e divertidíssima, cuja letra está totalmente no contexto. O mesmo acontece com canções de David Bowie (que começa e termina o filme), Bono (do U2), Lennon & McCartney, Beck, Elton John, Diane Warren, Sting e The Police, Dolly Parton, Julie Andrews e por aí afora.

Quase todo o elenco principal realmente canta e dança - o diretor fez o possível para não dublar principalmente Kidman e McGregor. Resumindo: nada da batida fórmula de "ator canta o primeiro verso + aparece a música para acompanhá-lo ninguém sabe de onde + coreografia + fim da canção + beijo + fim da seqüência, partindo-se para a seguinte...". Não! A música é a essência da ação e está presente a toda hora, não sendo diminuída ou tendo mais atenção que os diálogos falados. Tudo é uma coisa só, muito bem delineada.
Moulin Rouge não tem nada de simples. Tudo foi exaustivamente pesquisado, reconstituído e... desvirtuado! Tudo para que o espectador de hoje pudesse ter uma visão bem atual do início do século passado, dos costumes, das descobertas (uma delas a eletricidade, vista como uma maravilha - hoje voltando a ser rara...). O trabalho levou cerca de quatro anos, para ser exibido na hora certa: num momento em que se carece de lançamentos de qualidade, que surpreendam crítica e público.
A trilha sonora, claro, é barbada certa para muitos prêmios, em uma das pesquisas mais completas já feitas para o cinema. Mas o filme não tem somente músicas famosas aproveitadas para a história: também tem suas canções originais, interpretadas por Nicole Kidman e Ewan McGregor, ajudados por nomes como Placido Domingo, Beck e Jose Feliciano.
Os atores vão definindo seus personagens e revelando-os ao público através de suas canções/diálogos, numa mistura de ritmos e danças quase inacreditável: música pop, tango, clássicos de musicais da época áurea de Hollywood, techno, ópera, rock... e tudo dá certo, com uma releitura totalmente nova para cada música e coreografia, aliada a um dos mais completos e inusitados trabalhos de figurino, maquiagem e cenografia já feitos - cujas cores quentes foram nitidamente baseadas nos trabalhos de Lautrec.
Falando nos atores, estes se superaram, mostrando muita versatilidade. Kidman, mais bela do que nunca, mostra nuances que lembram eternas musas do cinema como Marylin Monroe, Rita Rayworth, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Joan Crawford, facilmente percebidas pelos cinéfilos - mas sem deixar de ser Satine, talvez sua personagem mais rica até hoje. É extraordinário o modo como a atriz domina o subtexto destinado a ela na seqüência em que tenta seduzir o jovem escritor, confundindo-o com o duque que poderá financiar seu espetáculo. Ela passa de sensual a encantada com a poesia do jovem, demonstrando isso simplesmente com um olhar que é o ponto forte de sua participação no filme.
McGregor dá um tempo nos sabres de luz entre um Star Wars e outro para fazer parte de mais uma obra-prima, convencendo como o jovem escritor idealista que descobre a paixão por alguém acostumada a vendê-la. É um dos grandes atores de sua geração, cada vez encarando um desafio maior que o anterior.
Quem não fica atrás é John Leguizamo, capaz de dar vida a um Toulouse-Lautrec que traduz toda a essência da boemia da época, não deixando de viver os prazeres da vida por causa de sua deficiência nas pernas, impedidas de terem um crescimento normal.
Jim Broadbent (que faz o proprietário da boate/bordel) novamente entra em cena num filme com temática musical, a exemplo do recente Topsy-Turvy - O Espetáculo. Cativa bastante, misturando os sentimentos em relação a Satine: ora é patrão, ora a protege como a uma filha.
Moulin Rouge é imperdível para quem gosta, para quem não gosta e para quem quer descobrir o gênero musical. Apaixonante, é para ser visto e revisto, tendo tudo para agradar a Fox quanto aos resultados tanto de bilheteria, quanto de vendas e locações de VHS e DVD - mais a trilha sonora, que já é sucesso antes mesmo de o filme estrear em vários países.
Novamente, a dica de sempre: escolha uma boa sala, com ótimos equipamentos de projeção e som, para aproveitar Moulin Rouge ao máximo. Prepare-se para fazer parte de uma platéia bem heterogênea quanto à idade e ao gosto, e não se surpreenda se você se pegar rindo ao descobrir canções conhecidas, antes até tidas como bregas, totalmente no contexto do filme, numa roupagem que tira a "breguice" e dá sentido à trama.
De longe, o melhor filme da safra de 2001 (até agora), que estava precisando urgentemente de algo que era comum no cinema de outrora: um filme surpreendente.
Nota:    
Links Sugeridos:
Moulin Rouge - Site Oficial Americano
Trailers (formato: quicktime)
FICHA TÉCNICA:
Moulin Rouge (Moulin Rouge, EUA, 2001)
Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce
Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburgh, David Wenham, Garry McDonald, Lara Mulcahy, Caroline O'Connor, Natalie Mendoza, Christine Anu, Fallon King, Keith Robinson, Deobia Oparei, Kiruna Stamell, Fiona Stage, Jacek Koman, Kylie Minogue, Kerry Walker e Matthew Whittet
Gênero: Musical
Duração: 122 minutos
Estúdios: 20th Century Fox
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