Abrindo caminho a (sete) balasbrno mercado europeu

Por Sidney Gusman
Data: 14 agosto, 2003

Publicando na Europa a série de sete álbuns (só o primeiro já lançado) Sept Balles pour Oxford, Marcello Quintanilha adota o nome verdadeiro, abandona o pseudônimo Gaú e fala sobre sua carreira, seus ídolos e seus trabalhos numa entrevista exclusiva ao Universo HQ

Por Sidney Gusman

Marcello Quintanilha
Marcello Quintanilha, que já assinou quadrinhos com o pseudônimo de Marcello Gaú

No Brasil, o niteroiense Marcello Gaú conquistou muitos fãs com seus trabalhos publicados na década de 1990, nas revistas General, Nervos de Aço e Metal Pesado e no álbum Fealdade de Fabiano Gorila (que tem prefácio do músico Aldir Blanc), um dos primeiros títulos de quadrinhos da Conrad.

Há algum tempo, no entanto, não se vê mais nada dele por aqui. E nem se verá… pelo menos como Gaú! O autor, que atualmente mora em Barcelona, na Espanha, agora assina como Marcello Quintanilha, seu verdadeiro nome.

A razão para a mudança? Ele nunca achou que fosse viver de quadrinhos. Por isso, adotava o pseudônimo Gaú. Como a arte seqüencial acabou se tornando sua profissão, optou por adotar o nome verdadeiro daqui pra frente.

Encarte do CD da banda Planet Hemp
Encarte do CD da banda Planet Hemp

Durante o 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, o quadrinhista concedeu uma entrevista exclusiva ao Universo HQ, na qual falou sobre seu projeto na Europa, a série Sept Balles pour Oxford (Sete Balas para Oxford), escrita pelo argentino Jorge Zentner, e que está sendo lançada pela Lombard em vários países de língua francesa.

Sem dúvida, uma conquista. Afinal, que brasileiro hoje publica no Velho Continente, com um requinte gráfico tão grande (o álbum tem capa dura e papel luxuosíssimo) e pode se dar ao luxo de viver na Europa, apenas trabalhando com quadrinhos? Atualmente, só Quintanilha e o veterano Léo (Luís Eduardo Oliveira), de 59 anos, que vive na França desde a época da nossa ditadura militar.

Martinho da Vila
Ilustração para capa da biografia de
Martinho da Vila, da editora Record

Além disso, Quintanilha contou vários detalhes sobre sua carreira, desde o início na Bloch, fazendo Mestre Kim, até a publicação na Heavy Metal americana e, em seguida, no mercado europeu; passando pelos prêmios que ganhou nas Bienais de Quadrinhos do Rio de Janeiro de 1991 e 1993. E surpreendeu ao dizer que era fã de super-heróis, e que uma de suas principais influências foi John Buscema.

Extremamente eclético, durante seus quase 20 anos de carreira, Marcello Quintanilha já fez ilustrações para diversas revistas, como Trip, TPM, Bravo, República, Vip, Sabor e outras; capas de livros, como da biografia do sambista Martinho da Vila, para a Editora Record; um encarte de um CD do grupo Planet Hemp; trabalhou com animação e até assinou desenhos, num traço bem diferente do seu estilo, nos quais fez uma releitura de Asterix e Obelix, para um dossiê sobre a Alca – Associação de Livre Comércio das Américas, publicado na revista República, do site Primeira Leitura.

Dossiê sobre a para Alca
Dossiê sobre a Alca – Associação de Livre Comércio das Américas

Recentemente, acertou com a Casa 21 para desenhar Salvador, capital da Bahia, no projeto Cidades Ilustradas.

Marcello Quintanilha agora começa a conquistar leitores no exterior, abrindo caminho a (sete) balas. Fica a torcida para que alguma editora brasileira se interesse pelos seus trabalhos mais recentes. Quem sabe as linhas abaixo não ajudam nesse sentido?

Universo HQ: Qual seu nome completo e idade?

Marcello Quintanilha: Meu nome é Marcello Eduardo Mouco Quintanilha. Mouco é por parte de mãe, vem de Portugal. Quintanilha é por parte de pai. Tenho 31 anos.

Heróis da TV #40
Heróis da TV #40, da Editora Abril

UHQ: Qual sua formação?

Quintanilha: Segundo grau completo. Sou autodidata.

UHQ: E como começou sua carreira nos quadrinhos?

Quintanilha: Eu sempre desenhei. Meus desenhos sempre tiveram uma intenção, um fato, uma situação. Quando pego um personagem, com certeza há uma história relacionada aquilo ali. Eu já era ligado aos quadrinhos, embora não desenhasse especificamente HQs. Aí, em 1983, ganhei a primeira revista da minha coleção, Heróis da TV # 40…

UHQ: Você lia super-heróis?

Silver Surfer #1, arte de John Buscema
Silver Surfer #1, arte de John Buscema

Quintanilha: Bastante. Eu lia tudo da Marvel e da DC que saía no Brasil. O que foi ótimo, porque esses artistas tinham uma regularidade exemplar, eram muito bons. John Buscema teve uma enorme importância para mim, foi o principal desenhista para minha vida. Ele é tudo. Por essa você não esperava, não é?

UHQ: Definitivamente, não. Você ainda lê esse tipo de quadrinhos?

Quintanilha: Hoje, não. Mas continuo gostando. Esse primeiro contato foi o mais importante na minha relação com os quadrinhos. Eu acompanhava tudo, sabia quando mudava o arte-finalista, essas coisas. E naquela época era mais difícil, não tinha Internet. E pulavam histórias, cortavam e tal… e tinha coisa que chegava com dez anos de atraso.

Mas na Espanha era pior! Eles remontavam os quadros, um verdadeiro absurdo, era o verdadeiro “açougue” dos quadrinhos! Os caras não eram editores, eram açougueiros. Até que a gente não estava tão mal.

UHQ: Mais algum artista te influenciou bastante, além de John Buscema?

Quintanilha: Joe Kubert; José Luis Garcia-Lopez, que gosto muito, acho um dos grandes nomes dos quadrinhos, um mestre incomparável; Neal Adams… Mas nenhum do jeito como gosto do Buscema.

UHQ: E brasileiro, tem algum?

Página de Histórias Reais de Lobisomem, da Bloch
Página de Histórias Reais de Lobisomem, da Bloch

Quintanilha: Nessa época, não.

Mas, continuando, depois passei a ler muito, a pensar no trabalho como numa história em quadrinhos. E fiz o que todos fazem: imitar o estilo dos artistas famosos. Desenhava igual ao Gil Kane, Jack Kirby…

Até que fiz um pôster de desenho publicitário. Tinha uns 13 anos nessa época, e conheci uns caras que liam muito quadrinho europeu. A partir desse contato, descobri Corto Maltese, Moebius e outros; e fiquei encantado. Comecei a copiar os desenhos. Era divertido pra caramba. Nessa idade, tudo é divertido.

Depois disso comecei a mandar meus trabalhos para algumas editoras, fui na Bloch, no Rio, porque eles tinham uma série de revistas de terror. O cara gostou de uma das histórias, e passei a desenhar pra eles. Nessa época, eu imitava o Paul Gulacy, que, para mim, era o nome do momento!

Página de Mestre Kim, arte de Marcello Quintanilha
Mestre Kim, da Bloch, arte de
Marcello Quintanilha

UHQ: Qual foi sua primeira história publicada?

Quintanilha: Foi do Mestre Kim. Assinei Marcelo Quintanilha e, entre parênteses, Gaú.

Daí, comecei a trabalhar pra eles, mas enfrentei alguns problemas de adolescência, adaptação na escola, um período difícil. Então, encontrei refúgio na literatura infantil, por exemplo. Foi quando iniciei uma fase de experimentar novas técnicas de desenho.

Passei a fazer um traço que rompia com tudo que gostava até então. Tanto os americanos quanto os europeus. Isso foi por volta de 1990. Larguei minhas influências e comecei a buscar coisas que tivessem a ver com minha vida.

Passei a usar a aquarela e o grafite. Essa técnica nasceu como um contrapeso a um momento difícil, e me ajudou muito. Se você vir a primeira história nesse estilo (nota do UHQ: premiada na 1ª Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro, em 1991), é quase só aquarela.

Little Nemo in Slumberland
Little Nemo in Slumberland

Estava buscando coisas minhas, e passei a pensar no quadrinho por uma ótica própria. Fazer coisas que estava interessado em fazer. Por exemplo, as sarjetas e os balões dos meus quadrinhos passaram a ser irregulares, usados como elementos narrativos, numa busca de confrontar a estrutura do que se lia nas grandes editoras. Foi uma coisa que decidi incorporar definitivamente ao desenho.

Marcello Quintanilha
Marcello Quintanilha

Como foi uma época em que rompi com muitas coisas, minha inspiração principal foram as HQs antigas, como Little Nemo, com aqueles balões… Minha proposta foi recomeçar a “estrutura” do quadrinho, a partir dos primórdios dos próprios quadrinhos. E acho que funcionou bem no meu desenho.

Aí, aos 18 anos, comecei a trabalhar num curso de inglês. Eles tinham um estúdio de animação para os filmes deles, com uma equipe de doze profissionais. Atuei como animador por sete anos, com carteira assinada. Aprendi muito lá.

Então, veio a Bienal de Quadrinhos do Rio, em 1991, e depois comecei a fazer quadrinhos pra valer. Mas como eu trabalhava, demorava meses para concluir as histórias: uma a cada dois anos. É a regularidade possível até hoje. Não para essa minha nova fase na Espanha, claro, porque este trabalho é que financia as minhas HQs autorais.

Machado de Assis
Machado de Assis

Foi uma época boa, pude aprender e ler muito, construir um universo. Encontrei um refúgio na literatura, nas pessoas que a fizeram e me influenciaram demais, não só pelo que escreveram, mas pela maneira como equacionaram seu trabalho.

A literatura brasileira não foi construída a partir de um mercado que a absorvesse, mas por pessoas comprometidas com seu próprio trabalho, que tinham outros empregos e escreviam seus textos nas horas vagas.

Machado de Assis acordava cedo, escrevia uma parte dos romances, criticas literárias e depois ia para o serviço. Arthur de Azevedo também. Homens como eles fizeram a literatura brasileira.

Hoje me irrita um pouco essa história de o quadrinho não dar dinheiro. A literatura não foi feita assim. Não existe mercado que absorva, por exemplo, um poeta como profissional, que pague para um cara escrever poesia. É a maneira como eu vejo.

Arte original de Marcello Quintanilha
Original de Marcello Quintanilha
exposto no 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte

UHQ: Nessa fase, você curtia quadrinhos nacionais?

Quintanilha: Nessa época, antes de começar a trabalhar, de quadrinhos nacionais conhecia a Calafrio. Cheguei a trabalhar com eles. Publiquei três histórias na editora D-Arte.

UHQ: Você leu Angeli e Laerte?

Quintanilha: Li, mas não me influenciava, porque era um tipo de trabalho diferente, mais ligado ao humor.

UHQ: É nítido existe um carinho mútuo entre você e o Lourenço Mutarelli. Você chegou a ser fã dele?

Quintanilha: Sempre fui e ainda sou. Tem coisa difícil de explicar. Você percebe que a pessoa tem o mesmo tipo de interesse que você, são universos totalmente diferentes, são modus operandi diferentes, mas ambos encontramos nos quadrinhos uma maneira de nos salvar.

UHQ: Você fez fanzine?

Quintanilha: Nunca tive oportunidade. Gostava, mas como não conhecia ninguém que fizesse…

UHQ: Foi depois da Bienal que chegou sua fase mais autoral?

Granadilha, arte de Marcello Quintanilha
Primeira página de Granadilha (versão da Heavy Metal), arte de Marcello Quintanilha

Quintanilha: As histórias passaram a ser constantes, e eu mandava para varias editoras e salões pelo País. E o Rogério de Campos(nota do UHQ: diretor da Conrad Editora) viu meu trabalho num que ele era jurado. Depois, quando abriu a General (nota do UHQ: na época, publicada pela Acme Editora), me chamou e disse que gostava muito do meu trabalho. Foi quando publiquei Granadilha.

Então, ele me convidou para fazer a página final da General. O espaço era meu, pra eu fazer o que quisesse. Cheguei a publicar uma crônica, porque gosto muito. O autor que mais admiro é o Rubem Braga. A morte dele deixou um vazio muito grande na crônica carioca…

Mas, como estava dizendo, a partir de um momento, a literatura passou a ser preponderante, pois deixei os quadrinhos e só lia livros, principalmente brasileiros, em busca da minha própria identidade.

Aprendi muito com isso, especialmente sobre como estruturar meu trabalho, que é lento, publicado num espaço grande de tempo. Mas não considero isso algo negativo. Acho que produzo bem assim.

UHQ: E depois da General?

Cena de Dorso
Dorso, de Marcello Quintanilha

Quintanilha: Depois, a General deu um tempo e voltou como General Visão, e coloquei, no mesmo espaço que tinha antes, Dorso, uma história de sete páginas, que levei um ano para concluir.

Era a história de um negro que se autoflagelava, uma alegoria sobre o direito que as pessoas têm de levar a vida que querem. Ele não era louco, apenas tinha essa mania, e era problema dele. Mas ele estava doutrinando outras pessoas onde trabalhava…

Dorso, arte de Marcello Quintanilha
Dorso, de Marcello Quintanilha

Existe uma relação estranha entre o protagonista e o rapaz que está sendo doutrinado por ele. De admiração e medo. E são temas aos quais sempre acabo retornando.

Esse negócio do direito da pessoa levar a vida que quer, e de controlar os outros é o tema de Granadilha, que abre com a frase: “Eu não consigo controlar as vontades da minha carne”. É a história de um homossexual pela visão dele. Ele não escolhe ser assim, ele nasce assim. É uma alegoria com o fato do cara não escolher ser artista, de fazer quadrinhos. A relação é a mesma.

Quadro de Granadilha, em inglês
Granadilha (versão da Heavy Metal), de Marcello Quintanilha

Às vezes, você se encontra numa situação brutal diante do mundo, pelo que você é realmente. A maneira que encontrei de enfrentar isso foi por meio dessas histórias.

Depois, fiz Fealdade de Fabiano Gorila (nota do UHQ: publicado em 1999, pela Conrad), uma história baseada na vida do meu pai, que era jogador de futebol, nos anos 50.

Ele nasceu num bairro simples em Niterói, cercado de vilas operárias. A economia do local era gerada pela fábrica de tecidos, que tinha um time, no qual meu pai jogava.

Fealdade de Fabiano Gorila
Fealdade de Fabiano Gorila, da Conrad

Depois, ele assinou contrato com o Canto do Rio, um outro time de Niterói. Era atleta, tinha salário como jogador. Por isso, a história do álbum é sobre uma vez que meu pai foi treinar no Fluminense, na época da morte do Getúlio Vargas.

Por pressão do meu avô, ele assinou com o Canto do Rio, ganhando um pouco menos, porque no Fluminense era algo meio incerto. Tentei passar no álbum essa difícil escolha entre a chance de jogar num time grande e a certeza de ter a oportunidade de trabalhar.

Minhas histórias refletem um universo masculino, tem o futebol, os botequins… Às vezes, trato de temas sobre o universo feminino, mas de uma forma muito mais poética. Tem uma HQ, que foi premiada na segunda Bienal, e depois foi publicada na Heavy Metal, com a relação da empregada com a patroa, as telenovelas…

UHQ: Quando você fechou a história do seu pai, já tinha o álbum inteiro pronto, dentro do seu prazo?

Arte de Marcello Quintanilha
Fealdade de Fabiano Gorila, história baseada na vida do pai de Marcello Quintanilha

Quintanilha: Não, entre Dorso e Fealdade correram dois anos. A primeira saiu em 1998. Enquanto ela estava fechada, fui fazendo Fealdade, que originalmente tinha 16 páginas. No entanto, como o Rogério de Campos estava abrindo a publicação de livros, e queríamos lançar logo, não tínhamos tempo hábil para fazer um álbum. Assim, decidimos remontar os quadrinhos. Como eles são desencontrados, optamos por colocar dois por página. Na época, foi válido, mas não sei se voltaria a fazer hoje. Até porque, atualmente, tenho mais material…

Fealdade foi minha publicação mais importante no Brasil. A repercussão foi surpreendente. Foi lido majoritariamente por pessoas que não tinham nenhum contato com quadrinhos. E isso é algo interessante. Minhas histórias são mais bem entendidas por pessoas que não têm contato com HQs. Com Dorso, foi a mesma coisa.

Three Minutes of Threads
Three Minutes of Threads, versão publicada na Heavy Metal da história
Três Minutos de Linhas
Universo HQ entrevista Marcello Quintanilha

Marcello Quintanilha
Marcello Quintanilha

UHQ: E a história da Metal Pesado?

Quintanilha: Ela saiu primeiro na Nervos de Aço, do Patati (nota do UHQ: roteirista de várias HQs e criador do personagem Nonô Jacaré, publicado na extinta Porrada! Special, da Editora Vidente). Foi a única história colorida da revista, sobre um sambista.

Tem outra coisa interessante aí: é o o fato de as pessoas ficarem atentas à presença constante de personagens negros ou mestiços nas minhas histórias. Muita gente fala disso, o que me chama a atenção. Para mim, é óbvio. Vivemos num país de etnias diferentes, mas não para algumas pessoas! Por alguma razão, isso chama a atenção delas, o que me surpreende.

UHQ: Depois do álbum, saiu algum material seu aqui?

Página de Sete Balas para Oxford
Página de Sete Balas para Oxford

Quintanilha: Nada. Fui direto para a Heavy Metal. Mandei umas histórias para eles e gostaram.

UHQ: Esse foi o fator fundamental para abrir as portas na Europa?

Quintanilha: Não. No primeiro FIQ, em Belo Horizonte, encontrei o francês François Boucq, minha última grande influência como desenhista. O trabalho dele me levou a materializar a direção que o meu seguiria, a partir de 1990.

Então, neste encontro, naturalmente declarei toda minha admiração por ele, que ficou muito surpreso. Boucq tinha visto o meu trabalho antes de me conhecer. Foi muito legal. Aí, associou com o que eu tinha feito e mostrou trabalhos meus na Europa.

Jorge Zentner
Jorge Zentner

Foi quando o roteirista argentino Jorge Zentner viu meu trabalho. Depois de um tempo, ele me mandou um e-mail perguntando se eu teria tempo para um projeto. Nesse momento, pintou uma coisa que achei ótima: fazer histórias distantes do Brasil, diferentes do universo que construí. A trama se passava nos Estados Unidos, e comecei a trabalhar.

O conceito de HQ dele é diferente do meu. Eu prefiro tiras; ele, as páginas. Isso vem da minha admiração pelos primórdios dos quadrinhos, dos jornais e tudo mais. Mas, pra seguir o roteiro, tive que moldar meu estilo.

Página de Sete Balas para Oxford
Página de Sete Balas para Oxford

Então, comecei os testes. Apresentamos umas páginas para algumas editoras e, finalmente, assinamos com a Lombard, da Bélgica. O primeiro álbum – serão sete – foi feito todo pela Internet, produzi no Brasil.

Em seguida, decidi me mudar para lá. Trabalhando perto, ficou muito melhor e, naturalmente, é uma oportunidade de conhecer o mercado de lá.

Descobri que existe muita lenda, que não é assim como dizem. As editoras européias também têm seus objetivos comerciais. Há muitos quadrinhos comerciais. Evidente que é diferente dos Estados Unidos, mas tem a mesma estrutura: o mainstream é que sustenta as obras mais artísticas.

UHQ: Então, você mora na Espanha e produz para a França, Bélgica, Suíça, Holanda e Canadá (os países de língua francesa onde circulam os álbuns da Lombard)?

Sept Balles pour Oxford
Sete balas para Oxford, de Jorge Zentner e Marcello Quintanilha

Quintanilha: É. Mas o grande desafio foi conseguir me adaptar ao texto do Zentner. Afinal, acho que cheguei num ponto em que consegui dominar minha gramática.

Eu cheguei num ponto em que consigo saber o que vou encontrar quando desenho, porque já desenhei muito. Não acredito em dom. A minha vida foi desenhar, escrever e buscar sempre.

Por isso, o grande desafio foi estruturar as páginas. O Jorge já me passa a diagramação, o que evita a tendência de eu fazer a minha versão. Assim, estou desenhando mais, estruturando melhor meu trabalho e já evoluí em relação ao primeiro álbum. E estou feliz com isso.

UHQ: E qual a chance de Sept Balles pour Oxford (confira o site oficial) sair no Brasil?

Quintanilha: Eu gostaria muito. Precisaria ter uma editora interessada.

UHQ: Você não acha que existem coisas interessantíssimas de nossa realidade que poderiam ser publicadas na Europa? Estórias Gerais, por exemplo? Não é um caminho a ser trilhado?

Página de Três Minutos de Linhas
Página de Três Minutos de Linhas

Quintanilha: Acho que sim. Mas no caso das histórias passadas no Brasil, eu preferiria escrever e fazer a arte. Porque, pra mim, são duas coisas juntas. Eu não me considero desenhista. Não gosto de desenhar. Desenho sempre para algo. Nunca desenho se não for trabalho.

Por isso que, na Europa, preferi trabalhar numa história passada nos Estados Unidos.

UHQ: Você faz pesquisa visual?

Quintanilha: Muita. Estou sempre fazendo. Na Espanha é mais fácil encontrar referências.

UHQ: Como é para o Marcello Quintanilha abrir o site do FIQ e encontrar o nome dele como convidado internacional, e não brasileiro?

Quintanilha: Achei estranho, mas tudo bem!

UHQ: É possível que logo seja mais conhecido na Europa do que aqui. Como se sente em relação a isso?

Detalhe da arte de Marcello Quintanilha
Detalhe de um original de Marcello Quintanilha, exposto no 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte

Marcello: A satisfação não será a mesma. Gostaria de ter uma regularidade maior de histórias para publicar aqui, queria lançá-las primeiro no Brasil. É um pensamento meio punk, mas…

UHQ: Voltando um pouco, qual era seu personagem favorito?

Quintanilha: O Surfista Prateado. E era do John Buscema! Ele era um solitário…

UHQ: Você transporta muito da sua experiência de vida para os quadrinhos?

Quintanilha: Todas as histórias. Até nessa fase européia, em alguma medida. Os personagens são baseados em pessoas que conheço. O Oxford é meu avô. A neta dele é minha esposa. A mulher dele é minha avó.

Nas HQs que saíram na Heavy Metal, a patroa era minha mãe. São histórias familiares, para a família brasileira (risos)! E o meu pai também é personagem em Dorso.

UHQ: Nós temos uma história rica para contar em quadrinhos, como fizeram, por exemplo, em Adeus, Chamigo Brasileiro. Você pensa em fazer algo ligado à literatura brasileira?

Aventuras no Tempo - Os Primeiros Brasileiros
Aventuras no Tempo – Os Primeiros Brasileiros, álbum com participação de Marcello Quintanilha
Aventuras no Tempo - A Europa Conquista o Brasil
Aventuras no Tempo – A Europa Conquista o Brasil, álbum com participação de Marcello Quintanilha

Marcello: Penso muito em fazer a versão em quadrinhos de A Noite do Almirante. Mas tenho uma admiração tão grande pelo Machado de Assis, que não me sinto capacitado.

Não pensei em trabalhar com nenhum fato específico. Gosto de falar das coisas que me interessam, mesmo as pequenas. Pessoas que lutam para levar a própria vida, tentando impor sua maneira de ver o mundo, como em Dorso.

UHQ: Você gostaria de escrever algum personagem que não fosse seu?

Página de Fealdade de Fabiano Gorila
Página de Fealdade de Fabiano Gorila

Quintanilha: Como se me contratassem, tipo, para fazer uma história do Batman? Faria. Mas não é algo que eu realmente gostaria.

Aliás, queria falar isso. Eu não acho meu trabalho parecido com uma formação européia, como alguns dizem.

O problema é como as pessoas classificam o que não é super-herói. Se não tiver capa e uniforme, é quadrinho europeu. Não é bem assim. Meu trabalho tem muito da HQ americana, mas de Winsor McCay (nota do UHQ: criador do célebre Little Nemo), e outro caras antigos…

UHQ: Dos seus trabalhos, qual seu favorito?

Quintanilha: Dorso. É uma história feita exatamente do jeito que eu queria, mesmo com o tempo que demorou, com todo o sofrimento. Quando terminei, viajei, na época com minha namorada, para Petrópolis, e dormi um dia inteiro, sem ter tomado nenhum remédio, nem nada.

Foi um peso tão grande que coloquei pra fora… o (André) Toral fala que se sente sufocado quando lê; o (Lourenço) Mutarelli diz que é a favorita dele.

UHQ: Você gosta de cinema?

Pôster de Boca de Ouro
Pôster do filme Boca de Ouro

Quintanilha: Adoro. Filmes como O Homem que comprou o mundo, Boca de Ouro. Fealdade tem toda essa estética do cinema nacional da década de 1960. O Bandido da Luz Vermelha. Tem o Bye Bye, Brasil… Eu me emociono até hoje quando o assisto.

UHQ: Você tem agente?

Quintanilha: Não, trabalho direto com a editora.

UHQ: O que você acha da onda de adaptação de quadrinhos para o cinema?

Quintanilha: Sei lá. É bom. Não tenho muita intimidade, minha esposa gosta, mas não estão na minha preferência. Há pouco tempo, vi Quando a Mulher Erra (Indiscretion of an American Wife/ Stazione Termini), de Vittorio De Sica, e achei tão parecido com o Fealdade! Um filme gravado em Roma, tão bom… Gosto muito de histórias passadas no mesmo dia e espaço.

UHQ: Você tem algum outro projeto em andamento?

Marcello Quintanilha
Marcello Quintanilha

Quintanilha: Não.

UHQ: Por favor, mande uma mensagem para os leitores.

Quintanilha: Queria que entendessem o fato de não assinar mais como Marcello Gaú. Eu imaginava que quadrinhos fossem uma coisa paralela na minha vida, mas quando comecei a publicar e ter visibilidade, isso foi crescendo e eles passaram a ser minha vida.

Eu vivo de quadrinhos hoje, e assinar com esse pseudônimo passou a ser incômodo para mim. Espero que os leitores leiam as histórias pelo que elas são, e não por quem as assina. E para aqueles que gostam do meu trabalho, peço que tenham um pouquinho mais de paciência!

Autógrafo para Sidney Gusman, de Marcello Quintanilha

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