John Byrne: Criatividade e polêmica a toda prova

Por Equipe UHQ
Data: 6 abril, 2002

Numa entrevista exclusiva ao Universo HQ, John Byrne comenta
os grandes momentos de sua carreira, fala de seus projetos atuais
e futuros, contaquais são seus ídolo e detona Joe Quesada e
Bill Jemas, os homens que comandam a Marvel.

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O prolífico John Byrne que, entre outras coisas, já desenhou X-Men, Namor, Quarteto Fantástico, Hulk, Vingadores, Mulher, Marvilha, Novos Deuses, Batman, Mulher-Hulk, OMAC, Capitão América, Tropa Alfa, Wolverine e também foi responsável pelas reformulações do Super-Homem e do Homem-Aranha

No dia 6 de julho de 2002, o inglês John Lindley Byrne completará 52 anos. Há 26 anos no mercado de quadrinhos, esse roteirista, desenhista e (às vezes) arte-finalista é dono de um currículo invejável, pois trabalhou com personagens como Super-Homem, X-Men, Hulk, Quarteto Fantástico, Novos Deuses, Batman, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha, Vingadores, Mulher-Hulk, OMAC, Capitão América, Namor, Tropa Alfa, Wolverine e muitos outros.

Responsável por diversas reformulações (sendo a mais famosa delas a do Super-Homem), Byrne é tão criativo quanto polêmico. Suas obras são capazes de despertar nos leitores os mais antagônicos sentimentos, como ódio e paixão, ou repulsa e admiração. Mas é inegável que seu nome, por si só, já é garantia de visibilidade para qualquer título.

No Brasil, os leitores estão acostumados a ver suas histórias de super-heróis, mas poucos sabem que seu primeiro trabalho publicado por aqui foi uma HQ de ficção, em preto e branco, na saudosa revista Spektro (que já foi tema da coluna Museu dos Quadrinhos).

Atualmente, John Byrne assina uma coluna no site Slush Factory e está produzindo a série Lab Rats, para a DC Comics.

Entre um trabalho e outro (ele está fazendo até tiras de jornais, acredite!), esse prestigiado artista concedeu uma extensa e interessante entrevista exclusiva ao Universo HQ, na qual fala de seus futuros projetos; de seus ídolos; da parceria com Chris Claremont, em X-Men; da fase à frente do Super-Homem; de adaptações de quadrinhos para o cinema; das diferenças entre trabalhar para a DC e a Marvel e muito mais. De quebra, Byrne ainda “soltou o verbo” contra Joe Quesada e Bill Jemas, os homens que dirigem a “Casa das Idéias”.

Portanto, acomode-se na sua cadeira e prepare-se! Vem aí, Mr. John Byrne!

Lab Rats #1, trabalho mais recente de John Byrne

Universo HQ: Como e por que você começou se interessar por quadrinhos?

John Byrne: Eu vi o programa de TV The Adventures of Superman, na Inglaterra, quando tinha por volta de seis anos. Logo após, encontrei uma encadernação em capa dura chamada Superman Annual, reimprimindo histórias americanas em preto e branco. Um tempo depois, li a minha primeira história do Batman. Fiquei viciado desde então!

UHQ: Qual a sua primeira história paga? Onde ela foi publicada?

Byrne: Essa pergunta pode pregar mais peças do que você pode imaginar! Mas a simples resposta é uma história de duas páginas chamada Do Not Disturb, que apareceu num agora defunto tablóide no estilo jornal/fanzine, cujo nome era The Monster Times.

UHQ: Foi um caminho difícil até conseguir isso?

Byrne: Variou um pouco. Eu poderia ter feito tudo ser muito mais fácil pra mim mesmo, se tivesse me mudado desde o início para Nova York. Mas eu era um garoto do Canadá, e estava assustado com a cidade grande! Levou uns quatro anos para me tornar um “sucesso da noite para o dia”.

UHQ: Qual é o seu personagem favorito? E a sua história predileta?

Iron Fist #8, publicado no Brasil como Punho de Ferro, pela Editora Abril, na antiga revista Heróis da TV

Byrne: Teve um tempo em que eu tinha que escolher entre o Batman e o Capitão América como meu personagem predileto, mas eu me inclino um pouco mais para o lado do Batman. A história favorita é um pouco mais difícil de escolher, mas acho que diria Meet Doctor Doom, da revista Fantastic Four #5 (Nota do UHQ: a primeira aparição do Dr. Destino, numa história do Quarteto Fantástico produzida por Stan Lee e Jack Kirby). Foi a que me introduziu à Marvel.

UHQ: Quais os artistas que influenciaram sua obra?

Byrne: Nossa, são tantos! Shakespeare, Asimov, Tolkien, Niven… e, é claro, Stan Lee.

UHQ: Ficção científica é um tema constante em seus trabalhos. Quais seus escritores e obras preferidos?

Byrne: Quase respondi essa pergunta na anterior! Vamos fazer assim: Asimov, pela trilogia Robots and the Foundation; Niven, por Known Space Cycle; Frank Herbert, por Dune (a primeira); e Edmond Hamilton, por causa de um livro maravilhoso, City at World’s End.

UHQ: Muitas das histórias que você fez na Marvel foram escritas por Chris Claremont (Nota do UHQ: Punho de Ferro, Marvel Team-Up, Luke Cage, Miss Marvel, X-Men, Starlord). Fale-nos sobre essa longa parceria. Como foi trabalhar ao lado dele tanto tempo? Como é seu relacionamento com Claremont hoje?

Marvel Team-Up #67, de março de 1978, uma das revistas produzidas em parceria com Chris Claremont

Byrne: Costumo dizer que eu e Chris fomos casados por cinco anos, com um divórcio muito tumultuado no final. Ele ficou com os filhos, que já eram seus… de um casamento anterior.

Nós dois temos uma relação bem no estilo Gilbert & Sullivan (Nota do UHQ: Dupla de artistas ingleses, do final do século 19 e começo do século 20, famosa por suas óperas e peças de teatro) – o brilhantismo (e havia brilhantismo) veio mais de nossas duas cabeças grandes se batendo, do que de uma real síntese de visão. Estávamos constantemente tentando passar um ao outro. Era uma competição onde, em última instância, os fãs ganharam.

UHQ: E a sua relação com Terry Austin? Muitos de seus trabalhos são arte-finalizados por ele. Você tem algum preferido? Por que você passou a arte-finalizar seu próprio trabalho?

Byrne: Eu voltei a arte-finalizar meu próprio desenho, em grande parte, porque Terry desistiu do Quarteto Fantástico. Não havia mais ninguém disponível, pelo menos ninguém bom. Daí, pensei que se fosse pra alguém entrar e bagunçar a revista, esse alguém deveria ser eu!

Levei vários anos e muitos falsos começos para realmente aprender essa arte. É encorajador quando a maioria dos fãs diz que eu sou o meu melhor arte-finalista. Queria dizer que, provavelmente, eu estava indo na direção correta!

Tive o prazer e a honra de trabalhar com grandes arte-finalistas. Joe Sinnott, Tom Palmer, Herry Ordway e, é claro, Terry. Cada um trouxe algo especial e (aí vai uma palavra muito usada, mas que se aplica bem) único ao trabalho.

UHQ: Sua trajetória nos X-Men é, até hoje, relembrada com carinho pelos fãs, e considerada possivelmente a melhor fase dos personagens. Você esperava tamanha repercussão? O que o fez deixar o título?

The Uncanny X-Men #141, um dos clássicos produzidos pela dupla Claremont/Byrne, com arte-final de Terry Austin

Byrne: Eu deixei o título, porque não concordei com Chris [Claremont] sobre as caracterizações dos personagens, até que, um belo dia, finalmente me cansei disso. Não importa o que eu estivesse pensando, era o que ele escrevia que acabava sendo impresso. E se eu não estava gostando do que ele estava escrevendo, no final das contas, isso significava que não estava gostando dos personagens.

Por sorte, abriu uma vaga no Quarteto Fantástico, e Shooter (Nota do UHQ: Jim Shooter, editor-chefe da Marvel na época) me ofereceu a revista.

Tanto eu quanto o Chris não tínhamos a mínima noção de todo o impacto do que estávamos fazendo. Como disse, estávamos apenas em uma competição criativa, tentando constantemente passar um ao outro. Gostaria muito que a revista não tivesse o impacto que teve. Eu culpo a morte da Fênix – ou melhor, a percepção errada e as lembranças nebulosas das pessoas em relação à revista – por isso. Por exemplo, muitos dos problemas que assolam a indústria até hoje derivam disso.

UHQ: Como foi a polêmica da mudança do final da saga da Fênix Negra? (Nota do UHQ: a versão original não incluía a morte de Jean Grey – ou melhor, do que posteriormente foi chamado de Fênix. Haveria um combate com o Professor Xavier e, no final, ela sofreria uma lavagem cerebral).

Phoenix: The Untold Story, edição especial que mostra o final original da saga da Fênix Negra

Byrne: Na ocasião, odiei. Mas percebi muito rápido que o que fomos obrigados a fazer era uma história melhor do que a que tínhamos planejado. Só gostaria que Chris também tivesse percebido isso, e deixado tudo como estava.

UHQ: Anos depois, você voltou aos mutantes com X-Men: Hidden Years, mas o cancelamento da série foi marcado por alguns problemas. Como estava sendo retomar esses personagens no início de suas carreiras, e como recebeu a notícia do cancelamento? Hoje, um ano depois, o que pensa sobre tudo isso?

Byrne: Se pudesse dizer que eu tinha um projeto dos sonhos, algo que era um objetivo na minha carreira desde antes mesmo de começá-la, X-Men: The Hidden Years seria ele. É um título que eu queria fazer desde a primeira vez que li os X-Men de Thomas/Adams/Palmer, alguns anos depois da revista ter sido cancelada.

X-Men: The Hidden Years #1, publicado no Brasil como X-Men: Anos Incríveis

Eu falei sobre algo nesse estilo antes, quando X-Factor começou, mas o editor-chefe Tom DeFalco disse: “Outra revista chamada X-Men vai dar muita confusão”. Uma certa falta de visão (Nota do UHQ: atualmente, existem, nos Estados Unidos, três revistas dos X-Men – Uncanny X-Men, New X-Men e X-Treme X-Men, sem contar Ultimate X-Men).

Foi maravilhoso trabalhar em Hidden Years. Foi a revista na qual eu mais me diverti, entre todas que fiz. Por um lado, eram os X-Men originais, a equipe original. Os “novos” personagens foram divertidos à sua maneira, mas esse era o título e os personagens que eu mais gostava.

Um ano depois, ainda estou muito chateado com a maneira como o título terminou. Não pelo cancelamento em si, pois já tive outras revistas canceladas antes – entretanto nenhuma que ainda estivesse dando lucro. O que me deixa chateado são as mentiras sem fim que vomitam do lugar onde costumava ser a Marvel – a qual eu passei a me referir como M*rv*l.

Arte de capa de X-Men: The Hidden Years #22, último número da série

Só espero que, algum dia, haja alguma maneira de salvar a companhia. Como um colega escritor comentou há algum tempo, durante os loucos dias de Jim Shooter, ele se sentia trabalhando na M*rv*l como se nossos amigos (os personagens) tivessem sido seqüestrados. Agora, é como se eles tivessem sido assassinados.

UHQ: A Tropa Alfa foi criada por você, e sua melhor fase é justamente a que tem seus desenhos e roteiros. Por que deixou a revista? O que acha do trabalho realizado depois de sua saída?

Byrne: Meu grande problema com a Tropa Alfa foi resumido na sua pergunta: eles foram criados para uma história dos X-Men, nunca para estrelarem um título próprio. Eles nunca pareceram reais pra mim, não importa quantas histórias eu fizesse. Depois de dois anos, senti que não havia mais nada pra dizer ou para fazer com eles.

Eu nunca li nenhuma versão da Tropa Alfa depois da minha saída.

UHQ: Durante seu trabalho no Hulk, muita gente achou que você mataria o personagem. Isso passou pela sua cabeça?

Byrne: Não imagino porque alguém poderia pensar isso. Nada poderia estar mais longe de minha mente.

Fantastic Four #260

UHQ: O Quarteto Fantástico é, sem dúvida, um dos trabalhos ao qual você é mais ligado. Sempre foi fã da equipe? Qual o personagem que mais gostava? Você voltaria a escrever suas histórias?

Byrne: Me perguntam freqüentemente se eu retornaria ao Quarteto Fantástico e, por mais que eu sinta a falta deles – durante o tempo em que trabalhei na revista, os personagens se tornaram quase como uma família para mim -,acho que um retorno é improvável.

Em primeiro lugar, minha passagem no título chegou a um status lengendário. “Perde apenas para a fase de Lee e Kirby”, dizem os fãs. Verdade? Difícil dizer, mas a única coisa mais difícil do que competir com uma lenda é ter que competir com sua própria lenda!

Quarteto Fantástico, como disse antes, foi a revista que me introduziu à Marvel. Foi uma daquelas experiências que mudam a nossa vida. Eu me apaixonei por aqueles personagens, desde o momento em que os conheci. E foi um momento surpreendente quando me ofereceram o trabalho de desenhar e escrever suas aventuras.

O meu favorito entre os quatro, provavelmente, é o Coisa. Mas a Sue vem em segundo, muito perto!

Uncanny X-Men #135 Uncanny X-Men #136 Uncanny X-Men #137
Uncanny X-Men #135,136 e 137

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UHQ: Nas suas mãos, Mulher-Hulk sempre teve grande destaque, chegando a integrar o Quarteto Fantástico, a ter uma revista mensal (The Sensational She-Hulk) e, até mesmo, uma ponta nos Vingadores da Costa Oeste. Por que você gosta tanto da personagem?

Byrne: No começo, eu detestava a personagem. Achava a idéia completamente estúpida, pobremente concebida e executada. Foi Roger Stern quem me mostrou o quão divertida ela poderia ser, quando a usou nos Vingadores.

Quando decidi tirar o Coisa durante algum tempo do Quarteto, enquanto sua própria série estava começando, perguntei ao Roger se poderia me emprestá-la. Aí descobri que a Mulher-Hulk era tão divertida de escrever e desenhar – especialmente desenhar!! – quanto de ler. Ela é simplesmente uma personagem divertida, e há pouquíssimos assim.

UHQ: Como Surgiu The Last Galactus Story? Por que foi publicada na revista Epic Illustrated, ao invés de sair numa minissérie convencional? 

Byrne: Archie Goodwin era editor da Epic Illustrated, e estava procurando uma maneira de impulsionar as vendas. Ele sabia que o título não estava atraindo muitos leitores regulares da Marvel, e achou que um tipo de “crossover” poderia ajudar – algo que pudesse trazer os fãs de super-heróis, mas também servir para leitores de ficção científica, público que era o objetivo da Epic quando ela foi criada.

Ele me perguntou se eu consideraria a possibilidade de fazer uma série do Surfista Prateado na revista. Eu gosto muito do Surfista, mas artisticamente ele é um dos personagens mais chatos de se desenhar! Então, sugeri uma história do Galactus, que é muito interessante de se desenhar! Archie gostou da idéia, especialmente quando sugeri algo situado num futuro distante. E começamos a partir daí.

UHQ: Na época, qual era a sua expectativa para o novo universo da Marvel? E mais especificamente em relação ao seu título, Estigma?

Byrne: Acho que Roy Thomas foi quem melhor resumiu o Novo Universo, quando disse que era uma versão “filme para a televisão” dos quadrinhos da Marvel. Eram como as revistas da Marvel, mas com um baixo orçamento. Uma idéia pobre, com uma execução pobre. E eu lembro do Denny O’Neil dizendo, na época, que ele achava muito estranho uma companhia de quadrinhos entrar em competição consigo mesma!

Eu me envolvi com Estigma quase como uma piada. Howard Mackie estava cuidando de todo a linha Novo Universo – o qual todos viam como um claro sinal de que ele seria demitido logo. Então, Shooter que foi demitido, e Howard viu a oportunidade de realmente fazer algo com aqueles títulos. Ele me ofereceu Estigma, mas eu não aceitei. Então, nas semanas seguintes, cada vez que vinha falar comigo, sobre qualquer assunto, eu tinha que dizer “E não, eu não quero fazer Estigma”.

Mas aí descobri que, apesar de tudo, estava intrigado com o personagem. Havia coisas que eu achava que podia fazer. Pensei que seria especialmente interessante, porque todos esperavam que eu a usaria para jogar Shooter na lama. Então, eu decidi imediatamente que não faria isso! E deixei que os leitores decidissem se eu fui bem-sucedido!

UHQ: Como a DC Comics entrou em contato com você para a reformulação do Super-Homem, e o que eles tinham em mente? Você tinha “carta branca” para fazer as mudanças?

Byrne: Por muitos anos, mais ou menos desde que foi lançado o primeiro filme do Super-Homem estrelado pelo Christopher Reeve, eu fiz muito barulho sobre como sentia que a DC estava maltratando o personagem. Eu estava sob o contrato da Marvel naquela época, mas no momento em que ele terminou, Dick Giordano, que era editor executivo da DC, me ligou, e basicamente disse: “Ajoelhou, tem que rezar”. Parecia que eles sabiam que o personagem precisava de algum tipo de reformulação, e haviam sondado diferentes desenhistas e escritores pedindo propostas.

Frank Miller, Steve Gerber e Elliot Maggin estavam entre aqueles que já haviam dado idéias, desde simples rascunhos até detalhados roteiros. Eu aceitei o desafio e mostrei o que acabei chamando de “Lista de Exigências Indispensáveis”, com uns 15 ou 20 elementos do personagem que eu achava que precisavam ser arrumados, que assim nomeei, porque pensei que a DC nunca me deixaria (ou a qualquer outra pessoa) fazer mudanças em seu personagem principal.

Para a minha grande surpresa, a DC rejeitou apenas uma das minhas “exigências indispensáveis”. Então, a próxima coisa que soube foi que me escolheram para fazer a reformulação. Naquela altura, apesar de tudo ter passado por aprovação editorial, tive muita liberdade.

UHQ: E qual era essa exigência que a DC rejeitou?

Byrne: Eu sabia que você ia perguntar isso!

UHQ: Era uma pergunta bastante óbvia!

Byrne: Bem, o que aconteceu foi o seguinte: um dos problemas que percebi que confrontaria com minha versão de “único sobrevivente” era como ficaríamos sabendo que a kryptonita poderia matá-lo. Quero dizer, claro que todos nós sabemos que kryptonita pode matar o Super-Homem, mas no contexto da história do perosnagem, como saberíamos? E mais importante, como ele saberia? 

Minha solução foi não colocar o bebê Kal-El no foguete em direção à Terra, mas sim a sua mãe, Lara, grávida. Ela chegaria, daria à luz e o bebê ganharia seus poderes aos poucos. Então, Lara encontraria o único pedaço de kryptonita que chegou ao nosso planeta e, como resultado, morreria.

Janette Kahn (Nota do UHQ: presidente da DC) achou que isso era ir longe demais do original, e sugeriu que, já que a kryptonita era formada pelas mesmas pressões internas de Krypton que causaram a destruição do planeta, talvez ela já estivesse formada antes da explosão, e que as pessoas estariam morrendo antes mesmo de Kal ser enviado ao espaço. Eu gostei dessa versão, e terminamos por fazer assim.

UHQ: Nos fale um pouco sobre a sua versão de Krypton. Quais os principais aspectos do planeta, e como isso influenciou o Super-Homem?

Byrne: Originalmente, ia fazer Krypton muito parecido com o que sempre foi, apenas um pouco mais futurista e um pouco menos antiquado. Então, Dick [Giordano] disse que achava que eu deveria refazer totalmente o planeta para “os leitores saberem que as coisas seriam diferentes desde a primeira página.”

Com isso na cabeça, pensei em elementos de Krypton que não gostei ao longo dos anos, e um deles era a maneira com a qual o Super-Homem se referia ao planeta, na maioria das vezes, como se fosse um kryptoniano, e a Terra significasse muito pouco para ele.

Como uma pessoa que nasceu em um país e cresceu em outro, sempre achei que isso era errado. Eu tenho recordações da Inglaterra, mas tinha oito anos quando sai de lá, e não tinha nenhum “patriotismo” junto de mim. Super-Homem era ainda mais jovem quando deixou Krypton.

Para mim, cada vez que ele falava “Krypton perdido” ou exclamava “Grande Rao!” era como se estivesse cuspindo na cara de Martha e Jonathan Kent, as pessoas que realmente cuidaram dele, e lhe deram tudo (com exceção dos poderes) que fez dele o que era. 

Então, juntando isso com as instruções de Dick para fazer Krypton “diferente”, refiz um planeta (em termos de roupas e arquitetura) que seria “futurista”, mas não de uma maneira que ficasse datado em alguns anos. Durante vários meses, noções de um mundo frio e anti-séptico começou a se formar na minha cabeça; um mundo que, no final, o Super-Homem ficaria feliz em deixar. 

Aliás, uma coisa infeliz do comentário de Dick, que ficou na minha cabeça, foi que Krypton deveria aparecer na página de abertura da primeira edição da reformulação. Olhando para trás, gostaria de não ter feito isso.

A primeira página seria com Clark jogando futebol americano, e não ia deixar os leitores descobrirem sobre sua origem, até ele mesmo descobrir, na última edição da minissérie Homem de Aço.

Dessa maneira, eu poderia ter gerado algum “suspense” sobre o quão grande seriam as minhas mudanças em Krypton, ou ao menos deixar as pessoas pensando se eu realmente faria uma origem completamente diferente!

UHQ: Você recebeu muitas críticas com a reformulação do Super-Homem?

Byrne: A maioria das críticas negativas veio meses antes da primeira edição ser vista por qualquer pessoa de fora dos escritórios da DC. Na verdade, a maioria delas veio antes mesmo de eu começar a trabalhar no projeto. O mero anúncio dos planos foi o suficiente. 

Quando o trabalho foi lançado, as críticas ruins começaram a diminuir, à medida que as pessoas foram vendo que eu estava sendo fiel ao personagem e seus conceitos, fazendo mais uma “restauração” do que uma reconstrução.

Entretanto, houve um fã radical do Super-Homem que continuou sua campanha de críticas contra o “meu” Super-Homem, até o dia em que faleceu, pouco mais de um ano atrás.

UHQ: Comparando as duas versões de Krypton (a sua e a da Era de Prata), e as épocas em que foram feitas, o que lhe chama mais a atenção?

Byrne: Houve várias versões de Krypton. Como mostrado originalmente, era um planeta habitado por uma raça de “super-homens”. Todos tinham os mesmos poderes que o Super-Homem possuía quando apareceu. Realmente, na primeira vez em que vimos Jor-El (então Jor-L), ele estava “pulando sobre edifícios com um único salto” para ver Lara, que acabara de dar à luz. 

Com o passar dos anos, à medida que Super-Homem foi se tornando cada vez mais poderoso, os kryptonianos foram ficando mais fracos e humanos.

Suspeito que os editores perceberam que estava ficando difícil explicar porque todos morreram quando Krypton explodiu, já que tinham os poderes do Super-Homem!

Então, naquela época em que conheci o planeta, na metade da década de 1950, ele havia se tornado um mundo gigante e mais familiar, que orbitava uma estrela vermelha, e todos os poderes do Super-Homem vinha por causa de sua exposição ao sol amarelo da Terra.

Alguns anos depois, especificamente quando eu já acompanhava como leitor, os editores também embarcaram no que parecia uma campanha calculada para tirar o personagem de seu status de “único sobrevivente de um planeta extinto”. Uma das primeiras histórias que li introduzia Kandor (um bilhão de sobreviventes!) e, pouco depois disso, veio a Supergirl. Assim, o Super-Homem não estava sozinho nem na Terra

O principal objetivo das minhas mudanças, então, era restaurar o que achava ser um elemento importante: ele foi o único sobrevivente. Isso, juntamente com o que mencionei antes, moldou o “meu” Krypton.

UHQ: Houve algo de que você tenha se arrependido de ter feito com o Super-Homem durante sua reformulação? O que ocasionou a sua saída do título?

Byrne: Se tem algo que eu me arrependo é de ter omitido o Superboy. Quando foi me oferecido esse trabalho, propus fazer a reformulação dentro da continuidade, pegando o Super-Homem em um determinado ponto (onde ele estava) e, durante um ano, levá-lo para outro ponto (onde eu queria que ele estivesse).

DC insistiu em uma reformulação completa, e vislumbrei nisso o potencial para algo que não víamos há muito e muito tempo: um Super-Homem que era novo em seu trabalho, um Super-Homem que ainda estava aprendendo por onde seguir seu caminho.

Então, uma das coisas que fiz foi ver as primeiras histórias de Seigel e Shuster, e lembrei que eles introduziram o personagem já adulto. Superboy era o que hoje chamamos de “retcon” – continuidade retroativa (Nota do UHQ: retroactive continuity, em inglês). Eu decidi fazer a mesma coisa – que “meu” Super-Homem começasse sua carreira como um adulto, e passasse seus primeiros anos aprendendo a lidar com o trabalho. A DC concordou com isso, e assinei (literalmente, pois havia contratos).

Infelizmente, no último minuto, eles mudaram de idéia e insistiram que o Super-Homem estivesse pronto no final da minissérie Homem de Aço. Tempos depois, percebi que o que eles queria era um grande nome – no caso, eu – para entrar a bordo e fazer com que todos lessem as revistas do personagem, sem realmente mudar nada.

Infelizmente, tudo já estava sendo trabalhado na minha cabeça, e eu estava comprometido emocional e intelectualmente com a versão não-Superboy. Se eu soubesse naquela época o que sei agora, teria mantido o Superboy e usado suas aventuras para explorar o processo de aprendizado do Super-Homem.

Saí do título, porque fiquei sobrecarregado. Terminei por escrever os três títulos e desenhar dois, além de várias minisséries. Fiz algo em torno de 75 projetos relacionados com o Super-Homem, em pouco mais de dois anos. Isso seriam mais de seis anos de trabalho, se fosse uma revista mensal.

Além disso, confesso, fiquei cansado das atitudes não-comprometedoras da DC. Eles aprovavam tudo que eu fazia, mas no primeiro sinal de má repercussão entre os fãs -mesmo meses antes de a reformulação começar -, voltavam atrás. Fiquei cansado daqueles jogos.

UHQ: Você leu a história Retorno a Krypton (Nota do UHQ: publicada no Brasil em Superman Premium #19, onde os leitores foram apresentados para um novo planeta Krypton)? 

Byrne: Não, mas fiquei surpreso com a reação dos fãs. “Tome isso, John Byrne!” parecia ser tema recorrente. Fiquei mesmo surpreso que as pessoas acreditem que essa história varrerá “meu” Krypton, especialmente porque, meses antes, Paul Levitz (Nota do UHQ: editor-chefe da DC Comics) me pediu para dar algumas idéias para uma nova série Mundo de Krypton, que iria explorar toda a história do planeta.

UHQ: Você aceitou o convite de Paul Levitz?

Byrne: Eu fiz um esboço. Paul criou um título, por brincadeira, chamado James Michener’s Krypton, desses romances que se arrastam por várias gerações, como Michener costumava escrever (Nota do UHQ: famoso novelista americano que escreveu livros como Saga do Colorado). Eu percebi que seria uma chance de explorar alguns gêneros interessantes que não fossem super-heróis e, ainda assim, contribuir com outras famílias que não fossem as dos ancestrais do Super-Homem. 

Esse esboço foi aprovado há mais ou menos um ano, mas meu horário não tem me permitido continuar com a idéia e criar mais detalhes. Então, não espere isso para tão cedo!

UHQ: Como você vê o mito Super-Homem?

Byrne: Ser o encarregado da reformulação do Super-Homem foi uma das coisas mais assustadoras que fiz, profissionalmente falando. O personagem tinha mudado tanto e tantas vezes desde a sua introdução, em 1938, que eu tinha que achar uma maneira de fazer o trabalho.

Se o Super-Homem fosse um mito constante e consistente, não poderia fazer isso. Claro, se ele fosse um mito constante e consistente, ninguém seria encarregado de fazer isso!

UHQ: Depois da sua reformulação do Super-Homem, muitos leitores acharam que a era pré-Crise não o atraía muito. Mas isso não parece ser verdade, ao vermos outros trabalhos seus, como sua fase com a Mulher-Maravilha e as minisséries Gerações I e II (publicadas no Brasil pela Opera Graphica). Você era fã do Universo DC pré-crise? Qual a sua opinião sobre esse período?

Byrne: Eu adoro o Universo DC pré-Crise! Tantas pessoas parecem esquecer que a reformulação do Super-Homem foi lançada num universo pós-Crise. Não fui eu quem mudou tudo. Eu não poderia fazer a versão pré-crise se quisesse. E, vou admitir, o que me atraiu na oferta foi o desafio de encontrar uma encarnação do Super-Homem que reverenciasse tudo o que ele havia sido, mas que, ainda assim, pertencesse á década de 1980 e além.

UHQ: Por falar em Gerações, a quantidade de referências sobre a DC pré-Crise é enorme. Como foi o trabalho de pesquisa dessa minissérie? 

Byrne: A maioria das coisas veio da minha lembrança daqueles tempos, embora tenha sorte de possuir os três volumes da Enciclopédia dos Super-Heróis, de Michael Fleisher: Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha. Muitas partes das duas minisséries Gerações vieram depois de dar uma olhada nesses volumes.

UHQ: Existe a possibilidade de uma terceira minissérie?

Byrne: Toda primeira semana de cada mês eu ligo para o Mike Carlin (Nota do UHQ: vice-presidente do Universo DC) e digo ‘Gerações 3!’. Temos uma idéia bem definida do que queremos fazer com a terceira minissérie, mas ainda não foi oficialmente aprovada.

UHQ: E o que você pretende mostrar nessa terceira minissérie? Quais as suas idéias?

Byrne: Vamos apenas dizer que cobrirá um território bem diferente do que foi visto em Gerações 1 e Gerações 2… se realmente for lançada!

UHQ: Depois do Super-Homem, você ficou marcado como o autor a ser chamado para reformular personagens. Como você encara isso?

Byrne: É algo que eu nunca quis! Infelizmente, isso ainda parece acontecer, e me encontro pensando “Se eu não fizer, vão escolher outra pessoa. E se escolherem alguém ruim??” Eu me preocupo muito com esses personagens, vocês sabem! Eles têm sido meus amigos por muito, muito tempo.

HQ: O tipo de trabalho realizado na reformulação do Super-Homem e as críticas recebidas foram úteis em relação a Homem-Aranha: Gênese (Nota do UHQ: Spider-Man: Chapter One, em inglês)?

Byrne: Nem um pouco. Gênese foi um projeto totalmente diferente. Não era um recomeço; no máximo, uma nova olhada na origem. As principais situações ficaram inalteradas. Com o Super-Homem, uma parte inteira de sua história foi varrida.

Muitas histórias do Super-Homem desapareceram retroativamente, devido à minissérie Homem de Aço. Eu acho que apenas uma história de Homem-Aranha deixou de ser referência, devido à série Gênese.

UHQ: De acordo com suas próprias palavras, na época em que produziu Homem-Aranha: Gênese, você não achava que o personagem precisasse ter sua origem recontada. Como foi o contato da Marvel para esse projeto? Por que eles queriam refazê-la? O que você achou do resultado final do projeto?

Byrne: A idéia era criar uma revista que providenciasse uma fácil acesso ao personagem para novos leitores. No início, nem era pra virar referência. Por mais estranho que pareça, foi em reação às críticas negativas – e não houve tantas quanto as pessoas pensam – que os poderosos da Marvel começaram a tratar a revista como se fosse oficialmente o início do personagem. Alguns outros títulos da época – Demolidor, por exemplo – fizeram referências à Gênese.

Não havia nenhuma “negociação” real. Howard Mackie, que escrevia Amazing Spider-Man, me disse, num belo dia, que Ralph Macchio, o editor das revistas do Aranha, havia comentado que adoraria contar comigo para fazer uma espécie de Heróis Renascem com o personagem. Eu liguei para o Ralph e disse “Fechado!”. Foi assim.

Fiquei imensamente feliz com a minha parte do resultado final, mas parece ter havido alguma confusão na M*rv*l sobre se Gênese realmente passaria a contar ou não. Agora, com o Ultimate Spider-Man, eles parecem estar se encaminhando para uma “Crise nas Infinitas Teias”!!

UHQ: E o que você achou de Ultimate Spider-Man e a linha Ultimate Marvel em geral?

Byrne: Achava que a linha Ultimate era uma grande idéia, quando a ouvi pela primeira vez. Era uma espécie de companheiro de Gênese, dando aos novos leitores um lugar para ir, sem terem que se preocupar com mais de 30 anos de continuidade. A execução, infelizmente, é outro assunto.

A palavra “masturbação” me vêm à mente – especialmente em Ultimate Spider-Man. Uma pena. Como disse, tinha grandes esperanças, no começo, quando tudo era apenas um brilho nos olhos de Bob Harras.

UHQ: Seus trabalhos na DC também têm um forte vínculo com personagens que foram anteriormente desenhados por Jack Kirby, como por exemplo, a série OMAC, de 1991, e mais recentemente em Jack Kirby’s Fourth WorldÓrion e New Gods. O que lhe atrai nestes personagens? 

Byrne: O que não atrai? Sério, eles são personagens incríveis, com maravilhosos conceitos. Desde que eu pareço ter sido considerado o herdeiro artístico de Jack Kirby (sem merecer, esteja certo disso), foi uma grande honra ser convidado para dar continuidade à suas histórias (Nota do UHQ: Novos Deuses está sendo publicado pela Brainstore, na revista DC Millennium; e existem planos para a publicação também de Quarto Mundo e Orion).

UHQ: Você acha que seus trabalhos na DC são menos valorizados que os realizados na Marvel? 

Byrne: Certamente não tive na DC o mesmo impacto que tive na Marvel, onde trabalhei por um longo e contínuo período, numa época em que era possível causar grandes impactos.

Lembro quando o livro de Les Daniel sobre a Marvel saiu, que parecia que meu nome estava em todas as páginas. “Essa leitura parece mostrar que metade da minha carreira foi na Marvel“, eu disse. Daí fiz as contas e percebi que metade da minha carreira realmente foi na Marvel!

UHQ: Qual a diferença de trabalhar com a DC e a Marvel?

Byrne: Sob as melhores circunstâncias, não muitas. A primeira vez que visitei os escritórios, em 1971, a DC parecia muito mais incorporada – parecia uma companhia de seguros -; e a Marvel era bem menos estruturada – escritórios amontoados em uma grande sala com pequenas “celas” de um lado.

Mas houve tantos talentos de lá para cá, que é difícil de diferenciar um do outro. Embora os escritórios da DC ainda sejam maiores. E mais limpos!

UHQ: O que aconteceu com Next Men? Existe uma chance de a série retornar?

Byrne: Eu parei com Next Man com a intenção de retornar ao título em, no máximo, seis meses. E isso foi há mais de seis anos! Infelizmente, o que não podia prever era que a indústria escolheria justamente aquele momento para entrar em colapso. A revista foi elogiada e tinha boas vendas, mas temo que, se voltasse com ela no mercado de hoje em dia, seria rapidamente varrida.

Mas espero voltar com Next Men algum dia. Em primeiro lugar, ainda tenho umas 20 histórias para contar. Em segundo, isso significaria que a indústria teria se recuperado o suficiente para suportar a volta do título!

UHQ: Você fez o roteiro da primeira história de Hellboy, de Mike Mignola. Foi nostálgico voltar a trabalhar com ele, depois do trabalho que fizeram em O Mundo de Krypton? E o crossover entre Hellboy e Next Men? Foi só para promover os personagens, ou existiam outros planos?

Byrne: Mike é um artista fenomenal, e foi uma honra quando ele me pediu para fazer o roteiro da primeira história do Hellboy – para encontrar o tom certo do título.

O crossover – que é, na verdade, uma participação especial – aconteceu numa história onde personagens dos quadrinhos ganhavam vida no mundo dos Next Men. Também tive permissão de usar Monkeyman e O’Brien, Concreto e os personagens de ElfQuest (eu me diverti com Paul Chadwick, ao fazer o Concreto se comportar completamente fora de seus padrões). Hellboy era parte disso. 

Já que eu e Mike “trabalhamos juntos” em Hellboy, parecia natural tê-lo naquela rápida sequência onde esses personagens apareciam.

UHQ: Por que você não está mais no selo Legends/Maverick?

Byrne: Jo Duffy foi quem descreveu isso melhor: “Não demorou muito para a Lenda se tornar um Mito” (Nota do UHQ: Lendas é a tradução de Legends, nome do selo citado na pergunta). Legends começou como uma boa idéia, mas saiu errado. Algumas das pessoas envolvidas simplesmente não podiam se comprometer com as tarefas que lhes foram incumbidos – produzir uma revista regularmente. 

Não demorou até Legends se tornar justamente aquilo que nunca queríamos que fosse: um selo que anuncia e promove suas revistas, mas que nunca são lançadas. Frank [Miller] e eu saímos. Não só deixamos Legends, como ela teve uma espécie de morte depois disso.

UHQ: Há algum personagem que você gostaria de trabalhar, mas ainda não teve oportunidade?

Byrne: Muitos! Ainda gostaria de ter uma chance com Gavião Negro, Patrulha do Destino, Metal Men e talvez até mesmo o Doutor Estranho.

UHQ: Do que se tratava exatamente Marvel: The Lost Generation? Você e Roger Stern conseguiram colocar todas as suas idéias em prática?

Byrne: Sim, colocamos muita coisa! Lost Generations surgiu de um comentário que fiz em um chat do AOL, numa tarde. Estávamos discutindo a cronologia da Marvel – que diz que faz apenas sete ou oito anos desde que o Quarteto Fantástico decolou naquele foguete. Comentei que o tempo do sumiço do Capitão América até ele ser descoberto congelado estava ficando cada vez maior.

Havia um grande buraco se formando, e eu disse: “Mais cedo ou mais tarde, algum idiota vai tentar preencher isso”. Então, decidi que o idiota deveria ser eu! Recrutei Roger como co-conspirador, porque ele tem um grande conhecimento até mesmo dos pequenos detalhes da história da Marvel. Tínhamos a intenção de “encher o buraco” entre o desaparecimento do Capitão, em 1945, até a decolagem do foguete do Quarteto, “há sete anos”. No processo, demos à Marvel uns 100 novos personagens.

UHQ: Você desenhou Space: 1999 (Nota do UHQ: Seriado de TV, de 1975, com Martin Landau) e a série Indiana Jones, quando ainda era publicada pela Marvel. O que acha das adaptações de filmes e seriados para os quadrinhos?

Byrne: Odeio! Odeio! Odeio! Nunca tive uma boa experiência fazendo uma adaptação. Na verdade, nem quero mais fazer isso.

UHQ: O que acha do Comics Code Authority (o Selo do Código de Ética)? Ele ainda é necessário? Ano passado, a Marvel rompeu com o selo. Você acha que isso será seguido por outras editoras?

Byrne: Ninguém mais presta muita atenção no Comics Code. A M*rv*l “romper” com eles foi apenas uma jogada promocional. Tudo o que a “Casa das Idéias” dos dias de hoje faz é baseado em jogadas de marketing. 

UHQ: Seu mais recente projeto é um título creator-owned (Nota do UHQ: revista criada pelo próprio autor, cujos direitos pertencem a ele, e não à editora) para a DC Comics, chamado Lab Rats, que estreou em abril. Como surgiu a idéia para essa série?

Byrne: Já venho pensando nesse título há muito tempo, procurando a revista certa para colocá-lo em prática. Quando Hidden Years foi cancelado e percebi que não poderia trabalhar com o atual regime da M*rv*l, liguei para o Mike Carlin e perguntei se teria trabalho disponível na DC. “Só se demitirmos alguém de alguma revista”, ele disse.

Bem, é claro que eu não queria que Mike fizesse isso! “Então, apareça com alguma coisa nova!”, ele completou. E eu apareci. Somente alguns dias antes dessa conversa, a “revista perdida” para Lab Rats me veio à cabeça, e juntei as duas coisas. Mike gostou, e a DC se comprometeu com 12 números, para começar.

UHQ: Apesar de ser creator-ownedLab Rats fará parte do Universo DC tradicional. Como será a participação de outros heróis na série? Haverá crossovers freqüentes?

Byrne: O terceiro arco de histórias terá a participação do Super-Homem. Essa é a única programada, e não haverá crossovers – a não ser que eu consiga fazer outra revista na DC!! Preciso ser muito cuidadoso com esses personagens nesse primeiro ano.

UHQ: O que achou da estréia de Lab Rats (84º na lista dos 100 mais vendidos)? Como espera que seja a receptividade dos leitores daqui pra frente?

Byrne: Eu já desisti há muito tempo de imaginar o que os fãs vão fazer ou pensar. Estou dando o melhor de mim nessa revista. Espero que eles gostem. É tudo o que posso dizer.

UHQ: Além de Lab Rats, quais seus outros projetos futuros? O que pode nos contar de novidades?

Byrne: No momento, estou fazendo umas 10 semanas de tiras em quadrinhos de jornal para um amigo que precisa se manter no anonimato. É um trabalho que nunca fiz antes, e está sendo bem divertido. Além disso, tenho alguns planos. Nada que eu possa falar por enquanto.

UHQ: Você tem feito alguns trabalhos utilizando programas 3D. Você gosta dessa tecnologia? É apenas um hobby ou você usa para ajudá-lo a visualizar diferentes formas?

Byrne: Já venho modelando há uns seis anos, e adoro isso! Gostaria de poder fazer o tempo todo! Tenho usado para melhorar meu trabalho (a primeira vez foi em OMAC, para quando a máquina se “fixava”, mas era diferente do que uso atualmente, e usava basicamente para layouts). 

Nos últimos dois anos, eu uso o modelador para criar algumas coisas como vários bat-móveis e a Mansão Wayne, assim como silhuetas de Gotham e Metrópolis (todos para Gerações 2), e a mansão dos X-Men e os veículos (para Hidden Years).

Até agora, em Lab Rats, usei o modelador para criar seu quartel-general (o interior e o exterior), e alguns dos veículos que eles usam.

UHQ: O que você acha do trabalho de Joe Quesada à frente da Marvel?

Byrne: Volte a me perguntar em cinco anos.

UHQ: Você está trabalhando neste mercado há cerca de 30 anos, e já passou por várias fases. Como estão os quadrinhos atualmente? Melhor do que quando você começou? Pior? Quais as vantagens e desvantagens de hoje em dia?

Byrne: Eu estou nessa indústria há 26 anos! Não me coloque no caixão ainda!

UHQ: Ops! É verdade, você começou a trabalhar com quadrinhos por volta de 1975!

Byrne: Sem problema! Mas os anos passam cada vez mais rápidos, à medida que você vai ficando mais velho!

Quanto à Marvel… Bem, como eu disse, eu apenas me refiro à atual versão como M*rv*l, que é a minha maneira de dizer que está faltando algo. Um verdadeiro senso de direção, talvez. Ou, mais importante, uma memória.

Não consigo pensar em algo positivo para falar sobre a indústria como um todo. Existem muitas tentativas de recuperá-la, mas muitos dos que trabalham nela hoje vieram do boom da década de 1990, e acham que aquele período – e a maneira como foi obtido – é como a indústria deve ser tocada. Como eu disse, jogadas de marketing.

UHQ: O que você acha da invasão em escala mundial dos quadrinhos japoneses? Gosta de algum artista japonês em especial?

Byrne: Eu lia mangá quando estava na faculdade, há 30 anos. Quando a indústria acordou para isso, há uma década ou mais, já não era novidade para mim. Nunca prestei muita atenção nisso.

UHQ: E os quadrinhos europeus? Você admira algum autor ou obra em especial?

Byrne: Não saberia dizer sobre as histórias, mas adoro os trabalhos de Serpieri, Manara, e, é claro, Moebius!!

UHQ: Qual sua opinião sobre os roteiristas britânicos (Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison etc)?

Byrne: Materiais notáveis, desde que eles sigam um caminho claro nos super-heróis. Eles não parecem pegar totalmente o conceito.

UHQ: Falando em Gaiman, qual sua opinião sobre a briga dele com Todd McFarlane pelos direitos de Miracleman? E sobre a lei de direito autoral nos quadrinhos?

Byrne: As leis de direitos autorais são bastante ruins. Todo o acordo de “trabalho-feito-sob-encomenda” não é bom. Entretanto, todos sabemos no que estamos nos metendo. Então, não temos nada do que reclamar.

Pelo que entendi, o problema entre Neil e Todd foi não terem honrado um acordo de negócios, e não algo a ver com direitos autorais diretamente.

UHQ: Como você vê a Internet em relação aos quadrinhos?

Byrne: Não consigo imaginar como se possa fazer quadrinhos online de maneira lucrativa. 

UHQ: No começo de sua carreira você trabalhou bastante com o Punho de Ferro. O que espera do filme que está sendo produzido? E qual sua opinião sobre esta avalanche de adaptações de quadrinhos para o cinema?

Byrne: Leonard Maltin (Nota do UHQ: Crítico de Cinema americano) comentou que as crianças que cresceram lendo quadrinhos são os “adultos” que estão decidindo o que se fazer nos filmes.

Então, eles se viram para os quadrinhos. E, claro, têm que “consertar” os quadrinhos – com aquela estranha atitude de “Aquilo era sensacional? Então, não vamos fazer isso!” -, que também pode ser muito freqüente nos próprios quadrinhos.

Eu não sabia que ia ter um filme do Punho de Ferro. Espero que tenha a ver com a revista.

UHQ: Se você tivesse que recomendar um trabalho seu, para alguém não familiarizado com a sua obra, que título você sugeriria?

Byrne: Batman & Capitão América é um trabalho bom e autocontido.

UHQ: Você é um autor muito polêmico, que não tem medo de dizer o que pensa. Isso já chegou a te atrapalhar? Ou, pelo contrário, ajudou na sua carreira?

Byrne: Machuca mais do que qualquer outra coisa, eu suponho. Editores são muito covardes e supersticiosos, e muitos nem me ligam mais, porque sou “difícil”. Normalmente, isso significa que eu espero um comportamento profissional. 

Me falaram que eu devia morder minha língua, mas não vejo o porquê. Se faço isso, me ferram. Se dou minha opinião, também me ferram. Na segunda alternativa, pelo menos, falo o que penso.

UHQ: Pra terminar, gostaríamos que você definisse algumas pessoas em apenas uma frase. Vamos lá?

Chris Claremont?

Byrne: Um enorme talento quando não está fixado na Fênix.

UHQ: Jack Kirby?

Byrne: Uma frase? Que tal uma palavra? Gênio!

UHQ: Stan Lee?

Byrne: O mestre artesão.

UHQ: Frank Miller?

Byrne: Lembro quando ele era um jovem punk. Agora que ele passou dos 40, acho que é um punk de meia-idade. E um punk talentoso, maldito seja!

UHQ: Jeph Loeb?

Byrne: Não estou familiarizado o suficiente com seu trabalho para comentar.

UHQ: Joe Quesada?

Byrne: Desculpe? Quem?

UHQ: Roger Stern?

Byrne: Um bom amigo, e um escritor melhor ainda.

UHQ: Bill Jemas?

Byrne: Jemas. Jemas. Sei que já ouvi esse nome em algum lugar…

UHQ: E você mesmo: John Byrne por John Byrne?

Byrne: Cavalgando pelo universo como um deus em busca de diversão e lucro.

UHQ: John Byrne, muito obrigado pela atenção que você deu ao Universo HQ.

Byrne: O prazer foi meu!

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