Kyle Baker, mas pode chamá-lobrde Mr. Versatilidade

Por Sidney Gusman
Data: 14 agosto, 2003

Numa entrevista exclusiva ao Universo HQ, o irreverente artista falou de seus projetos autorais, dos trabalhos com super-heróis, com humor e até com desenhos animados; disse que não há crise no mercado de quadrinhos; e afirmou que é bem melhor assistir ao filme dos X-Men do que ler os seus gibis

Por Sidney Gusman, Sérgio Codespoti e Heitor Pitombo

Kyle Baker
Kyle John Baker, Mr. Versatilidade

Kyle Baker é o que se pode chamar de “figuraça”. Negro, alto, um pouco acima do peso, cabelo (bem longo) rastafari e sempre de manga comprida, mesmo sob o calor estonteante que abafou Belo Horizonte durante o 3º Festival Internacional de Quadrinhos. Mas sua principal característica não é nenhuma dessas. Ele é um dos artistas mais simpáticos e solícitos que já passaram por eventos no Brasil.

Com uma paciência invejável e sempre com um sorriso no rosto, atendeu a todos os fãs que o procuraram no evento e distribuiu centenas de autógrafos, sempre acompanhados de um desenho, lógico.

Truth #1
Capa de Truth #1, arte de Kyle Baker

E foi com esse jeitão despojado, que Baker, um dos responsáveis, há pouco tempo, pela minissérie Truth, que contou a história de um Capitão América negro, concedeu uma entrevista exclusiva ao Universo HQ, na qual falou sobre os mais variados assuntos, o que apenas denotou toda sua versatilidade.

Super-heróis? Ele comentou sobre o seu polêmico Sombra (ao lado do roteirista Andy Helfer); falou do projeto atual com o Homem-Borracha; detonou a Marvel e a DC; afirmou que é melhor assistir ao filmes dos X-Men ou do Hulk do que ler seus quadrinhos; explicou a polêmica sobre a famosa edição (quase) proibida do Superman bebê atormentando uma babá; e muito mais.

Trabalhos autorais? Ele contou sobre obras como You Are Here, Why I Hate Saturn, The Cowboy Wally Show, I Die At Midnight e King David, todas inéditas no Brasil.

Cyrano de Bergerac
Cyrano de Bergerac, com arte
de Kyle Baker

Desenhos animados? Depois de fazer vários trabalhos para a Warner, Baker falou o que é bom e o que é ruim nesse mercado.

Cartuns? Sim, eis mais uma faceta desse eclético profissional. Ele atualmente publica cartuns (confira alguns em seu site oficial), e também já fez ilustrações para veículos renomados, como The New York Times, Esquire, The New Yorker, Spin, Rolling Stone, Vibe, The Village Voice, Mad, Entertainment Weekly e ESPN

E tem muito mais! Kyle Baker contou que suas principais influências vêm das tiras, que não há crise no mercado americano e que entre suas leituras atuais está o clássico mangá Lobo Solitário.

Conheça agora um pouco mais sobre esse versátil artista, que teve alguns trabalhos publicados no Brasil, como a minissérie Justiça Ltda., a fase do Sombra e a edição especial Cyrano de Bergerac (pela série Clássicos Ilustrados) e, mais recentemente, a história Nas Ruas, em Imagine Superman de Stan Lee, todos pela Abril.

Kyle Baker e David Lloyd
Kyle Baker e David Lloyd, no 3º Festival Internacional de Quadrinhos.

Universo HQ: Qual seu nome completo e sua idade?

Kyle Baker: Meu nome completo é Kyle John Baker. Minha idade? Hummm… Acho que vou fazer 38 em dezembro. Sou de Nova York e ainda vivo lá.

UHQ: Qual sua formação? Onde aprendeu a desenhar?

Baker: Meus pais desenhavam. Aprendi muito com eles. Fiz algumas aulas, mas a maior parte foi na prática.

Eu cursei o colégio técnico de artes, mas não terminei porque tive que trabalhar para pagá-lo. Precisava de um emprego. E a única coisa que sabia fazer era desenhar.

Então, eu trabalhava para sustentar meu ensino. E foi aí que percebi que não precisava daquilo, pois já estava atuando profissionalmente.

UHQ: Quais seus primeiros trabalhos? Como começou na área?

Baker: Quando eu era garoto, queria trabalhar em jornal. Nem pensava nos quadrinhos. Fui estagiário na Marvel quando era bem jovem, mas meu interesse era fazer outros tipos de ilustração.

E agora, o engraçado é que não compensa fazer outro tipo de ilustração. Não vale a pena fazer uma tira de jornal. Não dá dinheiro e o trabalho é impresso pequeno demais. Não dá para fazer nada muito bem. Trabalhei um pouco nessa área, fazendo os Rugrats por uns meses, mas não gostei do resultado final impresso.

Rugrats
Tira de Rugrats

O mesmo acontece com as revistas. Elas não compram mais ilustrações, preferem usar muitas fotos. E não há muito espaço na propaganda também!

Estes eram os trabalhos legais quando eu era jovem, mas hoje são ruins. Já na minha juventude, não valia a pena desenhar os quadrinhos, porque você não era proprietário da sua obra, ficava sem o seu original, nenhum personagem era seu e não tinha direito a royalties.

Through the Looking Glass
Through the Looking Glass, da série Clássicos Ilustrados.

Veja bem, muitos dos filmes que estão sendo feitos atualmente são baseados nos contratos velhos dos anos 80. Marv Wolfman, o criador de Blade não recebeu nenhum tostão pelos longas-metragens; Steve Ditko também não ganhou nada por Homem-Aranha.

Mas isso está mudando. Agora está bem melhor. No ano passado, trabalhei com animação e agora voltei aos quadrinhos.

Hoje, a animação não é um bom negócio. Eles estão mandando os desenhos para a Coréia, para serem produzidos lá, porque é mais barato, e estão brigando com os sindicatos. As companhias arrecadam uma fortuna e nos tratam muito mal. A Warner, por exemplo, teve seu melhor ano, com Senhor dos Anéis e Matrix. E eles estavam sendo pães-duros e fazendo cortes.

O melhor caminho agora são os quadrinhos. O interessante é que, em livros e HQs, de certa forma, não existe um monopólio de distribuição.

As bancas têm um espaço limitado, mas as grandes companhias, como Esquire e Playboy, pagam um bom dinheiro para aparecer. O problema é que não existe espaço nessas revistas. Elas deixaram de ser entretenimento. Antes, a pessoa comprava uma publicação para se divertir, ler algo interessante. No entanto, atualmente, pelo menos nos Estados Unidos, elas só servem como plataforma de promoção de outras mídias. Não publicam contos, arte ou ilustração, com exceção da New Yorker. E não dá para viver só de uma revista.

Ferdinando e Pogo
Ferdinando, de Al Capp, à esquerda, e Pogo, de Walt Kelly

UHQ: Quais são suas principais influências nos quadrinhos?

Baker: Eu sempre gostei das tiras. John Hart, o cara que faz a.C.; Ferdinando, de Al Capp; Pogo, de Walt Kelly.

Naquela época, era um bom emprego. Além disso, a arte era publicada grande e a circulação era imensa. Hoje há bem menos jornais.

B.C. , de John Hart
B.C. de John Hart, conhecido no Brasil como a.C.

UHQ: E seus personagens favoritos, quais são?

Groo e Martha Washington
Groo, de Sérgio Aragonés,
e Martha Washington, de Frank Miller.

Baker: Nos quadrinhos, dos personagens que não são meus, eu gosto de Groo e Martha Washington (nota do UHQ: protagonista da minissérie Liberdade – Um Sonho Americano, de Frank Miller e Dave Gibbons, publicada pela Editora Globo em 1991).

Nas tiras, aprecio bastante The Diary of a Teenage Girl, de Phoebe Gloeckner. Ela é muito boa. É sobre a sua juventude.

The Diary of a Teenage Girl
The Diary of a Teenage Girl, de Phoebe Gloeckner

UHQ: Suas cinco últimas graphic novels não saíram no Brasil, apesar de já estarem disponíveis em outros idiomas. Pode nos dizer qual foi a repercussão, nos Estados Unidos e em outros países, de You Are Here, Why I Hate Saturn, The Cowboy Wally Show, I Die At Midnight e King David?

The Cowboy Wally Show
The Cowboy Wally Show, de Kyle Baker

Baker: Eu nem sei direito onde o material foi publicado. O departamento de direitos estrangeiros da DC Comics é nebuloso. Algumas vezes, eles te contam, outras não. Acho que esperam que você não descubra (risos)… Sei lá por que não me despedem!

Álbuns como Cowboy Wally e Why I Hate Saturn vendem pouco no começo, mas depois continuam saindo aos poucos.

UHQ: Seu início nos quadrinhos de super-heróis foi em que título?

Baker: Comecei fazendo arte-final para a Marvel e a DC. Fiz Homem-Aranha, Novos Mutantes e uma história, acho, para os Vingadores.

Muitas vezes, eles querem dar um descanso para o artista da série e então você é chamado para uma ou mais edições, para o cara dar um tempo, tirar umas férias.

UHQ: Como você e Andy Helfer reagiram quando a Conde Nast, detentora dos direitos do Sombra, exigiu o cancelamento da revista, acusando-os de desrespeitar o personagem (nota do UHQ: a dupla matou o Sombra, cortou sua cabeça e depois a implantou num robô)?

The Shadow #7
The Shadow #7, da DC, arte de Marshall Rogers e Kyle Baker

Baker: Eu arte-finalizava para a Marvel quando recebei o convite da DC, para fazer a mesma coisa no Sombra.

É uma longa história. Na época, tinha acabado de lançar Cowboy Wally, meu primeiro álbum, pela Doubleday. Como eles não pagavam muito bem, por ser meu livro de estréia, eu precisava de dinheiro para pagar meus impostos; e tirava do que ganhava em Homem-Aranha.

Então, como estava sem grana, perguntei pra DC se eles não queriam que eu também desenhasse o Sombra, pois estava sem emprego.

UHQ: Houve muita pressão sobre você? Como foi o peso da responsabilidade de assumir após artistas como Howard Chaykin e Bill Sienkiewicz?

Baker: Não houve pressão. Eu tinha certeza de que as vendas iam cair. Howard Chaykin começou a série e depois passou para Bill Sienkiewicz. Então, Marshall Rogers fez uma edição. E eu sabia que os leitores que compravam só por causa daqueles artistas largariam o título.

The Shadow #18
The Shadow #18, da DC, arte de Kyle Baker

Assim, continuamos a série enquanto pudemos.

UHQ: Qual foi a razão real do cancelamento?

Baker: Paramos porque não estava entrando dinheiro. Não houve interferência de ninguém. As vendas não paravam de cair.

Uma explicação sobre o funcionamento de uma revista licenciada: a DC usava o Sombra da Conde Nast, então, precisava pagar à empresa metade dos royalties.

Andy Helfer e eu recebíamos royalties muito baixos, pois, pra piorar, a revista não estava vendendo. E ainda tínhamos que dar metade para a Conde Nast. Ganhávamos três dólares por edição. Aí, dissemos: “Isso é ridículo. Vamos trabalhar no Batman e ganhar mais.”

The Shadow #19
The Shadow #19, edição final desta série da DC, arte de Kyle Baker

UHQ: Mas a trama nunca foi terminada?

Baker: Normalmente, quando você pára uma revista, alguém assume o título. Acho que Gerard Jones foi o responsável por finalizar a história.

UHQ: Também com Helfer, você fez a minissérie Justiça Ltda. Foi o melhor trabalho da dupla?

Nossa, fiz isso faz muito tempo. Há anos que não olho para esse material. Foi nessa época que comecei a produzir minhas próprias histórias. Eu já havia escrito Cowboy Wally antes de desenhar Justiça Ltda.

UHQ: Na época de quem foi a escolha de trazer de volta o personagem Vingador? Por que suas histórias não tiveram continuidade? A série foi mal de vendas?

Justiça Ltda #1, da Editora Abril
Justiça Ltda #1, da Editora Abril

Baker: Honestamente, não sei. Eu conhecia pouquíssimo daquele personagem, e acho que foi Andy (Helfer) que decidiu trazê-lo de volta.

UHQ: Você conhecia a existência da edição brasileira?

Baker: Não. Ninguém me fala nada. Descubro essas coisas quando viajo para os países. Com meus livros é melhor, porque, legalmente, eles são obrigados a me dizer.

Mas os outros materiais, nem me comunicam. Não há necessidade! Meus trabalhos são reimpressos por meio mundo, e eu nem sei.

Universo HQ Entrevista Kyle Baker

UHQ: Você publicou seus desenhos em veículos como The New York Times, Esquire, The New Yorker, Spin, Rolling Stone, Vibe, The Village Voice, Mad, Entertainment Weekly e ESPN. Mesmo assim, nunca ficou muito tempo longe dos quadrinhos. Por quê?

Ilustração para The New Yorker
Ilustração de Kyle Baker para a revista The New Yorker

Baker: Eu parei de fazer quadrinhos em 1990, porque não estava mais me divertindo. Quando comecei, as pessoas achavam que meu material era muito estranho, ninguém gostava. Agora, estão acostumadas ao meu trabalho.

Acabei saindo porque, como disse antes, não era dono do meu trabalho. Só voltei quando mudaram os contratos, que foi quando a Image começou.

UHQ: Você fez algo para a Image?

Baker: Ia fazer You are Here, estava conversando com a Dark Horse e a Image, editoras que nem existiam quando eu saí do mercado; e que agora ofereciam contratos melhores.

Então, a DC me chamou e disse que, no meu caso, mudariam os contratos.

You are Here, de Kyle Baker
You Are Here, de Kyle Baker

UHQ: Por três anos você ilustrou a série Bad Publicity, na revista New York. Como foi esta experiência?

Baker: Era uma tira semanal, nesta revista que lista teatros, cinemas e restaurantes. Quando você publica numa título assim, precisa trabalhar com muita antecedência, mas na New York, devido à periodicidade, podia fazer uma piada sobre algo que havia acontecido alguns dias antes.

UHQ: Em 2000, quando você fez a história Letitia Lerner: Superman’s Babysitter, na qual o Superman, ainda bebê, barbariza uma pobre babá, os editores sabiam o teor da HQ? Quem foi o responsável pelo veto?


Letitia Lerner: Superman’s Babysitter, de Kyle Baker

Baker: Paul Levitz não havia visto a revista. Eu não sei qual é o processo lá. Os editores haviam aprovado tudo, mas quando ele viu, mandou destruir os exemplares, mesmo depois de impressos. E é um direito dele.

UHQ: Você teve problemas com a censura?

Baker: Quando faço trabalho contratado, com muita freqüência, o material acaba não saindo. Estou acostumado a esta situação.

Muitas revistas te contratam para fazer a arte e, no final, não sai nada publicado, apesar de te pagarem. Estou acostumado. isso é normal.

Fiz uma história do Dick Tracy, na qual eles redesenharam todas as caras que fiz do personagem. Mas como me pagaram, não dá pra ficar chateado.

Dick Tracy #3
Dick Tracy #3, de Kyle Baker

UHQ: Depois que a história da babá “vazou”, a repercussão foi enorme e acabou até lhe rendendo dois Eisner Award. Você acha que ganharia esses prêmios se não tivesse havido tanta polêmica?

Baker: Acho que ninguém teria visto a história da babá, se não tivesse tido tanta publicidade negativa, se não tivesse sido destruída. Não acho que seria popular. Eu não leio mais esse material.

UHQ: Mas vocês ganhou outros prêmios…

Baker: Sim, tenho mais alguns. Eu ganhei um Eisner por You are Here. E acho que outro por Why I Hate Saturn… Não me lembro qual foi agora.

UHQ: Para você foi uma surpresa o convite da DC para trabalhar com o Homem-Borracha? Como é sua relação com a editora depois do “incidente” com Letitia Lerner: Superman’s Babysitter?

Plasticman #1
Plastic Man #1, o Homem-Borracha,
de Kyle Baker

Baker: Sim. Eles me convidaram, e aceitei fazer o Homem-Borracha, porque acho que posso fazer um bom trabalho. Tem menos pressão do que num personagem maior.

No Superman e no Batman, você não pode fazer qualquer coisa. Mas quem se importa com o Homem-Borracha?

UHQ: Você era fã de Jack Cole, o criador do Homem-Borracha?

Baker: Agora sou. A DC me deu os volumes em capa dura com as histórias dele, e descobri que o material é bom.

UHQ: É muito grande a expectativa em torno do seu Homem-Borracha, justamente porque você tem um estilo e um senso de humor que podem levá-lo de volta às origens. Quais seus planos para o herói?

Plastic Man #2
Plastic Man #2, o Homem-Borracha,
de Kyle Baker

Baker: Nesse momento, estou fazendo a série mensal, tentando manter a fórmula usada no passado. Como fiz nos Looney Tunes também. O trabalho foi retornar às origens. Por exemplo, o Frajola tinha que tentar pegar o Piu-Piu e, no final, sempre apanhava.

E, nos últimos 30 anos, ninguém fez isso. O mesmo aconteceu com o Homem-Borracha. Estou tentando voltar às origens, pois trabalhamos com o visual. E minhas histórias têm que ser assim.

Quando eu era garoto, se quisesse ver uma história de ficção legal, dinossauros, astronautas, gente voando, super-heróis etc, tinha que ler quadrinhos, porque os efeitos dos filmes eram terríveis.

O Superman era um cara num fio, Godzilla era um cara numa roupa de borracha e King Kong era uma marionete. Já nos quadrinhos, eram mais reais.

Plastic Man #3
Plastic Man #3, o Homem-Borracha,
de Kyle Baker

Agora, os efeitos são tão bons, que prefiro ver os X-Men no cinema. Acho o filme muito melhor do que qualquer quadrinho. Eles gastam 100 milhões de dólares! Não temos esse dinheiro para fazer uma HQ.

Então, é preciso pensar em outras razões para um garoto comprar seus quadrinhos. Não acho que podemos competir com os videogames. Se quero ver super-heróis, vou jogar videogame porque os efeitos são legais.

Mas creio que quadrinhos de humor não são feitos em todo lugar. As pessoas só os fazem para crianças. Homem-Borracha será engraçado. É uma revista de bobagens. Ele luta contra o crime fazendo humor.

O Homem-Borracha assume formas diferentes. Então, quando fica preso num quarto sem janelas, precisa se transformar em outras coisas para sair.

UHQ: O vídeo musical Break the Chain, do KRS-One, que você dirigiu e que chegou a ir ao ar na MTV, foi baseado numa HQ homônima ilustrada por você, certo? Como surgiu o convite? E como foi esta experiência?

Cena de You Are Here
Cena de You Are Here, de Kyle Baker

Baker: Sim, foi algo interessante e a tecnologia já mudou bastante. Sempre tive problemas com computadores, pois sempre chego no início da tecnologia.

Fiz esta animação no computador em 1993 ou 94. Tive o mesmo problema com You are Here: forçar a máquina a fazer coisas que ela não estava preparado para executar.

As coisas são feitas assim: primeiro se descobre um problema e depois a sua solução. Então, se ninguém criou este problema, ainda não há solução para isso. Hoje, tudo funciona.

Eu fui um dos pioneiros do letreramento por computador. E dava muito problema. O colorido eletrônico também. E atualmente se faz até animação, inclusive em laptops.

Why I Hate Saturn
Why I Hate Saturn, de Kyle Baker

UHQ: Depois de trabalhar com super-heróis e HQs adultas, você está escrevendo e dirigindo curtas-metragens para cinema da Warner Bros. Fale mais sobre isso, por favor.

Baker: Esses trabalhos serão lançados em breve (Nota do UHQ: um deles, do Coiote e do Papa-Léguas, é exibido antes do filme Looney Tunes de volta à ação). Trabalhar em Hollywood não é divertido. É tudo muito corporativo. Você faz o que te mandam, recebendo enormes quantias. Não é muito criativo. O estúdio te diz o que quer, você reescreve e redesenha.

Uma das coisas que não gosto é que não se reconhece nem mesmo o estilo dos artistas. O Pernalonga tem que ter sempre a mesma cara, parecido com os brinquedos.

UHQ: Quais são os desenhos?

Baker: Fiz um do Frajola e Piu-Piu e um do Gaguinho. E trabalhei em outros, mas não sei quando vão sair.

UHQ: Este ano, em San Diego, você lançou uma revista com cartuns seus. Como tem sido a repercussão? Os seus fãs de quadrinhos acompanham seus trabalhos em outras áreas?

New Baker
New Baker, de Kyle Baker

Baker: Foi interessante. Achei que as pessoas não iam gostar das piadas sobre minha família, porque a maioria dos leitores está na faixa dos jovens solteiros.

Eu tinha medo que piadas sobre um casal antigo poderia não ser divertido para esse público, mas eles gostaram.

UHQ: As pessoas compram devido ao seu nome?

Baker: Sim, geralmente porque são fãs do meu trabalho, pois eu não tenho personagens, nem costumo trabalhar no mesmo título duas vezes.

Ninguém quer ver a revista do Homem-Borracha, mas vão comprar porque é feita por mim.

UHQ: Gostaria de trabalhar com algum escritor em especial?

Baker: Ainda não fiz nada com Frank Miller. Acho que seria bem interessante. Já trabalhei com Alan Moore. Desenhei uma história de seis páginas do Splash Brannigan para a Tomorrow Stories. O curioso é que o roteiro tinha 24 páginas!

The Bakers
New Baker, de Kyle Baker

UHQ: Qual sua opinião sobre o mercado de quadrinhos atualmente? Há realmente uma crise?

Baker: Não. O que está acontecendo é que materiais diferentes estão vendendo, e as duas maiores editoras não têm a mínima vontade de reconhecer isso.

É uma época boa. Há mais editoras e mais quadrinhos sendo publicados. Com várias revistas no mercado, o leitor pode escolher, e não comprar uma da DC ou da Marvel. Assim, o dinheiro se espalha.

Por exemplo, as pessoas nos Estados Unidos estão comprando muito os trabalhos de Chris Ware, Daniel Clowes e Robert Crumb. Os leitores estão cada vez menos interessados em super-heróis.

Se eu quiser ver um bom super-herói, vou ao cinema assistir aos X-Men ou ao Hulk. Aposto que é melhor que a revista.

UHQ: O que pensa sobre as adaptações de quadrinhos para as telonas? Por que, na sua opinião, o cinema tem bebido tanto da fonte das HQs?

Baker: Porque os quadrinhos são visualmente interessantes. Quando se vende entretenimento visual, você precisa de boas imagens. É por isso que tanta gente faz filmes ruins, mesmo com um roteiro interessante.

Você precisa ter algo interessante para assistir. Quando faço quadrinhos, procuro algo visualmente interessante. Por isso, reduzi muito meus diálogos nos quadrinhos.

UHQ: Você gosta de autores de quadrinhos europeus? Quais?

King David
King David, de Kyle Baker

Baker: Artistas europeus? Eu gosto do Hugo Pratt, do material do (Lorenzo) Mattotti… o que mais? É difícil lembrar. De estrangeiro, aprecio muito as obras do argentino Alberto Breccia e o que tenho lido atualmente é o Lobo Solitário.

UHQ: Qual sua opinião sobre a invasão dos mangás no mundo inteiro? Você gosta desse estilo?

Baker: Eu gosto do Lobo Solitário. Do resto, não gostei muito. Acho que qualquer coisa que atraia os leitores para os quadrinhos é bom. A babá que trabalha em casa gosta.

A maioria do material não tem um bom apelo para mim. Queria ver impresso Spirited Away, que parece ser bom.

UHQ: O que esperar para os próximos anos? Pode nos contar sobre algum outro projeto em que esteja trabalhando?

I Die At Midnight
I Die At Midnight, de Kyle Baker

Baker: Vou publicar muito material meu, independente, de humor e a Rebelião de Nat Turner, uma revolta de escravos. Se der certo, farei também alguns quadrinhos bíblicos.

Na Internet falam muito que os mercados estão encolhendo. Mas você tem mais chance escolhendo um nicho.

Até as grandes redes de TV americana fazem isso. Não sei como é aqui, mas nos Estados Unidos, se a ABC quer que as pessoas assistam aos seus programas, tem que ter um apelo bem grande. O mesmo acontece com os filmes.

Mas também é possível, hoje, fazer algo para um mercado em particular. Você pode vender para escolas e tem vários lugares onde pode distribuir isso. Posso fazer outro tipo de marketing para os meus cartuns de humor, quem sabe até reencaderná-los e trabalhar com temas.

UHQ: É o que acontece no Japão.

Ilustração de Cães
Arte de Kyle Baker

Baker: Isso. Posso pegar quadrinhos que falam para os pais e juntá-los. Colocar todos sobre cães e vendê-los para os amantes dos cachorros (nota do UHQ: em seu site oficial, o autor tem alguns desenhos de cães).

UHQ: E os editores concordam com esta opinião?

Baker: Não. E é por isso digo que a DC e a Marvel, vão deixar a peteca cair se não se cuidarem. É que elas são empresas que fazem parte de companhias maiores, cujo grande interesse é manter as marcas viáveis.

Eles precisam empurrar o Superman. E os leitores estão se afastando do Homem de Aço. E já faz um tempo.

Baker dá um autógrafo para o Universo HQ
Baker dá um autógrafo para o Universo HQ

Mas a DC não pode parar de fabricar material. Por isso, tem que empurrar o Homem-Borracha, porque precisa popularizá-lo. E, se der certo, fazer filmes, animação brinquedos, e como é propriedade deles, eu não recebo nada.

Se eles publicam You are Here ou Cowboy Wally, e colocam em camisetas ou fazem brinquedos e filmes, daí teriam que me dar metade. E, claro, não vão fazer isso. Daí, apostam no Superman, porque é deles. Mas estão presos.

Agora, estão tentando disfarçar seus super-heróis como mangá. Fizeram um da Morte. Estão emperrados. O mesmo aconteceu com a Marvel. Eles tentaram trazer a linha Epic, cujo material é propriedade de seus criadores, mas não deu certo porque as companhias donas da editora perguntaram: o que ganhamos com isso?

Kyle Baker autografa para o Universo HQ
Baker dá um autógrafo para o Universo HQ

Quando eles têm algo como Quarteto Fantástico, não precisam pagar o Jack Kirby. Se fizerem um filme do Tarzan, você precisa lidar com os netos do Edgar Rice Burroughs e fazer o que eles dizem.

UHQ: Pra você que esteve em ambas, quais as diferenças entre Marvel e DC?

Baker: Eu me relaciono melhor com a DC. Acho que eles fazem produtos melhores, porque sofrem menos pressão para gerarem lucros.

A DC faz parte da Warner, que faz dinheiro em todas as áreas. O Superman gera bilhões de dólares para a empresa todo ano, é só um milhão deve vir dos quadrinhos. Se uma revista não vai bem, tudo bem. Eles dizem: vamos gerar lucros com o filme do Batman.

UHQ: Que materiais você usa para desenhar e arte-finalizar?

Kyle Baker em ação
Baker autografa para o Universo HQ

Baker: Qualquer coisa. Estou usando um pincel mágico ultimamente, mas já trabalhei com bico de pena. O resultado é meio antiquado.

Como agora trabalho no scanner, não estou mais fazendo artes grandes e reduzindo. Tenho feito o material num tamanho que se encaixa na área de escaneamento. Por isso, como tudo é menor, preciso de pontas mais finas. Então, tenho usado muitos marcadores. Depois utilizo os programas Painter, Photoshop, Ilustrator e Flash.

UHQ: O que achou do FIQ? Como o compara a outros eventos?

Baker no FIQ
Kyle Baker no FIQ

Baker: É similar a um evento cultural. Já a convenção de San Diego, por exemplo, é para lucrar.

Lá, a empresa que faz a convenção não visa lucro, mas os expositores querem ganhar dinheiro. É o tipo de evento que precisa dar dinheiro, pois os colecionadores estão lá para comprar e vender.

Aqui, as pessoas vem para conhecer e ver o material e ouvir as palestras. É muito mais um evento cultural do que monetário.

UHQ: E qual você prefere?

Nas Ruas, publicada em Imagine Superman de Stan Lee
Nas Ruas, publicada em Imagine Superman de Stan Lee

Baker: É diferente. Eu gosto disso. Por ser mais artístico.

Na minha área acontece o mesmo. Você desenha porque quer fazer arte, mas é um negócio. Então, é preciso haver um equilíbrio. Eu não vim aqui para vender, mas para participar.

UHQ: Você gostou de algum quadrinhos brasileiro?

Baker: Sim, vi bastante coisa, mas sou ruim com nomes. Vi muita coisa e uma que me agradou foi uma revista pequena… (nota do UHQ: o autor se referia à Mosh).

UHQ: Pra terminar, uma mensagem para os leitores brasileiros.

Baker: Obrigado por me convidarem (risos). Fico feliz de ter vindo. Foi surpreendente descobrir que os brasileiros gostam de Justiça Ltda. É mais popular aqui do que em outros países.

Autógrafo de Kyle Baker para o Universo HQ

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