Mike Deodato Jr.: um brasileiro desbravador do mercado norte-americano

Por Samir Naliato
Data: 2 abril, 2015

Um dos maiores sucessos brasileiros nos Estados Unidos, o artista concede uma longa ENTREVISTA EXCLUSIVA ao Universo HQ, e fala sobre o início difícil, a influência de seu pai, os altos e baixos na carreira e a longevidade em um mercado tão competitivo

 

Deodato Taumaturgo Borges Filho nasceu no dia 23 de maio de 1963, em Campina Grande/PB. Mas ficou conhecido mesmo como Mike Deodato Jr., um dos desenhistas brasileiros mais bem-sucedidos no mercado norte-americano de quadrinhos.

Atualmente morando em João Pessoa/PB, ele trabalha em um estúdio dentro de casa, que possui as paredes decoradas com quadros que expõem as próprias artes. No local de trabalho, além de materiais para produzir, como desenhos, prancheta, mesa de luz e computador; há uma coleção com revistas em formatinhos, memorabilias e fotos familiares.

Com pouco tempo livre devido aos compromissos profissionais, trabalhar em casa permite passar mais tempo com a família, principalmente a pequena filha. E ele já conta com planos de expansão do estúdio.

A convite da Wacom Brasil, o Universo HQ teve a oportunidade de visitar Deodato, acompanhar a sua rotina de trabalho e bater um papo sobre os mais diferentes assuntos.

Completando 35 anos de carreira, ele tem muita história para contar, desde a influência do pai, Deodato Borges, um dos primeiros quadrinhistas da Paraíba, até a carreira construída no exterior. O início difícil, quando quase abandonou os quadrinhos, a sua volta, a explosão de popularidade com os super-heróis, a autoimposta mudança para melhorar o trabalho ao ver a carreira passar por maus momentos no final da década de 1990 e o método de trabalho atual.

Deodato fala sobre tudo isso e muito mais em uma das mais extensas e detalhadas entrevistas já concedidas por ele e que você pode conferir logo abaixo.

Mike Deodato Jr.Mike Deodato Jr.

Universo HQ: Vamos começar falando das suas influências e a principal delas, que foi a de seu pai, Deodato Borges. Qual foi a sua primeira recordação com os quadrinhos e como era acompanhar os trabalhos do seu pai?

Mike Deodato Jr.: Minha primeira recordação… é difícil, já faz 50 anos (risos). O mais antigo que eu lembro são as revistas da Ebal em preto o branco, com super-heróis da Marvel e DC. Também tinha algumas publicações da Abril na época, uma série Clássicos Walt Disney.

Com painho (Nota do UHQ: como Deodato Jr. carinhosamente se refere ao pai) era bom porque, mesmo que ele não vivesse de quadrinhos, estava sempre criando algo para poder desenhar onde ele trabalhava, fosse jornal, publicidade ou outra coisa. Ele sempre inventava algo relacionado a desenho e levava para casa. Estava sempre fazendo bico de pena de personagens históricos e eu ficava vendo.

A gente também sempre pedia para ele fazer o desenho de um super-herói e depois íamos colorir e o deixávamos em paz (risos). Sempre nos levava a um sebo, que não sabíamos ser sebo, só víamos um monte de gibi. Ele comprava um palmo de altura de revistas para cada um. Enquanto conversava com o dono, ficávamos escolhendo as revistas. Algumas nem tinham capa. Isso nos distraía uma semana inteira.

Depois que fiquei maior, fui selecionando mais. Meus irmãos passaram a gostar de outras coisas, mas eu ainda continuava com quadrinhos. Íamos só eu e ele na banca e, quando chegávamos em casa, ia cada um para sua cama ler a sua parte e depois eu ia lá e trocávamos os gibis. Era uma relação muito boa!

UHQ: E quando você começou a desenhar?

Deodato: Lembro que tinha uns oito anos quando fiz minha primeira história. Ela se chamava O Azar do Oscar. Já até rimava (risos). Mas vi que realmente tinha algum talento com 13 anos. Eu já colecionava gibi e comecei a copiar desenhos, como os de Russ Manning pro Tarzan. Percebi que levava jeito e decidi que ia ser desenhista de quadrinhos na vida.

UHQ: Quais foram os trabalhos no início?

Deodato: Quadrinho mesmo foi em 1978, com um personagem que criei e tinha o nome originalíssimo de “O Ninja”. Na época, ninjas não eram tão famosos. Fiz parceria com o meu melhor amigo da época, o Augusto, e nossa diversão era ficar criando histórias. Bolávamos tudo e depois eu desenhava. Era muito divertido!

Em 1979, O Ninja saiu em um jornal local. Era de graça, claro, mas só de ver sair lá eu já ficava feliz. Depois publiquei uma história na revista Itabira # 1, com o personagem O Desconhecido. Foi criado pelo Emir Ribeiro e eu desenhei.

Meu primeiro fanzine foi em 1980, com a revista HQ. Desenhava para ele e para outros de amigos meus. Tínhamos essa rede de fanzineiros e mandávamos de graça um para o outro. Para o resto dos mortais nós vendíamos bem baratinho. Fazíamos anúncios um no fanzine do outro.

Meu maior triunfo na época foi publicar em Historieta, de Oscar Kern. Achei o máximo. Tinha o formato horizontal e misturava quadrinhos com textos.

Qualquer ideia que eu tinha, publicava no meu fanzine e acabava sendo um número novo da revista HQ. Fiz os dois primeiros números, anos depois apareceu a oportunidade de lançar cartuns por um projeto do governo e aí fiz 3000 Anos Depois com o apoio do governo. Mas estava lá: HQ n° 4. Era só para dizer que tinha uma continuidade, mas cada número tinha um formato diferente.

O Ninja Revista HQ # 3

UHQ: O que aprendeu com o seu pai? Ele te dava muitas dicas?

Deodato: Acho que o principal foi a narrativa. Sempre que ele me entregava um roteiro, não era datilografado. Ele já desenhava com o texto escrito e ali já estava a narrativa. Daí, aprendi a fazer a passagem de tempo de um quadro para outro e tudo mais. Como ele era muito influenciado pelo Will Eisner, foi um ensinamento muito bom.

Outra coisa foi ele ter me apresentado aos mestres, como o próprio Eisner, Hal Foster e materiais mais adultos de qualidade. Se fosse só pelo meu gosto, ia ficar em super-heróis da época. Acabei tendo acesso aos clássicos.

Li a coleção 5 por Infinitus, de Esteban Maroto, que era bem avançado para os anos 1970. Era uma obra bem complexa. Li com dez anos, não entendi muito, mas graficamente era bem revolucionário.

UHQ: Ele abriu o seu leque de leitura, porque em cada idade temos uma preferência, e apresentava para você outros tipos de histórias e influências.

Deodato: Pois é. Essa foi uma das maiores contribuições dele, ter me dado esse acesso a quadrinhos de qualidade que, por minha conta, eu não teria. Foi essencial para a minha formação.

Deodato Borges e Mike Deodato Jr.Deodato Borges e Mike Deodato Jr.

UHQ: Que outros artistas influenciaram a sua arte?

Deodato: Rapaz, é muita gente. A base é Neal Adams, Dick Giordano e Bernie Wrightson. Todos eles são da mesma escola. Tem o Paul Gulacy, Jim Steranko… todos eles saem de Frank Frazetta, Alex Raymond e Will Eisner. Todos que eu gosto saíram dessa turma.

E os desenhistas espanhóis de Kripta e Schok, que saíram pela Rio Gráfica. Aquilo é maravilhoso! Tinha muita coisa diferente, tanto em termo de desenho quanto de conteúdo. José Ortiz e outros eram excelentes.

Heavy Metal teve uma influência fortíssima em mim, com Philippe Druillet, Moebius… tive uma escola maravilhosa.

Mas até hoje sou muito influenciado. Não que eu seja “Maria vai com as outras”, mas estou sempre aberto a querer aprender dentro das minhas habilidades artísticas e do que eu consigo. Quando vejo algo de diferente que me atraia, tento absorver.

UHQ: Você chegou a publicar dois trabalhos em parceria com seu pai: a ficção científica 3000 Anos Depois e a edição A História da Paraíba em Quadrinhos. Conte-nos um pouco sobre como foi trabalhar com ele e como nasceram esses projetos.

Deodato: No começo fui um pouco relutante. Painho queria trabalhar comigo. Eu tinha 17 anos, era jovem e queria criar minhas histórias, eu achava que já sabia das coisas, que ele era ultrapassado e tudo mais (risos). Mas fui crescendo e vi que ele realmente era muito bom para a época dele. Depois, aceitei a superioridade dele e ficou fácil.

Quando ele tinha uma ideia, trancava-se no quarto com seu cigarro e só saía de lá com a história feita. Geralmente, era assim: a editora precisava de uma história de três páginas. Daí, ele ia para o canto dele, olhava para o tempo e voltava com ela pronta. Era na hora.

Ele não passava semanas para fazer. Como veio da publicidade, estava acostumado a fazer rápido, o cliente pedir e ele bolar rápido.

Eu tentava modernizar a história, mas muitas vezes estragava a narrativa (risos). Eu estava experimentando, crescendo ainda.

UHQ: Vocês trocavam muitas ideias? Ele sugeria algo na arte e você, no roteiro?

Deodato: Não, era muito raro eu dar pitaco no roteiro e ele na arte. Eu já recebia o quadrinho de uma maneira mais tradicional e tentava modernizar. Mas um não se metia muito no que o outro estava fazendo. Dávamos o nosso melhor. Era uma parceria muito boa.

3000 Anos DepoisA História da Paraíba em Quadrinhos

UHQ: 3000 Anos Depois já saiu nos Estados Unidos, Alemanha e em outros lugares e vai ser republicado em breve no Brasil (veja os detalhes aqui). Deve ser um sentimento diferente ver esse trabalho voltando a ficar disponível, não?

Deodato: Mesmo depois de tantos anos, vejo muita coisa boa na história. Eu tinha 20 anos, na época, e ainda não possuía instrumentos para trabalhar direito. Não sabia usar pincel, não sabia técnica de usar pena, não tinha retícula… eu tirava xérox, que era caro na época, pegava cartaz de político que vinha com retícula toda estourada, recortava aquela parte e usava como efeito de degrade, colava por trás…

Até a capa pintada foi feita em pedaços, porque eu não tinha técnica nenhuma. Usei guache e ele escorria, o papel ficava ondulado. Era tudo experimental. Eu tinha uma influência forte de Druillet da época de Heavy Metal.

Mas evoluí rápido, é possível perceber ao longo da história. Em cada página eu aprendia uma coisa nova. Até hoje acho legal, mesmo eu sendo bem verde na época.

Em termos de história, achei bom quando foi lançada. Hoje, de longe, sem a idolatria ao meu pai, vejo que é uma narrativa bem direta, clássica demais. Faria um pouco diferente. Mas ainda tenho orgulho. Estava olhando hoje e algumas coisas que fiz achei bem ruins (risos).

UHQ: Pouca gente, hoje em dia, teve chance de ler os trabalhos de seu pai. Essa vai ser uma nova oportunidade.

Deodato: Se painho tivesse tido a oportunidade, na época, ele poderia ter sido um Will Eisner brasileiro. Não é porque é o meu pai, não. Ele tinha muita criatividade, era um “faz tudo”, como o Chico Anysio. Ele era muito inteligente.

Podem achar que o texto dele para hoje em dia está ultrapassado, mas é preciso contextualizar. Eram ideias muito boas de marcação de texto na história e coisas do tipo. Misturava a inventividade trazida da publicidade e jornal para os quadrinhos.

UHQ: Por que incluir duas páginas inéditas?

Deodato: Franco de Rosa (editor) queria incluir mais histórias na revista, mas eu não queria misturar muito para ficar algo mais centrado em 3000 Anos Depois. Então, concordamos em colocar uma história que saiu na revista Gran Circus que é mais relacionada ao tema.

Daí, achei que dava para incluir mais duas páginas como uma espécie de homenagem, as pessoas poderiam ver a diferença de estilo e eu teria a oportunidade de escrever dois balõezinhos. É mais como bônus mesmo.

Foi bacana desenhar o personagem de novo. Pude usar técnicas mais modernas com o computador.

Mike Deodato Jr. com as duas páginas inéditas de 3000 Anos DepoisMike Deodato Jr. com as duas páginas inéditas de 3000 Anos Depois

UHQ: E O Flama (personagem criado por Deodato Borges)? Algum plano? Chances de republicação?

Deodato: Na verdade, tem vários, agora. Um deles é um filme do Silvio Toledo, de Campina Grande. Estamos tentando conseguir fundos por um programa estadual de cultura. Seria um demo de 15 minutos e tentaríamos vender para uma série.

Tem também uma história que o Rodrigo Salem, meu amigo jornalista, fez para virar uma minissérie em seis números. Fiz os layouts, mas começou a aparecer muito trabalho, a Marvel me encheu de coisas e fiquei sem tempo. Depois, painho faleceu (Nota do UHQ: Deodato Borges faleceu no ano passado, veja os detalhes aqui) e eu realmente ainda não consegui pegar de novo. Seria uma maneira de homenageá-lo, mas ainda não estou pronto.

Mas O Flama vai sair pela Fundação Espaço Cultural, aqui da Paraíba, reproduzido como o primeiro número, com o mesmo formato, número de páginas, propagandas iguais, exatamente como saiu na época. Só terá uma capa extra por cima, desenhada por mim. Espero que aconteça mesmo.

A editora Mino quer republicar todo o material que eu fiz no Brasil, incluindo os do meu pai, em uma edição bem grossa, de mais de 200 páginas. Vamos ver se fazemos isso até o final do ano.

O Flama também tem uma cerveja (risos). O cara me procurou com a ideia e fizemos. É uma cerveja caseira e no rótulo tem uma pequena biografia de painho, achei bacana. Tudo para registrar o nome dele eu acho bacana.

O trabalho de painho nunca foi muito conhecido nacionalmente e depois que ele faleceu a coisa “meio que” perdeu o controle. Ele “meio que” deixou de ser meu pai. Outro dia, eu soube de uma exposição com desenhos de várias pessoas sobre o Flama. Eu nem sabia! Está andando com as próprias pernas. Outro dia, sem querer, vi que saiu uma matéria sobre a exposição na revista Mundo dos Super-Heróis. Esse fenômeno é muito legal.

Deodato BorgesAs Aventuras do Flama

UHQ: Foi após 3000 Anos Depois que você viajou pra o Festival de Angoulême com outros quadrinhistas?

Deodato: Foi! Eu fazia o fanzine e mandava para quem eu achava que ia ser legal. Eu queria ser descoberto. Ouvi falar que o Ziraldo era presidente da Funarte e decidi mandar para ele querendo receber um elogio de Ziraldo (risos). Os elogios eram meu pagamento!

Na sessão de cartas de 3000 Anos Depois tinha cartas de Watson Portela, Mozart Couto… essa troca de energia era boa.

Depois que mandei para Ziraldo, ligou-me o assistente dele na época, Rick Goodwin, e perguntou se eu não gostaria de ir com uma delegação para lá. Painho sem dinheiro, teve que pedir emprestado junto com casaco e tudo mais (risos). Foi mágico. Voltei pensando que ia viver de quadrinhos e pedi demissão do emprego. Mas claro que não deu certo.

Isso foi em 1986. Eu só consegui viver de quadrinhos a partir de 1991.

UHQ: Então, quando você chegou de Angoulême não surgiram novas oportunidades, ou pelo menos não tantas quanto você esperava?

Deodato: O Mauricio de Sousa tinha prometido conseguir uma negociação com a Editora Abril, uma revista para mim. Ele tentou, mas não conseguiu. Tinha também a barreira da língua e de comunicação. O telefone era muito caro e todos os contatos que eu tinha da Alemanha, Bélgica e outros lugares não tinham como dar continuidade.

A Funarte chegou a planejar algo para agenciar desenhistas para o exterior, mas acabou não dando certo. Tentei viver de quadrinhos publicando em outras editoras, mas pagavam muito pouco, nem lembro qual era a moeda da época (risos).

Aí me apaixonei e decidi me casar. E foi o que fiz em 1988. Precisei trabalhar igual gente e fechei a prancheta durante um ano. Depois disso, comecei a voltar a desenhar nos finais de semana.

UHQ: O que fez nesse período?

Deodato: Trabalhei em agência de publicidade e em dois jornais. Mas eu, literalmente, fechei a prancheta e ela ficou parada. Quando consegui juntar um dinheirinho, voltei a produzir no tempo extra que tinha. Enquanto o chefe dava uma saída, eu puxava os meus quadrinhos e ficava lá finalizando, usando a tinta deles (risos).

UHQ: Foi depois disso que publicou cartuns e charges para jornais?

Deodato: Eu publico cartuns e charges desde 1979 ou 1980. Painho me levou para trabalhar no jornal onde ele também trabalhava. Fui para o departamento de arte e de vez em quando fazia um desenho. Ele também desenhava, às vezes fazia um texto e eu ilustrava. Assinávamos “Deodato Pai & Filho”.

Mike Deodato Jr. em seu estúdioMike Deodato Jr. em seu estúdio

UHQ: Você cursou comunicação pela UFPB. Em qual momento percebeu que queria parar o curso e virar um desenhista profissional? Como foi a decisão de se dedicar a isso?

Deodato: Terminei o segundo grau e estava sem saber o que fazer da vida. Nunca gostei muito de estudar. Nunca estudei em casa. Achava que, se eu tinha estudado na escola, não precisava fazer isso em casa. Mesmo em provas eu não estudava, tinha que ser o que eu já tinha aprendido. Acabei me dando bem, porque nunca repeti de ano!

Quando chegou o vestibular, pensei no que era mais perto de desenho. Eu não queria fazer Educação Artística porque parecia coisa de mulher (risos). Sou de uma geração muito macha (risos).

Aí pensei em Arquitetura, porque parecia com desenho, mas tem muita matemática. Fiz três vezes e não passei de jeito nenhum. Como eu já trabalhava em jornal, decidi fazer Comunicação e passei no período 1983.1. Em termos de vida privada, foi a melhor época. Sempre fui muito tímido e na universidade me soltei mais e fiz muitas amizades.

Aproveitei mais as matérias que iam direto ao ponto, como jornalismo, imprensa, redação, edição etc. As outras que eu achava que não tinham muito a ver, eu nem ia. O professor dizia que todos estavam aprovados e que quem não quisesse, nem precisava aparecer na aula. Como eu já trabalhava em jornal e já tinha ganhado o registro de jornalista graças a uma brecha na lei que dava direito a quem trabalhava tirar esse registro, eu larguei.

Foi nessa época que apareceu A História da Paraíba em Quadrinhos. Era 1985, era um dinheiro bom que precisávamos lá em casa. Eu não gostava muito, porque era trabalhosa, muita pesquisa com referências históricas.

Perguntei ao meu coordenador o que ele achava, se podia me ajudar e me acobertar. Ele era supercorreto e me falou que o mais decente era eu trancar. Tranquei e nunca mais voltei (risos).

Boa parte do curso eu ainda fiz porque, quando os professores liam o meu nome, perguntavam se eu era filho de Deodato, porque painho era muito conhecido. Falavam-me que se eu tivesse um décimo da inteligência e talento dele eu ia ficar muito bem. Aí tinha que me dar bem e estudar!

UHQ: Falando em estudar, você é autodidata no desenho, certo?

Deodato: Pois é. Provavelmente, se eu tivesse que estudar arte, ia estudar com gosto. Quando me interessa, eu passo o tempo que for preciso para aprender. Mas eu não tinha oportunidade na época, não havia escola e meus pais não tinham dinheiro.

Hoje em dia, só aqui em João Pessoa tem duas escolas de quadrinhos. E olha que é uma cidade pequena. Isso sem contar a internet, em que é possível baixar livros e cursos.

Mas não ter tido um ensinamento formal de arte é algo que me faz falta. Até hoje, eu engano na anatomia. Se me pedir para desenhar uma pessoa de pé, vista de frente, eu vou suar. Vou acabar fazendo, mas me faz falta esse treinamento.

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Parte 1 – O início da carreira
Parte 2 – A chegada ao mercado norte-americano e método de trabalho
Parte 3 – A relação com a Marvel e projetos autorais

 

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