O homem que tem o Universo DC nas mãos

Por Eduardo Nasi
Data: 14 agosto, 2007

Em passagem por São Paulo, Eddie Berganza, editor-sênior da DC, concedeu uma entrevista exclusiva ao Universo HQ e falou sobre artistas brasileiros, a Crise Final e muito mais

Por Eduardo Nasi

Eddie Berganza
“Ele é gente boa” foi a frase mais escutada na tarde do dia 16 de outubro,
na recepção do sobrado de Higienópolis que abriga a Quanta
Academia de Artes
, em São Paulo. E a segunda foi “Você não pode
se importar com crítica, porque ele diz tudo na sua cara”.

Quem provocou os comentários foi Eddie Berganza, editor sênior da DC
Comics
, em passagem pelo Brasil para uma série de eventos em São
Paulo e Belo Horizonte, onde acontece o
FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos
.

Berganza passou a tarde quente e abafada avaliando pastas de desenhistas
brasileiros numa área ao ar livre nos fundos da escola. E havia bastante
gente com portfólio debaixo do braço. Afinal, o editor é “peixe grande”
justamente no cobiçado mercado norte-americano: depois de anos como o
responsável pelos títulos de Superman, cuidou de Crise Infinita
e assumiu revistas como Íon, Lanterna Verde, Novos Titãs e a elogiadíssima
Liga da Justiça de Brad Meltzer.

Eddie Berganza e Marcelo CamposÉ
prato cheio para brasileiros a fim de seguir a trilha de artistas como
Ivan Reis, Ed Benes e Marcelo Campos, que já trabalharam com o editor.
Apesar de aparentar cansaço, ele fazia comentários contundentes sobre
os trabalhos vistos. Mas disse gostar do que estava vendo.

Foi num intervalo entre as avaliações que Berganza falou com o Universo
HQ
sobre seus novos títulos na DC, Crise Final, a relação
com criadores internacionais, download ilegal de quadrinhos, brasileiras
gostosas e Lost.

Universo HQ: Bem, a primeira pergunta é inevitável. É sobre…

Eddie Berganza: A Crise Final?

UHQ: É.

Berganza: Hm, isso vai ser uma resposta longa. (risos)

UHQ: Bem, é bem provável que você não vai nos adiantar nada, mas não
custa tentar.

Berganza: Grant Morrison é o escritor, J.G. Jones é o
artista e a série é muito legal.

UHQ: Aqui no Brasil estamos acabando de ler Sete Soldados da Vitória
no mês que vem. A minissérie é realmente tão conectada com a Crise
Final
quanto parece?

Berganza: Sim, eu contaria isso pra todo mundo. É isso.

UHQ: E o Homem-Animal do Grant Morrison, que já tinha uma relação com
Crise nas Infinitas Terras?

Berganza: É uma série muito boa, mas eu apostaria mais
em
Sete Soldados.

Joe Prado (de amarelo), Eddie Berganza e Renato Guedes (sentado e de camisa preta)UHQ:
Tem sido um excelente momento para se acompanhar os títulos da DC. O que
mudou na editora?

Berganza: É verdade. Tem coisas grandes acontecendo.
E está tudo coordenado. Cada história adiciona um fato novo e torna o
Universo DC maior. É uma coisa que estamos fazendo bem desde
Crise
Infinita, quando a Guerra Rann-Thanagar, o Pacto das Sombras, tudo
fazia parte de um plano maior. E isso vai até a
Crise Final, passando
por
Countdown e por uma série que estou coordenando diretamente,
Sinestro Corps.

E isso vai ser grandioso. Eu a chamo de “O Império Contra-Ataca
por Geoff Johns”. E então há um
O Retorno de Jedi que será realmente
bom!

UHQ: Essa fase que está saindo no Brasil é justamente a que
marca a sua saída de Superman e o começo do trabalho em novos títulos.
Tem algo em especial de que se orgulhe?

Berganza: Definitivamente, a Liga da Justiça.
O Tornado Vermelho é um personagem fantástico. Se você nunca deu bola
para ele, vai rever seus conceitos. Meltzer faz coisas incríveis com os
heróis menores, como Vixen.

Eddie Berganza avalia portfóliosUHQ:
E tem algo de que você se arrepende?

Berganza: Não, não tem. Novos Titãs também entra
em uma fase boa, a equipe sai renovada… Vocês têm Titãs aqui?

UHQ: Sim, agora há duas novas revistas dedicadas à DC e lemos praticamente
tudo que vocês publicam. Possivelmente, temos quase todos os seus títulos
nas bancas.

Berganza: Então, os leitores vão perceber que Titãs
também está completamente ligado à
Crise. O grande lance é que
o grupo muda, sai em busca de algumas coisas. Até
Íon é interessante,
porque foi onde comecei. Eu era editor-assistente quando o Kyle surgiu
e é natural, para mim, ter editado o título.

E agora estou com Lanterna Verde, porque o editor que cuidava da
revista saiu. Eu queria muito esse título, muito mesmo, então insisti.

UHQ: É uma fase em que os Lanternas Verdes estão recuperando a importância
que já tiveram.

Berganza: É, eles estão grandes agora. Se bem que sempre
estiveram por perto. Pode conferir: todo grande evento da DC tem
um Lanterna Verde envolvido. Tivemos a
Noite Final, em que Hal
Jordan reacende o Sol, depois Kyle Rayner estava na
Zero Hora
Sempre tem um Lanterna Verde.

Eddie Berganza avalia mais portfólios...UHQ:
Você tem trabalhado com artistas brasileiros e do mundo inteiro. Como
isso aconteceu?

Berganza: Foi a internet. Dá uma tranqüilidade imensa
não ter que esperar por um pacote amarelo que chega pelo correio de um
país estrangeiro. E, por outro lado, qualquer um pode nos encontrar.

O que é excelente para mim é que posso trabalhar com artistas que, no
passado, não teria como. (Berganza aponta para Joe Prado, que estava ao
lado) Veja o Joe: se preciso de um artista, digo o perfil para ele e logo
recebo as amostras. Não tem nenhum pacote envolvido. É muito fácil. (Nota
do UHQ
: Prado trabalha para o Art & Comics, que licencia artistas
brasileiros no exterior)

E há outros artistas de quem corro atrás para trabalhar, que é caso do
Ed Benes, que acompanho desde
WildCats.

UHQ: E você chega a ler quadrinhos feitos em outros lugares do mundo
em busca de artistas?

Berganza: Bem, depende. Eu só leio espanhol, que é a
única outra língua que sei.

UHQ: Nem material que é traduzido para o inglês?

Berganza: Até há alguns, mas não tanto quanto se pensa.
E esses eu leio para ver se encontro algo diferente. Mas é difícil acompanhar
tudo. Por isso, é bom fazer viagens como esta. É assim que tenho tempo
de olhar trabalhos de artistas e até mesmo álbuns.

UHQ: Que diferenças você vê entre os artistas internacionais e norte-americanos?

Berganza: Muitas, com certeza. Os mexicanos, por exemplo,
têm um estilo mais próximo do cartum, do desenho animado. Os espanhóis
são sombrios. Até o Brasil tem um estilo, mesmo que vá de um Ed Benes
a um Ivan Reis.

Bate-papo com os visitantesUHQ:
Há uma lenda local de que brasileiros desenham mulheres mais gostosas…

Berganza: He, he. Mas isso é fácil pra vocês! É só olhar
pra rua. Esse… hmmm… traseiro das mulheres do Ed Benes estão por todo
lugar. É sensacional.

UHQ: Por aqui, o download ilegal de quadrinhos já é bem grande,
até por causa do atraso de um ano em relação à publicação norte-americana.
Como você tem visto isso nos Estados Unidos?

Berganza: A experiência de vocês aqui é parecida com
a que temos com encadernados. E, ao mesmo tempo, é o oposto, porque lá
as pessoas esperam para comprar as histórias nos encadernados.

Mas o ponto é que mais do que nunca precisamos fazer boas histórias, porque
essas vão ser lidas sempre.

UHQ: Para fazer um filme em Hollywood se faz muita pesquisa
para entender o público e as necessidades. Nos quadrinhos isso existe?

Berganza: Não tem quase nenhuma, porque não dá tempo.
É pouco eficiente, até porque não há como mudar. O que precisamos é de
boas histórias, porque são elas que ultrapassam limites demográficos e
tal.

E mais avaliações de portfólio
Confiamos nos nossos criadores, gente como Grant Morrison. Quando você
tem uma boa história, ela te pega de qualquer jeito. É por essa liberdade
que tantos autores de TV têm vindo para os quadrinhos.

UHQ: Você trabalhou naquela edição do Lanterna Verde que foi citada
no começo de Lost. Por acaso ficou sabendo qual o mistério por
trás daquela aparição?

Berganza: Tudo que sei é o que todo mundo sabe: na revista
e no episódio aparecem um urso polar.

Eduardo Nasi é um grande fã dos quadrinhos da DC Comics. Pena que
Berganza não teve tempo de ouvir as teorias dele para a
Crise Final.
Talvez fosse a chance de um brasileiro salvar o universo de Superman,
Batman e companhia…

 

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