Miguelanxo Prado: O mestre das crônicas urbanas

Por Equipe UHQ
Data: 1 novembro, 2001

Aos 43 anos, o espanhol Miguelanxo Prado é hoje um dos maiores autores dos quadrinhos europeus, graças a histórias onde “brinca”, como poucos, com a condição de “ser” humano
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Miguelanxo Prado
Miguelanxo Prado

O II Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte trouxe ao Brasil um dos maiores quadrinhistas da Europa e do mundo: Miguelanxo Prado.

Nascido Miguel Angel Prado, em 5 de dezembro de 1958, reside na mesma cidade em que veio ao mundo: La Coruña, na Galícia, onde, no futebol, hoje reina o brasileiro Djalminha.

Para felicidade dos amantes dos bons quadrinhos, abandonou a faculdade de arquitetura, após cursar quatro anos. Ainda bem, pois essa desistência possibilitou a criação de obras maravilhosas, como Fragmentos da Enciclopédia Délfica, Stratos, Crônicas Incongruentes, Quotidiano Delirante (3 tomos), Mundo Cão, Tangências, Traço de Giz e outras.

Capa do CD do grupo Fía na Roca
Capa do CD do grupo Fía na Roca, de 1993

Com tamanho talento, era natural que Miguelanxo Prado migrasse para outras mídias. A mais conhecida dessas incursões foi o desenho Homens de Preto, no qual fez toda a concepção visual da série e dos personagens. Mas ele já fez capas para livros, como Cuando o Mar foi Polo Río, de Manuel Maria, e O Centro do Labirinto, de Agustín Fernández Paz; e ilustrou livros juvenis, como Bala Perdida, de Manuel Rivas; Perigo Vexetal e Ameaza na Antártida, de Ramón Caride Ogando; e O Trasno de Alqueidón, de Marilar Aleixandre. Até mesmo o mundo musical já apreciou sua arte, quando assinou a capa de um CD do grupo Fía na Roca, em 1993.

O Centro do Labirinto
O Centro do Labirinto

Prado já colaborou nas principais revistas de quadrinhos do planeta, como Cimoc, L’Echo des Savanes, El Jueves, Zona 84, Cairo, Métal Hurlant, Heavy Metal.

Sua incrível capacidade criativa lhe valeu muitos prêmios. Manancial da Noite, estrelado pelo detetive Manuel Montano, ganhou o troféu Alph’art de melhor álbum estrangeiro no Festival de Angoulême, em 1991.

Traço de Giz, talvez a sua maior obra, recebeu diversas distinções internacionais, entre as quais o Alph’art de melhor álbum estrangeiro do Salão de Angoulême, em 1994 e, no mesmo ano, o Prémio Especial do Júri do Festival de Sierre. Prado ainda ganhou prêmios em outros salões especializados, como Porto, Treviso e Barcelona. Em 1997, com o álbum Tangências, foi indicado para o Eisner Award, na categoria de melhor pintor.

O Trasno de Alqueidón
O Trasno de Alqueidón

Este extraordinário artista, um verdadeiro mestre das crônicas urbanas, concedeu alguns minutos de sua apertada agenda no Brasil, para uma entrevista EXCLUSIVA ao Universo HQ, na qual fala de sua carreira, fontes de inspirações, principais obras e muito, muito mais! Com você… Miguelanxo Prado!

Universo HQ: O você lia quando criança?

Miguelanxo Prado: Não lia quadrinhos especificamente. Eu tinha revistas de quadrinhos, como quase todas as crianças, mas não havia uma relação muito especial. As crianças que gostam de quadrinhos têm personagens favoritos, se fantasiam como eles, tentam imitá-los etc. Eu não. Eu tinha e lia, mas não existia essa relação.

Descobri realmente os quadrinhos com 20 ou 21 anos. Eu já estudava na escola de arquitetura. Foi uma descoberta muito tardia.

Miguelanxo pintando um quadro
Miguelanxo Prado pintando um quadro

UHQ: Qual sua formação? Como se interessou em trabalhar com quadrinhos?

Miguelanxo: Eu tenho uma formação auto-didática. Meu pai sempre foi um amante da plástica, da pintura, do desenho… Ele gostava de desenhar aos domingos, quando tinha um pouco de tempo. Isso não era muito habitual na Espanha da década de 1960. A situação não era boa e nossa família era de classe média – o que, naquela época, significava muito baixa!

Mesmo assim, era comum irmos a exposições e coisas do tipo. Eu cresci nesse mundo, acompanhava meu pai em inaugurações e aberturas de exposições. Quando podia, comprava livros de arte. Me apaixonei por isso. Para mim, desenhar e pintar era uma coisa muito natural.

Mas jamais pensei que se poderia viver disso. Não imaginava que alguma pessoa em todo o mundo vivesse disso. Para mim, desenhar era como ir à praia: você vai, toma banho de sol e de mar, mas ninguém cobra por isso! (Risos)

Quadro de Miguelanxo Prado
Quadro de Miguelanxo Prado

Eu cresci pintando e desenhando o dia todo, inventando histórias, o que eu adorava fazer. Acabava contando aos amigos. Para mim, era isso: diversão, brincadeira. Então, em determinado momento, entrei na faculdade de arquitetura e, dos seis anos, estudei quatro. Nesse processo, descobri que minha paixão era outra e, então, abandonei o curso.

Os quadrinhos eram uma atividade quase marginal dentro do que eu fazia. Comecei a fazer algumas ilustrações, e descobri os quadrinhos através de um colega belga, que me mostrou algumas revistas do Moebius, (Enki) Bilal, Hugo Pratt etc. Para mim, foi a possibilidade de misturar as minhas duas paixões: escrever e desenhar!

UHQ: Como foi seu início de carreira? Onde publicou seus primeiros trabalhos? Em que ano isso aconteceu?

Creepy #79, arte de Sanjulian
Edição americana da revista Creepy
(Creepy #79, arte de Sanjulian)

Miguelanxo: Não foi difícil. Eu tinha uns 21 anos, quando deixei a arquitetura. Comecei a pintar, fazer mostras e essas coisas. Então, fiz três histórias em quadrinhos. Uma para um fanzine (nota do UHQ: o fanzine se chamava Xofre; e a história, A Petadura do Orballo), feito na própria escola de arquitetura por mim e outros dois colegas, e mais duas.

Eu não tinha idéia de como entrar em contato com o mundo das publicações. Então, peguei as três histórias e coloquei em uma pasta. Soube que as revistas eram editadas em Barcelona. Aí, peguei um trem e fui pra lá, onde comecei a procurar as editoras. Na primeira que achei, mostrei meu trabalho.

Daquelas três histórias, a Toutain Editora comprou duas. Uma (nota do UHQ: intitulada Mar de Tinieblas), editaram imediatamente, publicando em uma revista chamada Creepy, que mostrava histórias americanas da Warren. A outra que comprou, não chegaram a editar.

UHQ: Está inédita até hoje?

Fragmentos da Enciclopédia Délfica
Capa de Fragmentos da Enciclopédia Délfica

Miguelanxo: Sim! Depois, eu tive oportunidades de publicar, mas achei que o tempo dela já havia passado. Isso foi por volta de… deixa eu ver… (Miguelanxo procura a data em sua aliança de casamento) 1980 ou 1981! (Risos) Dois anos antes de eu me casar!

Depois, fiz propostas para fazer algumas histórias para números especiais da revista, como de fim de ano. Essas coisas! Fiz duas nesse esquema. Daí, fiz a proposta de uma história longa, uma série. Foi assim que saiu Fragmentos da Enciclopédia Délfica (nota do UHQ: esta história saiu primeiro em capítulos, de 1982 a 1984, na revista Cómix Internacional. O álbum foi lançado em 1984)!

UHQ: De que forma a existência de revistas como El Víbora, Cimoc e Cairo contribuiu para o surgimento de grandes nomes dos quadrinhos espanhóis?

Edição especial de Cairo
Edição especial da revista Cairo, só com histórias de Manuel Montano

Miguelanxo: Foi muito importante! Foi importantíssimo! Hoje em dia, essas revistas praticamente desapareceram na Espanha, com exceção da El Víbora e algumas outras, que são da mesma editora, a Ediciones La Cúpula.

É indispensável uma revista para autores de seu próprio país. Hoje, El Víbora não é mais desse tipo. Eles continuam a editar, mas somente com histórias pornográficas. Com isso, ganham dinheiro e mantêm o título mais como algo de prestígio. El Víbora é quase um morto-vivo. Não tem mais aquele gosto de novidade de antes.

Mas essas revistas foram fundamentais para todos de minha geração. Foi onde conseguimos espaço para publicar. Foi onde aprendemos a contar histórias em quadrinhos. Lá que víamos tudo, erros e acertos!

UHQ: Quais são suas maiorias influências nos quadrinhos?

Miguelanxo: Eu cheguei muito tarde aos quadrinhos. O Moebius é um caso a parte. Eu sempre digo que há duas raças de desenhistas: os divinos e os heróis. Nós, que lutamos ali, com o papel, com o desenho, em um trabalho quase titânico e, finalmente, somos capazes de fazer uma tremenda obra, somos os heróis (nota do UHQ: definitivamente, Miguelanxo Prado é muito modesto, pois nós – e milhares de leitores do planeta – o colocamos no time dos divinos).

Do outro lado, estão os divinos. Eles não sofrem. Você vê o Moebius desenhar… É com uma facilidade incrível.

Poder apreciar os trabalhos do Moebius, Pratt, Bilal, Schuitten – todos que estavam inovando os quadrinhos europeus – foi importante para ver por onde eu podia achar meu caminho. Mas não tive uma influência direta. Eu já vivia do que pintava e desenhava… Ah, o Muñoz (nota do UHQ: o argentino Jose Muñoz). Aprendi muito com ele, toda a linguagem, todas as capacidades expressivas.

Tinham influências no nível literário. O jeito de contar histórias, como os autores sul-americanos, os escritores de romance. Depois, tinha gente que eu admirava profundamente nos quadrinhos, mas que não foram influências diretas, mas de quem aprendi a linguagem.

UHQ: Em que países seus trabalhos já foram publicados? É muito gratificante ter fãs espalhados em vários pontos do planeta? Qual o país onde você tem mais fãs?

Miguelanxo: Uns 14 ou 15 países. Países como Turquia e Coréia, que eu nem sabia que tinham quadrinhos. Também a Finlândia, toda a Europa, os Estados Unidos, América Latina – com distribuição das editoras espanholas – e no Brasil, com a Editora Meribérica.

Eu respeito muito o mundo dos fãs, mas não me sinto cômodo com o assédio (risos). De algum jeito, compreendo. Quando você quer jogar um jogo, tem que aceitar suas regras. No mundo dos quadrinhos estão os festivais, as promoções, as entrevistas etc.

Eu faço, e acho que não faço mal (risos). Não me sinto cômodo, mas aceito!

UHQ: O seu traço sofreu uma mudança significativa desde os seus primeiros trabalhos. Em Fragmentos da Enciclopédia Délfica, por exemplo, você fazia um desenho mais “acadêmico”; e hoje prefere “deformar” um pouco mais seus personagens. Por que isso aconteceu? Como ocorreu este processo de mudança?

Miguelanxo: Isso não é uma conseqüência, não é uma evolução. Para mim, cada livro é muito diferente do outro. Então, tento adaptar o estilo visual à história que estou contando. Se conto algo como Mundo Cão, que é um pouco surrealista, não posso desenhar academicamente. Se conto uma história poética, não posso desenhar do mesmo jeito que faço com naves no espaço. Admiro as pessoas que têm um estilo próprio, mas eu preciso mudar e me adaptar.

UHQ: Os álbuns Fragmentos da Enciclopédia Délfica e Stratos trazem trabalhos do início de sua carreira e ambos são em preto e branco. Depois, você passou a produzir mais trabalhos coloridos. Por quê? Qual estilo você prefere?

Miguelanxo: O colorido é uma possibilidade expressiva a mais. Então, renunciar à cor é renunciar a uma parte da expressividade que se pode ter. Mas, certamente, o desenho, o desenho puro, é em preto e branco.

Eu acho que a Enciclopédia Délfica poderia ter sido colorida. Mas o Stratos não!

UHQ: Na série de álbuns Quotidiano Delirante, você ridiculariza os seres humanos através de um humor “ferino”. Por que decidiu seguir esta linha?

Miguelanxo: Eu não decidi. Quando fiz Mundo Cão, pensei que estava fazendo uma coisa séria. Então, recebi um telefonema de um editor na Espanha falando que tinha gostado da história, que tinha um humor fino e ironia, e me disse que eu devia fazer algo mais nesse estilo.

Aí, comecei a fazer aquilo que tinha mais perto de mim, com meus amigos!

UHQ: Já que você falou de Mundo Cão (publicada no Brasil pela Editora Abril, na série graphic novel, em 1991), nesta história o personagem principal sofre com o excesso de cocôs de cachorro pelas ruas. Aquilo foi uma experiência verídica?

Miguelanxo: Sim, sim! A história dos cães aconteceu comigo mesmo! Eu não cheguei a ser atacado, mas foi quase! Eu caminhava pela rua na Espanha, e ficavam uns seis ou oito cães com seus donos. Eles ficavam conversando, enquanto os cachorros faziam as porcarias no chão.

Eu cheguei e tentei falar com eles, mas um cara começou a brigar comigo, dizendo que pagava seus impostos, e o cão, quando viu isso, começou a rosnar! Aí, fui me afastando (risos)! O final que propus também é possível.

UHQ: A versatilidade é algo marcante no seu trabalho. No álbum Tangências (todo sobre complicados relacionamentos amorosos) é impossível não se identificar com algumas daquelas histórias de romances proibidos. De onde veio a inspiração para aquela obra?

Miguelanxo: Eu passava algum tempo vendo tudo que acontecia à minha volta, com meus amigos, as pessoas mais próximas. Todas elas dessa “classe social”… escritores, artistas, personalidades da TV. Era a década de 1980, o tempo da pós-modernidade, e a gente falava das importâncias das coisas. E entre todas as coisas que falavam, existia uma tendência imensa ao fracasso.

Vendo todas essas histórias, eles sacrificavam a vida sentimental, ao procurar o sucesso profissional. Não são histórias de amor, são histórias de desamor. Por isso o nome Tangências. Eles se encontram, mas acabam se separando novamente.

UHQ: Em Traço de Giz (uma obra magnífica sobre uma ilha perdida no meio do oceano, que, na verdade, está perdida no tempo), se o leitor não estiver atento desde o início, com certeza, não entenderá o final da história. Isso chegou a acontecer? Esta foi uma das mais criativas viagens no tempo já vistas nos quadrinhos. Parabéns!

Miguelanxo: Eu acho que o leitor sempre pode entender uma história. Pode ser a maneira errada de entender, mas ela tem princípio e o final. Pode achar um pouco estranha, mas entendeu algo, à sua própria maneira. Se for a mesma que quisemos passar, ótimo. Há outras hipóteses que você pode reparar para entender de uma maneira diferente.

Tem gente que chega pra mim e diz que gostou muito de Traço de Giz, mas que não entendeu muito bem, achou um pouco esquisito. Uma vez, eu estava dando autógrafos em um festival, e uma mulher que estava há duas horas na fila chegou até mim e começou a falar que leu umas 10 vezes Traço de Giz, e que achava ter finalmente entendido.

Finalmente, ela tira um caderno do bolso, onde fez várias anotações! Fez tabelas cronológicas de como as coisas poderiam ter acontecido! Tinha rabiscos etc. Ela me explicou a história toda e aí eu falei que ela entendeu bem (risos)!

UHQ: Como foi a experiência de adaptar o conto Pedro e o Lobo (a adaptação do clássico de Sergei Prokofiev, escrito em 1936, lançado no Brasil numa edição soberba, em capa dura, pela Meribérica) para os quadrinhos? Pretende fazer outros trabalhos nesta linha?

Miguelanxo: Foi ótimo. Eu nunca havia feito quadrinhos pensando no público infantil. Acho que a minha versão não é muito infantil! Mas é uma versão que eu chamaria de honesta. Foi feita por um adulto, mas com suas lembranças infantis. Queria recuperar o que sentia quando minha mãe me contava histórias durante o inverno.

É um livro para ser lido por um adulto para uma criança. Para que o adulto explique um pouco. Foi muito prazeroso.

Eu tinha decido não continuar fazendo adaptações de contos, mas começar a criar alguns nesse esquema.

UHQ: E como foi, para um espanhol, ter a honra de ilustrar Carta de Lisboa (uma ode à capital portuguesa, escrita por Eric Sarner e com arte de Prado)?

Miguelanxo: Para um espanhol eu não sei, mas para mim… A relação dos galegos com Portugal é muito particular, não tem nada a ver com o resto da Espanha. Devido à fronteira, a gente passa de um lado para o outro e, mesmo economicamente, a relação da Galícia é muito mais forte com Portugal do que com a própria Espanha.

Há também a proximidade da língua, que favorece. Eu conheço muito bem Lisboa, vou freqüentemente, e tenho muitos amigos por lá. Uma editora francesa me propôs fazer algo sobre alguma cidade e na lista havia várias, entre elas, Lisboa. Eu achei que era a cidade que eu podia fazer melhor.

Foi bom, porque, mesmo a conhecendo como eu achava que conhecia, descobri outra Lisboa.

UHQ: Quanto tempo, em média, você demora para fazer um álbum?

Miguelanxo: Varia muito. Mas passo dizer que a média seria algo em torno de um ano e meio, no mínimo. Mas Traço de Giz foram três anos. Já Pedro e o Lobo foi mais rápido, pois era um trabalho de adaptação. Normalmente, demoro mais na preparação do roteiro!

UHQ: Já sofreu em relação a prazo e cobranças?

Miguelanxo: Sim! Nos meus primeiros livros, quando as histórias eram publicadas mensalmente. Aconteceu algo com Stratos e Mundo Cão, mas, a partir desse último, com alguns livros já publicados na Europa, minha posição ficou mais cômoda!

UHQ: Que técnicas você utiliza na pintura de suas belas páginas?

Miguelanxo: Eu uso tudo que possa ajudar. Mas praticamente tudo com acrílico. Agora estou no acrílico. Traço de Giz é assim, apesar de muitas pessoas pensarem que foi de outra maneira! Pedro e o Lobo também, apesar de acharem que é óleo. Tem gente que pensa que Carta de Lisboa é aquarela, mas é acrílico!

Você pode conseguir praticamente todos os efeitos com acrílicos, e tem a vantagem que seca rápido!

UHQ: Você costuma produzir tanto histórias curtas, quanto longas para seus álbuns. Qual sua preferência? 

Miguelanxo: Eu acho que são as longas. Posso desenvolver a psicologia do personagem, criar uma ambientação… mas eu adoro histórias curtas. São três minutos, e temos que fazer algo funcionar dentro desse tempo. São como os contos curtos na literatura. Você não pode desenvolver muita coisa, mas tem que resolver de uma maneira com que tudo funcione em seis páginas.

UHQ: Qual sua expectativa para a versão em quadrinhos que fará da cidade de Belo Horizonte ? O que está achando da capital de Minas Gerais?

Miguelanxo: Não são bem quadrinhos! O que Jano fez foram 30 pranchas, 30 cartões postais, e cada um têm uma pequena história. Ele é genial para fazer isso. Em cada imagem, contar uma história. O Rio é uma cidade conhecida em todo o mundo, o Pão de Açúcar, Ipanema, as garotas… são coisas que todos conhecem. E é um bom ponto de partida para mostrar o Rio que nem todos conhecem!

Belo Horizonte não é tão conhecida. Então, tenho que ir apresentando a cidade. Achei que um bom sistema seria utilizar a cidade como o cenário de uma história. Algo simples, porque o espaço é reduzido. Mas durante o decorrer da trama os leitores vão conhecendo a cidade.

No final, vão descobrir que Belo Horizonte não é apenas o cenário, mas sim o personagem principal da história.

UHQ: Esse fim de semana você vai ao Mineirão (ele assitiu ao jogo Santos 1 X 0 Atlético Mineiro). Você gosta de futebol?

Miguelanxo: Não sou apaixonado pelo futebol! Se me comparar com o brasileiro, então, seria covardia, mas o Deportivo La Curuña foi campeão há dois anos e vice-campeão ano passado! Tem brasileiros lá, como Djalminha, Mauro Silva, César Sampaio (nota do UHQ: quando a entrevista foi feita o volante ainda não havia se transferido para o Corinthians). O Bebeto já jogou, e o Rivaldo também!

Eu morava no centro, e depois me mudei para o campo. Lá, eles só falam do tempo e de futebol (risos)! Não havia outro jeito, a não ser falar sobre isso. Eu sigo os campeonatos, procuro saber o resultado das partidas!

UHQ: Quando o álbum sobre Belo Horizonte fica pronto?

Miguelanxo: Entre abril e maio do ano que vem!

UHQ: Quais foram seus últimos trabalhos?

Miguelanxo: Há quase 4 anos que não faço quadrinhos! Fiz desenhos animados, como Homens de Preto, e fiquei esse tempo trabalhando nisso. Achei que não podia combinar as duas coisas. O investimento para fazer quadrinhos é imenso! Agora, tenho a intenção de retomar com o livro de Belo Horizonte, que é meu primeiro projeto. Depois, vamos ver.

UHQ: Nos seus álbuns, você quase sempre faz o roteiro e o desenho. Hoje em dia, você trabalharia desenhando o roteiro de outra pessoa? Quem seria?

Miguelanxo: Eu trabalhei duas vezes. Quando fiz o personagem Manuel Furtado, um detetive português, foi com roteiro de outra pessoa (nota do UHQ: o roteirista Fernando Luna) . O livro se chamava O Manancial da Noite (nota do UHQ: este trabalho ganhou o troféuAlph’art de melhor álbum estrangeiro no renomado Festival de Angoulême, na França, em 1991) . Era um detetive poético! A outra vez foi com o livro La Ley del Amor (nota do UHQ: romance de Laura Esquivel, a autora de Como água para chocolate, em 1995).

Eu não gostaria de fazer uma versão em quadrinhos de um romance de um escritor, acho que não tem muito sentido. Mas dos que eu gosto, adoraria ilustrar, se eles estivessem dispostos a fazer um roteiro!

UHQ: E o caminho inverso? Quem você gostaria que desenhasse um roteiro seu?

Miguelanxo: Eu já recebi essa proposta, sobretudo de pessoas da França. Mas não sou capaz! Quando começo a escrever, vou pensando tudo como eu gostaria de fazer a arte (risos). É complicado!

UHQ: Você conhece algum artista brasileiro? Quais? O que acha dos trabalhos deles?

Miguelanxo: Conheço, sim. O Adão (Iturrusgarai), Angeli, o (Lourenço) Mutarelli, Marcello Gaú, Jô Oliveira… Sou ruim com nomes, mas há vários muitos bons!

UHQ: Você lê quadrinhos atualmente? Quais? Além de quadrinhos, o que mais lê? Quais suas preferências literárias?

Miguelanxo: Tudo o que é publicado na Espanha e nos países que visito. Tento comprar muitos livros. A produção francesa e espanhola, principalmente! Sobre literatura, principalmente a sul-americana. Alguns autores do princípio do século, que são mais introspectivos.

UHQ: Apesar de não trabalhar com personagens fixos, você tem algum predileto, mesmo que de outro autor? Qual?

Miguelanxo: Ah, sim! Adoro Corto Maltese, do Hugo Pratt; Rocco Vargas, do Daniel Torres -, Calvin & Haroldo, do Bill Watterson… Ontem, na palestra (Nota do UHQ: durante o Festival internacional de Quadrinhos), eu falava o quanto gosto do trabalho de autores que possuem um personagem. Mas eu tenho essa limitação.

Por exemplo, em Traço de Giz foram 3 anos trabalhando com os mesmos personagens! Não quero mais vê-los! O livro é um sucesso e o editor fala que seria ótimo fazer uma continuação, mas não!

UHQ: Como você se envolveu com a produção do desenho animado Homens de Preto? Você fez a concepção visual dos personagens da série, certo? 

Miguelanxo: Sim! Eu não contava as histórias, mas tinha que criar o universo visual da série e, depois, a criação dos personagens. Ficam falando que foi genial, mas não é assim! Não preciso me preocupar se vão entender a história, se o editor vai gostar…

UHQ: Tem feito outros trabalhos na área de animação?

Miguelanxo: Sim, fiz uma série na Europa chamada Os Vigilantes do Caminho. É uma série de humor e aventura para crianças. Também já tinha feito outras participações, criando personagens para animação em publicidade e para a Columbia Pictures.

UHQ: Qual sua opinião sobre os quadrinhos de super-heróis? Já teve algum convite para atuar neste setor? Você aceitaria?

Miguelanxo: Nunca fui convidado. Não gostaria de fazer… Houve um momento, quando vi o trabalho de Dave McKean, em Batman: Asilo Arkham… Foi a única vez na minha vida que pensei em fazer algo assim, mas comecei a pensar em todos os personagens, e o único que achava era o Batman.

Mas a coisa já está feita. Certamente, entre todos os super-heróis, o único que tem uma personalidade interessante é o Batman.

UHQ: No mundo inteiro está ocorrendo uma verdadeira invasão dos mangás. O que acha dos quadrinhos japoneses?

Miguelanxo: Eu acho que esses quadrinhos vieram de uma cultura específica, que é a japonesa. É perfeito para ela. Fico um pouco assombrado com o sucesso. Os roteiros não são bons, e os desenhos também não são excelentes, com exceções como (Katsuhiro) Otomo. Mas o nível não é tão alto.

Mas eu acho que o mangá veio encher um vazio que havia na cultura quadrinhista do resto do mundo. Deixamos de fazer quadrinhos para crianças. A última geração fez mais quadrinhos para adultos. Então, chegou o mangá, junto com os desenhos animados e o merchandising… todo um universo que funciona.

UHQ: Qual sua opinião sobre os quadrinhos na Internet? 

Miguelanxo: Acho que Internet é uma vitrine. É ótimo! A revolução vai ser feita na difusão, na distribuição. A distribuição é um problema! É uma máfia! A Internet vai permitir colocar todos com uma proposta na vitrine.

Você pode seguir um quadrinho na Internet por curiosidade, para ver como estão fazendo, se é legal ou uma merda. Mas não vai ler como faz com um livro, onde lê e relê. É diferente!

UHQ: Quantas vezes você já veio ao Brasil? Quais são suas impressões sobre os fãs locais?

Miguelanxo: Essa é a segunda vez, e na outra também foi para Belo Horizonte! Agora, vou conhecer o Rio, onde ficarei uns dois dias. 

Sobre os fãs, eles vão aos festivais, vão ver exposições… eles têm cumplicidade com você! Os fãs são ótimos em todos os lados. O problema é o leitor que não é fã. Esses são mais complicados. Mas os fãs são adoráveis!

Eu gostaria de ter mais disposição (risos)! Eu acho que é importante.

UHQ: Miguelanxo Prado, em nome dos leitores do Universo HQ, muito obrigado!

Miguelanxo: Eu que agradeço, foi um prazer!

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