O mestre das crônicas urbanas

Por Equipe UHQ
Data: 1 dezembro, 2001
Miguelanxo Prado
Miguelanxo Prado

O II Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte trouxe ao Brasil um dos maiores quadrinhistas da Europa e do mundo: Miguelanxo Prado.

Nascido Miguel Angel Prado, em 5 de dezembro de 1958, reside na mesma cidade em que veio ao mundo: La Coruña, na Galícia, onde, no futebol, hoje reina o brasileiro Djalminha.

Para felicidade dos amantes dos bons quadrinhos, abandonou a faculdade de arquitetura, após cursar quatro anos. Ainda bem, pois essa desistência possibilitou a criação de obras maravilhosas, como Fragmentos da Enciclopédia Délfica, Stratos, Crônicas Incongruentes, Quotidiano Delirante (3 tomos), Mundo Cão, Tangências, Traço de Giz e outras.

Capa do CD do grupo Fía na Roca
Capa do CD do grupo Fía na Roca, de 1993

Com tamanho talento, era natural que Miguelanxo Prado migrasse para outras mídias. A mais conhecida dessas incursões foi o desenho Homens de Preto, no qual fez toda a concepção visual da série e dos personagens. Mas ele já fez capas para livros, como Cuando o Mar foi Polo Río, de Manuel Maria, e O Centro do Labirinto, de Agustín Fernández Paz; e ilustrou livros juvenis, como Bala Perdida, de Manuel Rivas; Perigo Vexetal e Ameaza na Antártida, de Ramón Caride Ogando; e O Trasno de Alqueidón, de Marilar Aleixandre. Até mesmo o mundo musical já apreciou sua arte, quando assinou a capa de um CD do grupo Fía na Roca, em 1993.

O Centro do Labirinto
O Centro do Labirinto

Prado já colaborou nas principais revistas de quadrinhos do planeta, como Cimoc, L’Echo des Savanes, El Jueves, Zona 84, Cairo, Métal Hurlant, Heavy Metal.

Sua incrível capacidade criativa lhe valeu muitos prêmios. Manancial da Noite, estrelado pelo detetive Manuel Montano, ganhou o troféu Alph’art de melhor álbum estrangeiro no Festival de Angoulême, em 1991.

Traço de Giz, talvez a sua maior obra, recebeu diversas distinções internacionais, entre as quais o Alph’art de melhor álbum estrangeiro do Salão de Angoulême, em 1994 e, no mesmo ano, o Prémio Especial do Júri do Festival de Sierre. Prado ainda ganhou prêmios em outros salões especializados, como Porto, Treviso e Barcelona. Em 1997, com o álbum Tangências, foi indicado para o Eisner Award, na categoria de melhor pintor.

O Trasno de Alqueidón
O Trasno de Alqueidón

Este extraordinário artista, um verdadeiro mestre das crônicas urbanas, concedeu alguns minutos de sua apertada agenda no Brasil, para uma entrevista EXCLUSIVA ao Universo HQ, na qual fala de sua carreira, fontes de inspirações, principais obras e muito, muito mais! Com você… Miguelanxo Prado!

Universo HQ: O você lia quando criança?

Miguelanxo Prado: Não lia quadrinhos especificamente. Eu tinha revistas de quadrinhos, como quase todas as crianças, mas não havia uma relação muito especial. As crianças que gostam de quadrinhos têm personagens favoritos, se fantasiam como eles, tentam imitá-los etc. Eu não. Eu tinha e lia, mas não existia essa relação.

Descobri realmente os quadrinhos com 20 ou 21 anos. Eu já estudava na escola de arquitetura. Foi uma descoberta muito tardia.

Miguelanxo pintando um quadro
Miguelanxo Prado pintando um quadro

UHQ: Qual sua formação? Como se interessou em trabalhar com quadrinhos?

Miguelanxo: Eu tenho uma formação auto-didática. Meu pai sempre foi um amante da plástica, da pintura, do desenho… Ele gostava de desenhar aos domingos, quando tinha um pouco de tempo. Isso não era muito habitual na Espanha da década de 1960. A situação não era boa e nossa família era de classe média – o que, naquela época, significava muito baixa!

Mesmo assim, era comum irmos a exposições e coisas do tipo. Eu cresci nesse mundo, acompanhava meu pai em inaugurações e aberturas de exposições. Quando podia, comprava livros de arte. Me apaixonei por isso. Para mim, desenhar e pintar era uma coisa muito natural.

Mas jamais pensei que se poderia viver disso. Não imaginava que alguma pessoa em todo o mundo vivesse disso. Para mim, desenhar era como ir à praia: você vai, toma banho de sol e de mar, mas ninguém cobra por isso! (Risos)

Quadro de Miguelanxo Prado
Quadro de Miguelanxo Prado

Eu cresci pintando e desenhando o dia todo, inventando histórias, o que eu adorava fazer. Acabava contando aos amigos. Para mim, era isso: diversão, brincadeira. Então, em determinado momento, entrei na faculdade de arquitetura e, dos seis anos, estudei quatro. Nesse processo, descobri que minha paixão era outra e, então, abandonei o curso.

Os quadrinhos eram uma atividade quase marginal dentro do que eu fazia. Comecei a fazer algumas ilustrações, e descobri os quadrinhos através de um colega belga, que me mostrou algumas revistas do Moebius, (Enki) Bilal, Hugo Pratt etc. Para mim, foi a possibilidade de misturar as minhas duas paixões: escrever e desenhar!

UHQ: Como foi seu início de carreira? Onde publicou seus primeiros trabalhos? Em que ano isso aconteceu?

Creepy #79, arte de Sanjulian
Edição americana da revista Creepy
(Creepy #79, arte de Sanjulian)

Miguelanxo: Não foi difícil. Eu tinha uns 21 anos, quando deixei a arquitetura. Comecei a pintar, fazer mostras e essas coisas. Então, fiz três histórias em quadrinhos. Uma para um fanzine (nota do UHQ: o fanzine se chamava Xofre; e a história, A Petadura do Orballo), feito na própria escola de arquitetura por mim e outros dois colegas, e mais duas.

Eu não tinha idéia de como entrar em contato com o mundo das publicações. Então, peguei as três histórias e coloquei em uma pasta. Soube que as revistas eram editadas em Barcelona. Aí, peguei um trem e fui pra lá, onde comecei a procurar as editoras. Na primeira que achei, mostrei meu trabalho.

Daquelas três histórias, a Toutain Editora comprou duas. Uma (nota do UHQ: intitulada Mar de Tinieblas), editaram imediatamente, publicando em uma revista chamada Creepy, que mostrava histórias americanas da Warren. A outra que comprou, não chegaram a editar.

UHQ: Está inédita até hoje?

Fragmentos da Enciclopédia Délfica
Capa de Fragmentos da Enciclopédia Délfica

Miguelanxo: Sim! Depois, eu tive oportunidades de publicar, mas achei que o tempo dela já havia passado. Isso foi por volta de… deixa eu ver… (Miguelanxo procura a data em sua aliança de casamento) 1980 ou 1981! (Risos) Dois anos antes de eu me casar!

Depois, fiz propostas para fazer algumas histórias para números especiais da revista, como de fim de ano. Essas coisas! Fiz duas nesse esquema. Daí, fiz a proposta de uma história longa, uma série. Foi assim que saiu Fragmentos da Enciclopédia Délfica (nota do UHQ: esta história saiu primeiro em capítulos, de 1982 a 1984, na revista Cómix Internacional. O álbum foi lançado em 1984)!

UHQ: De que forma a existência de revistas como El Víbora, Cimoc e Cairo contribuiu para o surgimento de grandes nomes dos quadrinhos espanhóis?

Edição especial de Cairo
Edição especial da revista Cairo, só com histórias de Manuel Montano

Miguelanxo: Foi muito importante! Foi importantíssimo! Hoje em dia, essas revistas praticamente desapareceram na Espanha, com exceção da El Víbora e algumas outras, que são da mesma editora, a Ediciones La Cúpula.

É indispensável uma revista para autores de seu próprio país. Hoje, El Víbora não é mais desse tipo. Eles continuam a editar, mas somente com histórias pornográficas. Com isso, ganham dinheiro e mantêm o título mais como algo de prestígio. El Víbora é quase um morto-vivo. Não tem mais aquele gosto de novidade de antes.

Mas essas revistas foram fundamentais para todos de minha geração. Foi onde conseguimos espaço para publicar. Foi onde aprendemos a contar histórias em quadrinhos. Lá que víamos tudo, erros e acertos!

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