Quadrinhos com ares de artes plásticas

Por Sidney Gusman
Data: 14 agosto, 2003

Em sua passagem pelo Brasil, no final de setembro, Lorenzo
Mattotti falou com exclusividade ao Universo
HQ
sobre sua carreira, os principais trabalhos, a influência
do cinema em suas obras, a participação no grupo Valvoline,
que chacoalhou os quadrinhos italianos, e muito mais

Por Sidney
Gusman

Lorenzo Mattotti
Lorenzo Mattotti, durante
entrevista ao Universo HQ

Na Europa, graças ao seu estilo arrojado, o italiano Lorenzo
Mattotti
figura em todas as listas dos artistas de quadrinhos mais valorizados.

No Brasil, infelizmente, teve pouquíssima coisa publicada: algumas histórias
na extinta revista Animal e o álbum Estigmas, espertamente
lançado pela Conrad
Editora
durante sua presença em nosso país.

O premiadíssimo autor foi uma das atrações internacionais do 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, realizado no final do mês de setembro. Logo após o café da manhã no hotel, ele conseguiu uma brecha em sua agenda para uma entrevista exclusiva para o Universo HQ.

Arte de Lorenzo Mattotti
História de Mattotti publicada na
extinta revista Animal

Nascido em Breccia, em 1954, Mattotti hoje vive em Paris. Em 1975, quando
estudava arquitetura na Universidade de Veneza, começou a dar seus
primeiros passos na arte seqüencial, publicando as histórias Re Nudo
e La Bancarella em revistas e fanzines.

Em janeiro de 1983, foi um dos fundadores, em Bolonha, do grupo Valvoline,
que revolucionou os quadrinhos italianos, tanto no aspecto estético, quanto
no lingüístico.

Durante sua carreira, sempre demonstrou grande afeição por histórias clássicas,
como comprovam as adaptações de Huckleberry Finn (1978, com texto
de Antonio Tettamanti), Pinocchio (1990), A Divina Comédia
(1999) e Doutor Jekill & Mister Hyde (2002, com roteiro de Jerry
Kramsky).

Extremamente versátil, também faz sucesso como ilustrador, e trabalhou para
jornais (Le Monde, Libération, Corriere della Sera), revistas (The
New Yorker, Cosmopolitan, Dolce Vita
), livros infantis, catálogos de
exposições, livros de desenhos e até um cartaz para o Festival de Cannes,
em 2000.

A Divina Comédia, de Mattotti
Capa de Estigmas, da
Conrad Editora

Quem só leu Estigmas, lançado na Itália em 1998, por exemplo, certamente
se surpreenderia ao saber que o autor do álbum Ligne Fragile, publicado
no ano seguinte, é o mesmo. Mattotti domina tantas técnicas de desenho,
que se dá ao luxo de variar seu estilo de acordo com a obra. Para comprovar
isso, basta ver as artes de histórias como Huckleberry Finn, Santo Crocodilo,
L’Homme a la Fenetre
, feitas em diferentes épocas.

No campo da moda, durante muitos anos, ele reinterpretou para a revista
Vanity Fair os modelos dos grandes costureiros. Em 1987, a editora
francesa Albin Michel compilou esses desenhos num álbum (reeditado
em 1999 pela Seuil) que ganhou o prêmio especial do Festival de
Lucca
, na Itália.

No começo da década de 1990, seu álbum infantil Eugenio ganhou o
Grande Prêmio de Bratislava (Eslováquia) e acabou adaptado para um
desenho animado feito para televisão e cinema, que pode ser conferido aqui.

O mais impressionante do trabalho de Lorenzo Mattotti é sua capacidade de
transformar cada vinheta num quadro, sem perder a agilidade própria dos
quadrinhos. Confira a seguir um pouco mais sobre esse prolífero autor.

Universo HQ: Qual seu nome completo?

Lorenzo Mattotti: Na Itália, é muito comum as pessoas terem três,
quatro nomes. Eu tenho três, mas não uso nunca. Então, fiquemos só com Lorenzo
Mattotti.

A Divina Comédia, de Mattotti
Adapaptação de A Divina
Comédia
, lançada em 1999

UHQ: Como foi o início da sua carreira nos quadrinhos?

Mattotti: O início da minha carreira foi muito difícil. Eu queria
desenhar quadrinhos, mas não sabia como fazer. Então, eu copiava o que outros
faziam, mas não tinha uma idéia de como poder publicar.

Assim, eu e meu amigo de infância (Jerry) Kramsky, continuamos a
fazer histórias e desenhos sem parar. Um dia, tentamos vendê-las, mas não
conseguimos.

Um dia, conheci uma agencia em Milão que publicava todos os sul-americanos,
Alberto Breccia, José Muñoz e outros. Eles se interessaram em lançar meus
materiais, mas nos primeiros anos eu não queria mais ser publicado, porque
minhas obras não eram belas o suficiente.

Depois, pouco a pouco, eu fui evoluindo e fiz um álbum para uma editora
independente (nota do UHQ: chamada Ottaviano). Em seguida,
fui viver em Milão, onde fiz uma tira chamada Tram Tram Rock para um jornal
local (nota do UHQ: chamado Secondamano).

Ilustração de Mattotti
Capa para a revista
The New Yorker

E pouco a pouco comecei a ganhar espaço. Isso durante os anos 70.

UHQ: Como se chamou o seu primeiro trabalho profissional?

Mattotti: Foi em 1977, este livro independente de que falei. Chamava-se Alice Brum Brum (nota do UHQ: o texto era de Fabrizio Ostani).

UHQ: Você tem alguma formação técnica de desenho?

Mattotti: Logo que saí do liceu, eu cursei arquitetura. Mas sou um autodidata, pois fui melhorando meu desenho com o passar dos anos.

UHQ: Quais foram suas principais Influências nos quadrinhos?

Mattotti: No momento mais importante, que foi quando decidi que
queria trabalhar com isso, creio que foram todos que tive chance de ver.
Eu observava tudo. Mas acho que a escola sul-americana me influenciou de
maneira muito, muito forte a minha concepção de quadrinhos, com as coisas
que contava nas histórias, o fato de sempre experimentar algo novo, de não
existir um herói, de haver tantas histórias diferentes.

Alice Brum Brum
Alice Brum Brum, primeiro trabalho profissional de Mattotti

Assim, me influenciaram demais (Alberto) Breccia e (José) Muñoz, de quem
sou um grande amigo. Para mim, ele é como um irmão mais velho.

Na Itália, que também tem uma grande escola, admirava os desenhos de Dino
Battaglia, Hugo Pratt. Eu sempre fui muito aberto. Depois veio Moebius…
e todo trabalho bonito que eu tive oportunidade de ver.

UHQ: Suas obras já foram publicadas em quantos países?

Mattotti: Ah, não são muitos. Eu sou um autor que publica pouco
(nota do UHQ: Mattotti foi modesto, pois tem trabalhos editados em
praticamente toda a Europa).

UHQ: Apesar de trabalhar mais com álbuns, você também publicou em várias
revistas. Poderia enumerar algumas?

Mattotti: De quadrinhos, Alter Alter, Linus, Frigidaire e outras.
Eu nunca fui um grande autor de revistas. Mas fiz capas para a New Yorker,
colaborei com os jornais Le Monde, Corriere della Sera, La
Repubblica
; a revista Panorama…

Ilustração para a revista Vanity Fair
Ilustracao de moda para
a revista Vanity Fair

Também trabalhei um pouco na Alemanha, e em revistas de moda.

UHQ: Já que falou nas revistas de moda, elas pagavam muito melhor que
os quadrinhos?

Mattotti: Não. O problema das revistas de moda é que elas pagavam
pouco, mas tinham muitos trabalhos. Quando eles me sondaram, eu fazia somente
quadrinhos. Então, passei a fazer muitas ilustrações de moda. Acabei entrando
num momento bom, que me ajudou a ganhar a vida.

Eles gostavam muito de meus desenhos e me davam várias páginas para
fazer. Era um trabalho bastante veloz, extremamente rápido. E isso me ajudou
muito.

Como disse, eles não pagavam muito, mas fazendo tanto, eu recebia
o suficiente para viver bem. Depois, pouco a pouco, cheguei ao mercado de
publicidade e outros trabalhos. Mas não falo de propagandas! Isso não faço.
Falo de cartazes de dança, de moda, de coisas culturais, cinema, teatro.

UHQ: Ao lado de nomes como Carpinteri, Igort e Jori, você criou, em 1983,
o famoso grupo Valvoline, que sacudiu as estruturas do quadrinho italiano.
Por favor, conte um pouco sobre essa experiência.

Ilustração para Le Monde
Ilustração de Mattotti para o
jornal Le Monde

Mattotti: Éramos sete desenhistas, todos com cabeças completamente diferentes. Os outros eram mais jovens, tinham muita energia e entusiasmo. Eu não era tão empolgado. Mas esta energia que eles me passavam me motivava a trabalhar.

A idéia era levar adiante cada projeto, mas durou somente dois ou três anos.

UHQ: Mas foi uma revolução…

Mattotti: Ah, uma revolução que depois ficou caduca, como todas
as revoluções. Com mentes tão diversas umas das outras, naquele momento
tínhamos uma grande energia complementar. Depois, porém, também foi diminuindo.
Aí, os que eram verdadeiramente interessados em quadrinhos seguiram carreira;
outros viraram artistas; e alguns foram trabalhar na televisão. Cada um
seguiu sua estrada.

UHQ: Em 1992, você fez sua versão de Pinocchio. Por que resolveu
trabalhar com um personagem tão antigo?

Mattotti: Como todos os meus trabalhos, este nasceu por acaso. Pinocchio era um grande clássico, foi feito por tantos desenhistas da Itália e do mundo, que era um pouco difícil de encarar o desafio…

Pinocchio
Pinocchio no traço de Mattotti

UHQ: Mas sua versão é marcante…

Mattotti: Marcante, mas lembro que, quando comecei a fazê-la,
passei uns dois ou três meses sem saber o que fazer. Eu começava a desenhar
e nada me agradava. Depois, comecei a observar os artistas que o tinham
feito antes de mim.

Primeiro, vi duas imagens de Pinocchio numa mostra. Eu gosto mais
de vê-las integrando uma obra do que “picadas”. Nos livros é mais divertido.
Então, procurei um editor, e disse que gostaria de fazer a minha versão,
que seria bem diferente da maioria dos autores, que fazia duas ilustrações
e depois mais nada.

E enfrentar Pinocchio era um grande desafio, porque o personagem já teve
muitas versões. Alguns o fizeram com paisagens realistas, num estilo nos
anos 1800, outros o retrataram de modo visionário, metafísico, completamente
imaginário.

Mas se você faz um livro, tem que fazer tudo. Esse trabalho me consumiu
um bom tempo. E quando entreguei à editora, a sensação era de que ainda
não havia terminado. Sempre que entrego um trabalho, estou convicto de que
gosto dele, que fiz o melhor que podia.

Doutor Jekill & Mister Hyde
Doutor Jekill & Mister Hyde

Mas quando entreguei Pinocchio, não tive essa sensação. Tinha belas imagens,
mas ainda sentia que faltava algo.

UHQ: Quando começa uma obra, você pesquisa muito para fazer os desenhos?

Mattotti: Não muita. Eu faço uma pesquisa em minha cabeça, para
saber o que vou fazer. Quando vou começar uma historia, penso muito, imagino
as imagens e todo o trabalho de maturação da trama.

Mas cada trabalho tem sua história.

UHQ: Nos seus álbuns de quadrinhos, você prefere trabalhar sozinho ou com roteiristas?

Mattotti: Em quadrinhos, gosto muito de trabalhar com outros profissionais.
Especialmente, porque são sempre amigos, pessoas com quem tenho algum laço
de amizade. Não gosto de pegar um roteiro de alguém que não conheço e simplesmente
desenhá-lo.

La Zona Fatua
La Zona Fatua

Eu prefiro que tenha um verdadeiro trabalho de criação, de pesquisa no
texto. Nesse time, posso citar amigos como Claudio (Piersanti, de Estigmas)
e Kramsky, que é praticamente meu irmão, com quem fiz Labitinti, La Zona
Fatua, Doutor Jekill & Mister Hyde. Como nos conhecemos desde a escola,
fizemos tanta coisa que havia uma espécie de automatismo entre nós.

Mas com Kramsky não posso falar de trabalho como faço com Claudio ou Jorge
Zentner
. Com certos autores, posso aprofundar em uns pontos; com outros
roteiristas, em outros.

E eu gosto de discutir o roteiro, de ter uma visão destacada do trabalho.
Quando faço uma história em quadrinhos sozinho, sou muito angustiado, me
perco em labirintos estranhos da trama. Sou muito lento e não consigo ir
avante. Por isso, prefiro dividir essa responsabilidade.

Universo HQ entrevista Lorenzo Mattotti

UHQ: Por favor, fale um pouco sobre Caboto.

Caboto
Capa de Caboto, edição 2003

Mattotti: Este foi meu primeiro trabalho com
Zentner. Eu conheci Jorge porque éramos amigos comuns de Muñoz e Sampayo,
e acabamos nos encontrando em Lucca (nota do UHQ: onde acontecia
um dos mais importantes eventos de quadrinhos do mundo). E começamos a
conversar. Depois, quando fui a Barcelona, ele foi me encontrar.

Falamos muito e acabou surgindo uma amizade. Então, na época do quinto
centenário do descobrimento da América, a Espanha organizou uma série
de livros sobre a exploração, e me perguntaram se eu gostaria de fazer
um deles. A editora me enviou quatro roteiros para ler, sem dizer os nomes
dos autores.

E um que me agradou, pelo ritmo, pela narração era o de Caboto. Então,
me disseram que era de Jorge Zentner. E respondi: “Somos amigos, eu o
conheço”. Aí, nos encontramos, fechamos o roteiro e fizemos a edição inteira.

Depois, passamos muito tempo sem nos vermos…

Le Bruit du Givre
Capa de Le Bruit du Givre

UHQ: Jorge Zentner mora em Barcelona, você em Paris. Como era o contato
durante a realização de um trabalho conjunto?

Mattotti: Na época de Caboto, eu ainda vivia na Itália. Então,
ele fez uma viagem para lá, e me levou o roteiro. Depois, “falávamos”
via fax, até nos encontrarmos.

Já este último livro, Le Bruit du Givre (Il Rumore de la Brina, em italiano,
e El Rumor de la Escarcha, em espanhol – algo como O Rumor do Orvalho
em português) que eu fiz morando na França, que, foi um trabalho que levamos
meses para fazer, porque era uma encomenda para um grande jornal alemão,
o Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Aí, ele ia a Paris uma vez por mês, por alguns dias, e trabalhávamos.
Depois, retornava a Barcelona. Mas foi um trabalho muito complicado, porque
Jorge escreve em espanhol, depois a obra era traduzida para o alemão,
e voltava para fazer as letras em Paris… Enfim, um verdadeiro trabalho
completamente europeu.

Mas tudo fica mais fácil quando roteirista e desenhista se entendem.

Estigmas
Arte original de Estigmas

UHQ: Você publicou em vários países europeus. Hoje, qual é o melhor
mercado?

Mattotti: A França, sem dúvida. Mas Estigmas, por exemplo, foi
um pouco melhor na Itália. Na França foi mediano. Eu esperava uma repercussão
maior deste álbum. Tive uma grande decepção, porque depois de tanto trabalho,
o resultado foi praticamente nenhum.

Depois de Estigmas passei por um momento de grande depressão, e pensei em
não mais fazer os meus próprios quadrinhos. Mas em seguida vieram Doutor
Jekill & Mister Hyde e outras coisas…

O mercado italiano está médio. Mas creio que é preciso considerar que são
culturas diferentes. A França não é uma cultura simbólica, cristã; é muito
anti-religiosa. Creio que isso me prejudicou, porque Estigmas fala de um
símbolo religioso e de um preconceito. Mas quem leu o álbum sabe que vai
bem além disso.

Por isso, Estigmas vai muito lentamente, como todos os meus livros. É uma
coisa que acaba saindo com o tempo.

Le Bruit du Givre
Lorenzo Mattotti e Sidney Gusman,
durante entrevista em Belo Horizonte

UHQ: Há Algum roteirista com que ainda não trabalhou, mas que gostaria?

Mattotti: Não sei. O problema é que preciso conhecer meus roteiristas.
Mesmo quando leio algo muito bom, se não conheço a pessoa, não tenho vontade
de trabalhar ela.

UHQ: Hoje você lê histórias em quadrinhos?

Mattotti: Poucas. Apenas de alguns autores de quem gosto ou outros
por curiosidade. Aprecio muito Taniguchi; Daniel Clowes, pela história;
Art Spiegelman, que é muito amigo meu; acompanho sempre Muñoz, para saber
as coisas que está fazendo.

E algum que um ou outro amigo indica para ler. Também gosto de (Fred) Beltran,
do americano David Boring, e do Igort, um desenhista que fazia parte do
Valvoline. Ele fez um livro chamado 5 è il Numero Perfetto, que é belíssimo.

Fred Beltran
Arte de Fred Beltran

Há ainda outros que são excelentes desenhistas, mas que a história não
me interessa. Stefano Ricci é ótimo. Seu traço é potente, fortíssimo, mas
acho que ainda não descobriu a maneira ideal de contar a história.

Gosto também do americano Cris Ware que fazia Jimmy Corrigan, mas e história
é muito lenta.

UHQ: Recentemente, foi lançado no Brasil o álbum Little Lit,
que traz uma história sua. Como entrou no projeto?

Mattotti: Little Lit é uma criação de Art e sua esposa Françoise
(Mouly). Como somos muito amigos, ele me convidou para participar. Deveria
recontar uma fábula clássica, popular. Eu não sabia bem o que fazer. Então,
li um conto de Italo Calvino, um escritor italiano muito famoso, e achei
que deveria fazer aquela pequena história (nota do UHQ: intitulada
Os Dois Corcundas), que é muito bonita. Eu a fiz para as crianças. Não é
algo refinado.

Pôster do Festival de Cannes
Pôster do Festival de Cannes
de 2000, por Mattotti

E eu convidei Kramsky para lê-la também, porque gosto de trabalhar com
ele. Mas como ele achou que todas as fábulas estavam ultrapassadas, e acabei
fazendo sozinho.

UHQ: Qual sua opinião sobre os mangás, que vêm fazendo enorme sucesso
nos mais variados mercados de quadrinhos, inclusive na Itália?

Mattotti: Eu não sou um especialista em mangás, mas creio que
eles têm sua importância, por introduzirem os leitores às histórias longas,
lentas, o que dá ao autor a possibilidade de fazer muitas páginas.

Sem dúvida, é um gênero muito estruturado no desenho. Caracterizadíssimo.
Mas há autores maravilhosos, como Taniguchi, que se destacam por fugirem
do modelo mais tradicional dos mangás. Sempre que posso, vejo os trabalhos
dele.

UHQ: Seu trabalho nunca se caracterizou pelo uso de personagens fixos.
Mesmo assim, há algum que gostaria de desenhar?

Fuochi
Fuochi

Mattotti: Acho que alguns personagens são ligados demais ao desenho
do autor, como Corto Maltese, de Hugo Pratt. Aquele ar de abstração, a valorização
do branco… seria muito difícil fazê-los melhor. Eu não me meteria numa
obra dessas.

Seria bem mais fácil, por exemplo, fazer o Batman. Enquanto Corto Maltese
exige uma sensibilidade literária, um mundo poético pessoal, Batman é como
um invólucro dos quadrinhos, pois foi desenhado por tantos artistas, que
te dá toda possibilidade de uma interpretação mais pessoal.

UHQ: Como encararia um convite para desenhar um super-herói?

Mattotti: O problema é saber se valeria ou não a pena fazer
um trabalho desses. Depende se o meu Batman seria altamente importante
para mudar alguma coisa, ou se no tempo em que o estivesse fazendo, não
seria melhor fazer uma história minha, na qual me meteria com coisas que
me interessam mais.

Entre fazer uma nova história de Estigmas e um Batman, visto que o tempo
voa, eu preferiria realizar a minha. Mas não tenho nada contra. Doutor
Jekill & Mister Hyde é um arquétipo da dupla identidade dos super-heróis.
E reinterpretar essa obra, para mim, foi uma grande honra.

Le Signor Spartaco
Le Signor Spartaco

UHQ: Entre todas as suas obras, é possível escalar seu trabalho predileto?

Mattotti: Cada trabalho é como um filho. É um pouco difícil
dizer de qual se gosta mais. É claro que Fuochi, para mim, é num ponto
extremamente importante de minha carreira. Mas Sr. Espartaco, em nível
de liberdade criativa, foi maravilhosa de fazer.

Sou muito orgulhoso de todos essas obras. Estigmas também é importante.
Cada trabalho meu é uma etapa de conhecimento. Como diria… Eu cometo
muitos erros, mas cada um serve para que continue andando avante, descobrindo
novas coisas.

Meu último livro com Jorge Zentner também me deixou muito satisfeito e foi
importante para mim.

UHQ: O também italiano Sergio Bonelli nunca o convidou para desenhar
algum de seus personagens?

Fuochi
F Le Bruit du Givre,
página interna

Mattotti: Conheci Sergio Bonelli há pouco tempo, mas ele não
se interessa pelo meu trabalho, porque disse que sou mais um pintor, um
artista plástico, não um desenhista de quadrinhos.

É um pouco como o discurso de Batman. Eu não faria o Tex Willer, porque
é outro estilo. Talvez Dylan Dog, mas eu li pouca coisa dele. Até poderia
desenhá-lo, se não tivesse que fazer seu companheiro (nota do UHQ:
Groucho), que não suporto.

Mas um pesadelo, um grande sonho de Dylan Dog, provavelmente, eu poderia
fazer. Mas não sei se os leitores da revista gostariam de meu estilo.

UHQ: O cinema parece ter bastante influência na sua narrativa. Você
gosta da sétima arte?

Mattotti: Sempre amei o cinema, porque desde garoto tive a sorte
de freqüentar as salas gratuitamente. Eu via todos os filmes possíveis,
de todos os gêneros. De western aos filmes de Pasolini. Tudo me apaixonava.
Para mim, o cinema era uma máquina mágica.

Mattotti autografa álbum
Mattotti autografa álbum durante entrevista

E provavelmente eu comecei a desenhar com a idéia de fazer cinema na
minha casa. E isso me acompanhou por muitos anos. Muitas de minhas histórias
são feitas para tentar passar em quadrinhos a sensação que eu tinha no cinema.

Do mesmo modo que diretores como Pasolini conseguiam transportar aquela
intensidade na imagem, eu tento fazer isso nos quadrinhos.

UHQ: Seu trabalho se assemelha bastante ao de um artista plástico.
Qual é sua velocidade de produção?

Mattotti: Tenho a sorte de ser veloz. Pela experiência que adquiri
nesses anos todos, consigo fazer um cartaz ou ilustrações para jornais
em apenas um dia.

UHQ: Especialmente nas suas obras em preto-e-branco, você faz um traço
cheio de detalhes, com linhas que se cruzam nas mais diversas direções.
Mesmo assim, a narrativa das histórias é excelente. Qual o segredo?

Mattotti: O ritmo que você determina dá toda a composição da história,
da localização dos quadros, das páginas e das seqüências.

Mattotti faz desenho para o UHQ
Mattotti faz desenho exclusivo para o UHQ

Se a seqüência é bem organizada, o traço dará a velocidade necessária
ao desenho.

Então, se houver uma boa composição do desenho, depois a cor e o traço final
atuam como contrapontos, como variação. E é aí que posso acentuar um ou
outro ponto.

UHQ: Quais são seus projetos para os próximos anos?

Mattotti: Agora, eu farei uma viagem com Jorge Zentner à Patagônia
(nota do UHQ: seria realizada no mês de outubro). E dela produziremos
um livro de viagem.

Também tenho um projeto com Kramsky, uma história em preto-e-branco, muito
diferente das nossas outras, espero. Ela se passa num mundo poético, e
estou bastante feliz por fazê-la. Será uma narrativa muito rápida, bem
diferente das minhas últimas obras.

UHQ: Para concluir, após essa rápida passagem pelo Brasil, qual a mensagem
que poderia mandar para os leitores daqui?

Mattotti: Que não se fixem em ler só mangás ou qualquer outro
gênero que conheçam. Que o amor pelos quadrinhos os ajude a superar os
preconceitos e lhes permita conhecer outras culturas.

Autógrafo de Lorenzo Mattotti para o Universo HQ

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