Renato Canini: Traço simples, poucas linhas, talento de sobra

Por Marcelo Naranjo
Data: 17 março, 2001

Renato Canini continua sendo considerado com um dos melhores traços do humor nacional. Dono de uma simplicidade ímpar, é capaz de se expressar com pouquíssimos traços, o que demonstra sua genialidade.

 

Renato CaniniAos 64 anos, o veterano Renato Canini, natural de Paraí, no Rio Grande do Sul, continua sendo considerado com um dos melhores traços do humor nacional. Dono de uma simplicidade ímpar, é capaz de se expressar com pouquíssimos traços, o que demonstra sua genialidade.

Segundo Waldir Igayara de Souza, que foi seu chefe de arte na Editora Abril, nenhum desenhista brasileiro fez um Zé Carioca melhor do que Canini. “Ele era tão bom, que, em pouco tempo, superou todos os outros artistas, inclusive, o seu chefe”, brinca.

Confira abaixo um pouco mais sobre esse fantástico artista, cujas tiras do índio Tibica estarão sendo republicadas pelo Universo HQ, diariamente.

Universo HQ: Quais motivos o levaram a trabalhar com quadrinhos?

Renato Canini: Desde criança (digo, só vim a conhecer HQ’s lá pelos 10 anos, pois na minha cidade – Barril, hoje Frederico Westphalen – não havia nem jornal). Com 10 anos já estava morando em Garibaldi (sempre Rio Grande do Sul), cidadezinha bem maior, com cinema e tal. E apareceram O Guri, Lobinho, Gibi, Vida Infantil e Vida Juvenil…Ah! Bons tempos! E como sempre gostei de desenhar (eu e meu primo Claudius, que, ultimamente, colaborava na Bundas) passávamos horas desenhando nas lajes das calçadas em frente à nossa casa – ambos morávamos com uma avó paterna e uma tia. Com o tempo, fui avançando…

UHQ: O que foi exatamente a CETPA (Cooperativa e Editora de Trabalho)? Quanto tempo durou? Como você participou?

Canini: A CETPA – Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre – foi uma tentativa de nacionalizar as HQ’s. A idéia foi do desenhista carioca José Geraldo (que havia feito algumas revistas da Ebal – Editora Brasil América). Ele foi para Porto Alegre, pois conhecia o Brizola, na época governador, e reuniu alguns desenhistas: Júlio Shimamoto, Getúlio Delphin, João Mattini, Bendatti, Flávio Teixeira, Luís Saindenberg e eu. Durou aproximadamente uns dois anos. Com a renúncia do presidente Jânio Quadros, foi tudo pro beleléu. Uma pena, mas… O meu personagem era o Zé Candango, um cangaceirinho que vivia surrando os super-heróis americanos. O argumento era do José Geraldo. Saiu em tiras no Jornal do Brasil, no Zero Hora de Porto Alegre (que era, na época, “Última Hora”).

UHQ: Como foi sua experiência produzindo histórias para a Disney, no Brasil? Quantas histórias você desenhou? Os roteiros também eram seus? Como eram as vendas do título, naquela época?

Canini: Fui para São Paulo em 1967 trabalhar na imprensa metodista. Em 1969, fui para a Abril. Comecei na revista Recreio. Como a saudade (e isso que, naquela época, São Paulo não era a loucura de hoje!) do Sul bateu, surgiu a chance de eu desenhar o Zé Carioca, em Porto Alegre, e mandar via malote pro escritório da Abril. No começo tudo ia bem.

Nesse tempo, surgiu a Pancada e a Crás!. Eu tinha bastante trabalho. Bem, bem… Depois me escreveram dizendo que o Zé Carioca tava mais “Canini” que “Disney“, e que não estava mais vendendo bem. Daí…acabou! Cheguei a escrever uns 100 argumentos pros personagens Disney. Depois, parei de vez. Desenhei o Zé Carioca por uns cinco anos.

CrásUHQ: É verdade que, por ter você ter colocado muitos elementos nacionais nas histórias do Zé Carioca, houve insatisfação por parte da Disney, nos EUA? Como foi isso? O que exatamente causou essa reação da Disney americana? Foi esse o motivo que levou à sua saída do título?

Canini: Pra dizer a verdade, nem sei se o “meu” Zé Carioca chegou a ir até os EUA. Na época, nos Estados Unidos, as HQ’s Disney já não vendiam tão bem e, se não me engano, o Zé nem era publicado lá. A concorrência devia ser forte.

UHQ: Fale um pouco mais desses “elementos nacionais” das histórias do Zé Carioca. Quais eram eles? Como era a reação dos leitores?

Canini: Eu introduzi o “Zé Paulista”. O Saindenberg, que escrevia argumentos pra Disney, criou os outros: “Zé Gaúcho”, “Zé Queijinho” (mineiro) etc… Mas não tiveram vida longa. Acho que fui o primeiro a desenhar o Zé Carioca de camisa… Calor tropical… E, de vez em quando, um campinho de futebol. Mas nunca fui um grande desenhista Disney. É péssimo se “despersonalizar”. Desenhar personagens dos outros é horrível (Nota do UHQ: Vamos perdoar a modéstia do Canini. Ele forneceu, disparado, um dos melhores “traços” que o Zé Carioca já teve). Parece que os desenhistas do Mauricio de Sousa superaram essa fase. Como temos que “pagar o leite das crianças” que morra o “EU”. Help!

UHQ: Você costuma ler quadrinhos? Quais seus personagens e artistas favoritos?

Canini: Pouco, pouco…dos novos, o Moebius. O Calvin também é ótimo. Ah! Não posso esquecer o Edgar Vasques, o Laerte e o Angeli. Mas a minha paixão nacional sempre foi o Carlos Estevão, da extinta revista Cruzeiro. Epa! E o Will Eisner! E o Ken Parker! E o…

UHQ: O que você acha dos super-heróis?

Canini: Já (infelizmente para quem envelheceu) tiveram sua época. Mas eu sempre gostei do Capitão Marvel, Capitão Marvel Jr. e Mary Marvel, além do Super-Homem. Eu também adorava um herói não muito super: o Homem-Borracha, de Jack Cole. Já os novos, não me dizem nada. São, talvez, mais bem desenhados, papel melhor, colorido, mas muito repetitivos.

Cartoon de Canini

UHQ: Fale um pouquinho sobre as tiras do Dr. Fraud e do Índio Tibica.

Canini: O Dr. Fraud surgiu na extinta revista (tudo está extinto! Socorro!) Patota, da editora Arte Nova. Era um personagem muito limitado. Me realizei mais com o indiozinho Tibica. Defesa da ecologia, falar em Deus (desenhista crente, às vezes, gosta de ser chato). Surgiu em 1978, para o Projeto Tiras, da Editora Abril, que não teve apoio (nem competência) necessário. Poderia ter dado certo. Havia outros desenhistas: Izomar, Geandré…

UHQ: Um dos seus personagens, Kactus Kid, é o dono de uma funerária e, para conseguir clientes, transforma-se num cowboy destemido e tenta matar bandidos. De onde veio a inspiração para criar esse personagem? Onde foram publicadas suas histórias?

Canini: A Editora Abril queria que a revista Crás! fosse toda nacional. E que iria pra frente, com boa venda ou pouca! Me pediram um personagem. Como sou louco por faroeste, surgiu “Koka Kid” (mas alguém da Abril rebatizou, sem minha permissão, para Kaktus Kid. Desenhista brasileiro sofre!). Minha inspiração foi o Kirk Douglas, que tem um furinho no queixo. Quando eu estava pegando o jeito, a revista acabou. Deu prejuízo, não tem perdão! Nos quadrinhos, depois que o Sérgio Mallandro teve sua própria revista, qualquer coisa é possível. Estão aí as bancas, abarrotadas com 90% de porcaria… até No Limite virou revista!

UHQ: Quais outros trabalhos você executou/criou em relação aos quadrinhos?

Canini: Tenho ilustrado muitos livros infanto-juvenis. Com os quadrinhos, nenhum.

Dr. Fraud, de Renato Canini

UHQ: Você também elaborou charges. Onde elas foram publicadas? Pode nos dar mais detalhes?

Canini: Meus primeiros cartuns foram publicados na extinta (“extinta”, de novo!) Pasquim, Pancada e alguns jornais e revistas alternativos.

UHQ: É possível sobreviver trabalhando com quadrinhos, no Brasil?

Canini: Possível é. O problema é que o artista, em geral, não dá pra “negócios”. Há exceções, como em todas as profissões. Mas nem sempre o melhor artista é o que “faz sucesso”. Há os Van Goghs e os Andy Warhols…

Como diz minha mulher, Maria de Lourdes, também aposentada, como eu: “Ricos pela graça de Deus”. Sem carrão, piscina, jet-sky nem videogame… mas felizes! Ah! Temos um belo jardinzinho!

Charge de Canini

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