Eduardo Risso: Um argentino de traço e palavras afiadas

Por Equipe UHQ
Data: 26 outubro, 2002

Sucesso nos mercados europeu e americano, o argentino Eduardo Risso é um dos mais premiados desenhistas de quadrinhos do momento. Extremamente inteligente, demonstra com as palavras a mesma ousadia que exibe nas páginas de seus quadrinhos
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Eduardo Risso
Eduardo Risso, um dos mais premiados e respeitados desenhistas da atualidade

Faltavam duas horas para a abertura da quarta edição do Fest Comix, quando a equipe do Universo HQ chegou ao Hotel Mercury, na Zona Oeste de São Paulo. Nossa prazeirosa missão seria entrevistar o argentino Eduardo Risso, responsável pelos desenhos da ótima série 100 Balas, da Vertigo (publicada no Brasil pela Opera Graphica) e um dos mais premiados e respeitados desenhistas da atualidade.

Na companhia do simpático português José Sobral, o representante da Opera Graphica, foram quase duas horas de uma conversa agradável e esclarecedora, na qual Risso falou de sua carreira, influências, roteiristas com quem já trabalhou, 100 Balas, das diferenças de se trabalhar nos mercados europeu e americano e muito mais.

Depois de produzir vários álbuns na Europa, como os cinco da bela escrava negra Fulù (com roteiros de Carlos Trillo), Risso resolveu enfrentar o mercado americano. O resultado, novamente, foi o sucesso. Especialmente em 100 Balas (com textos de Brian Azzarello), que em 2002 lhe rendeu os prêmios Harvey e Eisner de melhor artista do ano. Isso sem contar os ganhos pela série.

Fulù #1
Primeiro álbum de Fulù, uma parceria entre Eduardo Risso e o roteirista Carlos Trillo

Hoje, ele é artista exclusivo da DC Comics e goza de um grande prestígio no mundo inteiro. Mas, estranhamente, o único veículo jornalístico que o procurou para uma entrevista em sua passagem pelo Brasil foi o Universo HQ.

Às vésperas de completar 43 anos (em novembro), Eduardo Antonio Risso, que reside em Rosário, na Argentina (onde diz estar se formando um núcleo de vários artistas que produzem para o mercado americano), expôs com absoluta franqueza seus pontos de vista. No melhor estilo “doa a quem doer”, não se eximiu, em momento de algum, de dizer o que pensa, de forma tão inteligente quanto contundente.

Desfrute agora da experiência de Eduardo Risso, um artista que, com certeza, tem muito mais de 100 balas na agulha.

Universo HQ: Como foi seu começo nos quadrinhos argentinos? Quando isso aconteceu?

Eduardo Risso: Comecei, para valer, em Buenos Aires, na Editorial Columba. Mas, antes disso, em 1979 ou 1980, fiz pequenas coisas para o La Nacion, um importante jornal argentino. Fazia uma página de uma revista dominical para crianças, e outra de investigação, com apenas alguns desenhos. Tudo para ganhar algum dinheiro.

Logo comecei a fazer pequenas coisas para outras publicações, que se chamavam Eroticón e Satiricón. Como os nomes sugerem, a primeira era mais erótica; e a outra mais de humor. Mas foram pequenas colaborações, porque a Columba já me tinha me contratado como um profissional, e comecei a trabalhar com eles, de 1981 até 1985.

Eduardo Risso
Eduardo Antonio Risso reside em Rosário, na Argentina

UHQ: Quais eram seus ídolos quando começou nos quadrinhos?

Risso: Eu me inspirava muito nas revistas da própria Editorial Columba. Nasci numa cidade pequena, Córdoba, e comecei a desenhar para eles. Logo depois, surgiu uma concorrente, a Editora Record, que publicava Skorpio, Corto Maltese… Era o único material que recebíamos. Por exemplo: eu só conheci material americano quando cheguei em Buenos Aires, pois eles não chegavam a Córdoba.

Nesse momento, gostava muito de Ricardo Villagran, Domingo Mandrafina e Henrique Breccia. O pai dele, Alberto Breccia, só conheci muito depois.

UHQ: E quais suas influências hoje? O que você lê de quadrinhos?

Risso: Não leio. Por duas razões: primeiro porque não tenho tempo. Dedico meu tempo ao trabalho e à família. Quando leio algo, prefiro um romance ou um livro. E a outra razão é para não ser influenciado, para manter estilo próprio.

Cheguei numa etapa da minha carreira profissional, na qual já estou com uma base artística, com meu próprio estilo. Antes disso, assimilava de todos os lados.

De todo modo, minhas maiores influências foram Alberto Breccia, Jose Muñoz e Moebius.

É mentira quando dizem que tenho influência de Frank Miller. Tenho trabalhos antigos, como Borderline, que foram feitos muito antes de eu conhecer sua obra, e, mesmo assim, são parecidos. Ambos são em preto e branco, com uma base de Alberto Breccia, sem linhas, somente preto e branco.

Mas reconheço que Miller é um artista incrível.

Fulù #2
Edição francesa do segundo álbum de Fulù

UHQ: Falando em Frank Miller, você leu Cavaleiro das Trevas 2?

Risso: Apenas vi, mas não gostei. Mas não me parece muito bom.

O primeiro Sin City é bom, e o primeiro Cavaleiro das Trevas também. Miller é um artista integral. Não é muito bom desenhista, mas é um escritor excelente e um narrador impecável. Além disso, tem muita coragem, pois está sempre fazendo coisas novas.

UHQ: Você passou por jornais e depois pela tradicional revista Fierro. Quais eram as diferenças do mercado, naquela época?

Risso: A diferença é que hoje não existe mercado. Quer dizer, há mercado, mas não existem editoras. Com os problemas econômicos, quando o dólar era 1 por 1, começaram a chegar em massa as revistas americanas e os mangás. Eles invadiram tudo e fizeram desaparecer as companhias locais. Ainda se lê muito, mas se consome quase tudo de fora.

Não existem mais editoras argentinas que lancem revistas como Fierro ou Dartagnan (nota do UHQ: títulos tradicionalíssimos de HQs argentinas, que, na época, elevaram a Argentina à condição de potência no cenário dos quadrinhos mundiais). Agora estão voltando a pensar em publicações nacionais. O problema foi basicamente econômico. Temos artistas e público. Faltam editores.

Fulù #3
Edição francesa do terceiro álbum de Fulù

UHQ: Quantos artistas argentinos trabalham para fora hoje?

Risso: Cem por cento deles trabalham para fora. Estados Unidos, França e Itália, os mercados mais fortes. Por sorte, os artistas argentinos são reconhecidos no exterior, mas tenho o temor que isso desapareça, porque, evidentemente, não há mais o canal natural – que é o editor – para os jovens mostrarem seus trabalhos fora do país, o que torna tudo muito mais difícil.

Veja, por exemplo, o que aconteceu comigo. A Editorial Columba me financiou toda a aprendizagem. Não estava totalmente formado quando entrei lá, estava aprendendo. Hoje, não existe mais a Columba, não há outra editora que possa fazer esse caminho.

Quando alguém chega ao exterior, à DC, à Marvel ou outra editora, precisa estar totalmente formado. Não há tempo para crescer durante o processo. Não é permitido!

Fulù #4
Edição francesa do quarto álbum de Fulù

Sobretudo porque, nos Estados Unidos, as grandes companhias são máquinas que podem devorar o artista. Se você não está preparado, com uma base forte, é engolido.

Eu presenciei isso em San Diego, onde vários editores descobrem novos talentos, trabalhos impressionantes. No entanto, nunca vi materiais dessas pessoas publicados, porque, quando chegam lá, só podem fazer uma página a cada quatro dias, e não servem para a indústria, que necessita de quantidade e qualidade.

UHQ: Eduardo, qual foi seu primeiro trabalho na Europa?

Risso: Eu comecei na Europa fazendo uma série chamada Azor, da qual não tenho mais os direitos, porque, nessa época, cheguei à Europa por meio de agentes. Isso aconteceu na Itália, e logo a seguir veio Fulù.

Fulù #5
Edição francesa do quinto álbum de Fulù

UHQ: Você desenhou cinco álbuns da bela Fulù (apenas dois chegaram ao Brasil, pela Meribérica), escritos por Carlos Trillo. Qual o impacto deles em sua carreira?

Risso: Basicamente, o reconhecimento artístico.

UHQ: Como foi trabalhar com Carlos Trillo? Como começou e quanto tempo durou essa parceria?

Risso: Excelente. Quando Trillo me chamou para fazer Fulù, demoramos um ano para começar, porque eu precisava terminar o contrato para fazer Azor.

Demorou também, porque era um trabalho que fizemos tudo sem agente de intermediação, diretamente com o editor. Eu e Trillo somos muito amigos. É um homem extraordinário, que tem a vantagem de dar ao artista a liberdade de se expressar como quiser. Trocamos muitos roteiros, partes de texto, para que a parte gráfica pudesse ser visualmente mais rica. Nossa parceria foi de 1987 até 1995.

Parque Chas
Parque Chas, série publicada originalmente na revista Fierro

Aliás, essa liberdade aconteceu também com outros roteiristas, como, por exemplo, Ricardo Barreiro, um artista muito reconhecido, com quem trabalhei na revista Fierro, fazendo as séries Parque Chas (republicada na França em 1993, pela Glénat) e Cain.

UHQ: Você gostaria de trabalhar com algum roteirista em especial?

Risso: Nenhum em especial. Tive sorte de sempre trabalhar com bons roteiristas.

UHQ: Fale mais sobre seus outros trabalhos com Trillo, como Je Suis un Vampire, Chicanos e Borderline. Todos foram publicados primeiro na Europa, certo?

Risso: Sim, na Europa. Foi na época de Je Suis un Vampire que comecei a trabalhar com assistentes, porque, ao invés de ter somente 20 páginas mensais, precisaria fazer 48. Então, necessitaria de alguém para me ajudar. Foi um golpe muito forte!

Cain
Cain, parceria entre Risso e o roteirista Ricardo Barreiro

Eu tive que ensinar e ceder parte da minha arte a alguém estranho. O primeiro trabalho foi Vampire, depois Borderline, e logo Chicanos.

Em Chicanos, considero que alcancei um nível ótimo na parte gráfica e artística, fazendo 48 páginas por mês, com assistente. Antes disso, em Borderline e Vampire os resultados não me agradaram.

UHQ: Quem eram seus assistentes?

Risso: Tive vários. Os mais conhecidos foram Marcelo Frusin, que hoje desenha Hellblazer; Leandro Fernandez, que está fazendo Queen & Country (Nota do UHQ: título da Oni Press) e o último, Francisco Parozini, que acabou de publicar, pela Dark Horse, Dead to Right.

Borderline
Borderline, parceria entre Risso e o roteirista Carlos Trillo

UHQ: Como você entrou no tão concorrido mercado europeu?

Risso: A Eura, da Itália, publicava muito material da Argentina, praticamente 90% do seu material vinha de nosso país. Creio que fosse por uma questão econômica, pois era barato para eles. Mesmo assim, ganhávamos muito bem, pela diferença de moeda, que existe hoje também.

UHQ: Você seguiu um caminho curioso, saindo da Argentina, produzindo álbuns europeus e chegando aos comics. Como aconteceu sua entrada no mercado americano? O que o levou para a Dark Horse, em 1997?

Chicanos
Chicanos, parceria entre Risso e o roteirista Carlos Trillo

Risso: Basicamente, foi pela situação econômica… O problema foi que nossa editora, a Eura, onde colaborei por 11 anos, começou a cair. No primeiro momento, isso não me afetou, mas para muitos artistas que trabalhavam na Argentina, foi cortado drasticamente o preço por página.

Em seguida, percebi que a editora não estava bem. A França estava saindo de uma crise, que havia acontecido em 1992, mas não havia muitas possibilidades de trabalhar direto da Argentina para eles; e já havia muitos artistas, como (Juan) Gimenez, (Horacio) Altuna, que estavam publicando. Assim, para os outros ficava muito difícil.

Então, o caminho alternativo era o mercado americano. Eu nunca gostei dos super-heróis. Sempre os reneguei. Mas precisava encontrar um mercado, e se tivesse que trabalhar com eles, trabalharia. Um profissional precisa fazer isso. Fui à convenção de San Diego, o encontro de todas as editoras, e dois meses depois surgiu a possibilidade de fazer Alien: Resurrection.

Je Suis Un Vampire #1
Je Suis Un Vampire #1, parceria entre Risso e o roteirista Carlos Trillo

UHQ: Você gostava dos filmes da série Alien?

Risso: Sim, gostava. Principalmente do primeiro. Foi interessante, uma boa experiência.

UHQ: E foi justamente o último da série o que você adaptou…

Risso: Sim, mas também fiz para a Dark Horse um capitulo unitário, chamado Aliens: Wraith. Depois recebi uma a oferta para fazer uma nova minissérie, mas surgiu uma possibilidade com a DC. Alonso havia me contatado, o que não foi fácil. Tive que viajar para os Estados Unidos, pois sabia que Alonso estava me procurando.

Página de Alien Ressurrection, arte de Eduardo Risso
Página de Alien Ressurrection, arte de Eduardo Risso

UHQ: Ele já era o editor da linha Vertigo?

Risso: Sim. Alonso, que agora está na Marvel, e é muito inteligente, por sinal, comentou com meu amigo Ariel Olivetti que estava tentando me contatar.

Na época, eu só tinha um número da DC, um fax que era de Andrew Helfer. Então, eu mandava mensagens para Alonso, mas elas nunca chegaram! E creio que ele estava apenas um andar acima!

Ou seja, se não mandasse o fax para o editor específico, a mensagem não chegaria. Cinco ou seis meses depois, resolvi: “Agora vou para lá”!

Hoje, Alonso conta isso como uma anedota, dizendo que, um dia, cheguei no seu escritório, o encontrei e disse “Eu sou Eduardo Risso. Você está me procurando? Aqui estou!”

Personagem da série Jonny Double se dá mal em 100 Balas #1
Personagem da série Jonny Double se dá mal em 100 Balas #1

UHQ: Como aconteceu o projeto Jonny Double? Foi seu primeiro trabalho com Brian Azzarello? Esse teria sido o “embrião” de 100 Balas?

Risso: Não sei… O certo é que Alonso costumava dar uma história curta, um capítulo somente, para todos os novos talentos. Mas, para mim, ofereceu uma minissérie, porque eu havia lhe mostrado todos meus trabalhos publicados na Europa.

Isso lhe deu segurança de que eu poderia saltar diretamente de um capitulo para uma minissérie. Alonso não conhecia meus trabalhos europeus, tinha visto apenas alguns na Heavy Metal americana, e Alien Resurrection.

UHQ: Foi nesse trabalho que você conheceu Brian Azzarello? Como foi trabalhar com ele, inicialmente?

Risso: Foi como em todas minhas experiências com roteiristas.

100 Balas #1
100 Balas #1, da Opera Graphica

Considero que, como desenhista, você deve mostrar ao roteirista que ele pode confiar e ficar tranqüilo com os desenhos. A princípio, como lhe demonstrei, sempre vou tentar melhorar o que me dão. Isto é narrativa gráfica

No primeiro capítulo de 100 Balas, nas páginas que transcorrem dentro de um trem, quando vi o roteiro, pensei: “Isso é muito chato para o leitor”. Assim, coloquei ali uma ação com um personagem que aparece no final de Jonny Doublé. Ele se encontrava em Chicago, desfrutando o dinheiro que havia roubado, quando foi assaltado. Eu o coloquei na parte gráfica, e quando Alonso e Azzarello viram, disseram: “Uau! Não tínhamos imaginado isso!”

No número 5 da série também há uma cena entre Megan Dietrich e o homem do bar que vai matá-la, na qual agreguei a imagem de um helicóptero, e, pela primeira vez, vemos Lono, outro personagem de 100 Balas. Quando Azzarello viu a imagem, ele disse: “Perfeito! É aqui que vamos apresentar Lono!” Assim, vamos nos retroalimentando um ao outro.

Primeira aparição de Lono, em 100 Balas #5
Primeira aparição de Lono, em 100 Balas #5

UHQ: Você e Azzarello já se conhecem pessoalmente?

Risso: Sim, mas demorou três anos para isso acontecer. Conheci Brian no ano passado. Ele tinha um certo temor de que se nos víssemos pessoalmente, acabasse a magia de trabalhar à distância.

Sabe quando se teme que a pessoa não lhe agrade? Mas, felizmente, nos tornamos grandes amigos, como se nos conhecêssemos há muito tempo.

UHQ: Por que as capas de 100 Balas são de Dave Johnson?

Capa de Dave Johnson para 100 Bullets #29
Capa de Dave Johnson
para 100 Bullets #29

Risso: Eles me ofereceram essa tarefa, mas acho que as capas devem primeiro “vender” as revistas. É a primeira coisa que se vê. Elas requerem muito tempo, e você precisa desenhá-las muito bem. E ver tanto o Risso acaba cansando o leitor.

Por isso, preferi que fosse outro. Agora, acabaram de me oferecer capas de Superman, e também de outra série nova da DC, mas rejeitei.

Não gosto de todas as capas de 100 Balas, mas devo reconhecer que elas captam o teor da série. Você olha e já sabe que são de 100 Balas.

UHQ: E as capas são diferentes do trabalho de Johnson. Ele as faz para casar com sua arte?

Risso: Isso mesmo.

UHQ: 100 Balas é um estrondoso sucesso. Mesmo não alcançando vendas como as dos quadrinhos mainstream, é hoje o principal título da Vertigo, tornou você e Azzarello conhecidos na indústria internacionalmente, e é a mais premiada série da atualidade. Somente este ano, foram três prêmios no Harvey Award e mais três no Eisner Award. Qual o segredo?

Risso: É a liberdade que existe entre mim e Azzarello. É o melhor condimento da série. A possibilidade de nos retroalimentarmos. Eu agrego coisas gráficas, que ele usa posteriormente. E gosta disso!

Por exemplo, no capítulo em Paris (nota do UHQ: a edição # 26 da série, que deve chegar ao Brasil em 2004), Mr. Branch fala com Echo, uma prostituta. Azzarello gostou dela, e decidiu continuar usando-a.

Vamos somando coisas, e personagens que eram secundários acabam ganhando força e voltando a aparecer.

Isso aconteceu também em Fulù, com uma mulher (nota do UHQ: a gorda tarada Aldaba) que aparecia num só livro, mas voltou em outro, por ganhar muita força como personagem secundária, se destacando sobre os outros.

UHQ: Nós já entrevistamos muitos artistas, e vários deles comentaram que, às vezes, os personagens ganham vida própria…

Risso: Sim, isso acontece, sem dúvida.

UHQ: Você acha que o fato de 100 Balas ser uma série policial, num mercado tão saturado de séries que não se renovam (o dos super-heróis), é um dos segredos desse êxito?

Risso: Um dos segredos do êxito de 100 Balas é não ser somente uma série policial. Azzarello resgata muitos valores que foram se perdendo nestes últimos vinte anos, como amizade, respeito, e vários outros.

Isso supera o que uma série policial oferece, e a enriquece com muitos personagens. Não temos apenas um. São vários, e todos com vida própria. Assim, se abre uma gama enorme para fazer uma infinidade de coisas.

UHQ: Certa vez, Azzarello mencionou que, inicialmente, 100 Balas teria 12 edições. Agora, estaria planejada para terminar no número 100, algo que tem até bastante lógica. Você confirma isso? 

Risso: Isso aconteceu, porque era uma imposição, um requisito editorial. Faríamos a série por um ano, se não vendesse, o titulo terminava; e produziríamos outra coisa. Agora serão mesmo 100 edições.

UHQ: E você pode contar algo do que vem por ai?

Risso: É muito difícil! Eu pedi a Azzarello que não me contasse, pois quero imaginar a série. E isso tem servido para fazer um bom trabalho.

Muitas vezes, recebo o roteiro por partes. Ele me manda 11 páginas, e fico tentando adivinhar o resto. E o bom de Azzarello é que posso imaginar até cinco ou seis finais, mas ele sempre acaba me surpreendendo com algo novo.

UHQ: Há alguma edição de 100 Balas que você particularmente gosta? Por quê?

Risso: Sim, a número 15, que inicia um arco de quatro capítulos com um personagem novo chamado Loop, que vai se transformar num minute-man; e o pai, que foi um minute-man.

Essa é a que mais gosto, pois ganhamos o primeiro Eisner com ela; e também porque foi nela que começou com a nova colorista, Patrícia Mulvihill. Eu não gostava do anterior (nota do UHQ: Grant Goleash).

A história era muito boa, e terminou sendo graficamente interessante de se ver.

UHQ: Vocês já chegaram a ter problemas com algum tipo de censura ou reclamações, pelo teor das histórias?

Risso: Não. Nós supomos uma censura própria. Por exemplo: não posso mostrar partes nuas, salvo um ou outro peito, ou uma bunda. Nas cenas de sexo, prefiro “sugerir” do que mostrar algo mais explicito.

UHQ: Como é o processo de trabalho entre você e Azzarello?

Risso: Ele envia tudo por e-mail. Nem sempre vem o roteiro inteiro, depende do tempo dele.

Agora que está trabalhando só para a DC, Azzarello tem mais tempo, mas quando estava também na Marvel, no ano passado, me mandava quatro páginas hoje, cinco dias depois mandava mais três…

Meus desenhos vão direto para a DC. Azzarello geralmente não os vê. Apenas o lápis, às vezes.

UHQ: 100 Balas é hoje o grande sucesso da Vertigo, depois de Sandman e Preacher. O que acha destes dois títulos?

Risso: Li apenas alguns números de Preacher. Eram fortes, interessantes, mas nunca gostei dos desenhos. Sandman também li somente algumas edições, apesar de ser outra linha.

O curioso é que, por causa de Sandman, custou muito para Alonso introduzir 100 Balas na Vertigo, pois o público estava acostumado a ler Neil Gaiman (Nota do UHQ: clique aqui para conferir a entrevista exclusiva com o roteirista britânico), ou obras na mesma linha.

Alonso teve que batalhar muito para lançar 100 Balas. Como teve êxito, agora querem fazer tudo como 100 Balas…(risos)

UHQ: Quantas edições de 100 Balas você tem prontas?

Risso: Não muitas. Quando começou a sair a série tínhamos cinco ou seis números adiantados. Agora, estamos tratando de recuperar o tempo perdido. Estamos uma ou duas edições à frente.

UHQ: Você gostaria de ver 100 Balas em outra mídia?

Risso: Sim. Já disse a Azzarello que ele teria que fazer um roteiro especial para o cinema, pois não se poderia adaptar a série como está publicada. Talvez para um seriado de televisão.

UHQ: Os prêmios que a série ganhou abrem muitas portas?

Risso: No meu caso, já tinha a proposta para fazer Batman e o contrato de exclusividade, antes dos prêmios. Mais que portas, obtive respeito e reconhecimento. O que não é pouco, porque, sendo estrangeiro, sou o primeiro argentino que ganhou o Eisner. E como a série é bastante nova, tomou impulso muito rapidamente.

UHQ: Por falar em Batman, como está a graphic novel de 120 páginas que você e Brian Azzarello estão desenvolvendo? Existe previsão de lançamento?

Risso: Está mais ou menos… Serão 128 páginas, mas eu só aceitei com a condição de poder entregar quatro ou cinco páginas por mês, mais 100 Balas, claro.

Não queria parar a série para fazer Batman. A graphic novel deve sair daqui a dois ou três anos.

UHQ: Mas você falou que não gosta de super-heróis. Como está sendo fazer Batman?

Risso: Desse universo, eu só acredito em Batman. Não creio em super-heróis que voam, que atiram raios…

UHQ: Estamos muito curiosos para ver o Batman no seu traço.

Risso: O desafio de fazer Batman não é pelo personagem em si, mas pela arte-final, que pretendo fazer diferente de 100 Balas, com uma mudança na narração, nos grafismos.

Esse é meu maior desafio. Não sei se poderei fazê-lo, nem como fazê-lo, mas estou pensando nisso. Preciso ver o roteiro primeiro.

UHQ: Recentemente, nós entrevistamos Max Allan Collins, que também disse não gostar de super-heróis, somente do Batman, porque o considera um detetive, e não o considera um super-herói.

Risso: O grande problema com Batman, é que sua série regular não vende, porque tem sempre péssimos desenhistas (nota do UHQ: Risso desconhecia a entrada de Jim Lee no titulo).

É um personagem muito rico, mal aproveitado na série regular. Diferente das graphic novels, que trazem artistas melhores.

UHQ: Você faria uma série regular com ele?

Risso: Hummm… por que não?

Mas, no gênero super-herói, ele seria o único?

Risso: Isso pode até ser mudado, mas o problema com super-heróis é que tudo já está feito. Para qualquer artista é mais fácil desenhar personagens novos, do que fazer mitos como Superman, Batman ou os demais.

É difícil mudar algo, sobretudo pelos próprios editores, que são contra essas alterações, que, muitas vezes não são aceitas pelo público.

Veja o exemplo do Super-Homem, que trocou de traje, mas teve que voltar ao antigo, porque os leitores não aceitaram.

UHQ: Você não acha que esses erros são basicamente dos editores, que não escolhem artistas que “casam” com os títulos, optando por desenhistas que o público não gosta?

Risso: Acho que o editor americano pensa que o leitor é tonto! Digo isso, porque, às vezes, em 100 Balas, me dizem “Por que não põe isto?”, “Por que não ressaltar isso?” ou “O leitor não vai lembrar”.

Como super-herói também são lidos por crianças, pensam que quadrinhos é coisa para tontos. Não é assim!

O mangá não é feito para tontos. E algumas histórias dos super-heróis atualmente são ridículas. É impossível de acreditar no que estão escrevendo!

UHQ: Hoje, você é contratado exclusivo da DC Comics. Como é trabalhar para a editora? Risso: Trabalho com muita liberdade. É muito cômodo. Quando os editores sabem que alguém lhes serve, tratam muito bem. Suponho que, no dia em que não servir mais, levarei um “pé-na-bunda” (risos).

Creio que isso acontece em todas as editoras.

Isso ocorre nos prêmios, como no Oscar, por exemplo. Existem atores, como Kevin Costner, que receberam a estatueta e hoje fazem péssimos filmes; e sua imagem decaiu. Não se pode acomodar. É preciso evoluir sempre, seguir com seu trabalho.

Na minha última viagem a San Diego, notei que os editores e os artistas reconhecem que precisam manter – e levantar em alguns números – a qualidade do trabalho. Cair, jamais! Isso me parece importante, não só para o negócio, mas pelo respeito ao leitor.

UHQ: Quem dera todos pensassem como você. O mercado estaria diferente…

Risso: O problema é o que já disse: a indústria devora os artistas. Se você não está preparado, ela te devora. Eu tive uma boa base. Para a Europa, fazia 48 páginas por mês. Hoje, trabalho cerca de sete horas por dia, não mais que isso.

Não me custa fazer 22 páginas, e mais quatro ou cinco de Batman. Além disso, faço ilustrações para os fãs, por meio do meu site, e alguns pedidos que recebo de editores europeus.

UHQ: Aqui no Brasil é muito comum os artistas terem que “americanizar” seus nomes para trabalhar nos Estados Unidos. Você aceitaria isso?

Risso: Eu não sabia disso (com expressão de surpresa). E não aceitaria. É por isso que nunca saberia que vários artistas eram brasileiros, se não tivessem me contado, aqui em São Paulo! É como entrar no mercado americano e mudar o seu estilo, para adaptá-lo a esse mercado.

Se o desenhista não está preparado, cai nessas armadilhas de copiar os estilos de outros. Isso já aconteceu nos Estados Unidos. Por isso vivem buscando novos talentos, com estilos gráficos distintos.

Basta lembrar que tivemos legiões de artistas copiando o estilo de Jim Lee, ou de outros. Foi algo que, após decair, se deram conta de que não servia. Não era um negócio. Era uma ficção!

UHQ: O seu único trabalho para a Marvel foi Tangled Web (nota do UHQ: publicado no Brasil em Homem-Aranha # 10, da Panini Comics). Você viu diferença entre trabalhar para a DC e a “Casa das Idéias”?

Risso: Logo após esse trabalho, a DC quis firmar exclusividade. Eu levei um ano para aceitar. O problema era o copyright, que estava nas mãos de Azzarello e da editora, e eu estava reclamando a minha parte. Afinal, tinha direitos sobre a série.

Azzarello estava disposto a ceder parte dos direitos, e garantiu que eu não precisava me preocupar. Quando solucionaram esse problema, e passei a fazer parte da série oficialmente, firmei o contrato.

Como foi só um trabalho, não deu tempo para notar a diferença. Tive a impressão de que, com a entrada de Alonso na Marvel, houve mudanças.

Sei que antes, a editora era muito desorganizada, segundo Alonso me contou. Parece que continua assim, mas eles estão tratando de arrumá-la.

UHQ: Você consegue viver só de quadrinhos? Já trabalhou para o mercado publicitário?

Risso: Nunca quis trabalhar para o mercado publicitário. Minha mulher tem uma agência de publicidade, e nunca quis atuar nisso. Sempre vivi dos quadrinhos, desde que comecei a trabalhar.

UHQ: No seu site, você vende algumas artes. É uma fonte de renda alternativa?

Risso: Sim. É um negócio que não conhecia, descobri há um par de anos. É algo possível somente no mercado americano. 90% do que vendo são originais que se publicam nos Estados Unidos, e também algumas artes por encomenda para fanáticos. Tenho um agente italiano que gerencia isso, e está muito contente.

Quando coloquei isso no site, foi numa sexta-feira. No domingo ele me disse “Estou muito feliz. Tenho pedidos para você por dois anos!”. E isso porque só vou fazer uma ou duas encomendas por mês! Se eu quisesse, poderia trabalhar fazendo desenhos só para os fãs, que, por exemplo, querem um Batman desenhado por Risso.

UHQ: Você pretende algum dia voltar a trabalhar com quadrinhos europeus?

Risso: Sim, por que não? Hoje, estão apenas editando álbuns antigos meus novamente.

UHQ: Você mencionou que chegou a fazer 48 páginas mensais para o mercado europeu. Por aqui sempre se teve a imagem de que, no “Velho Continente”, os prazos fossem bem maiores.

Risso: Era uma exigência editorial. Eles necessitavam de muito material. E como, nesse momento, os preços haviam baixado, para viver, eu precisava fazer mais páginas.

UHQ: Em Fulù, quanto tempo você tinha para fazer um álbum?

Risso: Como Fulù foi publicado primeira em uma revista italiana, nessa época eu não fazia mais de 20 páginas por mês.

Mas há diferenças entre o mercado europeu e americano.

O mercado americano é muito mais dinâmico. Não só trabalha ligado à indústria de papel, como também tem uma estrutura armada, na qual o merchandising atua com o cinema, com bonecos… Tudo está ligado a tudo.

E a diferença substancial é o trato pessoal entre editor e artista. Nos Estados Unidos, o editor cuida do trabalho. Não sei se todos são assim, mas Alonso é um editor que quer saber do futuro, que fica “em cima” do trabalho, cuidando dos detalhes, tanto do desenhista quando do roteirista. Assim, a coisa toda está encaminhada.

Na Europa, trabalhei por anos com a Itália e jamais conheci o editor. Ele nunca mandou me dizer nada. O mesmo aconteceu com os franceses. Não havia pautas, não existia nenhuma exigência, do tipo “faça isso ou necessitamos disso”.

UHQ: Você não acha que, no mercado europeu, eles têm mais interesse no artista, e se você é bom te dão mais liberdade? Nos Estados Unidos existe a política da editora, que precisa disso, e o público quer aquilo. Esse afastamento não seria para deixá-lo livre para fazer o que queria?

Risso: É como disse antes: não sei se todos editores americanos são iguais. Tive uma boa experiência com Alonso. Ele é uma pessoa que cuida do produto, que pretende que tudo chegue na mão do leitor em boas condições.

E, nos Estados Unidos, os editores são como fusíveis, que podem ser trocados a qualquer momento. Se algo fracassar, a culpa é também do editor.

Eles trocam de editores, como trocam de artistas. Na Europa, não. Geralmente, o editor permanece. O único país um pouco mais dinâmico nesse sentido é a França, pelo menos nos últimos anos, porque o mercado mudou.

UHQ: Com exceção do ótimo Quino (o “pai” da inesquecível Mafalda), os quadrinhos argentinos são praticamente desconhecidos no Brasil, e vice-versa. Por que acha que isto acontece, já que são paises vizinhos?

Risso: É difícil… Temos que buscar uma explicação além dos quadrinhos. Acho que sempre se encarregaram, principalmente os Estados Unidos, de fazer com que os paises dessa região estivessem sempre sozinhos. Sem nunca armarem blocos, sem nunca trabalharem juntos.

Se não nos dermos conta de que juntos vamos melhorar, estamos perdidos. As diferenças que vejo entre Brasil, Chile, Uruguai e Argentina são mínimas. Não existem. O que acontece é que para nossos dirigentes, o mais importante é o dinheiro que recebem no fim do mês.

Se quisermos apostar no futuro, precisamos de um bloco como o Mercosul. E se isso existir, a possibilidade de fazermos bons quadrinhos para todos esses países seria algo muito válido.

UHQ: Você conhece algum artista brasileiro?

Risso: Sim, vocês têm um grande artista, muito conhecido na Europa, o Ziraldo. Mas não sabia que tantos desenhistas daqui trabalhavam para o mercado americano. Não imaginava o problema dos nomes traduzidos!

UHQ: O que acha do sucesso mundial dos mangás? Você gosta do gênero?

Risso: Também não leio mangás, mas é muito forte. Gostei muito de Akira, mas é um material feito mais para a Europa, para os Estados Unidos. O gênero tem artistas muito bons, com códigos próprios, que sabem captar para mostrar para os leitores.

E tem a vantagem de invadirem também pela televisão! Isso é importante, apesar de isso também acontecer no mercado americano, mas com menos eficiência.

UHQ: Como você vê o mercado de quadrinhos atualmente? Muitos falam em retração e crise. Dias melhores virão?

Risso: Os mercados são assim. O mundo está em crise! Já passei por várias, mas nunca uma tão grave quanta a italiana.

Foi aí que me dei conta que, para não ser tocado por uma crise, é sempre preciso estar acima dos demais. Porque, quando “passam a espada”, cortam a cabeça do pelotão, mas se você estiver acima vão cortar, no máximo, seus pés.

E isso só se consegue com trabalho!

Quando fui em busca de trabalho nos Estados Unidos, pensei “Que posso mostrar ao mercado americano que ele não tenha?” Depois de muito pensar, achei! Eles não sabem narrar. Ou melhor, creio que esqueceram como se faz isso.

Assim, eu fui e ofereci narrativa gráfica. Os europeus aprenderam a narrar com os americanos, com Milton Caniff e outros artistas dos anos 50. Depois, na década de 1970, com as páginas splash, os super-heróis, golpeando numa página, e na seguinte já conversando, houve um rompimento da narração. Assim surgiu uma geração que não sabe narrar, com exceção de uns poucos.

É correto dizer que há muitos desenhistas, mas os que fazem boas histórias em quadrinhos cabem nos dedos de uma mão.

Em todos os mercados, só se pode considerar uns 10% dos artistas como bons. O resto é “verdura”. Mas o mercado editorial precisa da presença de muitos títulos. Você acha que se justifica o número de títulos do Batman, por exemplo? Quatro ou cinco por mês?

UHQ: Hoje, nós temos várias editoras pequenas apostando em artistas nacionais. Mas, pela quantidade de artistas que existem aqui, ainda é pouco. Não temos, por exemplo, uma revista como a Fierro, através da qual seria possível “puxar” os jovens talentos para construir o mercado.

Risso: Pelo que sei, o Brasil tem uma tradição muito antiga de ler comics americanos. A Espanha viveu isso. No entanto, depois da crise da década de 1980, não havia forma de atrair os leitores, que estavam acostumados a ler mangás, super-heróis ou histórias francesas.

Agora, essas publicações está voltando a introduzir, pouco a pouco, artistas nacionais. Mas o processo é lento.

UHQ: Você acha que a grande vantagem do mercado americano é a existência dos personagens clássicos?

Risso: Creio que a vantagem está na retaguarda econômica. Veja, se surge a idéia de publicar autores nacionais, em revistas com um personagem ou vários, como era a Fierro, seria preciso sustentá-las, pelo menos, durante um ano, para gerar público.

Mas isso não ocorre com vários editores, que logo tentam outro projeto. Quando a Fierro foi lançada, vendia 30 mil exemplares, e no seu pico máximo atingiu 60 mil. Mas esse crescimento foi pouco a pouco, pois os editores pensavam no futuro, e pensavam: isso tem que durar.

Na estrutura atual, saem um ou dois números, e o título já é cancelado. Hoje, como as editoras são pequenas, sobretudo economicamente falando, se não vendem, não conseguem sustentar as revistas. É muito difícil…

UHQ: Qual a sua opinião sobre os quadrinhos na internet?

Risso: É uma alternativa nova, acho que, no futuro, terei que desenhar para a internet… Mas ela não substitui o papel.

Primeiro, porque os quadrinhos são uma leitura rápida. Se você senta no computador, perde muito tempo. Não supera a rapidez do papel. Segundo, porque cansa mais os olhos, porque é preciso estar sentado… Eu prefiro o papel.

UHQ: Quais são os próximos projetos de Eduardo Risso?

Risso: Somente Batman. Tenho trabalho com 100 Balas por muito tempo. Depois, veremos.

UHQ: Fugindo dos quadrinhos, como todo argentino, você também deve gostar de futebol. Qual seu time?

Risso: Não tenho. Gosto de bom futebol. E da rivalidade Brasil-Argentina (risos)! São equipes sempre criativas e sempre fazem boas partidas.

Sabe o que o Brasil e a Argentina têm de diferente dos Estados Unidos? A criatividade! Em tudo, na música, nos quadrinhos, eles são muito técnicos. Nós somos autodidatas.

Não aprendi a desenhar na escola. Imagino que os desenhistas brasileiros também não. Aprenderam olhando, exercitando. Lá, não. Eles vão à escola de arte, à escola de Joe Kubert (nota do UHQ: que também deu uma entrevista exclusiva para o Universo HQ). São bons, mas não são criativos. Temos que aproveitar essa criatividade. Temos que ser mais inteligentes, e nos juntarmos em projetos.

UHQ: Seus quadrinhos têm enquadramentos dignos da sétima arte. Você gosta de cinema?

Risso: Gosto. Infelizmente, não posso ver tantos filmes quanto gostaria. Aprecio principalmente Spielberg. Foi dele que veio a idéia de que é melhor sugerir do que mostrar, quando vi E. T. pela primeira vez.

Lembra-se que, nos primeiros minutos, só se vê gente correndo, policia, exército, e não aparece o extraterrestre? Você apenas imagina o que está acontecendo!

Eu tenho sempre muito respeito pelos leitores. Ao contrário de muitos editores, sei que o leitor é alguém inteligente, e acho que é preciso fazê-lo viver a história, como um filme, como se fosse um personagem a mais na trama.

Com a narração, a composição, os grafismos, os gestos, eu trato de armar uma página que seja agradável e dê ao leitor a possibilidade de “viver” a história.

UHQ: O Universo HQ agradece muito essa entrevista. Foi um prazer!

Risso: Muchas gracias. Para mim, também foi um grande prazer poder me comunicar com seus leitores.

 

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