Um grande roteirista que nunca leu quadrinhos

Por Sidney Gusman
Data: 14 agosto, 2003

Durante o 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, o premiado argentino Jorge Zentner deu uma verdadeira aula sobre roteiro, com um detalhe: ele nunca leu quadrinhos. Nesta entrevista exclusiva ao Universo HQ, ele conta os caminhos que o levaram à nona arte e fala sobre seus principais trabalhos, ao lado de feras do traço do mundo inteiro

Por Sidney Gusman e Sérgio Codespoti

Jorge Zentner
Jorge Zentner

Se há um ramo de atividade em que, felizmente, a secular rivalidade entre Brasil e Argentina não interfere no estabelecimento de boas parcerias, é nas histórias em quadrinhos. Prova disso é a série de álbuns sobre seu projeto na Europa, a série Sept Balles pour Oxford (Sete Balas para Oxford), escrita pelo argentino Jorge Zentner e desenhada pelo brasileiro Marcello Quintanilha.

Nos dias em que passou no Brasil, no final do mês de setembro, como um dos convidados internacionais do 3º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, Zentner mostrou-se de uma simpatia cativante. Atendeu a todos, esforçou-se para entender o “portunhol” de muitos brasileiros e demonstrou uma simplicidade própria dos grandes.

La Grande Invention du Professeur Calan
Edição da Pilote, com a história La Grande Invention du Professeur Calan, desenhada por Pellejero

Numa entrevista exclusiva ao Universo HQ, esse incrível e premiadíssimo roteirista argentino, da pequena Basavilbaso, contou, para surpresa deste entrevistador, que nunca tinha lido quadrinhos antes de enveredar pelos caminhos da arte seqüencial.

Mesmo assim, tornou-se um dos maiores nomes da Europa, ganhando, inclusive, um prêmio do Festival de Angoulême, em 1997. Anos antes, em 1989, outra prova de seu prestígio no Velho Continente foi a participação, com a história La Grande Invention du Professeur Calan (desenhada por Pellejero), em uma das derradeiras edições da tradicional revista francesa Pilote, especial sobre a revolução francesa. Ao seu lado, feras como Miguelanxo Prado e Victor de La Fuente. O segredo de tanto êxito? Um background de anos de leitura e uma criatividade inesgotável.

E foi o destino que o levou aos quadrinhos, pois se não tivesse sido exilado de seu país, em 1977, e se tornado um refugiado político, dificilmente teria entrado para este mercado. Sorte das HQs.

As Aventuras de Dieter Lumpen - Inimigos Comuns

As Aventuras de Dieter Lumpen – Inimigos Comuns (Graphic Novel #23, da Abril)

Lamentavelmente, Zentner foi pouco publicado no Brasil (é possível conferir o talento do artista no número 23 da Coleção Graphic Novel, As Aventuras de Dieter Lumpen – Inimigos Comuns, da Editora Abril, e no número 20 da revista Aventura e Ficção, também da Abril, com a história A Vitória é o Fim), mas suas obras figuram nas listas principais editoras de quadrinhos da Europa. Ele tem trabalhos lançados na Espanha, Itália, Alemanha, França, Holanda, Bélgica, Suíça e outros países.

Versátil, o autor chegou até a escrever livros infantis, como Le Rêve Du Rhinocéros, com ilustrações de Sergio Mora.

Nas linhas abaixo, Zentner conta um pouco sobre sua experiência nos quadrinhos, a amizade com Carlos Sampayo e as parcerias, em grandes álbuns, com nomes como Rubén Pellejero (seu principal parceiro nas HQs), Lorenzo Mattotti, David Sala, Carlos Nine, Santos de Veracruz e outras feras.

E mais: fala sobre um instigante projeto que incluiu uma recente viagem à Patagônia, ao lado de Mattotti, e a possibilidade de realizar uma parceria com outro brasileiro talentosíssimo, o mineiro Lélis, de Saino a Percurá. Confira agora toda a inteligência e sagacidade de Jorge Zentner.

Universo HQ: Qual seu nome completo e idade?

Jorge Zentner: Apesar de ter outro nome e sobrenome, uso apenas Jorge Zentner. Nasci em 1953.

Jorge Zentner foi, durante anos, um refugiado político na Espanha
Jorge Zentner foi, durante anos, um refugiado político na Espanha

UHQ: Qual sua formação? Você estudou o quê?

Zentner: Depois que saí do colégio secundário, passei alguns dias numa escola de Jornalismo e estudei bastante tempo numa faculdade de Psicologia, mas nunca terminei.

Não tenho formação, sou autodidata. Sou, sim, um grande leitor, sempre fui.

UHQ: Você saiu da Argentina em 1977. Foi mesmo exilado?

Zentner: Sim, eu fui um refugiado político.

Anos depois, quando se solucionaram os problemas na Argentina, todos os refugiados políticos argentinos reconhecidos pelo alto comissionado das Nações Unidas receberam a nacionalidade do estado espanhol.

Então, quando a democracia voltou à Argentina, eu tinha nacionalidade espanhola. Antes, era um refugiado político.

Le Rêve Du Rhinocéros
Edição francesa de Le Rêve Du Rhinocéros

UHQ: Você era muito ativo politicamente?

Zentner: Eu era jovem, intelectual e jornalista. Era necessariamente um perigo para algumas pessoas.

UHQ: Como foram os primeiros anos fora da Argentina?

Zentner: Muito duros. Demorei muito tempo para me recompor, psicologicamente, sobretudo. Afinal, vinha de uma derrota, digamos, existencial ou ideológica; mais que política.

Eu era muito jovem, e morreram muitas pessoas ao meu redor. Perdi vários amigos, outros estavam na prisão… De um dia para outro, você tinha que deixar sua família, tudo para trás. Íamos de uma casa para outra, sem parar.

Hamerikka, de Zentner e Bern
Hamerikka, de Zentner e Bern

Então, eu precisava de muita força para seguir uma nova carreira, ou a que tinha antes. Para mim, custou muito realmente.

UHQ: Como você começou a fazer quadrinhos?

Zentner: Eu estava vivendo perto de Barcelona, num pequeno povoado a uns 25, 30 km dali, e acabei conhecendo (o quadrinhista argentino) Carlos Sampayo, que estava vivendo na Itália e se mudou para lá.

Alguns amigos comuns nos apresentaram, ficamos muito amigos, e ele me mostrou com o que trabalhava; e era quadrinhista. Na época, eu não o conhecia, tampouco conhecia os quadrinhos.

UHQ: Você nunca tinha feito quadrinhos?

D'Artagnan
D’Artagnan, tradicional revista argentina de quadrinhos

Zentner: Não. Nem lido! Não sabia nada de quadrinhos. Tinha lido na adolescência, na Argentina, as revistas D’Artagnan e El Tony, mas sempre emprestadas. Nunca fui um fã, nem um conhecedor. Eu não sabia nada, nada, nada.

E então descobri que existiam quadrinhos, que muita gente vivia disso, que poderia ser uma profissão.

Dois ou três anos depois disso, fui ao Festival de Lucca com Carlos Sampayo, mas apenas para conhecer a Itália. Lá conheci muita gente que fazia quadrinhos, como Lorenzo Mattotti, por exemplo. Mesmo assim, jamais imaginei que poderia vir a trabalhar nessa área.

Só mais tarde, quando buscava trabalho, e não sabia o que fazer, que Carlos (Sampayo) me perguntou: “Por que não faz quadrinhos? Você sabe escrever!” E eu sempre quis ser escritor, que é o que sou realmente.

UHQ: Então, você não teve ninguém que o influenciasse nos quadrinhos.

El Tony Superanual
El Tony Superanual

Zentner: Não. Sou um autodidata, e era um ignorante no assunto, quanto aos critérios técnicos para escrever um roteiro. Não aprendi nada disso. Uma das poucas coisas que tinha lido era um roteiro de Alack Sinner (nota do UHQ: personagem escrito por Carlos Sampayo e desenhado por José Muñoz).

Mas, aos poucos, você vai refletindo sobre seu trabalho, e descobrindo que tem nas mãos um meio de narração que, ao mesmo tempo, é uma maneira contar a vida.

Então, para poder trabalhar, você precisa pensar sobre o que está fazendo, para encontrar sua própria voz, para achar sua maneira de fazer.

Mas não tinha de onde tirar influências, porque não lia nada de quadrinhos. Não tive conhecimento para isso. Jamais li (Hugo) Pratt ou um Blueberry, por exemplo. Uma vez, um amigo me presenteou com um Tintim, que eu também nunca tinha visto.

UHQ: Mas depois que começou a produzir, você começou a ler quadrinhos?

Edição francesa de Nicolas Eymerich - Inquisiteur
Edição francesa de Nicolas Eymerich – Inquisiteur

Zentner: Não. Eu nunca na minha vida comprei um quadrinho. Não tenho uma biblioteca de quadrinhos, nada.

Naturalmente que li alguma coisa de Muñoz e Sampayo, mas antes de trabalhar na área. E só o fiz, porque Carlos era meu amigo e me mostrou.

Assim, eu lia apenas quando ia à casa de amigos, que me passavam uma ou outra revista ou álbum. Um deles era (Rubén) Pellejero.

UHQ: Então, foi o Sampayo que o motivou a escrever quadrinhos?

Zentner: Sim. Com certeza. Ele me disso “isso se faz assim, e você pode fazê-lo”. Carlos me ajudou a ser uma pessoa que eu não tinha muita gana de me tornar.

UHQ: Quando foi isso?

Zentner: Em 1981, mais ou menos. Não lembro ao certo.

UHQ: Você tem trabalhos publicados em quantos paises?

Página da edição francesa de Nicolas Eymerich - Inquisiteur
Página da edição francesa de Nicolas Eymerich – Inquisiteur

Zentner: Não sei ao certo, mas são muitos. No Japão, não tenho. Mas há quadrinhos meus em Vários lugares.

Já faz 22 anos que vivo somente disso. Nesse sentido, tenho muita sorte, porque foi um descobrimento. Afinal, você tem um contato com uma pessoa, e pronto: descobre uma coisa que será muito importante na sua vida, que te permite fazer uma carreira, conhecer desenhistas e contar muitas histórias para inúmeras pessoas.

UHQ: E, curiosamente, você não chegou a trabalhar com Sampayo…

Zentner: Não cheguei a trabalhar com ele. Foi apenas uma história de oito, dez páginas, que fizemos juntos. Carlos escreveu os diálogos, e eu a descrição para o desenhista.

Depois havia outra para fazer, e ele disse: “Agora faça você! Não precisa mais de minhas correções”.

UHQ: O Rubén Pellejero foi o artista com quem você mais trabalhou?

Les Memoires de Mr. Griffaton
Les Memoires de Mr. Griffaton, edição francesa, com Rubén Pellejero

Zentner: Sim. Quando decidi trabalhar nisso, fui à Norma (nota do UHQ: uma grande editora espanhola) para falar com Juan Navarro, que era diretor editorial da revista Cimoc. E também estava para estrear a Cairo, nessa época.

Então, eu disse que era roteirista, assim, com muita cara-de-pau. E ele respondeu que tinha um desenhista precisando de um; e me apresentou a Pellejero.

Aí, vi alguma coisa do que ele tinha feito, umas duas histórias curtas, de cinco ou seis páginas, pensamos o que fazer e decidimos criar um personagem.

Então, veio uma série que se chamava Las Memorias de Monsieur Griffaton. Esse foi meu primeiro trabalho, cujo protagonista era um velho que escrevia suas memórias, depois da Primeira Guerra Mundial.

Quando jovem, ele havia trabalhado como inspetor internacional de hotéis, viajando pelo mundo, analisando os estabelecimentos e fazendo relatórios sobre a qualidade dos grandes hotéis daquela época.

Página de Les Memoires de Mr. Griffaton
Página de Les Memoires de Mr. Griffaton

Então, ele narrava os momentos que havia vivido, tudo muito influenciado pelos livros que eu tinha lido. São histórias curtas, de até 10 páginas, que nós publicávamos mensalmente na revista. Na época, isso era normal.

As tramas eram sempre relacionadas com um livro. Por exemplo, há uma ligada a Hotel de Savoy, de (Joseph) Rott (Nota do UHQ: escritor austríaco). Em outra, a relação era com Morte em Veneza (Nota do UHQ: do alemão Thomas Mann), na qual eu retomava o personagem menino desta obra, e contava uma história dele na cidade 15 anos depois.

UHQ: E o que você acha de Pellejero como desenhista?

Zentner: Ah, o que eu vou dizer? Eu aprendi quase tudo junto com ele. Nós nos criamos juntos nesse mercado.

UHQ: Como funcionava a parceria de vocês?

FM - En Frecuencia Modulada
FM – En Frecuencia Modulada, outro trabalho feito com o parceiro Rubén Pellejero

Zentner: É sempre igual. No principio, foi muito pragmática. Bem, eu sempre pergunto aos artistas, o que eles querem desenhar, que documentação têm. Aí, não peço nada que não seja acessível.

Então, eu mais ou menos crio uma história. Em seguida, escrevo o roteiro e o entrego ao artista.

Em geral, não há muito mais discussões. Pelo menos, com Pellejero. Agora, por exemplo, temos que criar uma nova série. Por isso, estamos conversando mais, mas é porque fizemos diversos trabalhos juntos.

Após Las Memorias de Monsieur Griffaton, fizemos outra série que se chamava FM – En Frecuencia Modulada, que eram histórias curtas, mais contemporâneas, passadas em cidades como Barcelona. Tinha esse nome, porque a rádio intervinha de alguma maneira.

Las Aventuras de Dieter Lumpen - Un Puñal en Estambul
Las Aventuras de Dieter Lumpen – Un Puñal en Estambul

Em seguida, Pellejero queria fazer um personagem, e criamos Dieter Lumpen, cujas histórias passavam numa época que ele gostava bastante, que tinha muita documentação, que era depois da Segunda Guerra Mundial.

Então, fui buscar como criá-lo. Era meu primeiro personagem depois de Griffaton. Foi aí que me dei conta que um personagem se caracteriza pelo tipo de trabalho que ele realiza. Griffaton, por exemplo, tinha no trabalho a razão para ir de um hotel a outro.

Pellejero se aborrece em desenhar sempre a mesma coisa. Ele gosta de histórias em que haja mudanças, que se vá de um lugar a outro. Sabendo disso, eu necessariamente precisava fazer um viajante. Então, como havia muitos jornalistas, fotógrafos, navegantes, detetives etc, resolvi que faria alguém que não tivesse trabalho.

Las Aventuras de Dieter Lumpen - Caribe
Las Aventuras de Dieter Lumpen – Caribe

E foi um desafio. Afinal, como contar as histórias de alguém que não quer viver aventuras? Por isso ele se chama Lumpen, que na Argentina é uma palavra alemã que significa um tipo de marginal… algo como uma classe trabalhadora, que não tem consciência de classe, que não tem uma moral muito precisa.

Ele pode até roubar, mas tem alguns valores de fundo, como amizade, fidelidade e amor. Politicamente é muito incorreto. Essa é a graça dele, nunca se sabe como ele vai se sair.

E as aventuras que vive não são muito espetaculares. Às vezes, o problema de Dieter Lumpen é que ele tem êxito em algumas coisas, mas não sabe o que fazer com isso.

UHQ: Em 1997, você ganhou Angoulême. Qual a importância para alguém que não era roteirista de quadrinhos ganhar o prêmio mais importante do mundo, com menos de 20 anos de carreira?

Zentner: Veja, ganhei com o álbum El Silencio de Malka. Eu e Pellejero já havíamos feito vários livros, e todos haviam sido indicados para Angoulême. Sempre chegávamos à final. Evidentemente, muito pelos desenhos, que influenciam muito os outros artistas.

El Silencio de Malka
El Silencio de Malka

Pellejero não é um desenhista que tenha um público extraordinário, como alguns outros, mas realiza um trabalho de reflexão sobre a narração gráfica com muita elegância.

O Silencio de Malka era um livro de 86 páginas, no qual havia vários elementos que os franceses gostam muito. É uma história autobiográfica, sobre a chegada da minha família à Argentina, com uma trama fantástica por detrás. Além disso, a cor, quando se via, logo chamava a atenção, pela beleza.

Então, havia muitos elementos para que o livro tivesse uma boa recepção. O álbum recebeu muitas gratificações. Não é um grande campeão de vendas, mas sempre está saindo. O importante é que está em todas as bibliotecas e escolas, porque além do prêmio de Angoulême, na época dos 100 anos dos quadrinhos, a Biblioteca Nacional de Paris fez uma grande exposição, chamada Os Mestres do Quadrinho Europeu, e Pellejero estava lá com este trabalho, ao lado de Mattotti, Tardi e outros grandes.

Universo HQ entrevista Jorge Zenter

UHQ: Fale um pouco sobre Blues.

Blues
Blues

Zentner: Como de costume, este trabalho surgiu de uma proposta gráfica de Pellejero. Nessa época, ele queria fazer uma coisa mais rápida e continuar sempre mudando. Assim, cada história é curta, e dominada por uma cor diferente.

Por exemplo, se Pellejero me dizia que queria desenhar uma mulher ao lado de um aquário, com uma luz sobre ela, eu criava a história para ele a partir daí.

UHQ: E sobre Âromm?

Zentner: Na Europa, acaba de sair o segundo álbum de Âromm, também com Pellejero. É uma história na qual quisemos fazer algo como uma ópera, que ocorre num ambiente de bárbaros, numa hipotética Ásia Central, em 500 a.C; uma coisa mítica, mágica, muito shakesperiana, digamos. É muito recitativa e graficamente espetacular.

Âromm
Âromm

UHQ: Para fazer, por exemplo, uma obra histórica, faz muita pesquisa?

Zentner: Em geral, não. Cada vez pesquiso menos, mas tenho muito background de leitura. Gosto muito de ler mitologias clássicas, lendas. Leio, digamos, o que está no fundo da história dos povos. Isso é do meu interesse.

Naturalmente, se preciso fazer uma história que se passa em determinada época, tenho que saber alguma coisa sobre ela.

UHQ: Em 2000, você fez Replay…

Zentner: Sim, Replay é uma trilogia desenhada por David Sala, um jovem francês que começou a trabalhar comigo aos 24, 25 anos. É dono de um grande talento. Realmente, gosto bastante de trabalhar com ele.

Replay
Replay, feita em parceria com David Sala

Depois que perguntei, como sempre faço, sobre o que gostaria desenhar, ele disse queria fazer uma história que se passasse nos Estados Unidos, nos tempos contemporâneos, com um personagem que viaja e vive em motéis.

Comecei a pensar sobre o que podia fazer, e saiu Replay, que é a história de dois amigos, que saiu pela Casterman.

Agora, estamos adaptando de alguns romances de Valerio Evangelisti, um escritor italiano de best-sellers. Tem um personagem que se chama Nicolas Eymerich, o inquisidor.

Da primeira novela, estamos fazendo dois álbuns. O primeiro já saiu, o segundo está em produção.

Caboto
Caboto, roteir de Zentner e arte de Mattotti

UHQ: Você já havia trabalhado com Lorenzo Mattotti em Caboto. Como foi o reencontro, anos depois, para fazer Le Bruit du Givre?

Zentner: Na Espanha, esse álbum chama-se El Rumor de la Escarcha (nota do UHQ: algo como O Rumor do Orvalho, em português).

O trabalho surgiu quando o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung pediu para Mattotti fazer, durante 24 domingos, um suplemento colorido de 24 páginas grandes, do tamanho da Folha de S.Paulo.

Le Bruit du Givre
Le Bruit du Givre, outro projeto com
Lorenzo Mattotti

Como naquele momento ele não tinha com quem fazê-la, lembrou-se de mim, e perguntou se havia interesse. Eu aceitei. Não havia tema, nada. Tínhamos que criar a história.

Então, durante um semestre passei uma semana por mês em Paris. Eu ficava no estúdio de Mattotti, e começamos a criar a história. Assim, à medida que íamos fazendo, ela ia sendo publicada a cada domingo no jornal.

Depois, a compilação do trabalho saiu numa edição na Alemanha, Holanda, Itália, Espanha e França.

UHQ: O único trabalho seu lançado no Brasil foi Inimigos Comuns. Você chegou a ver a edição?

Ennemis Communs
Edição francesa de Ennemis Communs, lançada no Brasil pela Editora Abril

Zentner: Não vi. Saiu como livro?

UHQ: Não, como graphic novel, nas bancas.

Zentner: Ah! Não recebi.

UHQ: Você conhece alguma coisa de quadrinho brasileiro?

Zentner: Não, apenas o que o Marcello (Quintanilha) me mostrou. Graças a ele, pude ver trabalhos de vários artistas que publicam por aqui, como Lélis, com quem tenho idéia de fazer algo em conjunto em breve.

Na verdade, o único autor brasileiro que conheço bem é um que vocês aqui não conhecem, o Léo (Nota do UHQ: o carioca Luís Eduardo Oliveira, que trabalha no mercado francês desde 1993).

UHQ: Fale um pouco sobre sua parceria com o também argentino Carlos Nine, em Pampa.

Pampa
Pampa, parceria de Zentner com Carlos Nine

Zentner: Eu já havia feito um outro livro com ele, na mesma coleção em que saiu Caboto (nota do UHQ: trata-se de uma coleção de álbuns feitos na Espanha, em comemoração ao quinto centenário do descobrimento da América). Chamava-se La Adelantada de los Mares del Sur.

Depois disso, no Festival de La Coruna, que é organizado pelo Miguelanxo (Prado), finalmente nos conhecemos pessoalmente e, durante a conversa, surgiu a idéia de fazer algo juntos. Aí buscamos temas, e começamos a produzir.

Para que precisávamos buscar um tema exótico, se ambos tínhamos conhecimento sobre o assunto? Há muitos anos, eu tinha interesse em fazer uma história de gaúchos, e Nine também.

Então, só precisamos conversar sobre quais seriam as características da trama, como podíamos fazê-la e logo saiu o primeiro livro. Estamos produzindo o segundo. Pampa será uma trilogia: Lua de Sangue, Lua de Prata e Lua de Água.

UHQ: Quantos álbuns você faz por ano?

Sept Balles Pour Oxford
Sept Balles Pour Oxford, de Jorge Zentner e Marcello Quintanilha

Zentner: Nesse momento, estou fazendo mais que o normal. Antes, fazia só os de Pellejero e um ou outro, mas geralmente eu podia escrever três ou quatro ao ano.

Em 2003, além dessa cota, Caboto e coisas que foram feitas há algum tempo foram reeditadas. Então, saíram seis ou sete, mas isso não é o normal.

UHQ: Por favor, fale um pouco sobre a série Sept Balles pour Oxford, com o brasileiro Marcello Quintanilha.

Zentner: Eu queria escrever essa série há muitos anos. A princípio, faria com Pellejero, mas ele estava com outros trabalhos. Então, passei a procurar outros desenhistas.

Em dado momento, alguém me mostrou os desenhos de Marcello, que haviam sido levados para a França por François Boucq. Vi que desenhava bem, mas que talvez não tivesse conhecimento da narrativa adotada no mercado francês.

UHQ: Marcello disse que você pré-diagrama as páginas no roteiro…

Página de Sept Balles Pour Oxford
Página de Sept Balles Pour Oxford, de Jorge Zentner e Marcello Quintanilha

Zentner: Sim, faço isso com todos meus desenhistas. Está é minha maneira de escrever. Então, começamos a conversar, a fazer contato por e-mail e surgiu a parceira, que, creio eu, está tendo muito êxito.

A historia do álbum é do gênero policial, mas um pouco diferente, porque o personagem principal, Oxford, é um detetive particular, mas velho, da terceira idade. Ele não quer deixar de trabalhar, apesar de todos na família pedirem para parar.

A agência onde ele trabalhava já o aposentou, mas Oxford quer continuar. Então, ao final do primeiro livro, intitulado A Promessa, ele promete à sua mulher, que está morrendo num hospital, que só trabalhará até que termine o cartucho de balas de sua pistola. E faltam sete.

A partir daí, ele vai fazer de tudo para não gastá-las, para poder seguir trabalhando.

Página de Sept Balles Pour Oxford
Página de Sept Balles Pour Oxford, de Jorge Zentner e Marcello Quintanilha

Mais que um quadrinho em que se contam casos espetaculares, é uma história sobre a vida dele. Nesse sentido, Oxford se parece bastante com Dieter Lumpen. Só que ele tem uma motivação, um trabalho.

Todas as minhas histórias, na verdade, são sobre relações entre personagens. Os conflitos vêm daí, e não de coisas como descobrir quem foi o criminoso, encontrar um tesouro etc. Essas coisas me aborrecem. Para mim, interessam coisas mais humanas.

Oxford, por exemplo, tem duas mulheres, com filhos dos dois lados, duas famílias e está brigado com o filho, esse tipo de coisa.

UHQ: Você ainda tem planos para Dieter Lumpen?

Zentner: Num momento, chegamos a pensar em trazê-lo de volta, mas é muito difícil fazer alguma coisa assim. Creio que Pellejero não tem vontade, nem eu. Então, melhor deixar como está.

Flamenco
Flamenco, de Jorge Zentner e Santos de Veracruz

UHQ: Você já trabalhou com grandes artistas. Há algum em especial que você gostaria que desenhasse seus roteiros?

Zentner: Não. Para mim, é exatamente igual trabalhar com um artista consagrado e com alguém que está fazendo seu primeiro livro.

Publiquei há pouco tempo um livro chamado Flamenco, com um rapaz chamado Santos de Veracruz, que nunca havia feito uma página de quadrinhos, apenas um fanzine em preto-e-branco. Quando vi que ele tinha um talento natural, uma força no traço, falei com ele como falaria com um grande profissional, e lhe propus fazer esse trabalho. Fizemos uma prova, vendemos, e já estamos produzindo o segundo álbum.

Por isso, não tenho nenhum desejo especial, porque, na verdade, não pertenço ao mundo dos quadrinhos. Eu não sou um freak. Para mim, gente é gente. Se alguém fez grandes coisas ou nada, para mim é igual. Eu me relaciono com as pessoas.

Jorge Zentner
Jorge Zentner: “Para mim, gente é gente. Se alguém fez grandes coisas ou nada, para mim é igual. Eu me relaciono com as pessoas”.

Uma pessoa não é melhor que a outra por ter vendido mais livros ou por ser famosa.

UHQ: E se pedissem para você escrever um super-herói?

Zentner: Não tenho idéia. Teria que refletir o que é ser um super-herói, e como poderia fazê-lo. E eu faria, porque é um trabalho. Mas não tenho grandes teorias sobre isso.

UHQ: Seus trabalhos chegaram à Argentina?

Zentner: Na Argentina, só foi distribuída uma pequena edição, no tamanho comic book, chamada As Aventuras de Dieter Lumpen. Saíram dez números com todas as histórias do personagem; e também histórias curtas que fiz com Pellejero.

UHQ: Você tem idéia de quantos álbuns já fez?

Zentner: Não sei. São muitos.

Caboto, edição de 2003
Nova edição de Caboto, publicada pela editora francesa Casterman, em 2003

UHQ: Algum deles pode ser considerado seu trabalho predileto?

Zentner: Por alguma razão, sempre há algum. El Silencio de Malka, por exemplo, é muito interessante. Caboto é um livro espetacular. Pampa também, porque vou falar dos gaúchos. Oxford é muito importante, porque a idéia vem de meu pai, em quem me inspirei. Cada álbum é importante. É um tempo passado ali.

UHQ: Como é o mercado de quadrinhos na Europa? Existe crise lá?

Zentner: Não. Neste momento, pelo contrário. O quadrinho francês em geral está muito em alta. Está crescendo. Passou por uma crise muito séria, mas está numa fase excelente. Se publica até demais lá.

UHQ: Quais seus projetos para os próximos anos?

Zentner: Todos os trabalhos que tenho em andamento são importantes. Ao final do mês de outubro, eu e Mattotti passaremos um mês na Patagônia (nota do UHQ: Zentner já retornou e disse que a viagem foi fantástica, o que é garantia de um belo álbum), e tenho muitas expectativas por este trabalho, porque este não será um livro de quadrinhos, mas sim de viagem. É uma coisa diferente, uma experiência direta. Isso me interessa muito.

Jorge Zentner
Jorge Zentner

E devo seguir naturalmente com as histórias que estou fazendo. Não penso muito no futuro, trato de viver o presente.

UHQ: Por favor, mande uma mensagem para os leitores brasileiros.

Zentner: O que vou dizer? Que leiam!

UHQ: Muito obrigado pela entrevista, Jorge.

Zentner: Eu que agradeço!

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