Resenha: Robocop

Por Samir Naliato
Data: 17 fevereiro, 2014

Famoso e cultuado filme da década de 1980, que saiu das telas de cinema e ganhou série de televisão, desenho animado e quadrinhos, Robocop retorna à sua mídia original com um reboot comandado pelo diretor brasileiro José Padilha (Tropa de Elite 1 e 2). Com atraso, pois o longa-metragem estava programado para agosto de 2013, a polêmica e desacreditada nova versão do policial do futuro finalmente faz sua estreia.

Robocop conta a história de Alex Murphy, um policial da decadente e violenta cidade de Detroit que, ao ser ferido fatalmente em um atentado, é usado como cobaia em um novo protótipo da corporação OmniCorp, especializada em tecnologia robótica bélica. O objetivo é um só: driblar a Lei Dreyfuss e conseguir permissão para seus produtos – amplamente utilizados em intervenções militares no exterior – serem também aproveitados no combate ao crime dentro dos Estados Unidos e, assim, abocanhar um mercado que elevará ainda mais os lucros.

Por ser uma franquia de sucesso criada originalmente para as telonas, não será fácil evitar as comparações entre as duas versões. Para conseguir uma classificação etária mais branda (PG-13, a mesma da maioria dos filmes de grande orçamentos de Hollywood) e potencializar a bilheteria para até mesmo produzir continuações, não há a violência gráfica que marcou o original.

Entretanto, os realizadores não se omitem em apresentar as consequências da transformação de Murphy, numa cena que chega a ser até mais perturbadora do que a similar de 1987, quando ele retira o capacete pela primeira vez.

Fora esse aspecto da violência, tematicamente a nova história é bastante similar. Faz crítica explícita ao modelo de negócios de grandes corporações que buscam lucro a qualquer custo, mesmo tendo que usar e descartar pessoas quando assim julgam necessário, e o conflito interno do protagonista ao confrontar seus dois lados: o homem versus a máquina.

Robocop Robocop

Além disso, procura expandir e enriquecer o universo do personagem ao incorporar temas atuais relevantes, como o uso de drones em combates armados, a presença militar norte-americana em países estrangeiros como vigilância e controle da população, diminuição das liberdades individuais e como a mistura de imprensa sensacionalista com interesses pessoais e financeiros cria uma poderosa força para manipular a opinião pública.

Mas a maneira como o personagem título é desenvolvido neste reboot também reflete valores distintos aos de 30 anos atrás.

Naquela época, as grandes corporações e suas marcas eram o que havia de mais importante, inclusive para o público. Dessa maneira, Robocop era um produto por si só, bastava ser eficiente para que trouxesse o resultado esperado. Agora, mais do que isso, é preciso um rosto por trás dele, algo para humanizá-lo e criar empatia com o público.

É aí que entra a figura de Alex Murphy como parte integrante deste produto que serve não apenas para enfrentar o crime, mas também como máquina publicitária.

Durante toda a história, a noção de usar máquinas automatizadas em situações extremas de vida e morte é confrontada. Afinal, um robô – ou drone – pode distinguir o certo do errado? Ele consegue analisar uma situação complexa com todas as nuances que ela possui? O que sente ao tirar uma vida? Por outro lado, a máquina não se cansa, não tem medo e não pode ser subornada. Esses pontos, pró e contra, permeiam (e se contrapõem) toda a película.

E é isso que torna Robocop especial. Ele tem o melhor e o pior dos dois lados. Assim, não é tão eficiente quanto os demais produtos, 100% robóticos. Mas se ele tiver um desempenho inferior, como convencer a população de que esta é a resposta certa no combate ao crime? A resposta é reprimir cada vez mais o lado humano, e deixar a programação assumir o controle.

Outras novidades inseridas nesta versão são, obviamente, tecnologias de ponta. Por exemplo, enquanto no filme original o Robocop se conectava ao sistema do departamento de polícia via hardware (por meio da “garra” que saía de sua mão), agora ele tem um sistema wi-fi que permite analisar e buscar suspeitos, inclusive com acesso a câmeras de segurança.

Robocop Robocop

Há mudanças significativas também na relação de Murphy com os familiares depois da transformação. Enquanto no original eles somem, na nova versão estão presentes até o final. A história dedica ainda um grande espaço ao cientista responsável pela criação do Robocop, e a relação entre os dois.

Um dos pontos mais polêmicos, a roupa preta, encontra sustentação dentro da história. Apesar de o filme trilhar um caminho diferente do original, ele acaba retomando a mitologia clássica ao seu desfecho, convergindo em elementos visuais e narrativos, como a OCP. De maneira geral, respeita mais o longa de 1987 do que se imaginava a princípio.

O filme também não peca em efeitos especiais e cenas de ação, tornando-se atrativo para quem procura uma diversão mais superficial, e apresenta atuações sólidas do elenco.

Sobre José Padilha, os que conhecem o trabalho do diretor encontrarão temas que ele gosta de abordar em sua filmografia. Crítica política e social, mídia manipuladora e polícia corrupta estão presentes, ainda que não de maneira tão incisiva quanto em Tropa de Elite ou no documentário Ônibus 174, pois Robocop é um projeto de natureza diferente. Mesmo assim, estão lá, e é sempre bom quando uma ficção científica serve de analogia para o mundo real contemporâneo a ela.

No mais, há referências ao longa-metragem de 1987, como o mesmo tema musical e a célebre frase “eu compraria isso por um dólar”, que agora é inserida em um contexto diferente. Ainda faz referências a O Mágico de Oz, especificamente ao Homem de Lata e seu desejo de conseguir um coração, Transformers e Homem de Ferro, com suas diferentes versões para gerar linhas de brinquedos.

No final, ao contrário de uma versão pasteurizada, como se temia, Robocop é uma reinterpretação válida do personagem e adiciona elementos interessantes ao seu universo, dando um vigor atual e força para a franquia ter novos capítulos.

De se estranhar apenas o fato de a Sony Pictures ter decidido lançar o filme durante o Dia dos Namorados (Dia de São Valentim) dos Estados Unidos, pois Robocop não se encaixa no tipo de programa que um casal procura para comemorar a data. Para uma produção cujo orçamento é de US$ 100 milhões, fora os gastos de marketing, parece uma aposta arriscada.

Robocop
Duração: 108 minutos
Estúdios: MGM e Columbia Pictures
Direção: José Padilha
Roteiro: Joshua Zetumer
Elenco: Joel Kinnaman, Abbie Cornish, Gary Oldman, Michael Keaton, Samuel L. Jackson, Jackie Earle Haley, Michael K. Williams, Jennifer Ehle, Marianne Jean-Baptiste e Jay Baruchel.

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