18 de abril: 70 anos de Superman e da DC Comics

Por Eduardo Nasi
Data: 18 abril, 2008

The Superman
Hoje, 18 de abril de 2008, Superman, criação de Jerry Siegel e Joe Shuster,
completa 70 anos.

Antes de tudo, é preciso que se esclareça a fonte da data, até porque
ela causa estranhamento. Afinal, as comemorações oficiais da DC Comics,
editora do Homem de Aço, são tradicionalmente programadas para o mês de
junho, que consta da capa de Action Comics # 1, revista em que
saiu a primeira aventura do herói.

A discrepância vem da “data de capa” (“cover date“, em inglês),
que difere da data real de publicação. O recurso é utilizado até hoje
nos quadrinhos norte-americanos e evita percepção de obsolescência da
publicação, pois impede que se encontre revistas com a data do mês anterior
e, portanto, “velhas”.


Por conta disso, a DC passou a celebrar seu aniversário em junho
de 1938, data de capa de Action Comics # 1. Mas o verdadeiro lançamento
da revista ocorreu em 18 de abril de 1938. A informação consta do sumário
do processo sobre
os direitos de Superman
movido por Joanne Siegel e Laura Siegel Larson
(viúva e filha do co-criador Jerry Siegel) contra a DC, a Time
Warner Inc.
e a Warner Bros Entertainment.

Na prática, a data correta do aniversário de Superman é um detalhe. A
exatidão da informação pode até fazer uma ou outra diferença para a sentença
da Justiça ou para um estudioso detalhista. Mas para o leitor comum é,
no mínimo, uma curiosidade e, no máximo, um registro de um fato fulcral
da história das HQs – até porque as edições comemorativas começam a sair
mais adiante.

Contudo, o aniversário verdadeiro revela um sintoma dos dias atribulados
nos quais o Homem de Aço vira septuagenário. A data veio à tona justamente
por conta de uma série de processos em que as famílias dos co-criadores
tentam retomar os direitos sobre o personagem.

Adventure Comics
Nos próximos anos, os julgamentos podem complicar bastante até mesmo o
futuro da DC Comics, cujo universo ficcional, hoje também septuagenário,
é uma obra monumental que tem em Superman o seu maior alicerce.

É bem verdade que, assim como o poder de vôo e a kryptonita, a criação
de um elaborado mundo imaginário não estava previsto nos planos originais
de Siegel e Shuster. Mas até mesmo o inabalável senso de justiça do Homem
de Aço não aparece nas primeiras
histórias
(recentemente republicadas no Brasil), porém acabou incorporado
ao mito do herói.

Por enquanto, as conseqüências de longo prazo dos processos são virtualmente
imprevisíveis, mas uma série de decisões favoráveis aos herdeiros de Siegel
e Shuster certamente desestruturaria o Universo DC tal como ele
é conhecido hoje.

No entanto, há outro ponto central que Superman terá que enfrentar nos
próximos anos: a revolução tecnológica. Nos últimos tempos, boa parte
da indústria do entretenimento foi abalada pelo avanço da digitalização.
As gravadoras foram as primeiras vítimas da mudança por conta do MP3 e
da pirataria de CDs.

Superman por Alex Ross
O mercado editorial como um todo, porém, ficou à margem das mudanças.
É fácil de entender o porquê: o livro de papel (e também a revista) tem
vantagens que os computadores têm dificuldades de igualar. Perto das máquinas
eletrônicas, são baratos. Além disso, na era da mobilidade, revelam-se
pioneiros: são portáteis há séculos. A experiência proporcionada pelo
papel é ímpar: ele pode ser colorido, moldado, tocado, cheirado. No fim
do processo de edição, cada livro é diferente do outro, e isso faz parte
do prazer da leitura. A comparação com a tela de computador é cruel. Só
que isso está mudando.

Depois de inúmeras experiências fracassadas, começaram a surgir no ano
passado sinais de livros eletrônicos, ou e-books, capazes de vingar.
Eles incluem uma tela leve e maleável, com superfície opaca, como o papel.
Com vantagens, entre elas: letras que aumentam de tamanho, dicionário
embutido e capacidade de reproduzir multimídia.

Da gigante Amazon.com chegou, sob a desconfiança dos céticos, o
Kindle. É um e-book que recebe não só livros, mas também
jornais, revistas e e-mails em tempo real, graças a uma conexão constante
(e gratuita) com a rede de dados de uma empresa de telefonia celular.

Liga da Justiça por George Perez
A empresa não divulga números, mas, apesar dos US$ 399,00, o produto está
esgotado há meses, sendo vendido apenas para quem se dispõe a entrar na
fila de espera. Até o quadrinhista e escritor Neil Gaiman deu seu aval.
Jodi Picoult, romancista que escreve Mulher-Maravilha, está na
lista dos e-best-sellers.

Por enquanto, o Kindle ainda tem tela em preto-e-branco, enquanto
outros e-books menos afamados têm problemas ao reproduzir cores.
Para os multicoloridos quadrinhos de super-heróis, parece um limite, mas
é só questão de tempo. Afinal, toda uma geração de leitores de quadrinhos
está sendo forjada via scans, ou seja, as reproduções pirateadas
facilmente encontráveis na internet até mesmo em português, graças a equipes
de tradutores e editores ilegais.

Não há registro do impacto dos scans na indústria dos quadrinhos.
Mas é um indício de que a leitura de arquivos digitais, mesmo na tela
de um computador comum, é uma barreira que muitos leitores já ultrapassaram.

Superman por Renato Guedes
Desde 18 de abril de 1938, o modelo de publicação dos super-heróis norte-americanos
é baseado em séries mensais de vinte e poucas páginas. A obsolescência
dessas histórias é incrivelmente veloz para uma obra de ficção. Atualizá-las
num formato digital pode ser mais rápido e barato do que derrubar árvores,
imprimir e distribuir os títulos para um país inteiro.

Embora seja difícil prever o que vai acontecer, é altamente improvável
que a chegada maciça dos e-books não afetem todo o mercado de super-heróis.
Talvez – e isso é uma especulação -, apenas os títulos continuados sejam
transportados para o formato eletrônico. Só isso seria suficiente para
alterar uma lógica de publicação que surgiu há exatas sete décadas, levando
toda a indústria de comics a se transformar.

No Brasil, os 70 anos da DC estão sendo comemorados em certo clima
de fartura. O número de títulos publicados é bastante significativo e,
com a divisão entre Panini e Pixel, boa parte do catálogo
mensal da editora está coberto.

Além disso, a republicação de clássicos se tornou, enfim, uma prática
constante. Por outro lado, as vendagens não se comparam às da época dos
50 anos da editora, nos anos 80. Nem aqui e nem nos Estados Unidos. A
perda de força dos dois mercados reforça a necessidade de mudança. A própria
DC tem uma experiência interessante: o site Zuda, dedicado
a quadrinhos eletrônicos.

Superman - The Movie
Mesmo com processo e com mudanças radicais no mercado de quadrinhos, uma
coisa é certa: a idéia de um Superman não vai desaparecer. Em todo o século
20, é o personagem de ficção que mais se aproxima dos grandes mitos da
humanidade. Sua história foi contada em diversos meios, por um exército
de criadores.

Começa pelos quadrinhos clássicos de Siegel e Shuster, passa por um popular
programa de rádio, por uma série de TV antológica em preto-e-branco, por
longas-metragens (nem sempre) fabulosos, pelo traço pop de Curt Swan,
por videogames, brinquedos de brinde em lanchonete, musical na Broadway
e simplesmente não pára.

Superman Returns
Mais que isso: teve clones, do Capitão Marvel ao Supremo de Alan Moore,
do marciano J’Onn J’Onzz ao Super Mouse (no original, Mighty Mouse). Setenta
anos depois, a influência do Homem de Aço está incrustada na cultura global,
e é irreversível.

Provavelmente, o futuro de Superman, e da DC como um todo, só foi
tão incerto quando o psiquiatra Fredric Wertham publicou, em 1954, o famigerado
livro Seduction of the innocent (Sedução dos Inocentes,
em português). O libelo contra os quadrinhos jogou o peso do macarthismo
nas costas da Nona Arte norte-americana e por pouco não deu cabo da indústria
e dos super-heróis. Mas, naquele tempo, quando ainda era uma peça bruta,
a força mitológica de Superman já era inabalável.

Não importa o que aconteça, não importa o quanto as coisas mudem: improvável
mesmo é que não se celebrem os 140 anos de Superman. Seja ele de quem
for, seja no formato que for.

Eduardo Nasi, fã do Superman, já está investindo
em tecnologia para garantir que esteja em plena forma no aniversário de
140 anos do Homem de Aço.
 

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