A batalha da distribuição de quadrinhos nos Estados Unidos

Por Marcus Ramone
Data: 19 outubro, 2015
Por Marcus Ramone e Sérgio Codespoti

 

Entenda como funciona o mercado direto nos EUA e seus efeitos no Brasil.

 

Quando surgiu em meados dos anos 1970 e deu início a uma explosão de comic shops nos Estados Unidos, o mercado direto de quadrinhos naquele país tirou definitivamente os gibis das bancas de revistas.

A Marvel Comics entrou de vez no mercado direto por volta de 1982. Dois de seus títulos, Micronauts e Moon Knight, estavam com vendas baixas, com números abaixo da linha do cancelamento, e eram ótimos candidatos para essa experiência.

Naquela época, uma revista que vendia menos de 25 mil exemplares corria sérios riscos de ser cancelada e, para evitar que isso ocorresse com aqueles títulos, a Marvel trocou o papel jornal dessas revistas por outro mais branco (Mando), melhorou a qualidade de impressão e passou a distribuí-los apenas nas comic shops.

Essa mudança não tirou os Micronautas e o Cavaleiro da Lua apenas das bancas de jornal dos EUA – além das drogarias e outros pontos de venda tradicionais -, mas das brasileiras também.

Como a importação desse material por aqui era feita de um distribuidor nos Estados Unidos, que recebia as revistas que chegavam para o mercado tradicional, os títulos do mercado direto simplesmente pararam de chegar ao Brasil, exceto nas importadoras especializadas – como a Devir, cujo material vinha das empresas que distribuíam para as comic shops.

Na década de 1990, a bolha inflacionária e especulatória do mercado de quadrinhos dos Estados Unidos explodiu, levando com ela diversas editoras e distribuidoras. No rearranjar das cadeiras, a Diamond Comics ficou efetivamente com o monopólio da distribuição de quadrinhos.

Diamond Comic Distributors, Inc.

Descontentamento

Não raro, há publicações, principalmente de editoras pequenas, que são recusadas pela Diamond por motivos pouco ou nada convincentes e sofrem agruras para conseguir, quando muito, chegar minguadas às mãos dos leitores, amargando prejuízos com encalhe.

O mercado direto de quadrinhos nos EUA é, atualmente, uma espécie de simbiose entre lojas de quadrinhos e editoras, na qual Marvel e DC Comics dão as cartas. Tanto que, em 2006, as maxisséries Guerra Civil e 52 foram a salvação das vendas nas comic shops.

Mesmo assim, muitas gibiterias fecharam as portas nesse período. A respeito disso, o roteirista Matt Fraction (Punisher: War Journal) concedeu uma contundente entrevista em vídeo ao jornal GoUpstate.

Apesar de produzir HQs autorais, Fraction faz trabalhos para a Marvel, mas não poupou a “Casa das Ideias” e outras editoras em suas críticas. “O mercado direto é um sistema fechado e não é feito para acomodar os leitores novos”, afirmou o quadrinhista.

Para Fraction, as comic shops, bem como a Diamond, precisam perceber que os quadrinhos de super-heróis não são os únicos nem os mais populares dentre os títulos publicados nos Estados Unidos e no resto do mundo. “Veja que na (loja de departamentos) Barnes & Noble há corredores e mais corredores de estantes com mangás e títulos da editora Top Shelf.”

Comic Shop

Enquanto isso, a MacGuffin, uma das maiores (em espaço físico e número de produtos ofertados) comics shops dos Estados Unidos, encerrou suas atividades há poucos anos. Coincidência ou não, cerca de 90% do mix da loja, cuja especialidade eram graphic novels – incluindo títulos de linha encadernados -, era composto por quadrinhos de super-heróis.

Mesmo os mangás, que já não despertam dúvidas quanto ao seu sucesso e importância no mercado de quadrinhos norte-americanos, ainda não têm nas prateleiras de comics shops o mesmo espaço que os gibis da Marvel e da DC.

“A festa já começou, a revolução já está aqui, mas nós ainda estamos usando nossas capas e cuecas”, continuou Fraction. “Autores e editoras de gibis precisam olhar para fora do mainstream e entender como a indústria pode sobreviver melhor”.

A opinião de Matt Fraction está longe de ser isolada. Em tempos de internet, cada vez mais as ideias contrárias ao mercado direto começaram a ser disseminadas por fãs de quadrinhos nos fóruns e listas de discussões norte-americanos.

Outros artistas mais famosos e respeitados que Fraction estão na fileira dos descontentes. Em 2001, Frank Miller (Batman – Cavaleiro das Trevas) palestrou sobre o assunto na abertura do evento de entrega das premiações do Harvey Awards e saiu-se com esta: “O mercado direto é tão saudável e cordial quanto uma baleia encalhada. Assim, não há procura por novos leitores”.

Naquele mesmo ano, em uma entrevista concedida ao Universo HQ, Mark Waid (Reino do Amanhã) afirmou ter esperanças de que os quadrinhos sejam mais uma vez distribuídos em massa, ou seja, nas bancas de revistas tão comuns no Brasil. “Crianças amam quadrinhos. Elas apenas não sabem onde encontrá-los nos Estados Unidos. Se elas pudessem encontrar os gibis, iriam comprar e todos ficaríamos melhores”.

Marvel

Mas o problema da distribuição de quadrinhos nos Estados Unidos está longe de ser resolvido. Aqueles que advogam o retorno das vendas de revistas mensais nos pontos de vendas tradicionais, como bancas de jornal e drogarias, esquecem – ou desconhecem – as dificuldades logísticas.

Imagine que para voltar com a distribuição tradicional, uma das grandes editoras precisaria de uma empresa de transporte que pegasse parte de suas revistas – a parcela destinada ao mercado tradicional – em uma de suas gráficas (algumas delas situadas no Canadá) e entregar a outra distribuidora (uma nova parceira) que já atuasse nas drogarias e bancas de jornal de todo o país.

Esse trabalho é feito normalmente com caminhões e está sujeito aos problemas do trânsito e do clima (principalmente em regiões sujeitas a nevascas, tornados e enchentes).

Além disso, Diamond também teria que receber – e distribuir para as comic shops – a sua parcela das revistas impressas.

Os pontos de vendas tradicionais teriam que achar um novo espaço para um grande volume de títulos mensais – e isso também poderia incluir um investimento em expositores por parte das editoras -, com mais de 100 títulos apenas das duas principais publicadoras. Todo esse esforço para um produto cujo preço de capa está na casa dos três ou quatro dólares, dependendo da edição.

Levando-se em conta o número de parceiros com quem a editora teria que dividir seus lucros, ou o valor final que fica na mão do vendedor na banca de jornal, é fácil de entender por que uma solução prática e rentável para esse problema ainda não foi encontrada.

Domínio de território

Para uma editora vender uma revista com distribuição da Diamond, ela precisa garantir a periodicidade. E é necessário enviar dados sobre o título (autores, sinopse e imagem de capa) seis meses antes da publicação do material, para que essas informações possam entrar no Previews, o catálogo mensal de quadrinhos da distribuidora.

As duas maiores editoras do mercado, Marvel e DC, ocupam o maior e melhor espaço desse catálogo e as publicadoras menores – e as independentes – acabam ficando sufocadas e escondidas nessa publicação.

O Previews é uma espécie de “lista telefônica” de quadrinhos destinada ao mercado direto. Ele é usado pelos lojistas das comic shops para fazer a sua compra com a Diamond. Quando são revelados os números de vendas mensais do mercado norte-americano, na verdade estão se referindo às unidades vendidas para os lojistas e não para o público.

Previews

Isso cria distorções na análise das vendas. Afinal, a editora pode ter vendido toda a tiragem de uma HQ para o lojista e não sabe se o público comprou as revistas ou se grande parte do material ficou encalhado nas prateleiras.

Com a explosão das adaptações de quadrinhos para o cinema e para a TV, não apenas de HQs da Marvel ou da DC, mas de obras independentes – como The Diary of a Teenage Girl, iZombie, Hellboy, Sin City, The Walking Dead, R.I.P.D., Art School Confidential 2 Guns -, houve uma grande migração de autores que saíram das grandes para publicar suas HQs na Image Comics, Dark Horse, IDW, Avatar, Oni Press e outras.

É nesse mercado que os independentes estão ganhando espaço em relação às duas grandes. A Image tem conseguido colocar vários de seus títulos consistentemente na lista das graphic novels mais vendidas, concorrendo diretamente com X-Men, Vingadores, Batman e outros super-heróis.

Nas prateleiras das livrarias, a variedade de autores e de temas – aventura, horror, fantasia, policial, ficção-científica, biografia etc. – oferecida pelos independentes é mais fácil de ser percebida pelos leitores do que pelas comic shops.

Vale registrar que, juntas, Marvel e DC representam entre 55% e 65% do mercado de comics – as revistas mensais-, que têm publicados aproximadamente de 60 a 70 títulos por mês por essas duas editoras, totalizando um mínimo de 120 a 130 revistas – se cada uma dessas aventuras tiver um mínimo de 22 páginas de HQs, são cerca de 2640 mensalmente, o que também complica para uma editora brasileira acompanhar.

Foi no meio dessa pilha que as independentes precisaram encontrar seu espaço não apenas no bolso, mas no olho do leitor. Essa mudança resultou numa pressão ainda maior sobre a Diamond, para que o material independente ganhasse mais destaque e fosse melhor exibido dentro do Previews, uma vez que pode ser uma vitrine para os produtores de cinema e TV.

DC Comics

Qualquer contrato de adaptação de quadrinhos para outras mídias, mesmo que no final do processo o material não passe do estágio inicial de desenvolvimento, significa que os autores da obra vão ganhar uma quantia significativa – maior que o pagamento por página ou os royalties da venda de suas HQs.

O valor auferido pelos autores com a adaptação de suas obras varia muito, mas no geral é um aumento considerável na renda de muita gente que faz quadrinhos, principalmente se os direitos pertencem aos artistas, como no caso do material publicado pela Image.

Por isso, a migração de autores das grandes para as pequenas editoras teve efeito no mercado. Em poucos anos, editoras como Image, IDW e Dark Horse tornaram-se líderes nas premiações e são consideradas hoje dentre as melhores publicadoras pela variedade e qualidade de seus títulos.

Enquanto isso, Marvel e DC continuam se esforçando para achar novos talentos e cultivar os artistas que ainda têm interesse em trabalhar com personagens que não lhes pertencem.

Os grandes eventos e crossovers e as milhares de capas alternativas – inclusive as específicas para determinada comic shop – são ferramentas importantes para as grandes editoras garantirem o dinheiro e o interesse do lojista, que é forçado a apostar com muita antecedência nessas estratégias e fica com o capital empatado, sem saber se terá retorno direto com os leitores.

Dark Horse

Alternativas

Outra frente de distribuição que se alargou nos últimos anos é a digital, simultânea com a edição em papel para muitas editoras. A plataforma Comixology, uma das líderes do mercado, é um exemplo de mais uma alternativa para os autores independentes e para os leitores, embora seja um problema para as comic shops, que enfrentam mais uma forma de competição.

O mercado de quadrinhos digital atingiu a marca de 100 milhões de dólares em 2014, um crescimento de 11% em relação a 2013. Essa marca é significativa, considerando que a venda de e-books no mesmo período cresceu apenas 3,8%, nos Estados Unidos. Novamente, uma complicação para os leitores brasileiros, levando-se em conta que existe o material digital inédito, exclusivo para a esfera virtual, produzido por Marvel e DC, por exemplo. Essas HQs ainda não são muito relevantes na qualidade ou na cronologia (embora façam parte dela), mas logo se tornarão importantes e não há esse canal de distribuição por aqui.

A Amazon.com também representa uma forte competição tanto para as livrarias tradicionais como para o mercado direto. A livraria tem tanta força no mercado que é capaz de fazer guerra com seus fornecedores (Marvel, DC e Hachette Comics, para citar alguns), para acertar preços promocionais bem baixos.

Outra novidade interessante para HQs específicas é a inclusão de títulos em pacotes especializados, como Loot Crate, 1Up Box ou Nerd Box. O primeiro é uma caixa de produtos nerds. O assinante não sabe qual o conteúdo exato da caixa naquele mês, mas sabe que terá quadrinhos, games, toys e outros objetos relacionados. Qualquer editora que consiga inserir uma de suas revistas num desses pacotes, garante um aumento de venda impressionante, pois esses serviços possuem entre 100 mil e 200 mil assinantes, até o momento.

Alguns desses serviços de “caixas e pacotes” têm parte da renda voltada para o auxílio da Cruz Vermelha ou outras entidades similares.

A distribuição de HQs se diversifica cada vez mais nos Estados Unidos e a produção das editoras influencia ou é até mesmo impactada por isso. O mercado brasileiro, um dos maiores consumidores dos quadrinhos norte-americanos em todo o mundo e que faz deles a maior parte dos gibis que joga nas bancas, precisa ficar de olhos bem abertos para continuar contentando seu público.

Marcus Ramone e Sérgio Codespoti não se importam com os canais pelos quais os quadrinhos chegam em suas mãos, desde que as HQs proporcionem bons momentos de leitura.

Estatísticas divulgadas pela Diamond mensalmente

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