A inesquecível experiência de editar Dragon Ball Z, o mangá mais vendido do planeta

Por Sidney Gusman
Data: 13 outubro, 2003

Dragon Ball Z #51Dragon Ball #1Em outubro, na edição # 51, o mangá Dragon Ball Z chega ao fim. E, com isso, termina também uma era. Afinal, ele foi o primeiro (ainda sem o “Z” no título) e o mais vendido mangá do Brasil, além de ter sido peça fundamental, ao lado de Cavaleiros do Zodíaco, para a divulgação e aceitação desse gênero de quadrinhos por aqui. Depois do lançamento dos dois títulos pela Conrad Editora, no final de 2000, outras editoras do País abraçaram o segmento das HQs japonesas.

Mas antes de falar sobre DBZ, cabe aqui uma explicação: no Japão só existiu Dragon Ball, o “Z” só foi adicionado ao animê (desenho animado japonês) para diferenciar as temporadas. Como no ocidente foi justamente esta fase que fez sucesso, a Shueisha (editora japonesa do mangá) resolveu também adotar o “Z” nesses países. Por isso, nesta matéria a quatro mãos os dois títulos serão tratados como um só.

Dragon Ball #19E este artigo tem um tom diferente do que você está acostumado a ver no Universo HQ, pois é praticamente um depoimento de dois jornalistas que tiveram a honra de estar à frente deste título durante muitos meses de sua vida, nos quais o contato com os leitores foi, sem dúvida, uma das principais recompensas.

Com a palavra, Cassius Medauar:

Quando fui convidado a trabalhar na Conrad e lançar os mangás no Brasil, já era um grande fã de Cavaleiros do Zodíaco, mas não conhecia muito de Dragon Ball. Por isso, fui pesquisar, ler o mangá na versão espanhola e assistir ao animê. E, claro, foi amor à primeira vista. Então, desde meados de 2000, Goku e sua turma têm um lugar especial nas minhas coleções.

Dragon Ball #21Mas os que pensam que trabalhar com mangás e quadrinhos é uma moleza podem parar por aí. Sim, é muito legal. Sim, é divertido, mas dá muita dor de cabeça, principalmente lidar com os japoneses. Ao começar a desenvolver o projeto de lançamento, precisei ler o contrato inteiro em inglês, e manter contato com o Japão por e-mail para saber o que podia ou não ser feito.

No início, precisamos escolher formato, tipo de papel e fazer sugestões de capas. Depois, tudo foi mandado para a aprovação dos japoneses.

Passada essa fase, fomos para as traduções e capas finais, sempre consultando nossos amigos orientais, até conseguirmos lançar a revista, em dezembro de 2000. Para nossa alegria, foi um tremendo sucesso, tendo que ser reimpressa.

Dragon Ball #25Depois do lançamento, o trabalho apenas aumentou. Sempre tínhamos que produzir várias capas e aprová-las em “lotes”, porque poderia demorar de um a 15 dias para que os japoneses as aprovassem – ou rejeitassem, algo nada incomum.

Tentávamos já deixar vários volumes traduzidos e mandar logo para os letristas (Em DB eram a Rosana e o Jarbas Valim e, em DBZ, a Lilian Mitsunaga), para que nunca atrasássemos a revista. Assim, sempre mantivemos uma média de seis edições prontas, em relação a que estava nas bancas.

Fico feliz em poder dizer que escolhi todas as capas de DBZ aqui no Brasil; e triste, porque, com a minha saída da Conrad, não adaptei apenas os dois últimos volumes da série, o 50 e o 51!

Dragon Ball #32Mas voltemos no tempo, para contar como ocorreu a transição de Dragon Ball para Dragon Ball Z.

Com o tremendo sucesso que estava sendo DB, já começamos a pensar no lançamento simultâneo de Dragon Ball Z, como já tinha ocorrido em vários países, para que o mangá não demorasse tanto para acabar e para aproveitar a boa aceitação do desenho na TV.

E esse pensamento se mostrou acertado, já que DBZ vendeu mais de 100 mil exemplares da sua edição de estréia e, por isso, ganhou uma placa da Dinap Distribuidora.

Dragon Ball Z #5Foi nessa época, um ano depois do lançamento dos primeiros mangás, que tive a felicidade de poder começar a trabalhar com Sidney Gusman, que entrou na Conrad e passou a editar os títulos junto comigo, me ajudando muito a crescer como profissional e a melhorar o serviço que vinha sendo feito.

Durante todo esse tempo, pude acompanhar o Goku virar adolescente, adulto, casar e ter filhos. Também o vi treinar com o Mestre Kame, com o Mestre Karin e até mesmo no outro mundo com o Sr. Kaioh. E ele enfrentou muita gente, passando por Tenshinhan, Piccolo e Vegeta, que depois se tornaram seus aliados, a Red Ribbon, que foi dizimada por ele, até os supervilões Freeza, Cell e Majin Boo.

Dragon Ball Z #27Mais do que usar a força, Goku nunca desistia e sempre tinha um plano para superar seus problemas, um exemplo de perseverança que podemos perfeitamente aplicar às nossas vidas.

Agora, DBZ está acabando no Brasil, e me dói ter que ver isso de fora, sem poder terminar o trabalho que comecei. Mas fico contente que, graças a ele, várias outras editoras e a própria Conrad lançaram mais mangás e esse gênero de quadrinhos pôde se firmar no mercado brasileiro, sendo, hoje, o líder de vendas.

Dragon Ball Z #32Confira nas linhas abaixo, as palavras do editor-chefe do UHQ sobre seu trabalho em Dragon Ball Z. Com você… Sidney Gusman:

Depois que saí da Editora Globo, em 1992, tive vários convites de editoras para voltar à área de quadrinhos, mas acabei não aceitando, porque a grana no segmento de comunicação empresarial (no qual fiquei até março de 2001) era bem maior e porque, de um jeito ou de outro, sempre arrumei jeitos de me manter próximo das HQs, escrevendo sobre o assunto para diversos jornais, revistas e sites.

Em 2001, acabei perdendo meu emprego numa empresa de transportes e passei a fazer todos os tipos de free-lances que minha experiência permitia. E um deles foi fazer preparação de texto para alguns livros da Conrad. Como os mangás estavam indo de vento em popa, e a dupla Rogério de Campos e André Forastieri (dois dos diretores da editora) me conhecia há bastante tempo e curtia o Universo HQ, pintou um convite para trabalhar lá, em dezembro.

Dragon Ball Z #33Como a proposta era legal, aceitei o desafio. Como o “bonde” estava andando – e bem -, o que precisava era aprimorar o que vinha sendo feito. Fui como editor executivo, para trabalhar com o Cassius Medauar, com quem, até então, tinha tido apenas dois contatos: um quando ele intermediou nossa entrevista com Neil Gaiman; e o segundo quando me convidou para escrever um texto para a primeira edição de Dylan Dog da Conrad.

Confesso nestas linhas que, quando convidei o Cassius para fazer esta matéria, não fazia idéia de que meu nome seria mencionado no texto dele, o que me deixou muito feliz. Por isso, por favor, não entenda o que vou escrever a seguir como “rasgação de seda”, pois já mencionei isso várias vezes em eventos, palestras e na própria Conrad: poucas vezes trabalhei com alguém que fosse tão preocupado e organizado; e que tivesse um modus operandi tão parecido com o meu. Costumava brincar que se eu tivesse que selecionar alguém para a vaga, não daria a sorte de achá-lo. Trata-se de um ótimo profissional, e digo, sem pedantismo ou temor, que, durante o ano e meio que atuamos juntos à frente dos quadrinhos da editora, formamos uma dupla bastante afinada.

Dragon Ball Z #37Bem, mas vamos a Dragon Ball Z. Lembro como se fosse hoje quando o Cassius me passou as primeiras edições (adiantadas) para eu revisar. O universo dos mangás era novo para mim. Tinha lido as edições lançadas no Brasil e, no máximo, visto alguns episódios do animê, mas nada que me garantisse um conhecimento amplo sobre este e os outros títulos da Conrad. E isso tornou meu trabalho ainda mais prazeroso, pois desafio é algo que me motiva demais.

Assim, era um tal de eu perguntar toda hora sobre a história e as grafias dos nomes dos personagens e dos golpes, que o Cassius devia querer me matar. Mesmo com muita experiência na área de quadrinhos (americanos e europeus), precisava “aprender mangás” – e não tenho o menor constrangimento de confessar isso. Foi o que fiz, então.

Com esse aprendizado, veio a paixão por Dragon Ball, que ajudei a fechar os últimos números (foi até o # 32); e Dragon Ball Z, que peguei quase do início. Nunca neguei que curto mais a fase do Goku “mirim”, mas não dava pra negar a qualidade de Akira Toriyama, que soube fazer um quadrinho “universal”, capaz de agradar milhões de leitores do mundo inteiro, inclusive fanáticos por super-heróis.

Dragon Ball Z #41E os números atestavam isso! Nas bancas, Goku “dava um pau” em todos os super-heróis, com vendas incríveis para aquele momento do mercado nacional. A premiação a que o Cassius se referiu ocorreu quatro meses após minha entrada na Conrad. Quase não acreditei. Claro que ouvia falar do sucesso, mas ver com os próprios olhos que um título bateu mais de 100 mil cópias, quando a crise fazia Batman, Homem-Aranha, Super-Homem e X-Men migrarem para um formato luxuoso, com mais pompa e menos leitores (a Era Premium, na Abril), foi a prova de que os mangás – especialmente aquele – tinham chegado para ficar.

Havia ainda um outro mérito que não pode ser esquecido: o acerto da Conrad em adotar o formato oriental de leitura. O que alguns “especialistas” apregoavam que seria o fracasso da editora, acabou se tornando um de seus maiores trunfos. Os leitores adoravam. Alguns, inclusive, que foram “formados” lendo DB e DBZ, nunca haviam lido uma revista em quadrinhos no sentido ocidental. Isso, confesso, até me assustava.

Dragon Ball Z #48Bem, os 18 meses que passei à frente da Redação Mangá, como a chamávamos na Conrad, foram inesquecíveis. “Explanações internéticas” tentando explicar para os japoneses por que queríamos aquela capa. A ansiedade por ler o próximo número adiantado de DBZ, quando o sacana do Cassius estava preparando o texto que vinha da tradutora Adriana Sada e dizia: “Meu, você não acredita o que rola neste número” (tudo bem, eu fazia o mesmo com One Piece e Dr. Slump). O clima totalmente alto astral – e movido a muita música – que tinha com minha equipe, formada ainda por Denis Takata e Marcelo Rodrigues (que substituiu Leonardo Protti), os homens da arte. O prazer de ver uma edição pronta, sempre renovado a cada 15 dias. Tudo isso deixou uma saudade enorme.

Também não dá pra esquecer o carinho que recebíamos dos leitores, tanto nas correspondências, quanto nos eventos. Eles curtiam muito as brincadeiras que fazíamos nas seções de cartas de alguns mangás (só nos mais voltados para o público infanto-juvenil), simulando “brigas” entre nós. E adivinhe em que título isso começou. Se respondeu Dragon Ball Z, acertou! Até hoje, há fãs que me chamam de “Tio Sidão”…

Dragon Ball Z #50Hoje, tanto eu e o Cassius estamos distantes de Dragon Ball Z, o mangá mais vendido da história do Brasil e, seguramente, o mais importante do nosso mercado. E será muito difícil algum título superá-lo tão cedo. Por isso, aqui, de longe, resta a saudade e a satisfação e a certeza de termos feito o melhor trabalho possível.

Fica, portanto, o meu muito obrigado à Conrad, pela oportunidade; à minha equipe, por ter estado sempre a postos pro que desse e viesse; a Akira Toriyama, pela diversão garantida; e aos leitores, pelo apoio constante. Viva Dragon Ball Z! E, como diria Goku: Kame-Hame-Haaaaaaaaaa!

Cassius Medauar e Sidney Gusman foram, durante bastante tempo, o “Editor do Dragão” e o “Editor Saiyajin” de Dragon Ball Z, mas garantem que com eles não rolava esse lance de fuuuuusão de jeito nenhum!

 

• Outros artigos escritos por

.

.

.