A jornada interrompida de Rick Veitch pelo Monstro do Pântano

Por Frederico José
Data: 15 agosto, 2001

Com a imensa responsabilidade de substituir Alan Moore, Rick Veitch conseguiu o que parecia impossível: continuar o excelente nível das histórias. Mas até hoje, por motivos de censura na DC, os leitores não sabem o que ele reservava para o Monstro do Pântano.

 

Swamp Thing # 65Na história dos quadrinhos, poucas foram as vezes que uma história foi descontinuada antes de seu final ser conhecido. Algumas das mais famosas são Big Numbers e Supreme, de Alan Moore, e Miracleman, de Neil Gaiman. Nenhuma delas foi censurada. Apenas em uma ocasião, a editora cancelou a impressão de uma revista após ela estar totalmente impressa.

Faz dez anos que Rick Veitch parou de escrever O Monstro do Pântano para a DC Comics, na época, o principal título adulto da editora. A edição #88 foi considerada inaceitável antes de ir para as prateleiras. Os leitores que acompanhavam a melhor revista de horror desde a era de Alan Moore foram privados de sua conclusão.

Veitch trabalhava na revista desde a estréia de Moore, ajudando o colega da Kubert School, Steve Bissette, a desenhar Lição de Anatomia (saga em que Moore redefiniu totalmente o personagem).

“Steve tinha problemas com prazos e, como morávamos perto, eu o ajudava quando estava apertado – o que era quase sempre”, contou Veitch ao site Newsarama. “Quando chegou a ponto da editora Karen Berger querer um artista substituto regular, fui uma escolha natural.”

Ao mesmo tempo, Rick estava construindo uma reputação com sua série de graphic novels Heartburst e The One, para a linha Epic, da Marvel – a mesma que Moore citou anos depois como influência para Watchmen.

Quando os artistas Bissette e John Totleben saíram da revista, no número 50, Veitch assumiu os desenhos. E quando Alan Moore anunciou que pararia de escrever o título, pouco mais de um ano depois, Rick estava pronto para tomar o seu lugar, tarefa que não seria fácil.

A oportunidade de continuar com as lendárias histórias de Moore foi vista pelo resto da indústria como um tiro no pé, especialmente depois que Alan “aposentou” o Monstro de sua relação com a humanidade em sua última edição. “Se me lembro bem, havia discussões nos fanzines sobre quem seria o pobre desgraçado que continuaria o trabalho de Alan”, diz Veitch. “As histórias tiveram tanto impacto que os escritores não faziam muita questão de assumir a revista”.

Página de Swamp Thing # 65Página de Swamp Thing # 65

“Brincava muito com Karen (Berger, editora da DC) sobre o ‘suicídio da carreira`, mas gostava e ainda gosto muito dos personagens e, provavelmente, eu era a melhor escolha. Durante o ano que desenhei e Alan escreveu, nós conversávamos muito pelo telefone e trocávamos idéias. Ele ouvia onde eu queria ir e com quais personagens queria brincar. Fiz muitas sugestões, algumas das quais usei depois, mas o básico era que o Monstro do Pântano deveria ser assustador”, contou.

Não houve nenhum estardalhaço para impressionar os leitores na edição #65, a primeira de Rick Veitch. O primeiro arco de histórias, sobre a substituição do Monstro por um novo Elemental da Terra, trouxe a revista de volta às suas raízes de horror.

A busca do novo Elemental cobriu uma vasta gama de terrores sociais, como a destruição do meio-ambiente, medo de voar e terrorismo corporativo.

Ao invés de vilões ameaçando o mundo, Veitch tratou de horrores pessoais, deixando os leitores perplexos. E depois de um começo tímido, o seu estilo limpo se tornou aparente. Suas histórias não continham soluções espertas, mas eram densas e complexas.

Alguns artistas formidáveis se uniram a ele, incluindo Tom Mandrake, Alfredo Alcala e Tom Yeates. Todos deram sua contribuição para fortalecer o sentimento de medo que Veitch tentava criar na revista. Ele fez a lição de casa e aprendeu com Moore a caracterizar bem os personagens, e até os coadjuvantes eram perfeitamente encaixados na história.

Swamp Thing # 66Swamp Thing # 67

O relacionamento do Monstro do Pântano com Abigail Arcane e sua luta em busca da felicidade foi sempre a linha mestra da série. Os dois tiveram a mais adulta, estável e romântica relação dos quadrinhos.

“Abby e Alec eram grandes personagens e adorei escrever as cenas dos dois juntos,” disse Veitch. “Eles ainda aparecem na minha cabeça, às vezes.”

Veitch se recusou a permitir que a relação dos dois estagnasse. Depois de um ano no título e um crossover com Hellblazer, Abby estava grávida do próximo elemental da Terra, levando ao segundo arco de histórias. Moore havia levado o Monstro do Pântano para o espaço e agora Rick o mandava de volta no tempo. No entanto, esta história não teve final feliz.

Depois da participação no crossover Invasão! (“Fui obrigado, mas me deram espaço para fazer algo criativo”), o Monstro do Pântano se encontrou com muitos personagens clássicos, como Sargento Rock, Ás Inimigo, Tomahawk e praticamente todo o elenco western da DC. A história feita em Camelot foi a última de Veitch.

O próximo encontro seria com Jesus Cristo, onde este seria retratado como um mago branco. Isso caiu como uma bomba no colo dos executivos da companhia. Eles viram a capa de John Totleben com o Monstro do Pântano crucificado e quando souberam do conteúdo da história vetaram imediatamente, sem considerar mudanças.

“A rejeição inicial veio do nada, pois entreguei um plot detalhado da história e me disseram pra seguir em frente,” diz Veitch. “Passei algumas semanas por toda a hierarquia da DC e acabei falando diretamente com (a presidente da DC) Jennette Kahn, mas não consegui convencê-la. As páginas desenhadas pelo Michael Zulli foram vendidas ao Kevin Eastman (criador das Tartarugas Ninja), que as doou ao Comic Art Museum“.

Swamp Thing # 68Swamp Thing # 69

O editor-chefe da DC, Paul Levitz declarou: “No caso do Monstro do Pântano, o que houve de errado foi uma decisão editorial tomada tardiamente. Por isso, Rick em particular, que estava muito comprometido com a história, sentiu que estava fazendo a coisa errada e era contra sua honra prosseguir e tomar uma decisão criativa diferente. Olhando pra trás, ainda não sinto que era a decisão certa publicar o material”.

Rick Veitch pediu demissão com efeitos imediatos.

“Faltavam umas quatro ou cinco edições, uma delas estava com o texto quase terminado”, disse o autor. “O Monstro do Pântano iria voltar mais e mais no tempo até encontrar uma civilização de plantas, que eram antecessores diretos do Parlamento das Árvores”.

“Pensando que estaria preso lá para sempre, o Monstro começa uma nova vida. Com o tempo, começa a se esquecer de Abby. Enquanto isso, no presente, ela começa a entrar em trabalho de parto, quando entra o médico – Arcane! Não digo mais nada, porque um dia espero ver essa história publicada.”

Originalmente, após o término dessa saga, a série deveria ser escrita por Jamie Delano, na época ainda escrevendo Hellblazer, e Neil Gaiman. “Eu e Delano iríamos revezar, cada um escreveria três edições,” diz Gaiman. “Rick tinha o final das viagens no tempo e nós conversávamos sobre o que faríamos depois do nascimento do bebê”.

“Pensamos em fazer algo parecido com Os Três Reis Magos, com vários personagens aparecendo e dando um presente ao recém-nascido, o que John Constantine teria feito, esse tipo de coisa que faria os leitores chorarem”, explicou Gaiman.

“No Anual #5, que eu escrevi, e estrelado pelo Irmão Poder (publicado no Brasil pela Brainstore com o nome Monstro do Pântano – Irmãos) eu preparei alguns plots, mas acabei não fazendo nada com eles. Fiz uma redação, Notas sobre uma Teologia Vegetal na época que estava fazendo a Orquídea Negra. Eu iria trazer Woodrue (o Homem Florônico) de volta como vilão. Ele seria chamado de Woodrue, o Senhor da Floresta, e seria muito ruim, como jamais foi. Teria sido divertido, mas não aconteceu”, finaliza Gaiman.

Monstro do Pântano - Irmãos Monstro do Pântano - Confronto em Metrópolis

Os dois escritores pularam fora da série em solidariedade a Veitch, e o novo roteirista, Doug Wheeler, concluiu abruptamente a história.

Rick ia publicar Brat Pack, sua brutal visão sobre o que aconteceria com os parceiros mirins dos super-heróis pela DC, após o final da saga do Monstro do Pântano. Mas esta obra foi publicada pela Tundra, em parceria com sua própria editora, King Hill Press. “Brat Pack certamente se tornou mais sarcástica após esses acontecimentos”, diz Veitch.

Assim como Alan Moore, Veitch se recusou a trabalhar para a DC por cerca de 10 anos depois da sua saída. Os dois ainda atuaram juntos na série retrô 1963 e numa seqüência em Supreme.

Mas quando assinou contrato para desenhar Greyshirt para a ABC (selo da Wildstorm), ele e Moore se viram trabalhando de novo para a DC.

Quando a DC comprou a Wildstorm, com a ABC incluída, ambos não tinham opção, a não ser trabalhar para a companhia que boicotaram por tanto tempo. Inicialmente, Veitch cumpriria seu contrato de 12 edições e sairia, mas a DC fez um acordo com ele e reconsiderou a publicação do Monstro do Pântano.

“A DC e eu concordamos em voltar à estaca zero”, diz Veitch. “Nós nos desculpamos publicamente pelo modo como agimos naquele incidente, e posso pedir a eles que publiquem a edição #88. Eles prometeram olhar a história de acordo com os padrões hoje em vigor na indústria. Ainda não solicitei isso, porque estou atolado de trabalho fazendo Greyshirt: Indigo Sunset, mas até o fim do ano eu peço”.

Então, 12 anos depois, poderemos finalmente descobrir o que Rick Veitch pretendia para o Monstro do Pântano. É esperar para ver!

Frederico José, para fazer esta matéria, ficou submerso sob uma pilha de revistas do Monstro do Pântano. Sabe como é, né? O cara queria entrar no clima…

• Outros artigos escritos por

.

.

.

  • Roberto Costa Pereira

    Tomara que a Panini lance essa fase completa, …

  • Jefferson Barros

    Essa fase do Veitch foi uma das melhores experiências que eu já tive com qualquer tipo de “Leitura” – Monstro do Pântano: O Celestial e o Profano /
    Hellblazer. É uma leitura Cósmica e Filosofal !!! Simplesmente Demais !!!!

  • Tomara que a Panini lance essa fase completa, …