A maior lenda viva dos quadrinhos

Por J. J. Marreiro
Data: 1 dezembro, 2001
Will Eisner
Will Eisner na entrevista para o Universo HQ

Quando soubemos que Will Eisner havia confirmado sua participação no III Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, realizado de 29 de maio a 25 de junho de 2001, na cidade de Recife, nós, os integrantes do Universo HQ, ficamos em polvorosa, com a possibilidade de oferecer mais uma ENTREVISTA EXCLUSIVA para os nossos leitores.

Afinal, quem estaria chegando ao Brasil era ninguém menos que o criador do Spirit; o homem que inventou os termos graphic novel e arte seqüencial; o autor de obras como Um Contrato com Deus, New York, O Edifício, No Coração da Tempestade e o recente O Último Dia no Vietnã; o artista que batiza o principal prêmio do mercado norte-americano – o Eisner Award – e, principalmente, a maior “lenda-vida” das histórias em quadrinhos.

Um Contrato com Deus, lançado no Brasil pela Editora Brasiliense
Quando foi oferecer Um Contrato Com Deus para o seu editor, Eisner disse que se tratava de uma graphic novel. Nascia assim o termo tão famoso hoje em dia

Mas aí surgiu um graaande problema: nenhum de nós poderia ir até Recife, onde o evento rolaria durante a semana. Além de nossas outras atividades, a distância era outro empecilho, uma vez que três integrantes da equipe são de São Paulo (Sidney Gusman, Marcelo Naranjo e Sérgio Codespoti) e um de Petrópolis, Rio de Janeiro (Samir Naliato).

Como desistir é um verbo que não consta do nosso vocabulário, resolvemos criar alternativas. Depois que obtivemos “sinal verde” do organizador do evento, o cartunista Laílson Cavalcanti, para a entrevista, elaboramos uma pauta repleta de perguntas e começamos a contatar nossos colaboradores da Região Nordeste do Brasil.

Para nossa imensa satisfação (e gratidão), dois deles toparam: o jornalista Fernando Lima e o desenhista (e colaborador oficial do Universo HQ) J. J. Marreiro. Depois de horas de viagem de ônibus desde Fortaleza (onde residem), os nossos “enviados especiais” chegaram a Recife e realizaram uma belíssima entrevista, na qual Will Eisner fala da carreira, dos artistas que o inspiraram, dos seus próximos trabalhos, de Spirit, do mercado de quadrinhos e muito mais!

E você confere tudo isso agora! Bom divertimento!

Will Eisner na entrevista coletiva do III FIHQ-PE
Will Eisner, durante a entrevista coletiva do III FIHQ-PE

Universo HQ: Qual foi o seu primeiro trabalho publicado e quando isso aconteceu?

Eisner: Meu primeiro trabalho publicado foi no jornal da minha escola, há muito tempo.

UHQ: No início de sua carreira quais foram suas maiores influências?

Eisner: Minhas maiores influências foram Milton Canniff, de Terry e os Piratas; George Herriman, autor de Krazy Kat; e o cara que fazia Popeye, E. C. Segar. Canniff me ensinou a contar uma história, Herriman me mostrou com envolver o leitor, como construir uma relação com o leitor, através da fluência de imagens. Com Segar, eu aprendi a desenhar personagens em ação.

The Spirit, de Will EisnerUHQ: O Spirit Foi criado há 61 anos. De tempos em tempos ele é republicado, e continua sempre sendo um trabalho moderno e atual. Qual o segredo disso?

Eisner: Eu não sei. Estou tão surpreso quanto você.

UHQ: Sempre que fazem uma lista com os melhores quadrinhos de todos os tempos, o Spirit está sempre entre eles, apesar de o Sr. nunca mais tê-lo produzido. Isso nunca o motivou a criar novas histórias do personagem?

Eisner: Na verdade, não. Eu fiz o que tinha que fazer com o personagem. Não há sentido em voltar atrás. Quando a Kitchen Sink Press me chamou e perguntou se eu faria o Spirit de novo, eu disse: “Não, mas se vocês conseguirem os melhores profissionais do ramo, eu deixarei que vocês façam.”

Edições # 1 e 2 de The Spirit - The New Adventures
Em 1998, a Kitchen Sink publicou 8 edições de The Spirit – The New Adventures, assinadas por artistas como Alan Moore, Neil Gaiman, Dave Gibbons, Paul Chadwick, Eddie Campbell e outros

Achei que não iriam conseguir. Esse pessoal é ocupado, não vão se interessar em um projeto desses. Então, me ligaram e disseram que Alan Moore, Neil Gaiman e Dave Gibbons já haviam aceitado participar. “Que merda!”, eu pensei.

UHQ: E qual sua opinião sobre o resultado final desse projeto?

Eisner: Fiquei muito satisfeito com o trabalho. Fiquei fascinado com o que vi esse pessoal fazer.

UHQ: Muitas vezes comparam o Spirit ao filme Cidadão Kane, de Orson Wells. O que o Sr. acha dessa eterna comparação?

Eisner: Acho que o motivo dessa comparação é que são obras criadas em um mesmo período.

UHQ: Qual sua opinião sobre os quadrinhos de super-heróis? Como foi a criação de Doll Man?

Doll Man
Doll Man, um super-herói criado em 1939 por Will Eisner

Eisner: Doll Man foi criado por uma necessidade de mercado. Você sabe, as pessoas precisam de super-heróis. Precisam deles desde os tempos bíblicos. Criamos heróis para enfrentar os problemas com os quais não podemos lidar. O Super-Homem, por exemplo, foi criado durante a Segunda Guerra Mundial, quando Hitler dominava a Alemanha. Para nós, que estávamos na América, ele parecia uma força incontrolável. Então, a única coisa a fazer era criar um herói irresistível.

O único problema com os super-heróis, a razão pela qual não me interesso em trabalhar com eles, é que eles são unidimensionais. Eles não têm problemas reais. Torna-se difícil construir uma história. Afinal, histórias são construídas através da solução de problemas.

UHQ: As enciclopédias de quadrinhos são um pouco confusas quanto à criação do Falcão Negro (nota do UHQ: uma série sobre aviadores, que chegou, inclusive, a ganhar uma mini-série em 1990, por Howard Chaikyn, que foi publicada no Brasil pela Editora Abril). Afinal foi o Sr. quem criou o Falcão Negro ou foi Chuck Cuidera? Ou foi uma criação em conjunto?

Falcão Negro
Fim da polêmica: o personagem Falcão Negro foi criado por Will Eisner, em 1941

Eisner: Na verdade, eu criei o Falcão Negro. Na época (nota do UHQ: em 1941, início da Segunda Guerra Mundial), a idéia fazia muito sentido. Cuidera veio a trabalhar com o Falcão Negro algum tempo depois.

UHQ: Sabemos que o Sr. tem forte laços com o International Museum of Cartoon Art, em Boca Raton, nos Estados Unidos, que está tendo problemas financeiros, a ponto de leiloar originais. Não há investidores para esse tipo de projeto nos Estados Unidos?

Eisner: O problema é que os americanos preferem investir no que eles chamam de “Belas Artes”. Eu não me sinto muito confortável com esse termo, porque, para mim, arte seqüencial é uma das belas artes. Mas não estamos precisando de tanto dinheiro assim. Por isso, creio que logo estará tudo bem.

UHQ: Por que não existem mais mestres completos dos quadrinhos como o Sr., Alex Raymond, Al Capp, Hal Foster e tantos outros que fizeram história?

Eisner: Mas existem. Eles estão por ai.

UHQ: O Sr. ainda lê quadrinhos? Quais?

Eisner: Não leio nenhum em especial. Eu recebo de 30 a 40 revistas em quadrinhos no escritório, por mês. Eu dou uma olhada para ver o que está acontecendo no mercado, mas realmente não sou mais um fã do meio. Eu leio muito. Leio livros de vários autores.

UHQ: Há alguma artista atual que o Sr. admire?

Eisner: Eu prefiro não responder. Na verdade, eu evito enumerar, porque acho contraproducente apontar e dizer: esse autor é o melhor, e aquele é o pior.

UHQ: O Sr. viveu a melhor época da indústria dos quadrinhos, o Sr. acha que os quadrinhos sobreviverão à atual crise?

Will Eisner fala com exclusividade para o Universo HQ
Will Eisner, falando com exclusividade para o colaborador do Universo HQ, Fernando Lima

Eisner: Acho que os quadrinhos, como negócio, estão passando por um período de transição. Nos anos 30 e 40, quadrinhos eram novidade. Agora, o mercado tem que amadurecer. Mas devemos lembrar que a indústria e o produto são duas coisas diferentes. Revistas em quadrinhos não terão mais a imensa circulação multimilionária que costumavam ter, pois já não são novidade. Mas eles continuarão por aqui, assim como o teatro e as orquestras sinfônicas também não vão desaparecer.

UHQ: Atualmente, tem se falado muito sobre o Comics Code (nota do UHQ: uma espécie de órgão de censura dos quadrinhos), especialmente depois da saída da Marvel? O que o Sr. acha disso tudo?

Eisner: Acho que demorou muito. Não há mais utilidade para o Comics Code. Ele cumpriu sua função, mas eu acho que a saída da Marvel é apenas um golpe de mercado.

UHQ: Em alguns de seus trabalhos, quase podemos ouvir o som saindo das páginas. Qual é o papel da música no seu trabalho?

Eisner: Música e sentimento estão muito próximos. Uma coisa que devemos prestar muita atenção é o que eu chamo de “internalização”, a habilidade de desenhar uma figura capaz de comunicar o que ela está sentindo por dentro. Seus sentimentos. Suas emoções. Emoções e sons são muito difíceis de transmitir. Não há uma fórmula pronta, infelizmente. Por isso, você tem que aprender como fazê-lo, observando as pessoas, aprendendo que tipo de linguagem corporal elas estão utilizando. A emoção não é transmitida só pelo rosto. É necessário o corpo todo para transmitir uma emoção.

UHQ: O Sr. está trabalhando em algum novo projeto? Será publicado pela DC ou pela Dark Horse?

Eisner: Estou trabalhando em algo agora (ele sorri sem dar mais detalhes). Deverá publicado pela DC. Na verdade, o acordo que tenho com a DC é o de deixar que examinem o livro primeiro. Se sua oferta não for satisfatória, eu vou para a Dark Horse.

continua

 

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