A revista (quase) proibida do Super-Homem

Por Ricardo Chacur
Data: 22 agosto, 2003

Em 2000, a DC Comics mandou recolher todos os exemplares de uma edição na qual o Super-Homem, ainda bebê, barbariza sua nova e aterrorizada babá. Mas, felizmente, sobraram algumas edições, que fizeram essa história mudar de rumo…

 

Na década de 1980, Frank Miller fez sua revolução cultural no mercado de quadrinhos com sua minissérie Dark Knight (Cavalheiro das Trevas), na qual o Super-Homem era um capataz do governo americano e cumpria ordens com finalidades políticas.

Howard Chaykin, com The Shadow (O Sombra) e American Flagg, ridicularizou o patriotismo e o autoritarismo mundial.

Já Alan Moore, com sua obra Watchmen, julgou o sistema político e toda a manipulação da mídia, abordando o universo dos super-heróis sob uma temática mais adulta e cruel. Mas, no ano 2000, uma curiosa história do Super Homem, escrita e desenhada por Kyle Baker, publicada em Elseworlds 80-Page Giant, foi censurada na América. Os executivos da editora de quadrinhos DC Comics, recolheram quase todos os exemplares, com ordem de destruir as revistas. Os editores realizaram uma autocensura, com medo de desmoralizar o Homem de Aço.

Letitia Lerner: Superman´s BabysitterLetitia Lerner: Superman´s Babysitter

Para sorte de alguns fãs do personagem (e azar dos censores), sobraram apenas dois mil exemplares, que foram enviados à Inglaterra e não foram destruídos. Essa revista especial era cheia de ação, humor e violência, e chamava-se Letitia Lerner: Superman´s Babysitter.

Na aventura, o kryptoniano é um bebê bastante travesso, que deixa sua nova e inocente babá, literalmente, de cabelos em pé, com suas brincadeiras, poderes descontrolados e anormais.

Existe até uma cena em que o jovem bebê de aço entra no microondas, para desespero da aterrorizada babá.

Cenas de torturas do bebê agredindo uma mulher adulta chocaram toda alta cúpula da editora. Esta história de dez páginas não agradou o editor Paul Levitz, o presidente da DC, que ficou receoso com a possibilidade de ela gerar críticas negativas ao personagem, já que estava nos planos da Warner Bros. revitalizar o famoso herói no cinema e na televisão.

Segundo Levitz, a história “poderia influenciar as crianças a fazer coisas perigosas”… O resultado foi que essa censura, sim, acabou sendo o estopim de uma avalanche de críticas. E a edição, ao contrário, foi elogiadíssima por quem leu e pela imprensa especializada, especialmente pela ousadia de mexer com um verdadeiro ícone da cultura pop de maneira tão descompromissada.

Letitia Lerner: Superman´s BabysitterLetitia Lerner: Superman´s Babysitter

O resultado é que a trama acabou ganhando dois prêmios no Eisner Award de 2000, como melhor história curta e melhor escritor de humor. Talvez por isso, felizmente, na antologia chamada Bizarro Comics, que apresentava as mais estranhas e subversivas interpretações dos heróis clássicos da editora, Letitia Lerner: Superman’s Babysitter foi, enfim, publicada pela DC. É uma pena que, ainda hoje, os leitores ainda estejam sujeitos a esse tipo de censura tolo. Afinal, não fosse a repercussão do caso, possivelmente somente alguns poucos privilegiados britânicos teriam tido o prazer de ler uma revista na qual o Homem de Aço é mostrado com ousadia, irreverência, defeitos e humor negro, e é levado às ultimas conseqüências.

Quem sabe não é possível para a Panini (editora da DC no Brasil) publicar uma história polêmica e (quase) proibida do Super-Homem por nossas bandas? Torcer não custa nada!

Ricardo Chacur é quadrinhista, um dos criadores da série Cabeças Caninas (estrelada por um cachorro amarelo de duas cabeças) e está doido para ler essa história do Super!

• Outros artigos escritos por

.

.

.

  • Maxoel Costa

    A Opera Graphica lançou no Brasil a antologia que contém essa história, Bizarro Comics.