A união do traço pernambucano

Por Márcio Padrão
Data: 12 março, 2004

Acape - Associação dos Cartunistas de PernambucoPor trás da diversão de uma história em quadrinhos ou da charge de um jornal, pouca gente conhece o trabalho e as dificuldades dos profissionais desses ramos. Além de sofrer reflexos de crises econômicas e editoriais, o humor gráfico mundial e brasileiro vem perdendo cada vez mais público para outras mídias, como a TV por assinatura, Internet e videogames.

A situação é ainda mais delicada para artistas de fora do eixo São Paulo / Rio de Janeiro, que encontram pouco ou nenhum espaço para mostrar seu trabalho. A Associação dos Cartunistas de Pernambuco – Acape surgiu há pouco mais de três anos para enfrentar esse panorama. Desde então, a entidade executou diversas realizações para fortalecer o segmento no Nordeste e ser um exemplo para outros pontos do Brasil.

Trata-se de uma organização não-governamental que reúne cartunistas profissionais e amadores de Pernambuco. Seu objetivo é promover, divulgar e estimular a produção e criação do humor gráfico e HQ como arte, meio de comunicação e de educação.

I Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco - FIHQ-PEAtualmente, a entidade conta com cerca de 50 membros – dos quais 15 são profissionais – e alguns sócios beneméritos, que receberam a honraria pela contribuição que deram ao setor do humor gráfico como um todo.

Alguns dos membros honorários são os quadrinhistas Angeli, Laerte, Glauco, Adão, o norte-americano Will Eisner, o eslovaco Kazo Kanala e o espanhol Juan Garcia Serrada, entre outros. Todos eles receberam o título no Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco – FIHQ-PE, evento anual co-organizado pela Acape, que reúne profissionais nacionais e internacionais do segmento de quadrinhos e humor gráfico.

Neste ano, o festival já confirmou a presença do norte-americano Keno Don Rosa, o mais importante artista de quadrinhos Disney da atualidade.

O início

Ilustração de RonaldoTudo começou no final de 2000, durante o lançamento do livro Humor do Fim do Século, no Observatório Cultural Malakoff, em Recife. Tratava-se de uma coletânea de charges sobre a virada do milênio, criadas pelos ilustradores Lailson de Holanda Cavalcanti, Samuca, Miguel, Ronaldo e Clériston.

Naquele momento, os cinco chegaram a um consenso de que o mercado local só teria a crescer se o mesmo esforço conjunto que criou o livro se perpetuasse para outros eventos e atividades. Assim, fundaram a Acape, tendo Lailson como presidente e Samuca como diretor executivo, em um mandato previsto para durar quatro anos – ou seja, até o final de 2004.

Samuca e Lailson de HolandaDentro do FIHQ-PE, a Acape vem promovendo palestras, oficinas e produção gratuita de desenhos para o público. Também realizou exposição e produção de caricaturas na Rua do Bom Jesus, durante o Carnaval de 2002, ao preço de R$ 5,00 por pessoa retratada.

Deste valor, R$ 3,00 ficaram com os cartunistas e o restante foi doado para uma entidade beneficente. A associação também ministrou oficinas no Acorda Povo (projeto cultural itinerante da Prefeitura do Recife) em 2001 e 2002. No dia-a-dia, a direção da Acape presta apoio logístico aos trabalhos dos seus sócios, que, em troca, colaboram com 10% do seu cachê para a entidade.

Cartunistas Amadores da ACAPEUma das maiores conquistas da Acape pode ser conferida diariamente nas páginas do Jornal do Commercio desde março de 2002. Os caricaturistas em fase de profissionalização produzem ilustrações que se transformam no jogo de oito erros da página de passatempos do caderno de cultura.

“Dessa forma, encontramos uma grande vitrine para colocar no mercado os artistas com potencial”, explica Samuca. “O desenho usado no jogo de oito erros não deixa de ser um cartum; é um trabalho autoral, que recebe a assinatura do autor”, ressalta Lailson.

A implantação da Acape coincidiu com o crescimento do FIHQ-PE – inicialmente um evento produzido apenas por Lailson – e o desenvolvimento da Ragú, um projeto dos cartunistas Lin e Mascaro que publica há quatro anos trabalhos de diversos artistas de Pernambuco e outros estados.

Ragu #1A Ragú nasceu como uma bem-cuidada revista em quadrinhos, migrou para outras mídias – como cordel e livro – e teve duas edições lançadas por editoras paulistanas, uma pela Via Lettera e outra pela Opera Graphica. A publicação é independente, mas chegou a receber apoio da Acape na sua versão cordel, no processo de negociação com a gráfica.

Desafios do setor

Há quem fale até na consolidação de Pernambuco como um pólo do humor gráfico. Verdade ou não, a evolução desse setor no Estado é evidente. “O FIHQ provocou um salto qualitativo na nossa produção e a Ragú é um resultado disso”, conta Lailson.

Levando em conta o eixo São Paulo / Rio de Janeiro, Pernambuco parece estar finalmente conquistando o merecido espaço, apesar das barreiras não mudarem muito de um local para outro. “A única diferença entre esses mercados e o nosso é a dimensão, pois um bom ilustrador de lá vai para as melhores publicações do Brasil e ganha mais. Mas as dificuldades dos profissionais daqui são as mesmas em qualquer lugar do País. Não há muitas editoras ou canais de divulgação. As poucas editoras que existem acham que não há mercado, apesar de contratarem cartunistas para criar o conteúdo gráfico dos livros convencionais”, analisa Lailson.

Ragú #2Esses entraves só tendem a crescer devido a uma crise mundial no segmento. Com a Internet, jogos e desenhos animados, o público infanto-juvenil – potencial consumidor de quadrinhos – possui menos tempo, dinheiro e/ou disposição para ler gibis. “Some isso ao alto custo editorial de uma revista, que precisa de uma tiragem mínima de 20 mil exemplares, e você imagina o quanto é difícil emplacar uma HQ de sucesso”, analisa Samuca.

Conquistas

Pelo menos dentro do segmento, os méritos dos pernambucanos se revelaram ainda mais nos últimos três anos. O livro Humor do Fim do Século ganhou o HQ Mix de melhor livro de charges de 2000; a Ragú faturou o mesmo prêmio duas vezes, como melhor revista independente em 2001 e melhor projeto gráfico em 2002; Mascaro já publicou trabalhos na revista Superinteressante; Lailson e Luciano Félix fizeram o mesmo no OPasquim21; a tira de Lailson, Pindorama, está saindo em jornais do Pará, Amazonas e Tocantins; e Jarbas (cartunista do jornal Folha de Pernambuco) já é tricampeão do FIHQ-PE na categoria Quadrinhos.

Ragú #3Além disso, em 2002, Lailson alcançou o recorde brasileiro de publicação consecutiva: 25 anos de charges nas páginas do Diario de Pernambuco.

Os demais membros da Acape já sentem o reflexo dessa onda positiva em suas trajetórias. “Acho que fiquei mais exigente com minha própria produção e meu ritmo depois que me filiei”, conta Arnaldo Luiz, 37 anos. “A entidade abriu o meu leque de possibilidades. Além de publicar no jogo dos oito erros do Jornal do Commercio, ainda sou incentivado a participar de festivais. E a apresentação de trabalhos aos outros desenhistas desperta o senso crítico de todos”, diz Rômo Oliveira, 20 anos.

Esse intercâmbio de experiências vem acontecendo no Café Supremo (em frente à Praça Chora Menino, na Ilha do Leite), onde os sócios se encontram às quartas-feiras. A direção da Acape espera fincar sua sede no Observatório Malakoff, sede do FIHQ-PE e que abriga uma gibiteca de mais de oito mil edições.

O sonho do sucesso nacional

Ilustração de LinNa edição 2003 do Festival Internacional de Humor e Quadrinhos, um detalhe pouco notado rendeu uma grande chance de revisitar a história oculta do humor gráfico de Pernambuco. A exposição e catálogo Ilustradores Pernambucanos trouxe à tona a qualidade dos profissionais do segmento, cuja arte é apreciada diariamente nos jornais de maior circulação do estado.

O catálogo também rendeu rápida homenagem, na sua introdução, aos grandes ilustradores das décadas passadas, como Lula Cardoso Ayres, Lauro Villares, Péricles e Wellington Virgolino, entre outros.

Apesar de louvável, a iniciativa foi apenas uma compensação pelo fato de a memória gráfica de Pernambuco carecer de mais livros, registros e acervos. Na verdade, o humor gráfico brasileiro como um todo sofre revezes semelhantes, como o pouco reconhecimento a mestres da HQ do passado, como Flavio Colin ou o pioneiro Angelo Agostini.

Ilustração de MascaroUma das razões disso é a concorrência com as tiras de jornais importadas, como Calvin & Haroldo e Hagar. Por causa da distribuição maciça dos syndicates norte-americanos, elas são bem mais baratas que as brasileiras, o que desvaloriza significativamente o produto nacional.

Para uma tira brasileira se popularizar, é necessário sobretudo passar antes pelo crivo da mídia do Sudeste. “Essa disputa com as HQs estrangeiras faz com que o artista brasileiro tenha que rebaixar seu valor ao de um faxineiro”, critica Lailson.

Dito tudo isto, ainda é possível para um pernambucano sonhar com o reconhecimento nacional, no porte de um Angeli ou de um Ziraldo? “Sempre é. O próprio Lailson é bastante renomado dentro do segmento”, elogia Samuca.

Ilustração de Samuca“Mas não posso me comparar com Ziraldo, por exemplo, porque não há como medir a carreira dele com a de qualquer outro nome do ramo. Ele tem 20 anos de carreira a mais do que eu, publicou no Pasquim, na Cruzeiro, nas maiores revistas brasileiras e é o maior cartazista brasileiro, entre tantos outros feitos. Alcancei uma marca importante ao publicar no Diário de Pernambuco durante 25 anos, mas isso foi pouco divulgado. Os feitos obtidos no Nordeste não repercutem como deveriam”, analisa o cartunista Lailson.

Márcio Padrão, depois de terminar esta matéria, com certeza voltou pra casa com diversas versões suas em papel, assinadas pelos maiores nomes do traço pernambucano

Ilustração de Clériston Ilustração de Miguel
Ilustração de Jarbas Ilustradores Pernambucanos

 

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