As muitas faces do Fantasma

Por Thiago Rique
Data: 17 fevereiro, 2006

Nascido nas tiras de jornais, há exatos 70 anos, o Espírito-que-anda também construiu sua história nos quadrinhos, no cinema e na televisão

Por Thiago Rique
(17/02/06)

Lee Falk
O Fantasma sobreviveu ao teste do tempo. Setenta anos após sua criação,
comemorados hoje, o personagem de Lee Falk continua colecionando fãs ardorosos
ao redor do mundo e, como todo bom herói uniformizado, migrou progressivamente
para além dos quadrinhos com o passar do tempo.

Seu rosto e mito foram difundidos nas mais diversas mídias, alcançando
gerações diferentes de leitores por meio dessas interpretações de sua
lenda. Mas isso, claro, gerou enormes polêmicas entre seus antigos seguidores.

A versão mais bem-sucedida do personagem, e a que mais causa discussão
entre os fãs, é a das HQs. Sim, porque diferente do que muitos pensam,
o Fantasma não é um personagem de “quadrinhos”, mas sim de tiras de jornal.
Esse equivoco, principalmente no Brasil, advém do fato do herói ter tido
uma longa série de revistas publicadas aqui durante muitas décadas. Mas
essas publicações traziam, em sua maioria esmagadora, compilações das
tiras originalmente que saíam nos periódicos.

A primeira editora a investir em histórias do Fantasma criadas para o
formato de HQs foi a Gold Key, em 1962, chamando inclusive seu
criador, Lee Falk, e o artista Bill Lignante – que havia desenhado o personagem
brevemente após a saída de Wilson McCoy – para cuidar do título.

A revista, porém, não trazia nada de inovador, reaproveitando os roteiros
de Falk para as tiras e adaptando-os com layouts mais expressivos
de Lignante – principalmente porque várias dessas histórias foram originalmente
desenhadas por McCoy, considerado por muitos o mais fraco artista do Fantasma.

A política de reeditar tiras em HQs já estava em decadência nos Estados
Unidos e, quando 15 anos depois, a Charlton adquiriu os direitos
do personagem, era algo praticamente inviável para se atrair e manter
novas audiências. Durante sua passagem por esta editora, o Fantasma teve
um material excelente produzido por lendas como Steve Ditko e Jim Aparo.

Se na Gold Key ele pôde, pela primeira vez, experimentar ser publicado
na linguagem de HQs, na Charlton foi desenvolvido especificamente
para esta mídia, com tramas mais voltadas a adolescentes e crianças, envolvendo
os habituais criminosos, mas também o fantástico, como criaturas bizarras
e civilizações perdidas. O saudoso Jim Aparo, falecido
em 2005
, lembrava-se de sua fase no personagem com bastante carinho.

The Phantom - The Ghost-Who-Walks
Da metade da década de 1980 até o começo dos anos 90, ele foi publicado
pela DC em uma série de histórias muito boas (confira aqui
a resenha). Em 1994, a Marvel passou a editar Fantasma, chegando
a produzir uma minissérie baseada no desenho Fantasma 2040 e outra
com uma versão caseira, Lee Falk’s –
The Phantom – The Ghost-Who-Walks
. O material não foi muito bem
recebido pelos fãs mais puritanos, que viam no fato do herói usar equipamentos
high tech, como lentes infravermelhas, uma heresia.

Terminada o período Marvel/DC, o Espírito-que-anda amargaria alguns
anos no limbo dos comics até voltar a ser editado em sua terra
natal pela Moonstone, onde está até hoje. A editora começou lançando
o herói em graphic novels, mas passou a publicar um título bimestral
desde 2004, sob a batuta de Ben Raab e contando com histórias de Chuck
Dixon atualmente.

A qualidade é boa e o fato de a Moonstone ser uma editora menor
dá espaço para se realmente investir no personagem a longo prazo, contando
com a fidelidade de seu público fixo e sem esperar grandes somas de dinheiro
em retorno imediato.

Team Fantomen
A versão mais bem-sucedida para as HQs foi – e é – desenvolvida pela Egmont,
na Escandinávia. Com um time de criadores carinhosamente chamado de Team
Fantomen
(Fantom = Fantasma, en = partícula que designa o gênero masculino
no sueco, Fantomen = O Fantasma), a editora vem produzindo há décadas
as melhores histórias do personagem.

Durante esse processo, eles acabaram tomando certas liberdades criativas
com a versão de Falk e desenvolvendo um mito próprio para o Fantasma,
alterando uma data aqui, o nome da esposa de um ancestral ali… Nada
muito sério, já que o personagem é absolutamente o mesmo, com os mesmos
princípios morais, uniforme (colorido de azul e com calção vermelho por
lá), casado com Diana, pai dos gêmeos etc.

Nos últimos anos, a Egmont vem trazendo para o Team nomes
bastante conhecidos deste lado do Atlântico, como Paul Ryan, Dick Giordano
e Bob McLeod. Mas são os artistas locais que realmente brilham no título
durante mais de três décadas e cada leitor por lá tem seu predileto. Quem
quiser fazer uma caçada em sebos, muito desse material foi publicado no
Brasil nas séries Fantasma Especial e Fantasma, da Editora
Globo
.

Além das páginas

The Phantom, de 1943
O Fantasma ganhou sua primeira versão de carne e osso no seriado The
Phantom
, de 1943, produzido pela Columbia Pictures para os
cinemas. Tom Tyler, que já havia sido o Capitão Marvel (SHAZAM!) viveu
o Espírito-que-anda e dividiu a tela com outro astro, Ace, o Cão Maravilha!
Nunca ouviu falar dele? Ele fazia o “papel” do famoso Rin-Tin-Tim e nesta
série encarnou o fiel lobo Capeto.

O seriado tomou algumas liberdades com relação às tiras, a começar pelo
nome do Fantasma, que não Kit, mas sim Prescott! A trama, divida em 15
episódios, girava em torno de uma cidade chamada Zolov, que era disputada
por malfeitores, tão explorados nas tiras de Falk. Os coadjuvantes eram
o professor Davidson e sua filha, Diana (o pai da bela é originalmente
falecido nas tiras).

Obviamente, não se pode julgar esta – e as outras produções do gênero
desta época – pelos padrões atuais. Os cenários são os mais artificiais
possíveis, os efeitos especiais – quando existiam – são comparáveis a
Godzilla e outros trashs japoneses e vê-se os tipos mais
insólitos se passando por nativos da selva.

A inocência da produção pode arrancar risos da maioria das pessoas hoje,
mas na época era o sonho de toda criança nas tardes de sábado, as famosas
matinês. Um DVD coletando todos os 15 episódios está à venda no Brasil.

O sucesso do seriado foi tanto, que em 1955 a Columbia produziu
outra série do Fantasma. Depois de tudo finalizado e filmado, porém, alguém
se lembrou de conferir um “pequeno” detalhe chamado direitos autorais.
Aí veio a bomba: eles já haviam expirado e o estúdio não podia produzir
mais episódios com o Espírito-que-anda.

A solução encontrada foi criar um outro personagem – apelidado de “Capitão
África” – e refilmar as cenas em que o Fantasma aparecia. A medida de
última hora resultou nessa série recauchutada de mais 15 episódios e tinha
John Hart como estrela. Ah, nada como o espírito oportunis… ops… de
iniciativa
de Hollywood.

Em 1996, após quase dez anos sendo discutido, um longa-metragem do Fantasma
finalmente foi lançado nos cinemas. O resultado, porém, não agradou muitos
os fãs. Sim, estava tudo lá: o uniforme bastante fiel aos quadrinhos (até
mais interessante, repleto de “tatuagens” tribais baseadas na arte dos
Ituri, o povo pigmeu no qual Falk baseou os Bandar), Diana, Capeto, Herói,
Guran, a Caverna da Caveira, os Singh e a própria história era um amálgama
de Piratas de Singh e Piratas
do Céu
, mas faltou magia, dinheiro e, principalmente, bom-senso na
produção.

The Phantom,
Se por um lado os elementos “oficiais” do Fantasma estão lá, o envelhecimento
da trama (a história se passa nos anos 30) prejudicou bastante uma abordagem
mais universal do personagem, ajudando a estigmatizá-lo mais ainda como
“herói antigo” para as gerações mais novas que foram conferir o Sr. Walker
na tela grande.

As interpretações variam de boas a sofríveis. Billy Zane vive um Fantasma
competente, mas a versão hollywoodiana de Diana desaponta, não
por culpa de Kristy Swanson, mas pelo fato de os roteiristas não saberem
criar uma mulher forte sem ser irritante e arrogante. O vilão Xander Drax,
feito por Treat Williams, é de causar inveja aos nossos canastrões globais,
enquanto o Grande Kabbai Singh, de Cary-Hiroyuki Tagawa, é tristemente
desperdiçado.

Some a isso o fato de a própria Paramont estar mais interessa em
divulgar Missão Impossível do que O Fantasma, gerando uma
publicidade desinteressante para o marketing do filme.

As cenas em que o herói aparecia no Trono da Caveira foram cortadas em
função da postura politicamente correta de Hollywood. Afinal, um homem
branco num trono na África representaria uma postura racista, colonialista,
preconceituosa… Certo? Cada um julgue como achar melhor, mas a coisa
soou forçada e aponta para o complexo de evitar processos milionários
que move as grandes corporações norte-americanas. Quem conhece o Fantasma,
sabe que o personagem não é nada disso.

The Phantom
Hoje, O Fantasma ainda é cultuado por alguns fãs como uma boa adaptação.
Há algo especial neste filme, visto poucas vezes nesse tipo de transposição:
carinho e respeito pelo personagem e pelas pessoas que o acompanham há
tanto tempo, No entanto, os erros superam em muito os acertos e a película
soma mais um na longa lista de “Como não fazer uma adaptação de quadrinhos”
pelo seu resultado final. Em tempo: Lee Falk viu e gostou do longa.

Em 2002, surgiu uma nova esperança quando a produtora Hyde-Park
comprou os direitos do personagem e prometeu para “breve” um novo filme.
Alguns chiaram com o comentário do press release oficial de que
o personagem sofreria “atualizações”, mas todos estavam aguardando o resultado.
Nomes como o VJ Simon Rex pipocaram aqui e ali como possível Espírito-que-anda,
mas tudo não passou de boataria.

Fato, mesmo, só a contratação de Steven de Souza como roteirista. Tendo
escrito bons longas de ação como 48 Horas e bombas como Street
Fighter – O Filme
, o nome causou calafrio em alguns e dúvida na maioria.
Pouco tempo depois, foi anunciado que ele havia sido “desligado” do projeto
e que os produtores estavam procurando alguém para assumir o roteiro.

Houve um “ufa” coletivo quando detalhes do script de Souza vazaram
para a internet: nele, o Fantasma tinha seu uniforme feito do couro de
um animal imaginário chamado Monitor de Bangalla e a roupa conferia ao
herói a capacidade de ficar invisível de verdade! Atualmente, o projeto
está estagnado e é provável que os direitos acabem voltando para o King
Features
antes de algo ser filmado.

Na telinha

Fantasma 2040
O Fantasma também ganhou vida na telinha, mas nunca em carne e osso. Curiosamente,
o Fantasma da nossa época jamais teve uma animação própria, pois os dois
desenhos estrelados pelo personagem não mostram o 21o Kit Walker, mas
sim seus descendentes, utilizando a idéia de sucessão pai-filho para tomar
liberdades criativas com o mito do herói.

O primeiro foi Defensores da Terra, em 1986. A animação produzida
pela Marvel começava com uma premissa até legal: unir os maiores
heróis do King Features (Fantasma, Flash Gordon, Mandrake e Lothar)
contra seu maior vilão (Ming, o Impiedoso), somando na mistura os filhos
adolescentes dos personagens, que nunca existiram nas tiras e foram criados
para o desenho.

O Fantasma da animação era o 27o Espírito-que-anda e tinha uma filha chamada
Jedda. O uniforme foi mantido quase intacto, tendo apenas o calção listrado
subtraído. O mais chocante para os fãs foi ver o personagem ter poderes
de verdade, invocando coisas como “a força de dez tigres” para realizar
façanhas de força.

Fantasma 2040
Já a segunda foi bem mais agradável de se ver. Fantasma 2040 foi
produzido pela Hearst, proprietária do King Features, e
mostrava o bisneto do “nosso” Fantasma no ano de 2040, um futuro repleto
de ciborgues, intrigas, caos ecológico e no qual a moral era uma linha
tênue em que alguns poucos se arriscavam a caminhar.

A série era muito bem feita e a maioria dos desenhos manteve um alto nível
de qualidade na animação e no roteiro, voltando-se mais para um público
juvenil e adulto que propriamente infantil. O design dos personagens
foi desenvolvido pelo criador da heroína Eon Flux, Peter Chung. Seu estilo
é inconfundível: as figuras são esguias, altas e com fortes traços faciais.

O visual como um todo era elegante e arrojado, e o Fantasma contava com
um aparato do que a tecnologia do século XXI tinha de melhor, permitindo
ao herói até ficar invisível com um dispositivo de camuflagem. A grande
curiosidade da série fica por conta da dubladora de Rebecca Madison, a
grande inimiga deste Kit Walker, que foi ninguém menos que Margot Kidder,
a Lois Lane dos filmes do Superman.

Com o sucesso da primeira temporada (foi muito bem recebida por público
e crítica), a série continuou em 1995, mas foi cancelada em 1996, ano
da estréia do filme O Fantasma. A razão não foi queda de audiência
ou da qualidade do produto, pelo contrário!

Empolgada com o êxito da animação, a Hearst resolveu produzir uma
série baseada no Flash Gordon e, por isso, cancelou Fantasma 2040.
O pior é que o desenho do herói espacial era abominável e só durou uma
temporada! Não era para menos: ele até tinha visual de skatista
e usava até as famosas bermudas largas, numa tentativa patética de modernizar
o personagem para os representantes da geração X.

Fantasma 2040 para GênesisFantasma
2040
foi exibido no Brasil em 1996 no canal pago Multishow
e no ano seguinte no programa da Angélica, na Rede Globo, e bem
que merecia ser reprisado de novo. Um DVD com o primeiro episódio da série
foi lançado nos Estados Unidos.

Defensores da Terra e Fantasma 2040 foram também responsáveis
por colocar o Fantasma no mundo dos videogames. O primeiro saiu para o
Commodore 64, um computador caseiro voltado inteiramente para jogos.
Os gráficos são considerados altamente datados para os dias atuais, mas
o jogo tinha vários atrativos, como proporcionar ao jogador escolher entre
os defensores qual gostaria de “ser”.

Já o jogo Fantasma 2040 saiu para SNes e Gênesis,
quando estes consoles estavam em seu auge. Produzido pela Viacom,
trazia o Espírito-que-anda numa trama típica do seriado, lutando contra
megacorporações e ecoterroristas, com direito a pontas de todos os coadjuvantes.
O mais legal era que o personagem ia colecionando itens que podiam ser
acessados numa tela de inventário.

Fantasma
Pouca gente sabe, mas haveria um jogo com o “nosso” Fantasma para o Gameboy
Advanced
. The Phantom – The Ghost-Who-Walks estava sendo desenvolvido
pela 7th Sense, que também trabalhava num game do Mandrake,
outra criação de Lee Falk. A trama girava em torno de uma certa firma
que utilizava áreas em Bangalla para pesquisas genéticas e farmacêuticas,
mas ocorria um misterioso acidente e alguns funcionários e alguns bandar
que lhes serviam de guias eram mortos. O chefe da tribo (Guran?) pedia
ajuda ao herói para solucionar o mistério.

Existiriam sensíveis diferenças deste com os outros jogos do Fantasma,
pelo que se podia ver pelas fotos liberadas para a imprensa, a começar
pela visão do jogo, que substituiria o plano horizontal e a ação sidescrolling
por uma perspectiva isométrica, como na maioria dos jogos de RPG para
PC e alguns títulos já lançados para o GBA, como Senhor dos
Anéis: As Duas Torres
. Isso proporcionaria um ambiente muito mais
vasto e real para ser explorado.

O Fantasma contaria com um inventário, no qual poderia escolher e ser
equipado com diversas armas e itens encontrados ao longo do jogo, incluindo
uma metralhadora! Infelizmente, a Microids, que lançaria o jogo,
rescindiu o contrato com a 7th Sense, colocando-o no limbo. Uma
pena.

Na sua mídia de origem

Fantasma
Enquanto os fãs aguardam novos projetos, o Espírito-que-anda continua
sendo publicado em sua mídia de origem, as tiras. A revitalização visual
que Graham Nolan – um dos artistas de Batman – A Queda do Morcego
– vem trazendo para o personagem nas tiras dominicais, introduzindo layouts
mais arrojados e incorporando sua bagagem de HQs na arte, tem sido de
grande valia para sua popularidade entre os novos leitores.

Paul Ryan assumiu as tiras diárias em 2005 e também vem fazendo um excelente
trabalho, conferindo novos ares ao personagem, desvinculando-o, assim
como Nolan, da versão de Sy Barry, a mais icônica do personagem.

Existirão, como sempre, os que não gostarão, preferindo que o personagem
mantivesse o “padrão Sy Barry”, mantido pelo antecessor de Ryan, George
Olesen. Entretanto, um personagem forte e querido se faz assim: de polêmicas
e muitas, muitas interpretações.

Esta é a força do Fantasma, muito maior que a dez tigres. Força conferida
pelos seus ardorosos fãs nesses 70 anos.

E que venham os próximos 70, pois, com certeza, ainda haverá muitos fãs
lendo tiras, HQs, assistindo, criticando e aplaudindo filmes, desenhos
e jogos. Parabéns, Fantasma!

Thiago Rique é um fã de “caveirinha” do Fantasma e foi “intimado”
pelos amigos do UHQ a recolocar no ar seu site Caverna da Caveira, que
deve voltar em breve
 

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