Uma análise do Catarse e do financiamento coletivo de HQs no Brasil

Por Zé Oliboni
Data: 19 julho, 2013

É cada vez mais comum publicar sua própria história em quadrinhos usando as ferramentas de crowdfunding

 

Em 2011, Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, conhecidos pelo site Quadrinhos Rasos, usaram a plataforma Catarse para arrecadar dinheiro para imprimir o seu álbum Achados e Perdidos. Eles foram os primeiros quadrinhistas brasileiros a buscar o financiamento coletivo (crowdfunding) para cobrir os custos de produção e impressão de uma obra. Contando com a ajuda de 573 apoiadores, arrecadaram R$ 30.834,00, um valor consideravelmente superior aos 25 mil que eles precisavam para a realização do projeto.

Por conta do sucesso da dupla, desde então vários autores usaram o mesmo método para tentar imprimir suas revistas. Até o fechamento desta matéria, eram 40 projetos de quadrinhos no Catarse (sem contar o Sketchbook de Lourenço Mutarelli e o livro sobre cores de Cris Peter). Deles, por enquanto, 25 foram financiados com sucesso, oito não atingiram a meta e sete estão em andamento. Considerando só os finalizados com êxito, os quadrinhistas já levantaram um montante de R$ 497.474,00.

Em linhas gerais, o Catarse funciona com intermediador entre o artista e seus potenciais consumidores. A pessoa apresenta seu projeto pelo site, define um valor como meta e tem o prazo de 60 dias para arrecadá-lo – ou superá-lo. Para incentivar a colaboração, são oferecidas várias recompensas para os diversos valores doados (no caso dos quadrinhos, elas muitas vezes funcionam como pré-venda dos livros, pôsteres e artes originais). Caso a meta seja alcançada, o dinheiro arrecadado – menos os 13% cobrados a título de taxa de intermediação pelo Catarse – é repassado para o autor, que se compromete a produzir e distribuir as recompensas adquiridas. Em caso de insucesso, o valor é devolvido para os colaboradores.

O Universo HQ conversou, por email, com alguns autores que usaram a plataforma. Eles deram suas opiniões sobre as oportunidades que surgiram junto com essa nova maneira de financiar seus trabalhos.

Achados E Perdidos Shogum dos Mortos

Eduardo Damasceno, grande entusiasta dos softwares livres e das produções colaborativas (crowdsourcing), acompanhou com muito interesse o surgimento do KickStarter – plataforma norte-americana de financiamento – e, desde que o Catarse apareceu, queria usá-lo. “Em 2011, quando decidimos que Achados e Perdidos, que vínhamos conversando sobre fazer desde 2007, seria impresso, foi a chance de finalmente poder testá-lo”, explica.

Damasceno e Garrocho não tinham certeza de que conseguiriam o dinheiro pelo Catarse e estavam decididos a publicar o livro de qualquer forma. “Checamos nossos limites de cheque especial, cartão de crédito e amigos dispostos a emprestar grana. O plano era lançar no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, da forma como fosse possível”, relata Garrocho. Achados e Perdidos chegou a ser, inclusive, um dos finalistas do concurso Leya/Barba Negra, e foi apresentado a algumas editoras estrangeiras sem respostas conclusivas.

A dupla mineira não vê o Catarse como solução para os quadrinhos no Brasil, mas sim como “uma forma muito interessante de repensar as relações comerciais”.

Para ambos, esse tipo de financiamento abre várias possibilidades. “Os autores não são mais reféns da distribuição e não dependem de editoras para terem seu trabalho visto, nem para terem algo impresso com alta qualidade gráfica. Basicamente, não dependem mais das editoras, mas acredito no papel do editor e na capacidade que isso tem de criar uma boa obra. Vemos, no crowdfunding, uma ferramenta fundamental na realização dessa mudança”, diz Damasceno.

O caminho do Catarse é uma alternativa para viabilizar trabalhos bem autorias, como os de Daniel Wernëck. “Nunca trabalhei com editoras, e nem pretendo. Gosto de ter liberdade total para trabalhar, criar, definir metas e prazos etc. Não trabalho bem em grupo, nem com reuniões e coisas do tipo. E odeio ter que explicar minhas ideias antes de ficarem prontas”, afirma. Autor de Shogum dos Mortos, ele atingiu sua meta de R$ 9.276,00 em apenas dois dias e, ao final de dois meses, levantou R$ 30.976,00.

Por outro lado, Fábio Yabu optou por lançar sua nova HQ dos Combo Rangers pela JBC, mas com financiamento via Catarse. Até o momento, ele foi o autor que mais arrecadou em um projeto de quadrinhos na plataforma, com R$ 67.940,00.

Segundo Cassius Medauar, editor da JBC, “o projeto foi pensado em conjunto, pois já iríamos publicar. A decisão de ter também o Catarse foi para já pagar toda a parte editorial do autor sem depender das vendas”.

Mesmo considerando que parte dos fãs adquire o livro quando colabora, os autores mantêm as expectativas de vendas do livro pós-Catarse, principalmente em eventos de quadrinhos. Achados e Perdidos, segundo os Damasceno e Garrocho, teve uma tiragem de mil exemplares. Aproximadamente 500 foram vendidos via Catarse e o restante se esgotou no inicio de 2012. Graças ao sucesso, eles foram procurados por algumas editoras mineiras e fecharam um acordo com a Miguilim para reimpressão e realização de uma nova HQ para o FIQ 2013. Werneck também aumentou a tiragem do seu álbum devido ao sucesso do projeto.

De acordo com Cassius Medauar, a JBC também acredita muito no potencial de vendas dos Combo Rangers, e aguarda a publicação para estudar os resultados e analisar a eficiência desse tipo de obra financiada previamente pelo público. Perguntado sobre um modelo de financiamento por meio de pré-vendas efetuadas diretamente pela editora, ele diz que “esse seria um bom caminho para apostas”.

Combo Rangers

Para quem está pensando em financiar seu projeto via crowdfunding, Damasceno e Garrocho dizem que não acreditam haver uma fórmula para o sucesso, mas acham que o que importa é a transparência com o público. “Quanto mais honesto você for com as pessoas, melhor. Quem já tem uma base de fãs, consegue sem tantos percalços. No nosso caso, ninguém nos conhecia e não queríamos que adquirissem nosso trabalho no escuro. Assim, apresentamos o capítulo de abertura, com a primeira música, pra ver o que se gostassem o bastante a ponto de querer ler o resto e comprar o livro pelo Catarse“, explica Damasceno. “Afinal, a partir do momento que resolvemos fazer via Catarse, abrimos mão de ter um livro ‘nosso’ pra ele ser de todo mundo. Não sei se é assim pra todo autor, mas nosso objetivo era justamente construir algo com os leitores. Se eles gostassem o bastante, a ponto de terem vontade de ver aquilo existindo, participariam. Acho uma relação comercial bem mais interessante do que as demais.”

Já Wernëck questiona o êxito da maioria dos projetos: “Não sei se a maioria é bem-sucedida, e isso é difícil de medir porque muita gente injeta dinheiro do próprio bolso nas campanhas. Mas existem, sim, ‘segredos’ para o sucesso. São muitos, e é algo bastante complexo. Crowdfunding não é magia nem sorte, existe toda uma ciência por trás”.

Daniel Wernëck lembra ainda que, no Brasil, nenhum projeto atingiu a marca de cem mil reais ou ultrapassou mil colaboradores (a HQ O Monstro, do quadrinhista Fábio Coala, até o momento tem o maior número de colaboradores, 982) e que o Kickstarter já teve um projeto de quadrinhos que atingiu a impressionante cifra de US$ 1.254.120,00, aproximadamente R$ 2.884.476,00 – veja-o aqui.

Mesmo com cifras e resultados significativos, o Catarse não substitui a estrutura editorial atual e nem se tornará a única forma de autores viabilizarem seus projetos com ou sem editoras, mas serve como forma de reflexão para todos. Como observado pelos autores de Achados e Perdidos, “crowdfunding não pode ser visto com algo que veio para substituir, mas sim para somar”.

Para refletir sobre o assunto, vale ver o vídeo abaixo, com a artista norte-americana Amanda Palmer falando sobre a “arte de pedir” em um dos TEDTalks.

Zé Oliboni não colocou nenhuma HQ no Catarse, mas já colaborou com várias.

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