Como fazer um super-herói brasileiro?

Por Equipe UHQ
Data: 9 abril, 2004

Super-Homem, arte de Alex RossQuem leu minhas colunas anteriores (e não as esqueceu logo em seguida) sabe que nunca vi muito sentido na insistência em se criar super-heróis brasileiros. Além da questão prática – há tantos na praça, será que os leitores estão atrás de mais um? -, há ainda aquelas que sempre estão presentes quando este tema é discutido – não seria por si só algo típico da cultura americana a crença em um herói poderoso e íntegro que defende a liberdade e a segurança com o uso de sua força?

Uma coisa, porém, é discordar, e outra é jogar pedras. Discordo, mas torço de coração pelo sucesso de toda iniciativa encarada com empenho, sejam super-heróis brasileiros, sejam “mangás nacionais” ou o que for, até porque a única unanimidade aceitável é a defesa da pluralidade de opiniões e idéias.

O GralhaSendo assim, vamos então encarar a questão: o que seria um super-herói brasileiro? Melhor: como fazer o leitor acreditar em um super-herói brasileiro?

Então, a partir de agora, farei aqui o papel do meu próprio advogado do diabo, defendendo um ponto de vista de quem realmente acredita ser isso possível. E começo fazendo uma comparação pertinente. Se a pergunta fosse “Como fazer o leitor acreditar em um cowboy italiano?”, aí, sim, teríamos uma resposta na ponta da língua. É só ver Tex.

Hmm… A resposta é precisa, a pergunta é que deve ser revista. Afinal, o personagem Tex é um americano, que nasceu e viveu nos Estados Unidos, não podendo ser desta forma um cowboy italiano.

Tex e amigosEntão, a questão conveniente seria “Como fazer o leitor acreditar e respeitar um tema tipicamente americano quando usado por italianos?” Aí, sim, a resposta é Tex. Os personagens têm nomes em inglês, as paisagens são americanas e as referências históricas também são todas da terra do Tio Sam.

Entretanto, ninguém esquece nem por um instante que aquela revista em suas mãos é um trabalho genuinamente italiano.

Como conseguem isso? Simples. O tema é americano, mas o estilo é italiano. O ritmo, o traço, o enquadramento, a quantidade de páginas, os diálogos, em nenhum momento vê-se uma referência direta aos comics. Há ali o estilo inconfundível dos quadrinhos Bonelli, e a única ponte que se faz durante a leitura é com outras séries da mesma editora (Martin Mystère, Dylan Dog, Zagor, Mister No – curiosamente, nenhum deles é italiano ou vive na Itália).

Bandeirante Fantasma e Volpi Mascardo, da Liga tupiniquim, de Antônio ÉderEntão, vamos mudar por hora a pergunta clássica “Como seria um super-herói brasileiro?” para esta questão: “Como fazer o leitor acreditar e respeitar um tema tipicamente americano (os super-heróis) quando usado por brasileiros?”
Ao ampliarmos esta questão, fica mais fácil fugir das soluções simplistas, como dar um nome em português, fazer referências a índios e colocar o herói morando em Pindamonhangaba ou Quixeramobim.

O grande problema, no meu entender, é a prisão criativa que se tornaram os estilos e clichês dos estúdios Marvel e DC Comics. Eles funcionam muito bem para as duas editoras, disso não há dúvidas. Tão bem que é impossível dissociar delas qualquer coisa que se aproxime desta linha.

Daí, o que se vê na esmagadora maioria dos casos de super-heróis nacionais é uma referência direta e explícita a estas fontes, no que elas têm de melhor e de pior. Com isso, fica muito difícil para o leitor diferenciar a história do Zé de Cubatão de uma americana. O artista desenha o Rio de Janeiro, com Cristo Redentor e tudo, mas não entende que na cabeça do leitor a cidade vista é Nova York ou Gotham City.

Vamos, então, para um extremo oposto. Alguém tem dúvidas de que a tira Overman é um autêntico quadrinho brasileiro, mesmo tratando de um super-herói? Claro que a tira de Laerte foi escolhida como exemplo mais como um exercício, pois sua proposta é diferente. O estilo é 100% humor, jamais aplicável em uma HQ de aventura. Mas não deixa de ser uma pista, e a facilidade em se aceitar que é genuinamente brasileira não é pelo gênero humor, mas pelo estilo próprio e pela abordagem singular do autor.

Overman, de Laerte

Será que há só um estilo de desenho apropriado ao gênero? Será que a diagramação das páginas, a colorização, as tramas e os pontos de partida destas HQs têm que ser os mesmos? A seguir, listo aquelas que são, para mim, as maiores armadilhas nas quais os autores de super-heróis nacionais costumam cair, que criam automaticamente um link direto na cabeça do leitor com os quadrinhos Marvel / DC. Será que toda história do gênero precisa ter esses ingredientes?

Antes de tudo, esqueça o How to Draw in Marvel Way

Quebra-Queixo, de Marcelo Campos…ou já vamos estar começando mal. Será que super-herói só pode ser desenhado num único estilo?

Luta do bem contra o mal

Por que todos os heróis o são por combater o crime? Será que não há outros tipos que, com outros objetivos, também tragam ação e aventura ao leitor? Por que não usar seus superpoderes para impedir tragédias e resgatar vítimas de incêndios, terremotos ou guerras? Pode até pintar um ou outro adversário no caminho para dar um tempero, mas o enfoque já seria outro, que não o clássico. Foi só um exemplo, mas acho que me fiz entender.

Uniforme e codinome

SuperpatetaPra quê? Sempre achei que um homem de terno e gravata ou camiseta com os poderes do Super-Homem seria algo muito mais interessante do que um cara todo fantasiado. Ver o José erguendo um caminhão me impressionaria muito mais do que ver o capitão sei-lá-das-quantas fazendo isso.

Contexto

Por que sempre as grandes metrópoles? Por que sempre os dias de hoje? Será que um super-herói no antigo Egito não poderia vir a ser interessante? (Ainda não está aqui em questão a caracterização do personagem como desenho, e sim a ruptura com o padrão americano).

Clichês

VingadoresSim, é muito difícil abandoná-los 100%, mas ao menos poderia haver uma variação deles. É impossível não lembrar das HQs Marvel / DC ao ler histórias com megacorporações, laboratórios de armas químicas, generais sádicos atrás da fonte dos superpoderes, seres metade homem, metade máquina, senadores inescrupulosos contra os heróis…

Estes, inclusive, são clichês que só fazem sentido aos americanos. Uma megacorporação brasileira atrás de seres com superpoderes para criar supersoldados não faz sentido algum, a não ser que a intenção seja doá-los ao exército, para que este abafe no próximo desfile de 7 de setembro.

Além destes, há os clichês que, por si só, seriam inofensivos, mas que já se tornaram uma espécie de marca registrada dos quadrinhos americanos. Um clássico é a telinha de televisão com o repórter dando as notícias do dia, para logo a seguir falar algo referente à trama. Fuja disso e identifique casos semelhantes por conta própria.

Formato

22 páginas com “continua” no fim? Será que precisa ser exatamente assim, igualzinho aos comics? E por que reproduzir tintim por tintim os mesmos vícios de narrativa dos estúdios americanos? Por que HQ de herói tem que ter poucos quadros por página mesmo em uma cena de diálogos? Por que não quebrar isso em vários, dando mais dramaticidade, em vez de colocar 18 balões num mesmo quadro, no qual os personagens aparecem estáticos?

BatmanA ficha do herói

Identidade secreta, origem, arquiinimigo, uniforme, codinome, lista de poderes… Todo super-herói precisa ter cada um desses elementos? Já vi quadrinhista anunciando seu herói como algo totalmente original, pelo simples fato de que não havia um personagem já criado com o mesmo poder que o dele. Hmm…

O simples e o complexo

Por que complicar? Pra que criar mil explicações e centenas de personagens numa história que objetiva apenas entreter e mostrar um pouco de ação? A síntese sempre funcionou muito bem nos quadrinhos, e não há porque criar 20 personagens quando a mesma trama pode ser contada com seis ou sete.

Além disso, criar um grupo é muito mais arriscado do que um herói único, pois eles terão que dividir o espaço e o “tempo” da história entre si. Conseqüentemente, o leitor terá muito menos contato com cada um deles, e os personagens terão bem menos oportunidade de mostrar suas qualidades, defeitos, manias, opiniões, enfim, de criar empatia com seu público e ficar em sua memória. Simplifique, e o leitor agradecerá.

Narração em off

Página de ação, do Demolidor, com narração em offSempre me perguntei por que tanta narração e reflexões em histórias de ação. “Eu não sou um deles. Disso, tenho certeza. Por isso, não posso concordar com esta visão distorcida dos fatos”. “Três socos. Um pontapé. É só o que preciso para aniquilar este monstro. Ele se mostra como invencível, mas aposto minha vida como ele cai no terceiro golpe. Um já foi dado”. Se no cinema temos a trilha sonora ajudando o público a entrar no clima de ação, esse tipo de recordatório, vício dos quadrinhos, só torna tudo enfadonho.

Por fim, há uma preocupação fundamental que escapa à cabeça da maioria dos autores. Ao trazer seu super-herói ao público, nunca se esqueça da realidade brasileira quanto à publicação de quadrinhos. Vejo muitos projetos pensados como se o nosso mercado fosse idêntico ao americano, o que é um erro fatal.

Daí, o autor cria um personagem ou uma trama que será mais bem entendida pelo leitor ao longo de várias e várias edições. Só que não há sequer a certeza de que a primeira destas será viabilizada.

Então, o autor consegue lançar uma duas ou três edições e não sai mais nenhuma (o que é praticamente uma regra no nosso mercado, qualquer que seja o gênero ou o estilo da HQ). Com isso, todo aquele conceito fica no ar e ninguém entende nada do que leu.

Sem falar que o leitor já é incrédulo, e se o personagem ou a trama não conquistá-lo de cara, ele dificilmente dará chance para uma segunda ou terceira tentativa. Mais: o simples fato de haver um “continua” já o espanta, pois ele já aprendeu que as próximas edições virão somente meses depois ou não virão nunca.

Bem, a partir do momento que a sua obra consiga escapar às eternas referências na hora de se criar super-heróis, aí, sim, podemos entrar na questão: como fazê-lo parecer um brasileiro legítimo? Para isso, não há fórmulas, mas também listo a seguir algumas idéias que me parecem razoáveis.

Evitar a “síndrome vai se danar”

Apelidei de “síndrome vai se danar” a repetição nos diálogos de maneirismos e do linguajar típicos de filmes e HQs estrangeiras. Mais precisamente, das traduções dessas obras.

A assimilação das obras traduzidas é tamanha, que até estes vícios são repetidos, mesmo que ninguém os use em seu cotidiano. Pra mim, o clássico é o “vai se danar”, tradução de fuck you, expressão que nunca vi ninguém usando.

Assim, ao escrever um diálogo, não pense como o personagem do gibi ou o herói do filme falariam. Pense como cada frase seria dita por você, numa situação semelhante. Ah, e lave o rosto cada vez que bater a tentação de colocar uma frase de efeito.

Quando um personagem fala “Se você não está conosco, está contra nós”, ele não fica ameaçador, fica apenas patético.

Saci Cibernético, Vigilante Baiano e calango Humano, personagens da Liga Tupiniquim, de Antônio ÉderFugir dos estereótipos

Dessa vez, são os estereótipos brasileiros. Referência aos índios é a mais clássica. Mas tem também o curupira, o saci-pererê, o… Chega!!

Também não carregue no tom. Não precisa colocar um mineiro falando uai, um carioca malandro ou um favelado sambista.

Brasil, não Brazil

Índios musculosos e selvagens, araras e coqueiros pelas ruas e mulheres seminuas na praia. É a visão que os americanos têm do Brasil? Sim, mas não foi só em quadrinhos e filmes americanos que encontrei essa ótica distorcida. Por incrível que pareça, estes elementos, volta e meia, são vistos também em histórias 100% feitas aqui.

Rio de Janeiro, no traço de JanoEnriquecendo o cenário

Como foi dito antes, não basta desenhar o Corcovado para que o leitor veja e sinta a história acontecendo no Rio de Janeiro. Ao situar a HQ em um cenário, procure passar (sem exageros) as nuances deste local. Um erro comum é retratar inicialmente uma cidade brasileira para, logo mais, colocar aquelas silhuetas de prédios nova-iorquinos como fundo da ação.

Pra ajudar, o ideal é imaginar não só em que cidade, mas em que bairros as ações acontecem. E procure lugares que sejam familiares tanto ao roteirista quanto ao desenhista. Estes bairros não precisam ficar claros ao leitor, ao menos não explicitamente, pois não são o alvo da história, mas isso ajudará muito os autores a imaginar a cena acontecendo.

Se possível, bata uma série de fotos do local, não só para servirem de referência ao desenhista, mas como uma forma de ajudar a observação. Curiosamente, ao ver as que bato deste ou daquele canto, vejo muito mais coisas do que quando estava lá, no próprio local…

Referências históricas

Gaúcho da Fronteira, personagem da Liga Tupiniquim, de Antônio ÉderParece exagero, mas não é. Para inserir seu personagem no Brasil, você precisa saber exatamente que país é esse, desde os primórdios até hoje. Senão, quando a sua trama pedir, você só terá as referências históricas americanas (guerra do Vietnã, II Guerra na visão dos ianques, colonização do oeste) ou as brasileiras mais básicas (descobrimento, independência, Golpe de 1964 etc).

E não estou mudando de assunto, continuo falando de quadrinhos de super-heróis! Não quer dizer que você precise colocar na sua história tudo o que aprender, mas um belo dia tenha certeza de que vai cair como uma luva na sua HQ, em determinadas tramas, uma referência ao projeto Rondon ou à construção da Transamazônica, só pra dar dois exemplos entre milhões possíveis.

Carros, roupas, casas, cabelos…

Personagens de Octavio CarielloAo tomar desenhistas consagrados como referência (e não há nada de mal nisso, desde que fique na influência, não na cópia), o brasileiro acaba assimilando mais do que devia. Com isso, os carros, as roupas, os cabelos, as casas, os móveis, as lojas, as calçadas, as estradas e tudo o mais que rodeia os personagens ganha um toque americano, fugindo até bastante do que vemos ao nosso lado todos os dias.

Veja, terminei o texto sem nem entrar nas questões mais evidentes – heróis supermusculosos, poses hercúleas, diálogos longos com discussões e piadinhas durante uma luta (algo totalmente inverossímil)…

Em nenhum momento, quero aqui “cagar regras”. A intenção é apenas ajudar os autores que acreditam que vale a pena criar super-heróis brasileiros a questionar os melhores caminhos para isso.

Defendo que, antes de tudo, deve-se ver super-heróis como um gênero que pode ser abordado de mil formas diferentes, e não como uma continuação do trabalho Marvel / DC.

Para aquele que realmente quer criar algo novo no gênero, espero ter ajudado de alguma forma. Mas, quando a semelhança e a repetição de estilos é algo proposital, motivadas pelo ardor do fã que é maior do que o do autor, aí fica mais difícil…

André Diniz é roteirista das HQs Fawcett, Subversivos e de outras boas HQs nacionais, além de ser editor da Nona Arte. No que depender dele, pode apostar que será bem difícil pintar um “Capitão Petrópolis” na cidade onde mora.

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