Histórias em Quadrinhos da África:a pujança de um continente

Por Equipe UHQ
Data: 21 maio, 2004
Africa Comics, uma antologia italiana sobre o tema
Africa Comics, uma antologia italiana
sobre o tema

O interesse pelos quadrinhos africanos – sejamos descendentes ou não de um de seus povos que formaram nossa nação – é algo que qualquer brasileiro tem. Falar sobre as HQs da África, como um todo, seria um sacrilégio, pela enormidade de sua extensão geográfica e as culturas multifacetadas que abrigam. Mas é preciso começar por um ponto de partida.

Apesar de não estarem mencionados nas grandes enciclopédias (que se dizem completas), livros e artigos sobre a produção internacional, os quadrinhos africanos sempre existiram e ainda existem em certos países, com uma produção marcante.

Desde que visitei, há alguns anos, nações da África como Angola, Moçambique, África do Sul, Zimbábue (antiga Rodésia), Namíbia e, recentemente, a Tunísia, tenho pesquisado sobre este tema e recolhido material em muitos festivais internacionais em outros países, para que pudesse ter uma idéia de sua história, trajetória e seus heróis.

Todos nós conhecemos muito mais sobre as HQs que têm como cenário a África do que propriamente daquilo que se publica naquele imenso continente, composto por 52 países de etnias, culturas e religiões tão diversas.

Na maioria das vezes, as informações e imagens dos quadrinhos nos chegam através do exótico, da informação estereotipada e preconceituosa, seja do ponto de vista europeu, americano, asiático e até mesmo brasileiro. Nas aventuras que têm como cenário a África, o continente é mostrado como um lugar misterioso, sem fronteiras definidas, onírico, mítico, legendário, romântico mas também paupérrimo, primitivo e sem cultura.

Mesmo no Brasil, por mais que os livros escolares atuais tentem mudar ou apagar a triste memória da escravidão que só provocou danos na auto-imagem dos afro-brasileiros, a arquitetura colonial das antigas fazendas está ainda aí para testemunhar, por meio da senzala e dos poços de tortura, as atrocidades que foram cometidas contra o povo africano.

Ainda hoje, contudo, os prédios de apartamentos são construídos com a presença do quartinho de empregada e do elevador de serviço, como símbolos da servidão. Não é fácil, portanto, tirar, de uma hora para outra, este “rótulo” do imaginário dos desenhistas e roteiristas brasileiros que se inspiram na cultura negra para criar um quadrinho tendo o descendente africano como seu herói, sem cair na dicotomia do tipo agressor (justiceiro) ou do eterno sofredor.

A tradição africana de quadrinhos

As histórias em quadrinhos de muitos países, antes de se incorporarem à produção massiva e serem publicadas nos jornais e revistas, tiveram seus primórdios sob outra forma de manifestação. Na Índia, na Europa, na Ásia e nas Américas, o caminho da representação em imagens sucessivas tem muitos exemplos significativos. No entanto, muito antes das pinturas em pedra, gravuras em metal, desenhos em papiros, papel de arroz etc, a tradição oral de contar histórias é que foi a inspiração para o registro impresso.

Na África não foi diferente, e é muito mais intensa e significativa. A tradição oral faz parte de sua cultura e as histórias até hoje são transmitidas de geração para geração. Desde a Antigüidade, o conto sempre teve um lugar especial dentro do universo africano. Ele é concebido pelo grupo e para o grupo, sendo o veículo por excelência da sabedoria tradicional.

Ilustração do sudanês Abdulahi Mohd Eltaieb
Ilustração do sudanês Abdulahi Mohd Eltaieb

Em seu conteúdo, o conto exprime as aspirações do grupo social, cuja união é assegurada em torno de sistemas de valores e crenças dando, desta forma, equilíbrio e sobrevivência à sociedade.

O uso de imagens seqüenciais gravadas também está presente na Antigüidade africana, pelo registro feito pelos caçadores que expunham seus feitos nos muros de suas casas com desenhos de animais abatidos.

Em algumas culturas negras, o trono dos reis (que tive oportunidade de ver numa exposição em Berlim) e os templos e locais sagrados eram decorados com figuras e desenhos que contavam em imagens sucessivas as façanhas e histórias de sua gente. Sem falar do Egito, com uma história de 3200 anos, e na Tunísia, cuja antiga capital de Cartago foi fundada pelos fenícios em 814 a.C., ambos o berço das imagens seqüenciais .

O encontro com o colonizador e o grande vazio

O percurso natural para o desenvolvimento das Histórias em Quadrinhos nos diversos países da África, como ocorreu em outros continentes, foi interrompido a partir do século XV e, mais intensamente, nos séculos seguintes com a “interferência” do encontro entre as culturas ocidentais e africanas.

Seu nascimento e desenvolvimento neste contexto de choque, genocídio (morte de uma cultura) foram marcados pela questão da identidade cultural africana. Com os descobrimentos dos caminhos marítimos formaram-se os impérios mercantilistas dos séculos XVI, XVII e XVIII. O colonizador branco ocupou os territórios africanos negros, delineou fronteiras sem respeitar as culturas locais, separando tribos e povos e praticou a dominação política, econômica e cultural.

E o que tivemos foi um grande vazio, por mais de 500 anos. Colonizar significava tirar os benefícios e, ao mesmo tempo, levar a “cultura” artística ou intelectual para eles.

Em meados do século XIX, os ingleses apoderaram-se do Quênia, Uganda, Egito, Sudão, Somália, Costa do Ouro, Nigéria e Rodésia. Mais modestos, os franceses, a partir de 1850, ingressaram na Argélia, Tunísia e Marrocos, como protetorados.

Atravessando o Saara, os franceses foram até o Golfo da Guiné e às proximidades do Congo, além de Togo e Camarões. A Bélgica tomou o Congo Kinshasa de forma cruel e devastadora; e Portugal ficou com Moçambique e Angola, as ilhas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné. A Itália, com a Líbia, Eritréia e Somália. Os espanhóis estenderam seu império colonial a partir das Canárias e ocuparam a parte do continente chamada Rio do Ouro.

A referência a estes países colonialistas fará sentido ao examinarmos a atual produção de quadrinhos da África.

O (re)começo da produção

Após a conquista da independência de muitos países africanos do jugo colonialista, o que restou foi uma imensa dificuldade de reconstrução, recomeço e escolha de seu próprio caminho. Isto porque o contato com o colonizador deixou marcas profundas para readquirir a auto-estima de um lado, e a batalha constante de enfrentar a fome e dissidências tribais, de outro.

Portanto, as dificuldades na área editorial foram e são ainda imensas. Estes empecilhos financeiros e técnicos ainda tornam alguns países africanos co-dependentes de outros nas áreas da Literatura, Artes e também nas Histórias em Quadrinhos.

Hoje, a produção de HQs em muitos países já é uma realidade, mas o caminho percorrido foi muito longo e esteve ligado a iniciativas de muitas organizações, eventos, associações, exibições e festivais.

Edição portuguesa de uma história de Aderito Wetela
Edição portuguesa de uma história de Aderito Wetela

Esta produção da África negra reflete a tradição oral; e as Histórias em Quadrinhos podem ser encaradas como um ponto de articulação entre a oralidade e a escrita, entre a tradição e a modernidade.

Atualmente, esta produção está calcada em três tipos de categorias: 1) revistas ou álbuns de quadrinhos produzidos por europeus; 2) as co-produções entre europeus e africanos; e 3) de africanos propriamente ditos.

As HQs estão presentes também nos jornais diários, e foram eles que, em primeira instância, permitiram aos quadrinhos florescerem e se abrirem ao grande público. Em geral, entre os temas abordados estão a crítica social e política de forma bem aberta, revelando liberdade de pensamento de seus autores às duras custas dentro dos regimes totalitários e censura da imprensa. Estas conquistas devem-se, principalmente, à atuação das associações de quadrinhistas formadas em toda África.

Outro fator de maior veiculação dos quadrinhos nos jornais está ligado ao alto custo para se editar uma revista, principalmente se for colorida. O periódico é o meio mais eficiente e barato para veiculação das histórias, e de seus autores atingirem um número maior de leitores.

Heróis e Autores da África negra

Página de Zabata, the great, publicado na revista Bona, em 1973
Página de Zabata, the great, publicado na revista Bona, em 1973

A tradição oral da sociedade africana tem como base o conto que, como vimos, além de ter um alcance essencialmente didático, é também fonte de entretenimento. As histórias se transportam do real para o fantástico e oferecem às crianças uma fonte inesgotável de elementos para a imaginação.

Desde a Antigüidade, nestes contos há a presença do herói-criança, que é um símbolo em diversos países da África negra. Ele adquire diferentes nomes em várias localidades, mas não se dirigem apenas às crianças. Este herói infantil encarna, na realidade, os desejos, as apreensões e os fantasmas de toda a sociedade.

Os animais também têm um grande participação como personagens e heróis das histórias. Na lendas populares da Guiné, por exemplo, a aranha representa um papel importante, algo que se repete em toda a África Ocidental, em histórias passadas na floresta.

Nos países da América Central, até hoje, onde perdura a influência africana, a personagem principal das histórias populares ainda é a aranha que sempre vence pela astúcia e não pela bondade.

Não é fácil fazer um inventário de tudo aquilo que já foi feito impresso em vários países da África tendo como base estas personagens e heróis durante os séculos em que a África ficou nas mãos dos colonizadores europeus.

Página de Zabata de Great, publicado na revista Bona, em 1973
Página de Zabata, de Great, publicado na revista Bona, em 1973

Modernamente, contudo, há cerca de 30 anos, é possível se falar em heróis e autores e revistas africanas, mesmo que não sejam conhecidos pelo grande público.

Desta forma, uma das primeiras revistas de quadrinhos foi publicada em Angola (e figura entre as pioneiras do continente) e, infelizmente, é de autoria anônima. Trata-se de A vitória é certa – Manual de alfabetização, editada em 1968, em Luanda, pelo Movimento Popular de Libertação de Angola.

Nesta revista ensinava-se a ler e escrever sem se esquecer, naturalmente, de narrar sobre a heróica resistência do povo africano à opressão colonial de Portugal. Em 1965, também se tem notícia, em Kinshasa, de outro quadrinho da África descolonizada: Gento Oye, feito de forma artesanal, com ilustração de César Sinda e Dennis Boyau inspirado nos filmes de ação norte-americanos.

Arte de Toric Michael, do Camarões
Arte de Toric Michael, do Camarões

Há um outro registro em 1970, de uma revista chamada Croissance des Jeunes Nations, que era editada na República de Camarões, um quadrinho de cunho histórico e anticolonialista ambientado no começo do século XX, mas com todas as problemáticas do surgimento da nova nação.

Entre os novos heróis dos quadrinhos figuram Yirmoaga, em Burkina Faso; Zoba Moke, no Congo Brazzaville; Mata Mata e Pili Pili, Apolosa, Mohuta e Mapeka, no Congo Kinshasa; Dago e Monsier Zezé, na Costa do Marfim; Bibeng e Tita Abessolo, no Gabão; Boy Melakh e Goorgoolou, no Senegal; e outros.

Dependendo do país que os colonizou, as produções são feitas no idioma do colonizador. Só para dar uma idéia, seguem abaixo os nomes de alguns desenhistas expoentes só das ex-colônias francesas.

HQ de Titi Faustin e Michel Conversin, da Costa do Marfim
HQ de Titi Faustin e Michel Conversin, da Costa do Marfim

No Senegal, destaque para os desenhistas Sambal Fall, autor de L’ombre de Boy Melakh e Sangomar, Salioune Sene (Keur Bougouma e Le Marabout de Bari Xam-Xam), T. T. Fons (Pour la dépense quotidienne, Goorgoorlou e Séringe Maramokho Guissane e L’année Goorgoorlou), Ibrahim Mbengue (Maxureja Gey, chauffeur de taxi), entre outros.

Na Costa do Marfim, temos a presença de Salia, autor de Folbay, Lacombe (Monsieur Zézé), Mïgas e Apolos (Dago).

No Congo-Brazzaville, colaborando com o jornal Ngouvou, J. Bhain, Bob Salco, J. Bindika, G. Bamba, Y. Kandza, C. Mambou and Ken), e T. Lokok, que publica Zoba Moke na La Semaine africaine.

No Gabão, o mérito é de Hans Kwaaitaal (Bibeng) e Laurent Levigot. Na República da África Central: O. Bakouta-Batakpa (Tatara, com seu personagem Tekoué) e assim por diante.

Arte de Joe Daly, da África do Sul
Arte de Joe Daly, da África do Sul

O papel das associações para o incentivo de produção

Há alguns anos, com o objetivo de incrementar a produção de quadrinhos, fazer despontar novos autores, permitir que os heróis da África transitem fora do continente e formar novos leitores, foram criadas muitas associações de desenhistas de HQ.

Entre elas destacam-se a BéDAFRIKA, criada em 2001, com sede em Libreville e que agrupa, em rede, muitos desenhistas e roteiristas da África Central: Camarões, Congo-Brazzaville, Gabão, Guiné Equatorial e Chad.

Esta organização tem como objetivo dinamizar a profissionalização dos desenhistas. Para isso, tem fixado quatro metas importantes: identificação e sensibilização dos desenhistas africanos, aprimoramento de sua formação, organização da produção e estímulo da demanda. Contam com o apoio financeiro da União Européia para a edição e distribuição de álbuns e revistas.

Uncle Crew, HQ africana publicada na revista Bona, em 1973
Uncle Crew, HQ africana publicada na revista Bona, em 1973

Outra associação é a AfriBD, com finalidades semelhantes: ter um portal na internet contendo sites de quadrinhos africanos, realizar um inventário por país dos quadrinhistas, publicações e temas, divulgar listas de órgãos e associações ativas para intercâmbio e conhecimento de suas atividades, promoção de discussões e muitas outras propostas para difusão das HQs africanas.

A AfroBulles é também outro grupo voltado com os mesmos objetivos.

Seu presidente, Alex Fuilu, originário do Congo e com passagem na França, sentiu de perto na Europa o total desconhecimento do público sobre os desenhistas africanos. Cansado de ouvir sempre as mesmas perguntas, como “Há autores africanos que fazem quadrinhos na África?” ou “Existem quadrinhos na África”?, é que surgiu a idéia de fazer uma revista, a Afro-Bulles, que traz uma coletânea de histórias de diversos autores, promove exposições nas escolas, bibliotecas e organizar Festivais de HQ.

Em 2003, a organização do Salão Paris de Histórias em Quadrinhos (Salon Paris BD) ofereceu um espaço de 300 m² para se instalar uma verdadeira village de la BD africaine!

Arte de Bruno Luya Muzuka, do Congo
Arte de Bruno Luya Muzuka, do Congo

Estas e muitas outras associações têm como ponto em comum a difusão de autores e quadrinhos africanos, promover festivais, prêmios, colóquios, contatos com outros desenhistas.

Outra entidade de grande porte é a Africa Mediterraneo, que teve início em 2000 e possui vários projetos, entre eles o Matite Africane, que tem como proposta, a partir das histórias em quadrinhos, aproximar a realidade africana e mudar conceitos. A idéia é substituir a interpretação das culturas de acordo com o ponto de vista ocidental, e as HQs foram consideradas o meio ideal de comunicação e o instrumento para dar acesso ao conhecimento da realidade africana.

Conheci dois membros desta organização, Massimo Repetti e Andrea Marchesini Reggiani, em 2003, no Festival da Banda Desenhada da Amadora, em Portugal, que testemunharam os resultados concretos desta iniciativa que inclui o simples uso das HQs para atingir temas complexos de discussão, além de valorizar a cultura da África tanto em sua modernidade como em seus aspectos de cultura popular.

O uso das Histórias em Quadrinhos para campanhas

O que tem caracterizado os quadrinhos africanos, acima de tudo, é seu uso para campanhas em diversos setores da sociedade. Por meio de co-produções, a grande meta é sua utilização pedagógica. Não mais incorrendo nos erros do passado, quando estas campanhas eram feitas a partir dos países do Primeiro Mundo para os africanos. Hoje, isto é realizado em projetos em que se preparam os desenhistas africanos por meio de workshops e treinamentos para a transmissão da mensagem, levando em conta seus costumes e o público-alvo.

A própria tradição africana, como vimos acima, da transmissão de sua cultura pela oralidade, com seus contos, tem um caráter didático dentro do entretenimento.

Muitas organizações não governamentais (ONGs) têm se envolvido nisto, pois encontram nas Histórias em Quadrinhos um poderoso meio de comunicação, capaz de atingir um grande número de pessoas a custos reduzidos.

Nestas campanhas, a AIDS é a prioridade máxima, seguida da conscientização política, reabilitação dos mutilados de guerra e a aquisição de auto-estima.

Arte seqüêncial originária da Província do Cabo, na África do Sul
Arte seqüêncial originária da Província do Cabo, na África do Sul

Entre essas organizações que atuam no exterior destaca-se, como exemplo, a World Comics, que tem como meta deliberada incluir o uso das Histórias em Quadrinhos e dos Cartuns para projetos de difusão de novas idéias e conscientização. Com sede na Finlândia (país que nunca teve colônias na África), esta instituição não só utiliza, mas integra os artistas locais neste processo.

Nestes treinamentos há uma série de etapas que incluem desde o que se quer contar, definição do público-alvo (agrupados por idade, sexo, profissões etc) e a forma de veicular as histórias em quadrinhos. Só depois desta etapa, considerando também o orçamento que se tem disponível, é que entra o profissional que fará os quadrinhos.

Desta forma, a África de Tarzan, do Fantasma e de tantos outros heróis que tinham o continente negro idealizado ou imaginado como cenário, parece bem distante neste novo contexto. Ela foi boa enquanto durou como aventura escapista, fosse pelos duros golpes sofridos na década de 1930 pela população mundial, depois do crack da Bolsa de Nova York, ou por puro entretenimento.

A África de hoje, desenhada pelos próprios africanos, é que fará povoar nossa imaginação a partir da realidade de seu povo. E será também um grande estímulo para os desenhistas brasileiros se conscientizarem para posicionar seu olhar para dentro e em volta de nossa realidade.

Sonia M. Bibe Luyten é a autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos – leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Sua coleção, com revistas de países do mundo inteiro, é de deixar qualquer um maluco. Mas o melhor, mesmo, é que, mensalmente, ela vai estar passando um pouco desse seu conhecimento pros leitores do Universo HQ.

Saiba mais sobre a autora:
Sonia M. Bibe Luyten

 

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