Hulk, ao pé da letra, um herói incrível

Por Hugo Silva
Data: 14 agosto, 2003

Confira um resumão da carreira do Gigante Esmeralda,
desde sua criação, em 1962, até a sua elogiada fase
atual

Por Hugo Silva,
de Portugal

Super X #19, da EbalO
Golias verde é, sem sombra de dúvida, o melhor exemplo Jeckyll and
Hyde
do mercado das HQ. Ao contrário da obra literária, o Hulk, que
supostamente seria a parte “má”, era muito maior do que sua contraparte
humana, a suposta “boa” face.

Isto talvez servisse mesmo para mostrar que o gigante era ambas as coisas.
Tudo dependia da forma como ele era tratado, sendo que aqui pode se encontrar
outra contraparte literária, quiçá filosófica, de como o ambiente pode
moldar o indivíduo. Quem diz que quadrinhos não são cultura?

Este personagem foi o segundo criado pela dupla Stan Lee e Jack Kirby
em 1962, sendo que, no começo, era cinza. No segundo número, por um problema
de impressão, ele surgiu verde e, desde então, permaneceu assim, para
gáudio de muitos.

Super X #21, da EbalSempre
um dos grandes da Marvel, ele foi membro fundador dos Vingadores
e dos Defensores, duas das maiores equipas de super-heróis da editora.
Além disso, encontrou diversos heróis da “Casa das Idéias”, trocando socos
com quase todos. O Hulk já foi até líder de uma grande organização.

Suas personalidades variam entre inteligente e forte, sacana e forte,
burro e forte, selvagem e… muito forte. Na galeria de seus adversários,
realce para o Líder, o Abominável e o Louco.

Fora das HQs, o Gigante Esmeralda teve uma série de TV de longa duração,
que originou inclusive três telefilmes e uma grande febre pelos raios
Gama. Lou Ferrigno saltou para a fama com seus grunhidos no papel do personagem
constantemente enfurecido.

Comparada com tantas outras séries baseadas em super heróis, esta foi
uma daquelas que se podia ver com algum gosto. Teve ainda diversas versões
em desenho animado, mas sem muito sucesso, se comparadas com os de outros
heróis da mesma editora.

Super X #23, da EbalO
Hulk fez parte da grande invasão e entrada do universo Marvel no
Brasil, em agosto de 1967, pelas mãos da Shell, a empresa que teve
a brilhante idéia de distribuir os números zero por todos os postos do
País, apanhando todos os pais desprevenidos e as crianças super animadas
por algo que seria, com certeza, um marco para o resto das suas vidas.

Sua primeira revista no Brasil foi a Super X, da Ebal, que
trazia ainda as aventuras do Namor, em 48 páginas e preto e branco. O
título durou algum tempo, mudando primeiro para 32 páginas. Mais tarde,
já com o Quarteto Fantástico como companhia, passou a bimestral, permanecendo
assim até o seu término.

Como curiosidade, pode-se dizer que os seis primeiros números de Incredible
Hulk
, assim como as aventuras do Verdão publicadas em Tales of
Astonish # 59
a #69 nunca foram publicados no Brasil. Na Super
X
saíram as fases Lee/Kirby, Lee/Kane, Lee/Buscema e outras do começo
deste personagem.

Foi em 1972 que uma pequena editora chamada GEA – Grupo Editores Associados,
decidiu este e outros heróis para lançar uma nova linha de quadrinhos
que, infelizmente, só duraram três edições, todas elas coloridas, em formato
americano, com 32 páginas, que até deixaram saudades, segundo os que tiveram
a chance de lê-las.

O Incrível Hulk, da BlochForam
precisos mais três anos para a editora Bloch trazer o herói de
volta, lançando-o numa revista em formatinho de 48 páginas que republicava
o material da Ebal. O que se podia assistir era a redefinição do
personagem. Lee insistia muito na distinção Banner/Hulk, e, ao mesmo tempo,
lançava coisas como o ódio dos humanos por algo diferente (General Ross
e Talbot eram seus maiores expoentes), ou o confronto entre semelhantes,
como o Líder e o Abominável. Era, novamente, uma tentativa de fazer com
que o leitor se identificasse com um herói perseguido e desgraçado.

Chega 1979, e a editora RGE – Rio Gráfica Editora, provando seu
bom trabalho com os personagens Marvel, lança a revista Incrível
Hulk
e, mais tarde, o Almanaque do Incrível Hulk, ambos coloridos,
com 48 páginas que davam continuidade a partir do trabalho efetuado pela
Ebal. Outra curiosidade é que foi nesta época que o personagem
desembarcou em Portugal, primeiro pela Bloch, depois pela RGE,
sendo que teve ainda edições portuguesas pela editora Distri (que
relataram a fase de Lee/Kirby) e pela Agência Portuguesa de Revistas.

Hulk #1, da RGEFoi
em 1983, quando da junção de toda a Marvel no Brasil, que o Hulk
ganhou sua revista com maior duração, na editora Abril Jovem, começando
com 80 páginas, caindo para 64 no # 53 e voltando ao número anterior no
# 79. E foi nesta editora que muitos passaram a seguir suas aventuras
e se apaixonaram por este maravilhoso herói. Por quê? Vamos tentar descobrir!

A revista começa pela fase de Stern/Buscema, que pouco abalou nosso Gigante
Esmeralda. Foi a dupla seguinte, constituída por Bill Mantlo e Sal Buscema,
que entendeu todo o seu potencial e produziu a melhor fase do personagem
até hoje, a partir da edição # 8 da Abril.

Eles sempre faziam questão de frisar como o Verdão era detestado e perseguido
pelos humanos, ao mesmo tempo em que retratava um Banner super inteligente,
quase sempre angustiado e ainda retratando por vezes o Hulk como uma “criança
grande”, sem maldade nenhuma nas suas ações.

O Incrível Hulk #1, da Editora AbrilA
arte de Sal Buscema foi a melhor de sua carreira e retratava com perfeição
toda a intensidade narrativa de Mantlo e as constantes mudanças de humor
da personagem, sendo que suas feições nunca pareceram tão selvagens como
nesta altura.

Mesmo na transformação do Hulk num ser inteligente, as feições humanas
eram misturadas de forma brilhante com as de um monstro. Mantlo introduziu
alguns dos personagens mais memoráveis que passaram pela vida do herói,
e outras fraquinhos também, típicos de um período menos feliz da indústria.
Curioso notar que o autor não usou de forma exagerada nem épica, dois
dos maiores adversários do herói, o Líder e o Abominável, preferindo lançar
outros tão ou mais perigosos e letais, como o grupo os Alienígenas.

Rick Jones e Betty continuavam a ser a muleta da personagem, ajudando-o
nas transformações diárias e nas suas fugas constantes, sendo que, durante
algum tempo, a brigada juvenil fez parte dos seus conhecimentos também.

Para o Hulk, era tão comum encontrar personagens de primeiro escalão,
como o Coisa, o Capitão América, o Thor ou o Capitão Marvel, quanto os
outros obscuros, como, na edição # 18, com a equipe Guardiães do Deserto.

O Incrível Hulk #19, da Editora AbrilNa
edição # 19, ocorreu o encontro entre Hulk e seu maior amor, Jarella,
pela cabeça do Roy Thomas, tendo como co-estrelas os Vingadores. O Golias
verde nunca foi tão feliz como naquele mundo minúsculo, onde era considerado
um rei e tinha o amor, o carinho e a paz ao lado de quem amava.

Nesta fase, Hulk andava pelo mundo todo, em histórias memoráveis, quase
sempre retratando de uma forma brilhante outras culturas e suas reações
perante o Gigante Esmeralda. A aventura em Israel é um bom exemplo disso,
na qual ele encontra Sabra e um povo desconfiado e assustado, como o israelita
realmente é. Incrível ver como uma pessoa podia mudar encontrando alguém
tão puro (como o era o herói) e sem maldade no coração, que pretendia
apenas ficar sozinho e descansar.

O incrível Hulk #30, da Editora AbrilBuscema
superava-se nos confrontos do Verdão com outros heróis. A edição Quando
um Deus enfrenta um Monstro
literalmente transborda para fora das
paginas as cenas de ação e de fúria. É bom recordar que, quando esta dupla
estava à frente do destino do herói, ele era quase invencível, já que,
quanto mais furioso ficava, mais forte se tornava, chegando inclusive
a cravar os dedos em adamantium, por exemplo.

Numa certa altura, a dupla criativa surpreendeu a todos quando fez Bruce
Banner assumir o controle do Hulk, que, agora sim, era o Incrível Hulk.
As diferenças fizeram-se logo notar, e a Abril, numa jogada inteligente,
acompanhou isso mostrando, por exemplo, muitas capas “fotográficas”, como
numa em que surgia o Bruce Banner da televisão.

Nesta etapa, os leitores viram que um Hulk inteligente poderia ser mais
assustador do que um irracional, já que as emoções de Banner muitas vezes
interferiam no julgamento dos acontecimentos.

O incrível Hulk #51, da Editora AbrilTalvez
tenha sido uma forma de Mantlo mostrar que Banner não era tão inocente
assim, mas sim uma parte integral do Gigante Esmeralda, para o bem ou
para o mal. Mesmo assim, na edição # 30 aconteceu algo impensável: o perdão
presidencial, com a presença de todos os heróis Marvel testemunhando
o quão inteligente e no controle do monstro estava o cientista.

Mas a alegria durou pouco. Aproveitando o evento Guerras Secretas,
o argumentista fez com que Banner fosse perdendo lentamente o controle
sobre o monstro. Para isso usou um confronto com o vilão Bumerangue e,
como bom escritor que era, Mantlo fez o personagem enlouquecer aos poucos,
especialmente quando ele viu que um dos seus feitos, a cura de pessoas
pelo transmissor de raios Gama tinha dado errado, enlouquecendo seus pacientes.

No número # 51 começou outra saga memorável de Mantlo e seu “canto do
cisne”: a entrada do Hulk num mundo alienígena desconhecido como era a
encruzilhada. Foi neste arco que o roteirista e Buscema despediram-se
de forma brilhante, mostrando um Hulk irracional encontrando diversos
povos numa dimensão para onde tinha sido enviado pelo seu amigo Dr. Estranho,
depois do Golias verde ter sido forçado pelo vilão Pesadelo a enfrentar
o mago.

O incrível Hulk #67, da Editora AbrilEnquanto
isso, na sua mente, era travada uma batalha entre Banner e Pesadelo, mas,
para vencer, o cientista prescinde de sua parte no controle do monstro,
deixando-o pela primeira vez e verdadeiramente como um monstro irracional.

A fase da Encruzilhada destaca-se pelos “amigos” que o Hulk encontra,
entre eles uns que só se queriam se aproveitar da sua força, como uns
“pompons” ou ainda um mundo semelhante ao de Jarella, de onde, após ajudar,
ele some em seguida, graças ao feitiço que o Dr. Estranho lançou sobre
ele, para que desaparecesse de qualquer local em que estivesse infeliz.

Na edição # 67 rufaram os tambores! Surgia o mago John Byrne, que produziu
em poucos números uma saga de se tirar o chapéu. Logo no começo, fez o
Hulk ser capturado por Leonard Samson, o psiquiatra que se submeteu a
uma dose de raios gama ficando com força sobre humana, mas conservando
o intelecto, mostrando que algo estava errado.

O que se seguiu era impensável: Banner foi separado do Hulk. O monstro,
então, foi levado pela SHIELD para ser usado como um agente superpoderoso,
mas o Dr. Samson, imitando Indiana Jones, liberta o gigante enfurecido
e raivoso pelo interior dos Estados Unidos.

O incrível Hulk #71, da Editora AbrilHulk
começa, então, uma devastação nunca vista, e que Byrne ainda no seu auge
como desenhista fez questão de mostrar e realçar a cada instante. No momento
em que Banner se recupera é convocada pelo governo uma equipe de pesos-pesados
para deter o Gigante Esmeralda, com heróis como Homem de Ferro, Hércules
e Magnum, por exemplo.

Depois de um primeiro confronto no qual estes falham, Bruce decide convocar
ele mesmo um time de Caça-Hulk, orientando-os desde o começo.

Byrne, com vontade de contar tudo e algo mais, fez no # 71 uma história
extraordinária, apresentando duas tramas paralelas. Numa mostrou os Caça
em ação e, em segundo plano, os preparativos para o casamento de Bruce
e Betty.

Quando parecia que só numa parte acontecia ação, o roteirista introduziu
um general Ross enlouquecido que disparou sobre Bruce, mas acertou Rick
Jones, que saltou para o salvar.

Corria tudo muito bem até que uma briga entre Byrne e o editor-chefe da
Marvel fez o roteirista partir e deixar as pontas soltas para o
“meia-boca” Al Milgrom amarrar. Resultado? Um fim às pressas, numa história
em que o Hulk enfrenta todos os Vingadores, que querem literalmente matá-lo,
e fazendo, depois, com que o herói seja reintegrado a Bruce Banner por
intermédio do Visão e um novo banho nutriente, que cria ainda duas novidades:
um Hulk cinza de novo e um (argh!) novo Hulk, agora no corpo de Rick Jones.

O incrível Hulk #100, da Editora AbrilO
nosso herói só decolaria de novo pela mente brilhante de Peter David,
que, aliado a um artista como Todd McFarlane, fez o título recuperar um
pouco da grandiosidade perdida. Ele foi inteligente ao manter o Hulk cinza,
aproveitando todo o seu potencial “sacana”, ao contrário dos outros argumentistas
anteriores.

Além disso, a sagacidade do personagem proporcionou brilhantes aventuras,
como no # 95, no qual ele enfrentou um “Anjo da morte”, derrotando-o tanto
fisicamente como na sua mente, onde ele se havia infiltrado. Outro bom
exemplo ocorreu quando ele combateu um “selvagem” que só queria ser morto
e o Hulk decide deixá-lo vivo e sofrendo.

A edição # 100 foi celebrada pela Editora Abril com a pompa e circunstância
que merecia, num super especial com brindes e tudo, na qual David resgata
o vilão principal Líder, tornando-o mais violento e mesquinho do que anteriormente,
fazendo com que ele detone uma Bomba Gama numa cidade, com o Hulk lá dentro.

Uma nova fase se iniciava e, desta vez, curiosamente, sem o herói principal,
que havia sumido, retornou mais tarde ainda cinza, mas mais sacana assumindo
a identidade de Sr. Tira-Teima, um leão de chácara em Las Vegas.

O Incrível Hulk #134, da Editora AbrilEnfim,
todas as fases tiveram seus altos e baixos. Peter David era mesmo assim,
muito competente e escrevendo algumas histórias das melhores do Hulk e
dos quadrinhos em geral, fazendo o personagem enfrentar novamente heróis
como Wolverine, Coisa ou X-Factor, e retornando com os Defensores, a determinada
altura.

Estava para começar outra fase memorável do Verdão pelo lápis de um artista
chamado Dale Keown. Ao lado de Peter David fez o herói retornar ao seu
lugar de um dos “grandes” do Universo Marvel, principalmente a
partir do # 134 da Abril, no qual Samson, com a ajuda do Mestre
do Picadeiro, reúne todas as personalidades do nosso herói, reunindo,
pela primeira vez num só ser, um Hulk forte, inteligente, sacana e decidido.

Com sua nova inteligência, o Gigante Esmeralda associou-se a um grupo
com posições estranhas, chamado Panteão, que ele mais tarde até lideraria,
fazendo com que sua inteligência fosse sofrendo cada vez mais a síndrome
do poder absoluto aliado a uma força indescritível.

O Incrível Hulk #165, da Editora AbrilAlia-se
a isso uma minissérie na qual o Golias verde enfrenta, no futuro, uma
maligna e poderosíssima contraparte sua, e fica completamente abalado
em relação à sua capacidade física e psíquica.

Peter David subia na consideração de todos quando fazia histórias comoventes,
inteligentes e extraordinárias como a do # 150 e seguintes, nas quais
mais uma vez usou as capacidades malignas do novo Líder e dos novos Alienígenas
para infernizar a vida do personagem. Ao mesmo tempo em que fez tramas
como uma amiga retornando dos mortos, o roteirista produziu histórias
cômicas, com o Hulk participando de uma despedida de solteiro.

Estranhamente, a revista chegou a um fim no Brasil no # 165, apesar de
ser uma das prediletas dos leitores e das mais aplaudidas pela crítica.
Mesmo assim, a Abril lançou as “originais” Marvel 97 e afins,
nas quais o Hulk compartilhava seu espaço com uma enxurrada de heróis.

Marvel 97 #1, da Editora AbrilCuriosamente,
também a qualidade de suas histórias decaiu muito, e a arte também não
ajudava na já famosa fase “muscular” da Marvel. O nível foi decaindo
e o herói não teve mais revista própria no Brasil. Como nos Estados Unidos
sua popularidade também estava na descendente, uma mudança de escritor
foi necessária.

Passado algum tempo, foi dada uma nova oportunidade a John Byrne, mas
longe dos seus tempos de glória ele nada fez pelo Gigante Esmeralda, deixando-o
mais afundado ainda na popularidade dos leitores.

Em seguida, Paul Jenkins, acompanhado por John Romita Jr., devolve ao
personagem um pouco de sua grandeza, principalmente pela arte. Quem seguiu
a revista Paladinos Marvel teve oportunidade de comprovar isso
no arco em que o Hulk enfrenta seu inimigo de sempre, o Abominável.

Hulk & Demolidor #4, da Panini ComicsRomita
retratou o Abominável de forma magistral, como nunca havia sido visto
antes, e Jenkins “colocou a cereja no bolo”, num final memorável, no qual
Banner deixa o responsável pelo maior sofrimento de sua vida agonizando
de forma incrível.

Nosso herói melhorou ainda mais quando se juntou a Romita Jr, o roteirista
Bruce Jones e Maleev nas capas. Jones utiliza uma fórmula bastante simples:
uma mistura de Twin Peaks, Fugitivo e um cheirinho de Arquivo
X
faz desta saga uma das melhores do personagem em todos os tempos.

E agora chega o
filme
, cercado de receios, ansiedades e esperanças. Mas uma coisa
é certa: independente do seu resultado nas bilheterias, o Hulk sempre
terá espaço no coração de seus fãs, enquanto for retratado como um gigante
que apenas quer paz na vida e descanso.

Hugo Silva é tão fã do Hulk, que expressões como “verde de raiva”
já foram incorporadas ao seu dia-a-dia há um bom tempo. Será que em Portugal
ele torce para o Sporting?

 

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