Ideografia estática?

Por Equipe UHQ
Data: 23 agosto, 2002

Área de Segurança GorazdeDurante algum tempo estive lendo e discutindo idéias, tentando juntar as peças do quebra-cabeças que as HQs podem ser. A parte interessante, posso adiantar, é que não existe uma resposta definitiva. Melhor, existe, mas não acredito que respostas definitivas funcionem de modo adequado para pessoas movidas pela curiosidade, e que buscam sempre novas respostas (não diferentes, só mais completas) para perguntas antigas.

Já afirmei que os quadrinhos não são uma linguagem bastarda, como querem alguns, mas me faltavam argumentos para desenvolver o tópico. Já tenho um ou dois capazes de justificá-lo.

Em entrevistas dadas por cartunistas (pessoas que escrevem, desenham, arte-finalizam, enfim, fazem o serviço completo numa HQ) como Joe Sacco (de Palestina, Área de Segurança Gorazde), Jason Lutes (de Berlin, The Fall, Jar of fools), Seth (de It’s a good life if you don’t weaken) e outros, as pistas foram dadas.

Verão Índio, de Hugo Pratt e Milo ManaraO que é mais assombroso é a dificuldade de verbalizar de modo simples e direto algo tão objetivo quanto a “arte seqüencial” como linguagem. E, se os quadrinhos são linguagem, devemos saber de que material ela é composta.

A linguagem verbal escrita, por exemplo, é composta dessas pequenas formas insectóides que convencionamos chamar de letras e que representam sons, formam palavras que têm significados (o famoso signo lingüístico, composto de “significado” – o nome diz tudo – e “significante”, ou seja, as letras que compõem as sílabas, representam os sons e, enfim, a palavra).

Na linguagem verbal falada, o material é o ar expelido pelos pulmões e modulado com a utilização de diafragma, língua, lábios, dentes, palatos duro e mole etc.

Nos quadrinhos temos, simultaneamente, a linguagem verbal escrita (representada de tal forma que imita, na página, a fala – meio paradoxal, não?) e a linguagem icônica.

Corto Maltese - Tango, de Hugo PrattLento parênteses:
Ícone, í-co-ne, sm. 2. Símbolo gráfico que representa um objeto por seus traços mais característicos.

Ou seja, a linguagem icônica é a que utiliza os ditos “símbolos gráficos”, definição que incluiria, por exemplo, os ideogramas das escritas das línguas japonesa, chinesa e um punhado de outras orientais. Esta, amigo, é a lista dos materiais que compõem as histórias em quadrinhos, não o que elas são na verdade.

Relendo Lovecraft me vi pensando a respeito do que, de fato, fazia textos como Vento frio interessantes. E cheguei à conclusão, nada difícil, de que não era o uso que o autor fazia dos adjetivos ao referir-se a seus monstros de nomes impronunciáveis, mas a utilização de rodeios e mais rodeios para sugerir conclusões às quais o leitor poderia chegar, e nunca forçando-as por sua goela abaixo.

Lobo Solitário, arte de Goseki KojimaO mesmo pode ser dito a respeito das histórias em quadrinhos.

A graça que encontro nesta arte não se deve ao belissimamente ilustrado trabalho de Alex Ross e seus pares, mas na composição da página de modo tal que sugere um encadeamento de eventos e imita uma ação dramática carregando o leitor junto, fazendo-o completar lacunas (aqui chamadas de “calhas”, os espaços – adivinhe só – que vêm Entre os Quadrinhos) e montar, inconscientemente, algo como um “cineminha de papel”, muito bem lembrado pelo professor Moacy Cirne e reiterado pelo roteirista Steven Grant.

A “montagem” do “filme” se dá não na página estática composta de papel e tinta, ícones e palavras, mas na mente do leitor. Eis o segredo do Universo (HQ).

Ken Parker, arte de Ivo MilazzoComplementando: em longas conversas com meu parceiro no crime, Antonio Eder, comparamos as histórias em quadrinhos com várias outras mídias, mas não achamos nada que se aproximasse mais da linguagem dos gibis que a poesia concreta, que não só utiliza palavras para comunicar com seus sons e sentidos, mas também com suas formas e disposição no espaço da página.

Mais: Eder sugeriu algo inusitado para mim, ao dizer que desenhistas como Milazzo, Pratt, Kojima e Campbell têm um estilo “caligráfico” de desenho. Tudo converge e reforça esta teoria que paira já há algum tempo, de que a linguagem dos quadrinhos não teve sequer sua superfície arranhada.

Agora, imagine, só imagine, o que uma pessoa dominando totalmente esta linguagem poderia fazer! Não há limites de gênero e forma. A única limitação é do próprio autor ou do leitor não-familiarizado com o funcionamento da máquina ideográfica.

Idéias, ações, dramas montados no palco da mente.

Quer coisa mais interessante?


Abs Moraes e seu “parceiro no crime” têm histórias em quadrinhos disponíveis para download do zine Réptil no site na Editora Nona Arte

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